sábado, 17 de setembro de 2016

Crítica do filme: 'Julieta'

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Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães. Dissecando uma intensa e comovente relação entre mãe e filha, o novo trabalho do genial diretor espanhol Pedro Almodóvar é uma abertura de portas secretas nas intensidades da amargura que pode nascer de traumas terríveis que mudam pra sempre trajetórias de vida. Com uma baita fotografia, ótimas atuações e a delicadeza minimalista de sempre na direção, Almodóvar brinda mais uma vez os cinéfilos com uma obra original e repleta de momentos emocionantes.

Na trama, conhecemos Julieta (vivida por Adriana Ugarte na fase jovem e por Emma Suárez na fase mais velha), uma mulher na fase final de sua vida que está prestes a se mudar da Espanha para Portugal com seu namorado, o escritor Lorenzo (Darío Grandinetti). Alguns dias antes da partida, porém, encontra casualmente em uma esquina uma jovem que foi amiga de sua filha na infância. Esse acontecimento muda radicalmente (e depois percebemos, novamente) a vida da protagonista que se tranca em casa e começa a escrever uma carta para sua filha. Assim, ao longo de fabulosos 99 minutos de projeção, vamos conhecendo o passado de Julieta e um grande segredo que guarda dentro de seu coração de mãe. 

Após três anos de hiato entre seu último filme e esse novo trabalho, Almodóvar mostra mais uma vez que por mais que tenhamos a experiência, sempre podemos renovar nosso olhar sobre a técnica de contar uma história numa tela de cinema. Usando e abusando das cores, principalmente da intensidade do vermelho, o ganhador do Oscar (com o fabuloso Fale com Ela) é minucioso em causar o impacto para falar sobre os sentimentos. O desenvolvimento da personagem, tanto na fase mais velha, quanto na fase mais jovem, é sublime. Não conseguimos desgrudar os olhos da tela, queremos a todo instante descobrir as peças que faltam desse quebra cabeça. Há um suspense, misturado com drama e com raríssimos momentos de sorrisos. 

Baseado em três contos da escritora Alice Munro (Chance, Silence e Soon), Julieta pode ser considerado como um dos melhores trabalhos de Almodóvar no cinema, um drama contundente de arrematar corações. Indicado recentemente para representar a Espanha no próximo Oscar (na categoria Melhor Filme Estrangeiro), o filme teve uma boa jornada aqui no Brasil, onde estreou faz poucos meses. Se ainda não viu, não perca! Bravo!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Crítica do filme: 'Sing Street'

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O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente que há no mundo. Escrito e dirigido pelo ótimo roteirista e diretor irlandês John Carney (dos excelentes Apenas Uma Vez e Mesmo Se Nada Der Certo) essa maravilhosa ‘dramédia’ com pitadas generosas de musical é um grande achado europeu em meio a tantos lançamentos mensais que entram e saem no circuito e infelizmente, em muitos casos, não conseguem ser aproveitados pelo público. Com um elenco desconhecido e um poderoso roteiro, Sing Street conquista o coração de nós cinéfilos em poucos minutos e vamos torcendo para o filme nunca acabar.

Na trama, passado em uma Dublin em meados dos anos 80, conhecemos Conor (Ferdia Walsh-Peelo) um adolescente que se muda para uma nova escola onde começa a sofrer bullying. Em meio a uma tentativa de ser forte em relação a essa situação, se apaixona perdidamente por uma jovem mais velha e para conquistar seu coração, resolve criar uma banda com alguns amigos, que conhece na nova escola, e assim uma linda história de amor surge.  

Essa produção é muito mais profunda nos argumentos de seus assuntos do que se é imaginado quando feito a leitura da sinopse. Carney, com grande sabedoria, explora o universo adolescente na escola além de mostrar uma realidade impactante para a galera dessa idade que é a separação dos pais e como a rotina diária muito quando isso acontece. As questões sobre o primeiro amor são maravilhosamente navegadas, tudo com altas doses de originalidade. Percebemos em poucos instantes de projeção como o filme tenta se distanciar de outras produções que falaram sobre temas que ocorrem nessa pérola européia.

