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29/12/2025

Crítica do filme: 'Uma Vida de Esperança'


Os milagres acontecem, mas é sempre bom termos pessoas que nos conduzem até eles. Preenchendo a tela com superações morais e com a fé atravessando seu roteiro, o longa-metragem Uma Vida de Esperança nos coloca de frente com o luto e, ao mesmo tempo, a necessidade de sermos uma fortaleza, a partir de um protagonista que enfrenta tempestades em forma de tragédias.

Com filmagens no Canadá (Winnipeg) e nos Estados Unidos (Albany), o projeto, ambientado em meados da década de 1990, tem uma fácil compreensão quando pensamos em sua estrutura narrativa – que não se arrisca, seguindo a cartilha da maioria dos filmes sobre superação –, com atalhos usuais e uma base linear que provoca essa assimilação rápida. Inspirado em uma história real, a obra se constrói em torno de uma ideia solidária, batendo nessa tecla com frequência para gerar mensagens positivas, algo que se mostra como o grande objetivo do projeto.

Ed (Alan Ritchson) é um pai e marido amado. Quando a esposa parte precocemente, o tempo passa e uma de suas filhas é diagnosticada com uma doença que exige um transplante urgente. Com as conta hospitalares e custos diários aumentando, entra em sua vida Sharon (Hilary Swank), uma cabelereira com marcas no passado e por seus problemas com o alcoolismo. Sensibilizada pela situação da família de Ed, Sharon vai atrás de soluções, se tornado peça-chave de alguns milagres.

Mãos dadas são mais firmes do que qualquer caminhada solitária. Da superação moral à fé – esta colocada à prova de muitas formas – nossos olhos estacionam, na maioria parte do tempo, na personagem Sharon (interpretada pela duas vezes vencedora do Oscar, Hilary Shank), grande força motriz da história. Achando um propósito ao ler no jornal uma notícia, parte ao encontro de algo que dá significado para sua trajetória – marcada pelo vício, que a afastou de muitas pessoas, incluindo seu único filho. Essa história de superação, a partir do fazer o bem, é um exemplo das já mencionadas mensagens positivas que o filme se propõe a transmitir.

Uma Vida de Esperança, mesmo em um sua forma simplista e direta na definição dos conflitos, encontra algumas camadas pelo caminho, chegando inclusive na transmissão da emoção de forma intensa em seu clímax. Esse é um filme para ser sentido, entrega lindas mensagens, mas recorre ao habitual quando pensamos em sua estrutura dramática. 

 

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18/12/2025

Crítica do filme: 'Fuga Fatal'


É sempre bom acharmos alguma obra que busca, no sombrio dos atos inconsequentes, reflexões sobre relações próximas marcadas pela falta de oportunidades. Em Fuga Fatal, novo filme disponível no Prime Video, dirigido por Nick Rowland, nos deparamos com uma história cruel em muitos sentidos: um reencontro forçado entre pai e filha, ambos marcados como alvos por uma organização movida à ideologias de intolerância e preconceito. Ao romper camadas através de um estremecido vínculo, a narrativa nos convida para um caminho de tensões e de um amadurecimento precoce.

Nesse forte drama, com altas doses de ação e violência, conhecemos Nathan (Taron Egerton), que, por conta de suas escolhas erradas, passou longos anos na prisão. Quando consegue sair, é perseguido por uma gangue da qual se tornou inimigo durante o encarceramento e logo percebe que sua família também virou alvo. Com a ex-mulher assassinada, ele corre para proteger Polly (Ana Sophia Heger), sua filha, com que teve pouco contato até então. Juntos, os dois embarcam em uma jornada para fugir dos criminosos, enquanto tentam se reaproximar.

Baseado no livro She Rides Shotgun, do autor norte-americano Jordan Harper, o filme lança uma lupa na relação pai e filha sem cair em muitos clichês, apresentando de forma visceral as consequências de escolhas. A construção narrativa é moldada por cenas de alto impacto, que detalham a frieza e remete à julgamentos desconfortáveis, nos quais a ambiguidade moral é despejada na tela através de mais de um personagem. Vamos caminhando até o desfecho com a certeza de que muitas reflexões serão acessadas mesmo após o fim.

E há espaço para uma leitura sobre o amor? Como transmitir o forte vínculo familiar presente em meio um mar de sangue e inconsequências? É em pequenas cenas que o filme constrói seus grandes momentos, tendo a perda da inocência como alicerce. Com as verdades ficando cada vez mais inevitáveis e a necessidade de sobreviver ultrapassando a ingenuidade da idade, a jovem tímida - muito bem interpretada por Ana Sophia Heger - logo vira uma sobrevivente, adaptando-se a uma situação alarmante: aprender a lidar com as consequências das ações provocadas pelo pai.

E esse pai, interpretado pelo competente Taron Egerton, entra em sua jornada de redenção bastante consciente do que provocou àqueles que deveria proteger. O desenvolvimento desse personagem chama bastante a atenção ao colocá-lo em uma condição narrativa fácil de se captar: a de um vilão agindo como herói, em uma complexidade moral que expõe ao público constantes questionamentos sobre suas atitudes.

Fuga Fatal se apresenta mais complexo que parecia. Consegue prender a atenção ao acompanhar de perto personagens intrigantes que avançam para um mar de desconforto e amadurecimento, chegando nos limites frágeis do eticamente questionável e do que é justo ou injusto.

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Crítica do filme: 'Diga-me Baixinho'


Um coração, dois amores. Mesclando o drama e o romance com toques de suspense, explorando fases da vida de alguns jovens entrelaçados por uma situação do passado, a nova série do PRIME VIDEO, Diga-me Baixinho, avança pelo melodramático para recortar o choque entre a culpa, a paixão e o perdão. O projeto, logo após sua estreia, alcançou o Top 1 da plataforma.

