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Crítica do filme: 'O Juiz'



Pais e filhos não foram feitos para ser amigos. Foram feitos para ser pais e filhos. Reunindo uma dupla de atores premiados, um diretor acostumado a fazer comédias e um roteiro que esconde sobre o que de fato o filme é, chegou aos cinemas semana passada o aguardado novo filme estrelado pelo nosso querido homem de ferro, O Juiz. Em pouco mais de longos 140 minutos de fita, o público é submetido a virar testemunha de uma grande terapia familiar que culmina em um inusitado julgamento numa cidadezinha dos Estados Unidos. O fato de não achar a profundidade em nenhum arco do roteiro, atrapalha muito o andamento dessa história como um todo. Pra piorar, a pegada cômica que o diretor tenta colocar em algumas sequências (surpreendentemente Downey Jr. não achou seu personagem em nenhum momento), viram esquetes no nível do Zorra Total.

Na trama, acompanhamos Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado de sucesso cheio da grana (quase um Tony Stark do direito) que se encontra em um conturbado fim de relacionamento com sua esposa. Quando sua distante mãe falece, ele precisa voltar para a cidade onde nasceu e lá encontrar todo um passado, que por diversos motivos preferiu deixar pra trás. Quando Hank chega ao local, percebemos um grave problema no seu relacionamento com seu pai Joseph Palmer (Robert Duvall), o juiz mais prestigiado da cidade. Quando está prestes a ir embora e voltar para sua atual vida, Hank é surpreendido quando seu pai é acusado de assassinato.  Assim, no meio de um conflito entre presente e passado, precisa reunir forças e ganhar o caso mais difícil de sua vida.

Esse projeto fala sobre a relação, às vezes conturbada, entre pais e filhos. Quem já viveu, ou vive algo parecido vai conseguir se conectar mais facilmente a história. Hank e Joseph possuem enormes traumas que influenciaram nas decisões de cada um ao longo dos anos. Essa relação poderia ser mais explorada e assim explicada melhor ao público. Na tela, vemos discussões, momentos de tensão e não sabemos direito o porquê que isso acontece. No final, tentam dar uma explicação bem imaginativa mas que não convence. Em falar nisso, os desfechos dos personagens são algo assim inimagináveis. Tem o tio que pega o sobrinha sem querer, a ex-namorada que ficou grávida do irmão e ninguém sabe, a ex-exposa que some da história sem explicação entre outras chamativas conclusões.

O Juiz possui uma série de problemáticas em relação ao que se propõe como filme. Peca nos momentos dramáticos por conta da falta de profundidade nessas sequências (se não fosse o Duvall tentando levar o filme nas costas, poderia ser pior ainda), e para complicar mais ainda, nos momentos mais ‘engraçadinhos’ da trama se perde completamente, muito por conta de um Downey Jr. bem pouco inspirado. Nada contra o diretor David Dobkin, mas seu currículo possui somente filmes cômicos bobinhos como: Bater ou Correr em Londres, Penetras Bons de Bico e Eu Queria ter a sua Vida. Por conta disso e não só por isso, fica bem nítido que faltou experiência nesse tipo de drama. Talvez nas mãos de um outro diretor, essa história conseguisse ter um andamento mais interessante.

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