27/02/2024

Crítica do filme: 'American Fiction'


Indicado para cinco Oscar em 2024, inclusive na categoria Melhor Filme, American Fiction usa sua brilhante e hilária narrativa para ir na contramão dos hipócritas de plantão, que recheiam olhares com estereótipos. Baseado na obra Erasure do escritor e professor da USC (Universidade do Sul da California) Percival Everett, o filme apresenta recortes na vida de um escritor em crise, entediado, completamente sem paciência com as hipocrisias na sua frente que tem uma ideia que o coloca no epicentro de tudo que pensa. Excelente estreia na direção do cineasta norte-americano Cord Jefferson.

Na trama, conhecemos Monk (Jeffrey Wright), um escritor e professor num presente repleto de conflitos não deixando barato os absurdos culturais que percebe ao seu redor. Após ser afastado pela universidade que leciona, vai passar um tempo na casa de praia da família se aproximando dos irmãos e da mãe em fase inicial de Alzheimer. Um dia, resolve escrever um livro de forma aleatória, longe das complexidades de suas outras obras e acaba vendo o sucesso chegar de forma curiosa e mostrando muitas verdades da sociedade.

As pessoas não se resumem aos erros. Um dos méritos do roteiro é chegar numa ampla reflexão sobre seu protagonista através do relacionamento com a família. A narrativa é empolgante, até uma cena espetacular de personificação da escrita nós vemos. Perdido nos pensamentos que se juntam a absurda conclusão de uma ideia inusitada, nas perdas recentes, a volta do convívio com os mais próximos familiares, um espaço para um novo amor, o protagonista duela com seus conflitos sem nunca deixar de expressar sua opinião. Tudo isso é colocado de forma brilhante na tela.

Personagens surgindo aos montes só validam o pensar de Monk, aqui uma analogia com a sociedade e seus valores se torna uma reflexão importante. O mercado literário também ganha holofotes, o lucro com o entretenimento raso, preconceituoso em muitos momentos, se mostra evidente através da armadilha feita pelo personagem principal dessa história maravilhosa que ficará nas nossas lembranças por muito tempo.

As entrelinhas da moral da história chega através dessa narrativa dinâmica, envolvente, que nos faz rir, emocionar e pensar sobre muitas verdades que estão por aí pra quem quiser ver.


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Crítica do filme: 'Acertando o Passo'


A busca pelo sorriso no rosto até a hora de partir. Trazendo um olhar delicado e divertido para a melhor idade, associado também ao campo da redescobertas da vida, o longa-metragem britânico Acertando o Passo, lançado em 2017, é uma explosão dançante de sentimentos aos olhos de uma protagonista em crise existencial. Dirigido pelo cineasta britânico Richard Loncraine, o alegre projeto mostra a dança como uma ponte para descobertas nas novas maneiras de enxergar a vida.

Na trama, acompanhamos Sandra (Imelda Staunton), uma respeitada mulher da alta sociedade britânica que parece ter a vida perfeita. Só que uma questão logo a abala: três décadas e meia casada descobre a traição do marido, um ex-chefe de polícia, com uma amiga próxima. Sem saber direito o que fazer da vida, resolve ir morar com a animada irmã Bif (Celia Imrie), com quem não falava fazia tempos, em uma outra parte da cidade.

E como é bom ver artistas maravilhosos, veteranos, protagonizando um filme! As subtramas impulsionam o simpático roteiro, com ótimos coadjuvantes, como Bif e Charlie (Timothy Spall) que circulam o desconstruir da protagonista. Nesses momentos, as memórias ganham o sentido de nostalgia algo que aproxima a personagem do mundo real onde o vai e vem da vida deixam margens para surpresas.

As eternas lições do se reinventar. Altos padrões, alta sociedade, furando a bolha em que vivia e indo descobrir o mundo, a protagonista passa por descobertas em recordações do passado quando ia atrás dos sonhos, quando nada era fácil, onde o arriscar era uma opção. Mesmo caminhando rumo a previsibilidade, a narrativa enche a tela de alegria, num filme que fala sobre família e os laços que muitas vezes se encontram em estados de encontros e desencontros.