As canções, talvez o ápice do longa metragem são sensacionais. Dá vontade de levantar da cadeira do cinema e começar a dançar. Acredito que os próprios atores sentiram isso, a transformação do protagonista é genial, antes um jovem nerd solitário se torna mais pra frente um líder de uma banda super eclética que acredita no amor e nos sentimentos desde cedo. Um fato para abrilhantar mais ainda essa produção, Carney se inspirou na história de sua vida e ainda teve a colaboração mais que especial do vocalista Bono, da banda U2.


Sing Street teve sua première mundial no prestigiado Festival de Sundance desse ano e infelizmente não possui data para estrear no circuito cinematográfico brasileiro. Caro leitor, caso tenha a chance de conferir esse filme, não perca essa oportunidade é um filme que beira as inesquecíveis histórias de amor que já vimos em grandes telas por aí. Bravo!  

Crítica do filme: 'Imperium'

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A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo.  Mostrando bem a fundo os detalhes de grupos extremistas que se espalham pelos Estados Unidos a muito tempo, o primeiro trabalho com longas metragens do cineasta Daniel Ragussis é um thriller policial com muita ação e bem violento que busca discutir um dos temas mais polêmicos da sociedade norte americana. Com uma atuação bem interessante do esforçado ator britânico Daniel Radcliffe e um bom aproveitamento dos coadjuvantes no contexto do roteiro, Imperium é um filme que merec e ser conferido.

Na trama, conhecemos o agente do FBI Nate Foster (Daniel Radcliffe), um jovem com muito comprometimento com sua profissão mas que não consegue se socializar direito com seus colegas de trabalho, vivendo muitas vezes sozinho seu cotidiano no escritório. Quando a agente Angela Zamparo (Toni Collette) começa a observá-lo, percebe que ele tem o perfil perfeito para um trabalho como agente disfarçado dentro de grupos extremistas neonazistas com o objetivo de investigar potenciais terroristas e atentados. Assim, Nate raspa a cabeça e começa a viver um cotidiano completamente diferente de tudo que já tinha visto.

O roteiro tem várias camadas que distanciam o clímax da trama de sua superfície. No arco introdutório, entendemos melhor quem é o Agente Nate Foster e como ele começa a trabalhar como policial disfarçado. No segundo arco vemos um curto e instantâneo período de transformação não só física mas psicológica do protagonista, nesse momento também cresce a atuação de Radcliffe. No terceiro ato em diante somos apresentados a várias camadas de grupos extremistas, suas rotinas e seus motivos para lutar pelo que lutam. O protagonista consegue ser o ponto de interseção que o roteiro precisa para que toda a trama ande de maneira que os fatos sejam detalhados e apresentados deixando o público pensar sobre cada situação que a história passa.


Imperium não tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros, talvez porque nenhuma distribuidora daqui ainda o tenha descoberto.  Daniel Radcliffe com esse trabalho, mais uma vez, prova que é um ator com grande potencial que merece ser reconhecido pelos seus êxitos e não só porque interpretou o famoso bruxinho de óculos durante grande parte de sua infância/adolescência. 

Crítica do filme: 'Elvis & Nixon'

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Não é sobre dinheiro, não é sobre prestígio, não é sobre classe, é sobre ter uma identidade. Depois de dirigir o interessante longa metragem Amores Inversos, a cineasta Liza Johnson volta as telonas para mostrar uma história inusitada, e baseada em fatos reais, de um encontro entre o ex-presidente norte americano Richard Nixon e o ícone da música, o rei, Elvis Presley. Usando de diálogos bem humorados e um arco melhor que o outro, Elvis & Nixon é uma daquelas pérolas sensacionais que são lançadas no cinema e às vezes nem percebemos por conta do grande número de filmes que entram e saem das salas de cinema brasileiras. No papel principal, o do mito Elvis, o excelente Michael Shannon dá mais um show.

