Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição. Um dos novos filmes na grade da Netflix, O Bom Sam traça o paralelo, mesmo que de maneira bem superficial, entre a ambição e o fazer o bem, nesse simpático filme que ao menos deixa uma mensagem importante para quem quiser ler nas entrelinhas. Baseado na obra de Dete Meserve, e com direção de Kate Melville (em sua segunda experiência em longas metragens), o projeto conta com um elenco competente e desconhecido do grande público brasileiro.

Na trama, conhecemos a corajosa e persistente repórter Kate (Tiya Sircar), que busca a todo dia a melhor matéria para subir na sua concorrida carreira. Filha de um senador norte americano, não desiste da luta em sair dos holofotes com matérias sobre tragédias que beiram ao sensacionalismo. Sua grande chance chega de maneira inusitada, quando fontes da emissora onde trabalha descobre um caso inicial de uma pessoa que recebeu 100 mil dólares e ninguém sabe o paradeiro de quem deu essa bolada de maneira gratuita. Assim, reunindo toda sua experiência e seu faro para notícia, Kate embarca em uma jornada de descobertas que vai além de uma matéria para a televisão.

Nada vem de graça, ou algumas coisas vem? A ambição toma conta da maioria dos caminhos que navega o roteiro, o contraponto chega já em seu clímax, buscando dar novos argumentos e em paralelos com ações simples do dia a dia. A questão básica do acreditar no ser humano é colocada em cheque a cada minuto, e as descobertas das verdades são feitas de maneira como vimos em outros filmes, optando pelo bom e velho ‘água com açúcar’, oriundo e marca preponderante de filmes da boa, velha e inesquecível sessão da tarde.

Fazer o bem é para poucos, investigar as verdades da vida é uma missão para todos nós. O Bom Sam pode ter altas análises ou ficar na pura e simples experiência de querer assistir a um filme e só.

Crítica do filme: 'O Bom Sam'


Nunca despreze as pessoas deprimidas. Dirigido pelo ator e também diretor francês Gilles Lellouche, o profundo drama camuflado de comédia Um Banho de Vida, fala sobre um grande mal dos últimos tempos de maneira leve e com uma mensagem muito bonita de como podemos resistir as dores que nos assolam. Usando uma curiosa modalidade esportiva para homens como pano de fundo, uma ótima sacada da equipe de roteiristas, o filme reúne grandes nomes do cinema francês como: Mathieu Amalric, Guillaume Canet, Benoît Poelvoorde,Virginie Efira e Jean-Hugues Anglade.

Na trama, conhecemos o desempregado Bertrand (Mathieu Amalric), um homem de idade já quase avançada que não trabalha faz dois anos e vive desiludido e sem rumo sendo sustentado por sua esposa. Certo dia, após ver um anúncio no quadro de avisos da piscina onde frequenta resolve se cadastrar na equipe de nado sincronizado masculina do local e lá acaba descobrindo outros homens desiludidos e perdidos na vida, cada um com sua história, mas aos poucos o protagonista percebe que aquela é uma chance de um certo recomeço não só para ele mas para todos seus novos amigos.

Falar sobre os conflitos internos não é tarefa fácil para nenhum roteiro. Como há várias portas para se abrirem, o projeto da seu jeito de falar um pouco na superfície (de maneira geral) mas focado mais a fundo no seu protagonista. Os diálogos são ótimos e aos poucos, mesmo com não muitas informações, vamos descobrindo os porquês dos personagens que são iluminados pelo carisma de tantos bons artistas franceses reunidos. Um dos recortes mais profundos mas que fica um pouco de lado na história, é o da treinadora dessa equipe de tristes almas, Delphina, interpretada pelo ótima Virginie Efira. Dentro desse 'consultório aquático', sem dúvidas, você vai rir em algumas cenas mas os momentos de reflexão são maiores, transformando esse singelo filme em uma pequena caixinhas de surpresas que fala sobre o poder que existe quando descobrimos novas razões para nosso viver.