 

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Crítica do filme: 'Fim da Sentença'


A decepção é um labirinto. Escondido no catálogo da HBO Max, esse poderoso drama que parte do recorte de um pai e sua conflituosa com o filho dilacera as mágoas do passado entre idas e vindas da liberdade até a oportunidade. Fim da Sentença, dirigido por Elfar Adalsteins, em seu primeiro longa-metragem, é um interessante road movie que caminha na melancolia para se achar um norte, uma direção, mas de forma próxima à realidade, humana, numa relação angustiante presa em um passado que não existe mais. John Hawkes e Logan Lerman estão sublimes nos seus respectivos papéis.

Na trama, conhecemos Frank (John Hawkes), um vendedor aposentado que passa seus dias de forma pacata ao lado da esposa Anna (Andrea Irvine) no estado do Alabama. Quando ela falece, vítima de câncer, Frank, precisa realizar o último desejo da esposa: uma viagem para a Irlanda junto do filho. A questão é que Sean (Logan Lerman), que acabara de sair da prisão, não se dá bem com o pai. Embarcando nessa viagem, muitas surpresas pelo caminho esperam pai e filho.

O controle sobre as coisas se torna um parâmetro importante que define as personalidades de pai e filho. O primeiro um homem rígido, que viveu para seu amor toda uma vida e se lamenta pelo abismo na relação com o único filho. O segundo, um imaturo jovem que travou momentos conflituosos com o pai ao longo da vida jogando nele toda a culpa pelo seu presente momento. Ao longo dessa viagem, a oportunidade de verem lados nunca vistos de um e de outro, de alguma forma, transforma essa relação. A narrativa costura muito bem esse olhar num campo de interseção, nas peças que vão unindo os protagonistas.

Descobertas surpreendentes de um grande amor, as verdades por trás das raivas que logo se mostram traumas de um passado repleto de lacunas nunca respondidas, momentos com variáveis incontroláveis, o olhar para a família e sua relação com o caos, tem de tudo nesse roteiro que antes de mais nada se joga para cima do lado humano, dos erros e acertos que estão previstos em todos os caminhos.  



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26/02/2024

Crítica do filme: 'Blackberry'


Um recorte do início de uma era. Num tempo onde a busca pela informação em um único dispositivo traçaria as novas tendências tecnológicas de um frequente dinamismo no campo da comunicação, existiu uma empresa que saiu na frente e marcou seu nome na história. Blackberry, terceiro longa-metragem da carreira do ator e diretor canadense Matt Johnson, mostra em alguns recortes momentos chaves de uma meteórica ascensão e a brusca queda de uma das primeiras gigantes da comunicação via smartphone. Com uma narrativa empolgante, repleto de humor na linha do sarcástico, o filme vai a fundo num mar de emoções em conflitos que passam seus protagonistas.

Na trama, conhecemos Mike (Jay Baruchel) e Doug (Matt Johnson), dois amigos, nerds, que ditam o ritmo em uma micro empresa de tecnologia buscando algum dia alçar voos mais altos no setor de comunicação. Em certo momento, o destino da dupla se cruza com Jim (Glenn Howerton), um experiente homem de negócios que enxerga em um projeto dos amigos um grande potencial. Assim, entre decisões movidas pela emoção, amizades estremecidas e lidando de forma atabalhoada com a iminência da concorrência, no fim dos anos 90, nasceu o primeiro famoso smartphone da história, o Blackberry.

O contexto é importante para uma melhor compreensão do que acontece por aqui. O boom tecnológico ligado a comunicação estava prestes a acontecer, o Blackberry foi criado em um cenário onde a demanda pelo máximo de informações em um dispositivo móvel estava carente. Mike e Jim conseguiram se posicionar nesse mercado feroz, fazendo o que cada um era bom: o primeiro nas genialidades ligadas a inovação e segurança da informação, já o segundo sua capacidade impositiva de lidar com acordos e negócios.