Na trama, acompanhamos alguns dias na vida da estrela do rock Elvis Presley (Michael Shannon) que de repente nutre um desejo gigante de conversar com o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon (Kevin Spacey) sobre um assunto bastante peculiar: Elvis quer ser um agente infiltrado em determinados grupos e ajudar a polícia em determinados casos. Com a popularidade em baixa do presidente com os jovens, os assessores da casa branca Krogh (Colin Hanks) e Chapin (Evan Peters) aproveitam a oportunidade para tentar elevar o prestígio do presidente.

Acompanhamos essa surpreendente história sob a ótica de Elvis, talvez o rosto mais conhecido no mundo naquela época, tentava levar uma vida simples, sabendo que era praticamente um Deus por conta de todo o sucesso e exposição que tinha sua vida na imprensa. Mas Elvis era um ser humano um pouco esquisito, tinha uma mania de conseguir distintivos da polícia, andava bem armado e viajava de um lado ao outro buscando realizar seus objetivos longe da música.  O filme detalha bem essa excentricidade e mescla pequenas pausas dramáticas com momentos hilários, o Elvis de Shannon fisicamente talvez longe do original mas o jeito cativante que o Rei tinha está presente na interpretação deste Senhor ator. O relacionamento de amizade com seus amigos também preenchem bem lacunas deixadas pelas ações de Presley, destaque para a excelente atuação de Alex Pettyfer como Jerry.

Já, na outra parte da história, a parte de Nixon, os assessores Krogh e Chapin comandam a festa se metendo em situações inusitadas e complexas para tentar aumentar a popularidade do também excêntrico presidente Nixon, brilhantemente interpretado por Kevin Spacey. O legal da atuação de Spacey é quando vemos a perfeição nos trejeitos, o modo de andar e a expressão facial do ex-presidente muito evidentes.


Elvis & Nixon é muito mais uma comédia do que qualquer outra coisa. Explica bem na superfície uma parte da situação política da época e mostra também como o Sr. Elvis Presley era um tremendo enigma cheio de reações peculiares. Não deixem de assistir a esse filme, é diversão na certa!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crítica do filme: 'In the Deep'

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Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer. Usando essa frase emblemática do querido cineasta Woody Allen, começamos o papo sobre um filme que foi direto para Dvd nos Estados Unidos e não tem a mínima chance de ganhar as telas do circuito brasileiro de cinema. Estamos falando do suspense In The Deep. Escrito e dirigido pelo cineasta britânico Johannes Roberts, o longa metragem é um show de cenas subaquáticas onde o medo não consegue ser bem enxergado nas fracas atuações do elenco. Pior que tinha potencial essa história.

Na trama, conhecemos duas irmãs Kate (Claire Holt) e Lisa (Mandy Moore) que estão curtindo as férias em algum lugar paradisíaco no México. Tentando buscar diversão em um lugar que pouco conhecem, orientada por novos amigos, resolvem se divertir indo visitar tubarões no fundo do mar dentro de uma espécie de jaula de proteção. Óbvio que a diversão não dá certo e após poucos minutos dentro da água, a jaula em que estão se perde do cabo de sustentação e elas vão parar no fundo do mar. Assim, com pouco oxigênio e temendo um ataque a qualquer momento dos tubarões famintos do fundo do oceano, as irmãs precisarão de muita força e coragem para escapar dessa tensa situação.

Sabe uma coisa que incomoda nesse filme? É a quase não presença de tubarões. Poxa, se você quer explorar o lado psicológico de estar dentro do fundo do mar, tudo bem, porém, você precisa estar cercado de razões e porquês e precisa aproveitar o que a própria história propõe. Tudo acaba sendo um pouco subjetivo nesse projeto, as personagens são mal definidas dentro da trama fora as atuações que deixam um pouco a desejar por mas até que Mandy Moore se esforce em alguns momentos. Tentando ir na linha do suspense psicológico, o filme se afunda por completo. A direção não segura o filme, tenta a todo tempo criar um clima de tensão através de imagens dentro d’água mas nem arrepios encontram o espectador.