O filme, que estreia no Brasil na próxima 5ª (21.03), foi um sucesso de bilheteria na França, ultrapassando a marca de 4 milhões de bilhetes vendidos, além de 10 indicações ao prêmio César (o Oscar Francês) e também participou do Festival de Cannes de 2018. É uma boa oportunidade para você leitor conferir uma constelação de talentos e um filme que possui uma mensagem bastante importante, principalmente para almas em conflito do lado de cá da telona.

Crítica do filme: 'Um Banho de Vida'


Mãe é mãe em qualquer tipo de situação, extrema ou não. Chega aos cinemas brasileiros na próxima 5ª (21.03), o mais novo trabalho do cineasta Peter Hedges (A Estranha Vida de Timothy Green), O Retorno de Ben. Tendo a curiosidade de dirigir o próprio filho em um dos papéis principais e ao mesmo tempo uma das mais conhecidas e competentes atrizes do mundo, Julia Roberts, Hedges, que também assina o roteiro, faz um recorte muito doloroso de uma família que luta para encontrar as respostas certa para a volta para casa, após estar em reabilitação, de um dos seus membros, o filho mais velho, Ben.

Exibido no prestigiado festival de Toronto no ano passado, O Retorno de Ben conta a luta de uma mãe, Holly (Julia Roberts), que é surpreendida com a volta do filho Ben (Lucas Hedges) para casa antes do tempo que ele tinha para cumprir em uma clínica de reabilitação. A partir da chegada do jovem, uma série de situações caem como consequência, mudando completamente a rotina de toda a família. Holly então parte numa busca desesperada para fazer de tudo para que o filho tenha, de certa forma, uma segunda chance com todos que o rodeia.

O filme começa com aquele simbólico e nostálgico sorriso de Roberts (uma expressão marcante da atriz de 51 anos), mas parece que aquela fração de segundo é o único motivo de sorrir da sofrida personagem. O roteiro foca na relação mãe e filho, detalhando a fé que a personagem de Roberts possui, e os confrontos que ambos travam, entendemos que fora por experiências ruins anteriores de retornos de Ben que não deram certo. Um dos méritos desse poderoso longa é conseguir ir além da superfície na composição dos personagens, além do mais, Julia Roberts e Lucas Hedges possuem um entrosamento que fortalece tudo que é narrado. Ainda sobre a eterna linda mulher, é sem dúvidas uma de suas melhores atuações no cinema, nos sentimos conectados com sua personagem a todo instante.

Um grande paralelo traçamos entre esse e um outro bom filme sobre o tema, Querido Menino onde o foco é mais na relação pai e filho mas com o mesmo problema em tema. São dois filmes que falam sobre o tema importante das drogas, e todo o sofrimento que os personagens passam por ver os filhos sofrerem e também por não saber direito como poder ajudá-los. O cinema tem esse poder de ser conscientizador , de trazer para debate temas importantes de toda nossa sociedade, que, na vida real ou na tela grande, nem sempre tem final feliz.

Crítica do filme: 'O Retorno de Ben'


Sábio é o pai que conhece o seu próprio filho. Com uma interpretação de tirar o fôlego do veterano e excelente ator espanhol Jose Coronado (do ótimo Não Haverá Paz Para os Malvados), está disponível no catálogo da Netflix Brasil o suspense Seu Filho, uma grata surpresa em meio a tantos títulos interessantes nesse streaming. Com um roteiro composto por um cirúrgico plot twist, vamos acompanhando a saga de um pai que pensa ter a família perfeita e sua busca sobre as verdades do seu único filho homem. A força dos personagens é um dos pontos fortes desse intenso filme.

Na trama, conhecemos o dedicado cirurgião Jaime (Jose Coronado), um homem já no terço final de sua vida que costuma ter uma relação muito amistosa com seu filho Marcos (Pol Monen) e um pouco distante com a filha Sara (Asia Ortega). Em uma certa noite, durante um de seus plantões, Jaime descobre que seu filho chegou de ambulância completamente ferido após uma briga em uma boate bastante frequentada no centro da cidade onde moram. O acontecimento mexe demais com o protagonista que começa uma investigação por conta própria o que o leva a limite mental e emocional que desdobrarão consequências para ele e o restante de sua família.