Os arcos dos personagens são complementares, há uma desconstrução muito bem feita, o que transforma o filme em um explosivo retrato sobre dilemas, algo que se segue até a conclusão de conhecimento público quando não souberam lidar com a concorrência das gigantes Google e Apple.

Para contar essa história, uma referência foi importante. Baseado na obra Losing the Signal: The Untold Story Behind the Extraordinary Rise and Spectacular Fall of BlackBerry escrita pelos jornalistas Jacquie McNish e Sean Silcoff, o filme navega pelas emoções de personagens em eternos conflitos buscando assim um poderoso recorte dos motivos que trouxeram o sucesso e o fracasso. A narrativa brilha com seu dinamismo, com muitas informações que estão associadas a outras pelas entrelinhas.

 

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Crítica do filme: 'O Abismo'


O somatório de dramas movidos por uma catástrofe. Chegou recentemente no catálogo da Netflix um filme que tinha tudo para ser um show de mesmices, clichês amontoados, tendo como epicentro uma tragédia anunciada. Só que no longa-metragem sueco O Abismo um fator muito bem encaixado na sua trama acaba deixando tudo mais profundo prendendo a atenção do espectador nos 103 minutos de projeção. Dirigido pelo cineasta Richard Holm, o projeto consegue com muita eficiência na sua intensa narrativa alinhar conflitos familiares a uma tragédia.

Na trama, acompanhamos a história de Frigga (Tuva Novotny), uma mulher de atitude, mãe de dois, chefe de segurança de uma mina subterrânea Kiirunavaara, situada na cidade de Kiruna. Quando rachaduras enormes vão aparecendo pela cidade, Frigga embarca em uma jornada de sobrevivência tendo que lidar com o sumiço do filho Simon (Edvin Ryding), a recente chegada do novo namorado Dabir (Kardo Razzazi), o relacionamento conturbado com o ex Tage (Peter Franzén) e os embates com a filha Mika (Felicia Truedsson).

Uma cidade condenada onde fica uma mina de ferro, que praticamente é uma bomba relógio, onde o chão racha a cada metro explorado, é o ponto central de uma história que não se desprende da alcunha de ‘filme catástrofe’ mas trazendo elementos que ajudam a narrativa a encontrar caminhos. O liquidificador de falhas geológicas e os emaranhados das emoções familiares ditam o ritmo de um filme que tem drama, ação, suspense, dilemas, conseguindo altos picos de tensão.

A contextualização é muito bem feita. Cães fugindo, insetos se locomovendo, canos estourando, vamos entendendo os dramas dos moradores através da iminência de uma evacuação às pressas. As subtramas ajudam nesse ponto. Esse olhar para o todo nos faz entender melhor os dramas dos protagonistas além das escolhas difíceis que se seguem. Não há espaço para inconsequências, a sobrevivência toma conta da razão existencial numa narrativa pés no chão mas sem deixar de causar os incômodos que objetiva.



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Pausa para uma série: 'O Falso Sheik'


Reflexões sobre as linhas tênues entre jornalismo e crime. Na década 90, tabloides sensacionalistas dominam as rodas de conversa de uma sociedade sedenta pela informação e ainda longe dos avanços das redes sociais que se tornaram uma certeza nos tempos atuais. Nesse período, no Reino Unido, um introspectivo e reservado repórter buscava seu espaço Ilustrando situações e transformando em interesse público, inclusive se passando por um falso sheik. Série documental de três episódios disponível na Prime Video, O Falso Sheik busca a reflexão ampla sobre o jornalismo e seus limites dentro da defesa de muitos do que seria liberdade de expressão.

Ao longo dos episódios, por meio de depoimentos de testemunhas das ações, vítimas, advogados e colegas do antigo trabalho, vamos conhecendo recortes da trajetória de Mazher Mahmood, descendente de paquistaneses, que lutou para conseguir seu espaço no meio jornalístico numa época de protestos e forte preconceito. Nos primórdios da internet, com poucos celulares, o personagem principal dessa história se abraçou a um jornalismo investigativo que cruzava limites fazendo quase de tudo para conseguir uma matéria. Ele basicamente jogava a isca e esperava que mordessem.