Uma das coisas boas que podemos comentar é que o filme tem apenas 87 minutos. A ideia era boa, porém foi mega mal aproveitada. 

domingo, 4 de setembro de 2016

Crítica do filme: 'Herança de Sangue'

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Mais vale um pecador arrependido, do que um anjo mal intencionado. Exibido no último Festival de Cannes, o novo trabalho do excelente cineasta francês Jean-François Richet (do excepcional Inimigo Público nº 1 Parte 1 e 2) é pura adrenalina, do início ao fim. Richet pegou uma trama simples, baseada na obra de Peter Craig (que também assina o roteiro), e conseguiu criar um universo de ação sem limites, com cenas fortes e uma carga dramática muito bem apresentada, principalmente pelo seu protagonista interpretado pelo vovô fortão, nosso eterno Martin Riggs (de Maquina Mortífera), Mel Gibson.

Na trama, acompanhamos o solitário tatuador sessentão Link (Mel Gibson), um homem com um passado bem complicado, durante anos ficou preso em uma penitenciária barra pesada por não querer entregar o líder de uma gangue de motoqueiros. Durante o período que estava preso, perdeu a mulher e a filha desapareceu. Certo dia, durante mais um dia comum na vida do experiente tatuador seu telefone toca e do outro lado da linha está Lydia (Erin Moriarty), sua filha sumida. A questão é que a jovem ligou para o pai, sua única alternativa, pois acabara de se meter em uma confusão envolvendo um parente de uma temida família do crime na fronteira. Resgatando o espírito de anos atrás e explorando uma violência hoje mais contida, Link vai atrás de sua filha e fará de tudo para protegê-la.

O filme correu um sério risco de ser mais um filme do gênero ‘mais do mesmo’. Porém, alguns fatores foram fundamentais para fugir das mesmices de outros filmes parecidos. Primeiro, o protagonista é apresentado de maneira rápida mas sua construção, em relação ao passado e a fúria que controla, é exposta de maneira inteligente e o personagem se torna cada vez mais interessante aos olhos da plateia. É um grande trabalho de Gibson, cirúrgico em alguns momentos. Segundo, por mais que a ação sobreponha o drama, o elo familiar estabelecido pela chegada de Lydia à trama é fundamental para que lacunas sejam preenchidas e objetivos sejam traçados. Há um carinho acumulado do pai em relação a sua única filha, talvez seja a última chance de ele aproveitar esse momento, isso explica o desespero e as saídas que encontra para proteger sua filha. Esse relação dos dois é muito bem encaixada dentro da trama e realmente sentimos uma grande dedicação dos atores nos diálogos e sequências.


Em relação ao roteiro propriamente dito, se define por alguns atos bem amarrados e uma leve viajada no seu arco do meio. Alguns personagens aparecem mais pra explicar como era o protagonista em seu passado do que qualquer outra coisa. Incomoda um pouco o personagem Kirby (William H. Macy) ser tão pouco aproveitado. Mas no final, o filme tem muito mais méritos do que qualquer outra coisa. Com estreia prevista para a próxima quinta-feira (08), Herança de Sangue deve agradar bastante o público que curte filmes de ação como eram feitos antigamente mas também o público que gosta de uma boa história. 

Crítica do filme: 'Truque de Mestre 2'

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Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade. Dando seguimento na história que fez um bom sucesso de crítica e público no ano de 2013, Truque de Mestre 2 dessa vez dirigido pelo cineasta californiano Jon M. Chu (do chatíssimo G.I. Joe: Retaliação), por incrível que pareça acaba se perdendo no roteiro (tão elogiado no primeiro filme). Ao longo dos longos 129 minutos de projeção, chegamos à conclusão logo após o primeiro arco que os truques nas mangas acabaram. O elenco continua em sua grande parte mas o carisma visto no filme de 2013 não consegue se manter em 2016.