O thriller camuflado de drama vem com aquela pegada de todo bom filme espanhol dos últimos tempos. Intenso, impactante, sem previsões ou achismos de como termina as consequências em que se metem os personagens. Há um mistério correndo envolta de Jaime, isso o atormenta, entra em conflito com tudo e todos e busca de sua própria verdade, ou pelo menos a interpretação que deseja para o que aconteceu. Nem tudo é o que parece ao longo dos 103 minutos de fita. A atuação de Jose Coronado é o alicerce, um ponto cheio de clímax e repleto de intensidade, nossos olhos não conseguem desgrudar em descobrir pela ótica do protagonista o que realmente aconteceu naquela noite.

Os arcos são bem definidos, mesmo que aja um aceleramento descompassado no último, talvez fruto de uma história cheio de detalhes que precisa ser contada em menos de duas horas. O roteiro consegue extrair dos personagens toda a força que é preciso para nunca se perder o ritmo dessa reflexiva história que fala sobre o amor de pais e filhos e até onde é a linha tênue entre a razão e a emoção do argumentar ao favor de quem é próximo de nós.

Crítica do filme: 'Seu Filho'


Uma vez Rocky, sempre emoção. Tentando dar seguimento a uma espécie de reboot à clássica história do saudoso e inesquecível garanhão italiano, personagem emblemático de Sylvester Stallone nas telonas, Creed 2 ainda com fios de laços com a história de Rocky, foca na família e nas escolhas do passado para entendermos melhor o protagonista, filho do eterno Apollo Creed. Reunindo um competente elenco, um ou outro vacilo no andamento do roteiro mas tentando manter a força dramática dos outros filmes do qual é oriundo, o cineasta Steven Caple Jr, que assina a direção (esse é apenas o segundo longa dirigido por ele) faz o básico e busca manter a força dos personagens mas sem o carisma de outrora.

Na trama, voltamos a encontrar o jovem lutador de boxe profissional Adonis Creed (Michael B. Jordan) que por anos se manteve distante da história de sua família para tentar trilhar uma carreira de sucesso sem comparações. Mas tudo isso fica em cheque quando um polêmico organizador de lutas vai até a mídia e faz pressão para Adonis lutar contra o filho do lutador que matou seu pai Apollo, o boxeador russo Ivan Drago (Dolph Lundgren). Assim, tentando driblar a força do destino e com a ajuda de seu mentor, treinador e amigo Rocky Balboa (Sylvester Stallone), o protagonista deverá enfrentar mais esse complicado desafio.

A vantagem de ter tido tantos filmes sobre Rocky se mostra claramente na elaboração de novas ideias e caminhos para que essa chama nunca se apague. Com uma veia dramática forte e diversas portas a se abrirem, Creed 2 cresce nas telas como um paralelo a nostalgia, tentando a cada linha de roteiro ter uma personalidade própria. Mas mesmo com todo esforço, assim que aparece Rocky e suas lembranças bem distantes é onde o filme cresce e milhões de espectadores aguardam ansiosamente pela música clássica dos outros longas. A narrativa é progressiva, as cenas de lutas são ótimas, os atores muito competentes. Os arcos familiares são bons e se tornam o novo pilar dessa grande antiga nova saga.

Estimado em cerca de 50 milhões de dólares, o filme deve arrecadar muito mais que o dobro nas bilheterias mundiais. Mesmo não conseguindo se desvincular de uma sessão nostalgia mesmo buscando novos arcos com os novos personagens, Creed 2 vale a pena. Uma vez Rocky, sempre emoção.

Crítica do filme: 'Creed 2'


De repente do riso fez-se o pranto. Marcando a estreia do ator Paul Dano como roteirista e diretor, Vida Selvagem é um retrato meticuloso e detalhista sobre uma família que conhece o início, o meio e o fim de uma relação e de que forma o único filho de um casal reage a todas essas mudanças. Filme de abertura da Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2018, o projeto é baseado no livro Wildlife, de Richard Ford.