Aos poucos foi se tornando conhecido, vencedor de prêmios importantes dados para profissionais da imprensa britânica, assinando várias matérias de alta repercussão, com capas do jornal que trabalhava, inclusive alcançando o status de celebridade, mas sem nunca mostrar o rosto. Depois de muitas matérias de grande repercussão acabou ele mesmo virando uma.

A narrativa é detalhista ao buscar um diálogo interessante sobre o que fazia o protagonista, colocando na vitrine de reflexões o tipo de jornalismo praticado. Por meio de flagrantes provocados, vidas foram destruídas, jornais foram vendidos aos montes. A liberdade de imprensa usada como desculpa para não impor limites ou passear na linha tênue com a imoralidade deixando em ponto morto a ética é um elemento de discussão. O jornal britânico onde Mazher Mahmood trabalhou a maior parte do tempo, o ‘News of the World’, um do mais vendidos no mundo naquela época, chegaria ao fim por denúncias de invasões telefônicas.

Meios de comunicação na caça da imoralidade de rostos conhecidos são vistos até hoje, esse tipo de conteúdo se propaga de forma incontrolável, fator que diz muito sobre a sociedade em si.


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25/02/2024

Crítica do filme: 'Ferrari'


A trajetória de um indecifrável homem da velocidade. Exibido pela primeira vez aos olhos do mundo no prestigiado Festival de Veneza do ano passado, Ferrari, novo trabalho do ótimo norte-americano de 81 anos, Michael Mann, joga na tela um recorte da vida de um poderoso personagem, enigmático, quase indecifrável, dominado por uma paixão avassaladora que domina sua trajetória no final da década de 50. Visuais milimetricamente pensados, cores, iluminação, moldam os diferentes momentos que a narrativa traduz das linhas do roteiro baseado na obra Ferrari -O homem por trás das Máquinas escrita pelo jornalista nova iorquino Brock Yates no início da década de 90.

Na trama, ambientada em 1957, um período de enormes crises para o todo poderoso do automobilismo Enzo Ferrari (Adam Driver) que vê seus dias se chocarem com conturbadas questões pessoais, envolvendo a amante Lina (Shailene Woodley) e a esposa Laura (Penélope Cruz), e uma necessidade de glória em uma famosa e perigosa competição de carros, com longa distância, chamada Mille Miglia, que parece ser a grande saída para uma estabilidade financeira e pro seu futuro nos negócios. O longo de pouco mais de duas horas de projeção vamos vendo um recorte profundo, intercalando momentos, de uma figura lendária do esporte mundial.

Num primeiro momento, e algo que percorre toda a narrativa, vemos um conturbado casamento, com o luto em andamento, um trauma recente da perda de um filho, algo que isolou qualquer possibilidade de normalidade na relação entre Enzo e sua esposa (também sua sócia, desde o início da famosa empresa uma década antes). Esses abalos matrimoniais viram estopins de conflitos que alcança a infidelidade e embates calorosos. Penélope Cruz e Adam Driver estão fabulosos em seus respectivos papéis, poderiam ter sido lembrados nas indicações ao Oscar, mesmo que esse ano nos brinde com também outras excelentes interpretações nas categorias Melhor Ator e Melhor Atriz.

Passamos então logo para o cenário automobilismo de uma era que se tornaria a base de tudo que conhecemos sobre a famosa escuderia italiana até hoje. Nesse ponto, o profundo drama se joga na mente de Enzo, sua intensidade e muitas vezes falta de trato social, tratando seus pilotos como meras peças em busca dos mais altos objetivos mas que traziam perigos constantes. Também há espaço para os embates entre Enzo e a imprensa da época. Um fato legal para nós brasileiros é a presença de Gabriel Leone, com bom tempo de tela, interpretando um dos pilotos da Ferrari.