Na trama, acompanhamos novamente os, agora bastante famosos, cavalheiros do olho liderados por Dylan (Mark Ruffalo) precisam enfrentar a fúria de personagens que combateram no primeiro filme. Assim surge Walter (Daniel Radcliffe), um novo vilão, filho adotivo de Arthur (Michael Caine), um homem megalomaníaco que planeja um plano maquiavélico e precisa da ajuda dos ilusionistas que conquistaram o mundo. Ao mesmo tempo, ficamos sabendo de misteriosas surpresas vindas de Thaddeus Bradley (Morgan Freeman).

Adeptos, nesse segundo ato, da lógica do Mister M. (explicar alguns truques ao mundo), os personagens que conquistaram o público em sua primeira história parece que se perderam, apagaram o brilho contido em suas apresentações do passado. No final, parece que se tornara uma espécie de 11 homens e um segredo feita de maneira corrida. Tentando surpreender o público com revelações bombásticas que nunca desconfiamos no primeiro ato, o roteiro tenta se moldar para deixar essa parte como grand finale, o famoso clímax. Porém fracassa em sua proposta. A direção também acaba perdendo o dinamismo do primeiro filme. Resumindo, é uma série de fatos que tornam esse filme bem abaixo da média.


Truque de Mestre 2 estreou no Brasil no início de junho deste ano e passou quase que desapercebido pelo circuito. Faltou história, faltaram novos e impactantes personagens, faltou carisma. Não chega a ser a grande decepção do ano mas uma das. 

Crítica do filme: 'O Silêncio do Céu'

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O que é felicidade meu amor?  O novo trabalho do cineasta paulistano Marco Dutra (do interessante Quando Eu Era Vivo) é uma jornada esfíngica de um homem em busca de respostas em relação a uma situação que mudará para sempre sua vida. O roteiro beira à perfeição, consegue prender a atenção do público a cada segundo, a direção primorosa de Dutra traduz com eficiência um ritmo sinistro aos passos dos protagonistas, os atores principais dão um verdadeiro espetáculo ao público, principalmente Carolina Dieckmann que executa o seu melhor trabalho no cinema. Toda a produção parece uma orquestra entrosada, onde ritmos e harmonia andam detalhadamente simétricos, conseguindo apresentar ao público um dos melhores filmes do ano.

Baseada no livro Era el Cielo, de Sergio Bizzio, que também assina o roteiro, O Silêncio do Céu acompanha a trajetória de Mario (Leonardo Sbaraglia), um escritor/roteirista que acaba de voltar para sua esposa após alguns meses de separação. Mario é um homem repleto de medos e sempre brincou sobre essa questão com sua mulher Diana (Carolina Dieckmann). Certo dia, quando Diana chegava em casa é abordada por dois homens que a estupram. A questão é que Mario também estava chegando em casa e acaba presenciando a cena e não faz nada. Consumido pela dor e pela fraqueza de não ter feito nada para ajudar sua mulher, quase que seguindo os pensamentos do filósofo e escritor inglês Francis Bacon, que dizia: ‘A vingança é uma espécie de justiça selvagem’, Mario parte em busca de respostas para suas lacunas impostas por pensamentos dolorosos e por umas pitadas generosas de culpa, e acaba encontrando pelo caminho a coragem de executar uma vingança desenfreada e completamente inconseqüente.

Há muitos pontos a se destacar. O protagonista Mario é um grande enigma cheio de dimensões emocionais. Dominado sua vida toda pelo medo de muitas coisas, conseguiu encontrar um porto seguro ao lado de Diana, de quem percebe que não consegue esconder suas angústias de nenhuma forma. Tudo isso muda radicalmente quando acontece a situação já comentada com sua esposa e ele precisa além de enfrentar o medo, resolver o problema de uma forma que isso não influencie mais na sua rotina. O clímax do filme é um período longo e borbulhado de emoções em seu contorno. A atuação de Leonardo Sbaraglia merece elogio pois consegue passar toda a angústia e aflição de seu personagem ao espectador.