Na trama conhecemos Jerry (Jake Gyllenhaal) e sua esposa Jeanette (Carey Mulligan), um casal de classe média baixa que mora em uma cidadezinha de Montana em meados dos anos 60. O Casal possui um único filho, Joe (Ed Oxenbould), e muito pela ótica desse personagem que vamos acompanhando o casamento dos pais ir do céu ao inferno, culminando em uma separação dolorosa onde mudanças acontecerão para marcar a vida de todos os envolvidos.

O raio-x do casal é a chave para entendermos tudo que se desenrola e as escolhas que são tomadas ao longo da projeção. Jerry é um ajudante em um campo de golf, deveras acomodado, que após ser demitido entra em uma espécie de depressão egoísta não lutando por um novo emprego e resolvendo se juntar a uma brigada de homens que estão tentando apagar um incêndio florestal, abandonando por um período sua família. Jeanette, interpretada pela ótima Carey Mulligan, é uma dona de casa amorosa que faz e tudo para entender as decisões de seu fracassado marido, quando desperta para a vida bate a decepção e tristeza, descobre tentações, e luta de todas as formas de conseguir se manter sem precisar de ninguém, mesmo que para isso tenha que abdicar de todos ao seu redor.

Vida Selvagem, participante também do Toronto International Film Festival em 2018 e do Festival do Rio do ano passado, é um filme reflexivo sobre o despertar para vida e sobre escolhas. As decisões que precisamos tomar para um bem coletivo as vezes fere nossos ‘quereres’ individuais. O filme, ainda sem previsão de estreia no Brasil, é um saga pelo caminho da melancolia, até um porto seguro de satisfação. Tudo isso ao olhos do filho que também luta para que seus dias sejam mais felizes. Belo trabalho, não percam!



Crítica do filme: 'Vida Selvagem'


A insanidade em busca de uma certa redenção. Existe filmes que conseguem provocar uma grande atmosfera, um clima tenso mesmo que seu roteiro passe longe da perfeição. Com enigmáticos personagens praticamente escondidos em um hotel peculiar no meio do nada, Maus Momentos no Hotel Royale é um suspense insano, repleto de figuras complexas, cada qual com seu objetivo. Ao longo das quase duas horas e meia de projeção, somos testemunhas de atos violentos, peças que vão se juntando aos poucos em um tabuleiro macabro de ganância e egoísmo.

Na trama, ambientada décadas atrás, conhecemos sete figuras desconhecidas que acabam indo parar no mesmo hotel em um certo dia. Cada um deles tem muita coisa a esconder e acaba parando nesse lugar, alguns por acaso e outros com a direção correta, para ir atrás do seus respectivos objetivos. Mas, por armadilha do destino, esses complicados personagens acabam invadindo os objetivos uns dos outros, transformando uma noite em uma batalha pela sobrevivência, onde não existe o bem nem o mal.

Segundo longa dirigido pelo cineasta Drew Goddard, o primeiro foi O Segredo da Cabana, Bad Times at the El Royale, no original, é um thriller instigante mesmo que seu roteiro se prolongue em alguns atos e deixando apenas migalhas na compreensão de alguns dos objetivos de seus enigmáticos visitantes do hotel royale. A direção é extremamente competente, elegante, mostra a violência nua e crua através dos atos de seus personagens, que possui a interseção de não terem nada a perder. Jeff Bridges, Dakota Johnson, Jon Hamm, Chris Hemsworth e até mesmo o genial menino prodígio da direção Xavier Dolan estão no ótimo elenco. Mesmo com esses bons nomes do atual cinema mundial, quem se destaca é a atriz britânica Cynthia Erivo (que você pode assistir no ótimo Viúvas), sua personagem rouba a cena em muitos momentos.

Mesmo com muitos pontos positivos, mas após ter uma recepção fraca nas bilheterias norte-americanas, Maus Momentos no Hotel Royale, teve sua estreia nos cinemas, primeiro adiada, depois cancelada no Brasil. Para um filme chegar no concorrido circuito exibidor brasileiro, concorrido porque temos pouquíssimas salas pelo tamanho de nosso imenso país, algumas distribuidoras fazem grandes análises para saber se vale a pena entrar ou não com o filme no circuito. Uma pena, esse filme merecia pelo menos uma chance.

