Muito Gelo e Dois Dedos D'água
(Muito Gelo e Dois Dedos D'água, Brasil, 2006)Estúdio: Globo Filmes
Distribuição: Buena Vista International
Direção: Daniel Filho
Roteiro: Alexandre Machado e Fernanda Young
Elenco: Mariana Ximenes, Paloma Duarte, Laura Cardoso, Ângelo Paes Leme, Thiago Lacerda, Carla Daniel, Aílton Graça
Gênero: Comédia
Duração: 98 min
Quando vi o cartaz de Muito Gelo e Dois Dedos D'água no Centro Dragão do Mar de Are e Cultura, pensei comigo mesmo: “Vou ver esse filme". O nome criativo e a identidade visual me chamaram a atenção. Quando fiquei sabendo de quem era o roteiro, corri para o cinema mais próximo. Confesso que tive medo de confirmar as críticas negativas que longa vem recebendo, mas não me decepcionei.
A estória começa quando duas irmãs, Roberta e Susana (Mariana Ximenes e Paloma Duarte respectivamente), decidem seqüestrar a avó (Laura Cardoso) para vingar-se das torturas física e psicológica a que eram submetidas em todos os verões quando eram obrigadas pela avó a ir à casa de praia da família. Cada uma mais desregulada que a outra por causa dos traumas de infância, as duas pretendem fazer exatamente o mesmo que a avó fazia no passado. Isso inclui: alisar o cabelo, arrancar o pentelho, tirar as cutículas e passar o dia na praia sob o sol. Sem esquecer do teste de virgindade. Não satisfeitas, elas envolvem na confusão um advogado careta, o marido e a cunhada de Susana e um policial rodoviário.
O argumento e o roteiro fazem jus às cabeças que os bolaram: Alexandre Machado e Fernanda Young, os criadores de Os Normais, Os Aspones e Minha Nada Mole Vida. Percebemos a assinatura do casal em alguns trechos do filme. O "misto quente de cantina", a divisão entre pessoas "que atiravam bolinhas de papel e as que levavam bolinhas de papel" e a cena do restaurante logo no início lembram os tempos de Os Normais. Sem falar nos diálogos carregados de palavrões. Esses e outros momentos dão o ritmo do filme que conta ainda com pitadas de humor negro. Quem em sã consciência brincaria com a morte de um dos maiores ídolos do país? Alexandre Machado e Fernanda Young o fazem ao sugerir que Roberta teria algo a ver com a morte de Ayrton Senna.
No elenco, o trio de protagonistas (Mariana, Paloma e Ângelo Paes Leme) dá um show. Os três mostram que possuem o timing cômico necessário para encarnar personagens criadas pelo casal de roteiristas. Paloma, em especial, está na melhor forma. E não só física. Fator que, aliás, é ressaltado pelos figurinos de Marília Carneiro. Reparem nas cenas em que Susana troca o pneu do carro e em outra quando faz um strip-tease. Paloma atingiu a maturidade passando do drama à comédia em questão de segundos e em cena, mostrou que a globo fez mal em perdê-la Mariana não fica atrás. O mesmo para Laura Cardoso, o que não é nenhuma surpresa. Destaque para a cena em que dopada entoa os versos de Brasil, eu te amo, hino da ditadura militar, e profere palavras de admiração pelo general Emílio Médici. Carla Daniel completa o excelente time feminino à beira de um ataque de nervos com uma ótima participação como a cunhada hipocondríaca de Susana. Aliás, não há uma só personagem nos 98 min de película que não esteja sob uso de entorpecentes. No time masculino, vale ressaltar ainda a cena em que Paes Leme requebra ao som de Sandra Rosa Madalena e outra em que divide com as protagonistas o hit Odara de Caetano Veloso. Vemos aí outro ponto positivo da produção: a tilha sonora comandada por Guto Graça Melo mescla na medida certa sucessos dos anos 80 e músicas contemporâneas como a belíssima Música de Vanessa da Mata. Voltando ao elenco masculino, Aílton Graça decepciona e Thiago Lacerda definitivamente mostra que tem muito a aprender, principalmente quando o assunto é comédia.
O que prejudica o filme, além da atuação de Thiago, é o uso abusivo de animações. Além de trechos do passado retratados por cartoon, o filme utiliza esses efeitos toda vez que a avó recebe uma injeção "sossega leão" das netinhas para indicar seu grau de alucinação, o que é realmente um insulto para Laura. É como se a atriz não fosse capaz de expressar o estado da personagem. Definitivamente os efeitos aí não ajudam. Pelo contrário, atrapalham. E ainda ameaçam tirar a graça do texto. De resto, a sobreposição de planos e a rápida edição marcam o estilo das produções de Alexandre e Fernanda.
Ah, algo que pode irritar os fãs de Björk: uma versão da música It´s oh so quiet cantada por Elza Soares abre os créditos iniciais. Eu gostei.
Créditos
Produção: Daniel Filho
Música: Guto Graça Melo
Fotografia: Nonato Estrela
Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto
Figurino: Marília Carneiro
Edição: Felipe Lacerda
Website oficial: www.2dedosdagua.co.br
Música: Guto Graça Melo
Fotografia: Nonato Estrela
Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto
Figurino: Marília Carneiro
Edição: Felipe Lacerda
Website oficial: www.2dedosdagua.co.br