Já Diana é uma mulher que largou o Brasil para viver no Uruguai com seu marido, trabalha em um ateliê e após o estupro que sofreu vive de incertezas sobre se conta ou não conta o que houve e de uma certa falta de confiança com as pessoas, até mesmo com seu marido.  Ela é a chave de todo o mistério que se chega após descobertas de Mario sobre os criminosos de quem planeja se vingar. Em diálogos memoráveis (um deles guiados pela declamação da música Corcovado , de Tom Jobim), a dupla de protagonista navega pelo tom sentimental angustiante, com muitos olhares e diversas lacunas a serem preenchidas de um para o outro. Esse clima de suspense que acaba chegando no segundo ato em diante transforma esse filme em um dos melhores projetos nacionais dos últimos anos. Vale também o destaque para Carolina Dieckmann que consegue dar uma força em cena para sua personagem que é impressionante, principalmente quando usa do olhar para dizer alguma coisa. Bela atuação da Carol.


O Silêncio do Céu, essa co-produção Brasil/Uruguai (o filme é falado em espanhol em quase todo seu tempo) chega aos cinemas no dia 22 de setembro e promete agradar crítica e público com atuações acima da média, um roteiro quase que perfeito e uma genialidade de Dutra por trás das câmeras. Bravo!

sábado, 3 de setembro de 2016

Crítica do filme: 'Pets - A Vida Secreta dos Bichos'

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Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade. Dirigido pela dupla de cineastas Yarrow Cheney e Chris Renaud, Pets - A Vida Secreta dos Bichos conta de maneira divertida o cotidiano de um grupo de animais, em sua maioria caninos e felinos, e todas as situações que os adoráveis bichinhos se metem. O projeto é assinado pela produtora de animação Illumination, responsável pela lucrativa franquia Meu Malvado Favorito, que mais uma vez conseguem um show de simpatia e compor uma trama envolvente e agradável. 

Na trama, conhecemos o adorável cachorrinho Max que vive uma vida maravilhosa ao lado de sua dona. Certo dia, ela volta para casa com um outro cachorro, o gigantesco Duke, com quem a princípio, Max, tem uma terrível relação. Após uma saída para passear no parque, os dois cachorrinhos acabam se perdendo e sendo perseguidos pela carrocinha. Agora, para voltar para casa, eles precisarão enfrentar as loucuras do mundo fora do conforto de cãs, e, para isso contarão com a ajuda de seus amigos animais vizinhos que não medirão forças para encontrá-los.

No roteiro, assinado por Brian Lynch, Cinco Paul e Ken Daurio, há diversas partes hilárias e muitas vezes o filme se torna um pocket musical (como na sequência hilária das salsichas dançantes). A descaracterização do imaginário, em relação a alguns animais é uma boa sacada. Um porquinho tatuado e com piercing, um coelhinho que é o grande vilão da trama, vários elementos dentro dessa proposta se colocam como um charme a mais para a história. A trilha sonora é maravilhosa, diversas músicas instrumentais maravilhosas que dão muita dinâmica as cenas de aventura que percorrem grande parte da animação. Tudo é muito bem construído, bem longe da melancolia e explorando com eficiência a aventura.

Pets - A Vida Secreta dos Bichos, como toda boa animação, traz diversas lições para a criançada, como o valor da amizade, o entendimento mais didático da palavra confiança, o respeitar ao próximo. Essa bela animação é um grande entretenimento não só pra criançada mas também para papais de todas as idades. Não percam!