Crítica do filme: 'Maus Momentos no Hotel Royale'


Depois de devastar nossos corações cinéfilos com o drama Alabama Monroe, o cineasta belga Felix van Groeningen volta a atingir em cheio nossas emoções com seu novo trabalho, Querido Menino. Baseado nos livros Querido Menino, de David Sheff, e Tweak: Growing up on Methamphetamines, de Nic Sheff, o filme preenche a maioria das lacunas sobre o sentimento de um pai em busca de uma solução para os problemas de drogas do filho. Em atuações cativantes e dignas de Oscar, Timothée Chalamet e Steve Carell formam filho e pai nesse projeto importante também para mostrar essa realidade, para alguns distante para outros nem tanto, do desespero emocional que passa não só a pessoa que possui problema com drogas mas também todos que estão ao seu redor.

Na trama, conhecemos David Sheff (Steve Carell), um homem de meia idade, bem sucedido em sua profissão pai amoroso que vive em uma casa confortável com sua atual esposa Karen (Maura Tierney). David é pai de Nick (Timothée Chalamet) um jovem que com o passar do tempo começa a ter sérios problemas com as mais diversas drogas que existem. Ao longo de uma passagem de tempo, vamos acompanhando David, suas lembranças, e principalmente sua busca em encontrar alguma solução para esse problema complicado que o filho passa.

O roteiro, baseado nos livros de pai e filho que são os personagens principais da trama, é um grande vai e vem entre recordações, solidão, desespero, medo e muitos outros sentimentos conflituosos que chegam como uma flecha principalmente para David. Ao longo de um pouco mais de duas horas de duração, conseguimos enxergar a situação de Nick através não só dos olhos de seu pai, mas também de sua madrasta (mãe de seus outros dois irmãos pequenos), e de sua mãe que mora em outra cidade. Em busca de alternativas para curar esse sofrimento que paira sobre a família, principalmente David embarca em uma jornada de redescobertas, estudo e desabafo mesmo quando suas forças para lutar estão limitadas.

Há uma carga de emoção muito grande em tudo que vemos nesse filme, Van Groeningen já mostrou que sabe como nos atingir desse lado daqui da tela, sua maneira de filmar te embarca para dentro daqueles cenários, aquelas conversas, que mais difícil que possam parecer, tem o poder também de conscientizar. Querido Menino não é um filme fácil, toca bem forte nossos corações. É um forte e marcante filme. Uma grata surpresa desse ano que está começando. Inacreditavelmente não ganhou uma mera indicação ao Oscar nas principais categorias desse ano mas de que importa? Sabemos que Oscar é uma grande politicagem. Não deixem de conferir esse belo trabalho.  

Crítica do filme: 'Querido Menino'


Há limites para um filme ruim. A primeira regra que você aprende quando vai escrever sobre filmes, sendo crítico de cinema, blogueiro ou qualquer coisa parecida com isso é não se manifestar positivamente ou negativamente de forma calorosa sobre uma obra. Mas, paciência tem limites! Parque do Inferno, subtópico do terror, slasher, é a junção de uma fraca direção com os clichês mais manjados do universo do cinema. Segundo longa do diretor Gregory Plotkin, o primeiro foi Atividade Paranormal 5 - Dimensão Fantasma, o projeto teve seu lançamento nos cinemas brasileiros no fim do ano passado.

Na trama, conhecemos Natalie (Amy Forsyth), uma jovem que volta a um lugar onde passou boa parte de sua vida e reencontra seus melhores amigos em busca de diversão. Assim, na noite de Halloween, a protagonista e seus amigos acabam indo parar em um louco parque temático voltado ao terror e acabam sendo perseguidos por um maníaco mascarado. Os inúmeros pedidos de socorro acabam caindo por terra pois, como o parque é temático, há muitos mascarados e atores interpretando personagens macabros. Assim, Natalie e seus amigos, quando percebem o real perigo precisam escapar das garras do assassino com suas próprias maneiras.