Apenas um apaixonado por automobilismo? Um empresário sem compaixão que leva seus funcionários ao limite? Um marido infiel? Com um orçamento próximo da casa dos 100 milhões de dólares, Ferrari mostra as facetas de um homem que se joga em situações que lançadas em um oceano de dilemas flerta com as incertezas. Não é um contexto fácil de se mostrar, a narrativa parece que tem uma chave que vira a todo instante mostrando as intensidades do pessoal e profissional. Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e o olhar do espectador precisa de atenção.

Quase três décadas buscando realizar essa obra, desde o início da ideia, o excelente cineasta Michael Mann brinda o espectador com uma direção impecável, envolvendo o espectador nos diferentes momentos na vida de um homem que marcou seu nome na história do esporte.


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Crítica do filme: 'Até Amanhã'


Quando a responsabilidade bate na porta. Exibido no Festival de Berlim, o drama iraniano Até Amanhã aborda as escolhas de uma jovem mãe e os dilemas que precisa enfrentar quando o destino e suas inconsequências se chocam em um dia intenso onde viverá horas de incertezas, descobertas e muitos aprendizados. Escrito e dirigido pelo cineasta Ali Asgari, o longa-metragem tem seu alicerce nas emoções conflitantes de uma forte protagonista na busca pelos seus sonhos e independência, driblando os olhares julgadores de um país onde a repressão contra a mulher ainda é um chocante retrato dessa sociedade.

Na trama, acompanhamos um dia tenso na vida da jovem Fereshteh (Sadaf Asgari), que vive sozinha na capital do Irã onde estuda e trabalha em uma gráfica para sustentar sua filha recém nascida de 2 meses. Quando um parente sofre um acidente e logo hospitalizado na cidade de onde mora, seus pais resolvem visitá-la. A questão é que eles não sabem da existência da criança. Assim, sem saber em quem confiar, ela precisa encontrar um lugar para a criança ficar enquanto seus pais estão por perto embarcando em uma série de conflitos que se seguem.

A responsabilidade, o papel de mãe, é algo que caminha durante toda a narrativa, que alcança um dinamismo eficiente detalhando as chocantes surpresas que a personagem principal encontra pelo caminho. A relação distante com o pai da criança (que não quis assumir a filha), o medo de contar a verdade aos pais, os absurdos que precisa lidar para manter sua mentira, o não saber em quem confiar, são alguns dos pontos que logo se tornam elementos importantes para uma desconstrução de um personagem que ruma para um desfecho emblemático que diz muito sobre tudo que aprende durante o intenso dia que vive.

O roteiro, também abre caminhos para uma reflexão mais ampla de um país que associado as suas tradições não se desgarra de limitações quando pensamos em igualdade entre homens e mulheres. Com a iminência dos seus segredos virarem certezas para os outros, a protagonista embarca em conflitos que esbarram nessa contextualização. Até Amanhã se consolida como um forte recorte de uma mãe em busca de certezas para seu futuro e o de sua filha em um país onde o olhar para a mulher é insuficiente, preconceituoso.

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24/02/2024

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Pausa para uma série: 'House of Ninjas'


Nem toda batalha é vencida pela espada. Buscando resgatar a história das tradições e do imaginário japonês através dos chamados shinobis (no popular, ninjas) figuras bastante conhecidas no Japão feudal, entre os séculos XVI a XIX, chegou na Netflix nesse início de 2024 um empolgante seriado onde os conflitos se desenvolvem através dos dilemas entre o certo e o errado, com personagens enfrentando diferentes crises existenciais no período presente.

Na trama, conhecemos os membros da família Tawara, um clã de Shinobis que preferiu viver uma vida normal no Japão nos dias atuais após um deles morrer numa missão secreta seis anos atrás. Mas, quando um outro clã inimigo ressurge com seus novos integrantes ligados a arquitetura de uma conspiração global, os Tawara precisarão voltar a vestir a roupa ninja e ir para o confronto.