Crítica do filme: 'O Homem que viu o Infinito'

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A matemática é a única ciência exata em que nunca se sabe do que se está a falar nem se aquilo que se diz é verdadeiro. Baseado no livro The Man Who Knew Infinity: A Life of the Genius Ramanujan, de Robert Kanigel, O Homem que viu o Infinito é apenas o segundo trabalho atrás das câmeras do desconhecido cineasta Matt Brown. Reunindo elementos muito interessantes para explorar a história de um gênio da matemática que usava de sua fé como plataforma para voar, o longa metragem promete agradar crítica e público, principalmente pelas atuações dos personagens principais, interpretados pelo bom ator Dev Patel e o experiente e sempre brilhante Jeremy Irons.

Na trama, conhecemos o humilde matemático indiano Srinivasa Ramanujan (Dev Patel) que mora em um lugar bem pobre em uma Índia fragilizada e carente por ajuda. Ramanujan é matemático e seu sonho é conseguir publicar alguma de suas teorias que ele acredita que podem dar uma luz à diversos conceitos que muitos diziam impossível. Assim, contando com a ajuda de pessoas que gostam dele, consegue que uma de suas cartas chegue até o grande Professor de Matemática Pura da Universidade de Cambridge, Godfrey Harold Hardy (Jeremy Irons) que logo o chama para Universidade (ouvindo os sábios conselhos do amigo e também brilhante matemático John Edensor Littlewood, interpretado pelo ótimo Toby Jones) e juntos começam a trabalhar em diversas teorias que vão de análise progressões de números primos até teorias que futuramente ajudariam a esclarecer os mistérios dos buracos negros.

Em uma época onde brilhavam mentes como a do filósofo e matemático Bertrand Russell (que por sinal, aparece no filme, interpretado por Jeremy Northam), surge o tímido, introspectivo e lotado de fé indiano que mudaria os rumos da matemática nas décadas futuras (e até hoje!). Ramanujan, muito bem detalhado no filme, dizia que suas fórmulas matemáticas vinham de sonhos e seus grandes embates com seu tutor Hardy eram sobre isso. Esse último queria que Ramanujan provasse sempre o caminho matemático que o levou a escrever suas teorias, quase que um ou dois passos atrás nas ações do genial matemático. Mas essa cobrança era para o bem dele, o desenvolvimento não só matemático mas social/vital do protagonista é notório e surge também por conta do excelente e emocionante trabalho de Dev Patel. Nessa relação de Gênio e Tutor havia um contraste muito grandes quanto a fé e emoções, discussões calorosas e diálogos muito interessantes deixam o espectador com a sensação de angústia e aflição em muitos momentos. O passar esses sentimentos através das interpretações é uma conexão fundamental para que o público lembre desse belo trabalho durante bom tempo.

Os laços familiares ganham pequena parcela no roteiro. Talvez o elo mais fraco na história, a superfície é o máximo que se alcança nessa parte. Por mais que mostre com eficácia, uma boa parte da cultura e os conflitos vindos de uma fé exigente, a sua relação distante, apresentada pelo filme, com a esposa e a mãe que moram em Madras (Índia), onde Ramanujan nasceu, deixam a outra parte da história muito mais interessante. No seu desfecho, bastante emocionante por sinal, esses laços familiares ganham um pouco mais de força mas não deixam de ser parte coadjuvante do filme.


Ramanujan publicou mais de 30 artigos e foi empossado na prestigiada Royal Society. Suas contribuições no mundo da matemática são gigantescas e muitas de suas teorias, encontradas após seu precoce falecimento, vão levar décadas para chegarmos a entendê-las (de tão complexas). Ele dizia que todo número tinha sua importância, o 1729, por exemplo, é um belo número: é o menor inteiro formado pela soma de dois outros inteiros elevados ao cubo! Esse grande ser humano merecia um filme como esse, com inúmeras qualidades e muito emoção. Ramanujan não só viu o infinito mas conseguiu um lugarzinho no coração de todos nós que pensamos sobre as leis do universo. Bravo! 
 
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