Quando você lê a sinopse desse filme, parece que algo diferente assistiremos. Principalmente quando lemos sobre a alienação de uma multidão em torno de graves acontecimentos, focar nisso, nessa abaixada de guarda quanto a atenção e aos perigos poderia ser um triunfante caminho. Mas em Parque do Inferno, cinema pipoca de verdade, a busca pelos pontos positivos ficam escassos. Desde seus arcos confusos, até a reunião de todos os clichês possíveis de filmes do gênero, atuações caricatas, direção fraca e linhas de roteiro sonolentas. É um entretenimento descartável que nos faz perder boas maratonas de ótimos filmes do gênero em canais de streaming por exemplo.

A boa notícia é que o filme tem apenas 89 minutos. Não espere tentar descobrir quem é o assassino (talvez numa futura continuação por conta do final aberto), se surpreender com frescores de ideias para filmes de terror etc. Mas óbvio que se você curte o gênero, faça sua pipoca, reúna os amigos e tente se divertir. Porém, lembro, há bem melhores filmes parecidos por aí.

Crítica do filme: 'Parque do Inferno'


Um olhar vale mais que mil palavras. Baseado no livro homônimo, de James Baldwin, publicado no início da década de 70, Se a Rua Beale Falasse, novo trabalho de Barry Jenkins mesmo diretor e roteirista de Moonlight - Sob a Luz do Luar, que conquistou Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado em 2017, possui arcos bem definidos (mesmo que alguns um pouco cansativos), sugere idas e vindas em torno do problema em que um dos personagens centrais é colocado. Mas o roteiro é muito mais sobre uma prisão feita de maneira equivocada, é sobre a importância do amor e também sobre todo um contexto social que reflete em um país que não conseguiu se desprender por completo do ódio racial.

Na trama, conhecemos uma carinhoso e carismático homem chamado Fonny (Stephan James), um artesão que vive sua vida para sua namorada e eterna amiga Trish (KiKi Layne). Certo dia, após ser confundido pela polícia, é acusado de um crime terrível e acaba parando na prisão. Sem medir esforços, Trish e sua família, correm desesperadamente para provar sua inocência. O tempo passa e muitos obstáculos pelo caminho o casal enfrenta. A belíssima trilha sonora dita o ritmo desse história forte e profunda.

Indicado ao Oscar desse ano nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado (Barry Jenkins), Melhor Atriz Coadjuvante (Regina King) e Melhor Trilha Sonora, Se a Rua Beale Falasse é repleto de críticas a sociedade norte americana, a obra se torna atemporal tamanha a força nos argumentos e nos emblemáticos diálogos repletos de emoção. O modo como foi filmado é belo, enquadramentos no rosto dos personagens, a busca pelos detalhes nas expressões, fazem o espectador se conectar com toda a narrativa que se segue. Destaque na atuação vai para a sempre excelente Regina King que rouba todas as atenções sempre que em cena.

A questão da fé e suas nuâncias caminham com os personagens a todo instante do início ao fim. O mais impactante é o contexto aos olhos da mãe de Fonny, uma mulher perturbada que não apoia a relação do filho com Tish. Em uma das sequências mais marcantes do filme, logo em seu primeiro arco, na reunião familiar entre as duas famílias para contar uma novidade, somos surpreendidos por pensamentos repleto de rancor e tristeza feitas por essa personagem. Colocar na mão de Deus as batalhas que temos que travar aqui na Terra em busca de justiça é no mínimo uma linha tênue entre o aceitar e o lutar.

Há um ar de desilusão, medo, indignação. Quando o momento ruim acabará? Porque o medo corrói nossos pensamentos? O filme navega de maneira lenta e repleta de detalhes por dentro dos sentimentos de todos ao redor do casal. O amor deles ganha lindas cenas, sendo apresentado desde seu início, preenchendo os minutos de projeção como se fossem o background de todo o problema que Fonny e Trish passam após a prisão do primeiro.

Para assistir a esse belo trabalho, que foi um dos filmes exibidos no Festival do Rio do ano passado, nos cinemas, você pode ter alguma dificuldade. Uma pena a distribuidora do filme no Brasil lançar esse projeto em tão poucas salas e tão poucas cópias, é um filme importante que merecia um circuito mais amplo.

Crítica do filme: 'Se a Rua Beale Falasse'