Um dos méritos do roteiro é conseguir nos seus oito episódios da primeira temporada prender a atenção do espectador, mesmo sem grandes reviravoltas, pelos conflitos que se seguem através dos ótimos e carismáticos personagens. O trauma, o luto, a dor, as dúvidas sobre o casamento, se misturam com uma casa cheia de regras onde não pode comer carne, não pode se apaixonar. A narrativa é empolgante com cenas de lutas com brilhantismo nas coreografias que se misturam a vazios existenciais ligados à globalização e até mesmo as formas de se comunicar no dinamismo desses novos tempos.

O sentido de justiça por aqui é visto como um conjunto de regras. Respondendo a um órgão específico para assuntos ninjas, essa família descendentes de guerreiros muitas vezes são meras peças dentro de um tabuleiro indecifrável onde a ponte entre o certo e o errado é feita por uma linha tênue. Uma ideologia definia no passado os shinobis como espiões ou em alguns casos guerreiros por recompensas, algo diferente dos samurais por exemplo que tinham a honra em primeiro lugar, mesmo que aqui nesse projeto a noção da dicotomia (bem e mal) seja colocada na mesa de forma trivial.

Criado pelo cineasta Dave Boyle, e tendo como lema ‘a família em primeiro lugar’ House of Ninjas reflete sobre o imaginário de outrora mas buscando um olhar familiar sobre os conflitos dos novos tempos já que antes de mais nada esses guerreiros são seres humanos de carne e osso.

 

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Pausa para uma série: 'Pequeno Nicolás: A Surreal História de um Cara-de-pau'


A informação é poder. Trazendo para o público uma quase inacreditável história da vida real que tem como epicentro um jovem que ao longo do tempo se tornou uma peça numa corrente de favores que acabou trazendo à tona a corrupção em território espanhol, Pequeno Nicolás: A Surreal História de um Cara-de-pau, minissérie documental da Netflix, ao longo de três intrigantes episódios deixa muitas perguntas no ar. Espião? Um contador de histórias? Apenas um garoto esperto? Um vigarista? Vamos acompanhando uma trajetória de fascínio pelo mundo político que logo vira uma obsessão.

O contexto político sobre tudo que acontece nessa curiosa história é de fundamental importância. Anos atrás, num momento difícil da economia espanhola, com uma alarmante crise bancária, e logo após o Partido popular chegando ao poder, foi o período dos primeiros avanços importantes no meio político de Francisco Nicolás, um jovem com uma capacidade impressionante de reunir pessoas que começou promovendo festas exclusivas, ainda adolescente, em lugares badalados na Espanha.

O documentário, muito bem estruturado e detalhado, guiado com analogias ao famoso ‘jogo da vida’, mostra através dos fatos o antes e o depois dessa sua meteórica história no cenário político. Num primeiro momento, com uma narrativa que emenda depoimentos de jornalistas, imagens e vídeos da época, além de revelações do próprio Fran, busca-se um traço de personalidade desse inventor de muitas vidas. Depois passamos a acompanhar suas mais famosas façanhas como a ida à coroação do Rei Felipe VI e a intrigante mensagem para o telefone do rei Juan Carlos (que tinha acabado de abdicar do seu reinado). Desembocando no estouro midiático que se tornou sua vida, com direito a convite a um famoso reality show.

Não há dúvidas de que o protagonista não fez a coisa certa mas será que estava inventando tudo? Essa pergunta é o ponto de interseção que liga todos os momentos de seu caminho, desde a ascensão até o declínio. Indo mais a fundo, o projeto não deixa de tentar decifrar a mente de Fran (depois conhecido como Pequenos Nicolás). Dono de uma arrogância que foi piorando com o tempo, perdendo aos poucos a noção da realidade, mas mantendo um inacreditável grau de influência com poderosos políticos e empresários, muitas histórias cercam a sua própria.

Em tempos onde a informação é o poder, Pequeno Nicolás: A Surreal História de um Cara-de-pau apresenta os fatos e alguns pontos de vistas. As interpretações serão inúmeras desse personagem da história recente da política espanhola repleto de cartas na manga que insiste em nunca se deixar afastar de um enorme tabuleiro de ‘disse me disse’.

 

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