Baseado em uma obra da escritora argentina Mercedes Ron – o primeiro livro que faz parte de uma trilogia - o projeto se projeta em cima de uma premissa: não há soluções fáceis para o amor, avançando em uma fórmula desgastada para fisgar o público mais jovem, naquela linha de Elite, ou mesmo das antigas One Tree Hill e The O.C. Notem que encontrei o paralelo com séries que tiveram longas temporadas para se desenvolver, mas a receita é a mesma – até porque uma trilogia provavelmente nos aguarda.

Kami (Alícia Falcó) é uma jovem popular do ensino médio em uma escola de elite. Sempre rodeada pelas amigas mais próximas, vê seu castelo de cartas da perfeição ruir quando os irmãos Di Bianco - Taylor (Diego Vidales) e Thiago (Fernando Lindez) - retornam à cidade após um acontecimento trágico ocorrido há pouco menos de uma década. Antes muito ligada a eles e agora sem saber o que acontecerá, Kami embarca em uma jornada de escolhas e paixões, buscando se desprender dos traumas do passado.

O roteiro empurra suas revelações para um ‘gran finale’, ficando à mercê de uma narrativa dosada e com clima de tensão, que por vezes escorrega em soluções convenientes. Um fato que ajuda é a utilização do flashback para ajudar a construção dramática e desenvolvimento dos personagens, revelando algumas camadas - ligando o passado ao presente. Nesse princípio narrativo de causa e efeito, uma atmosfera com sensação constante de tensão busca explorar temas como sexualidade, a traição, o luto e a tragédia.

Com filmagens realizadas em Barcelona, Santiago de Compostela e em outras localidades da Espanha, Diga-me Baixinho é mais uma história de drama adolescente que não foge do comum e que ainda possui um final aberto, dando margem a interpretações. Ainda se completará e, torcemos, explorará as consequências das ações de seus pouco carismáticos personagens com mais eficiência.

 

 

 

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18/11/2025

Crítica do filme: 'Um Dia Fora do Controle'


Tem filmes tão ruins que, às vezes, é difícil até saber como começar um texto sobre eles. Com um roteiro sem pé nem cabeça, buscando desenvolver - de forma atabalhoada e sem coerência - conflitos entre gerações de pais e filhos, esse novo longa-metragem que chegou ao Prime Video é um festival de cenas surreais que flertam com o machismo e reforçam estereótipos em ações e atitudes. Um show de horrores ao longo de 93 minutos de projeção.

Brian (Kevin James) é um homem de meia idade que tenta construir um bom relacionamento com seu enteado, Lucas (Benjamin Pajak). Quando é demitido do emprego, passa mais tempo com o jovem, e um dia encontram por acaso com Jeff (Alan Ritchson) e seu suposto filho, CJ (Banks Pierce). Mal eles sabiam que esse encontro proporcionaria 24 horas de total loucura, quando passam a ser perseguidos junto aos novos conhecidos.

Avançando numa fórmula que mistura comédia que busca o riso rápido com pitadas nada generosas de uma ação descontrolada - quebrando a expectativa do público ao abraçar o non-sense - o projeto dirigido por Luke Greenfield, com roteiro escrito por Neil Goldman,  Um Dia Fora do Controle é também um mergulho sem fôlego na paternidade socioafetiva, mas se perde rapidamente nas próprias ideias.

Com personagens mal construídos, um roteiro tenebroso e distante de qualquer lapso de realidade – o que afasta qualquer tentativa de reflexão –, além de diálogos piegas aos montes, incluindo um entre os dois adultos refletindo sobre o passado e vivências é de tirar completamente a paciência. Beira ao inacreditável um roteirista de mão cheia como Neil Goldman – responsável por ótimos trabalhos no mundo das séries como Falando a Real, Community e Scrubs, assine um roteiro tão ruim e completamente sem noção.  

Mas você pode dizer: ‘Ah tá! Mas é um filme pra divertir!’. Então espere até ser surpreendido, do nada, pelos análogos genéticos que começam a surgir na trama - ou pelos clichês que tornam tudo tão excessivamente artificial. Sem dúvidas, Um Dia Fora do Controle é um dos filmes mais desinteressantes que chegou aos streamings neste ano.

 

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Crítica do filme: 'Belén: Uma História de Injustiça'


Abrindo espaço para discutir questões importantes, como a criminalização de uma tragédia – reascendida na Argentina por conta de um caso ocorrido anos atrás que marcou as manchetes - o indicado do nosso país vizinho ao próximo Oscar, Belén: Uma História de Injustiça, nos mostra o encontro doloroso entre a injustiça e a falta de compaixão humana.

Dirigido e protagonizado por Dolores Fonzi, baseado no livro Somos Belén, de Ana Correa, esse é um daqueles filmes importantes, com muitas reflexões sociais que alcançam questões sensíveis e vulnerabilidades profundas. Como os assuntos abordados são impactantes, abre-se camadas complementares, como a estigmatização social e o controle jurídico – e também moral – sobre as decisões de pessoas que procuram as unidades de saúde com questões relacionadas à gravidez.

Inspirado em uma história real, conhecemos a história de uma jovem que, após dar entrada na emergência de um hospital na cidade de Tucumán e sofrer um aborto espontâneo, é injustamente acusada e presa. Depois de passar anos na prisão, a advogada Soledad Deza (Dolores Fonzi) resolve ajudá-la, começando uma intensa luta por justiça e mobilizando uma forte rede de apoio.

A trama é bem estruturada dentro da narrativa – bastante direta e sem complexidades -, um fator importante para que as mensagens cheguem com mais força ao público. De um sistema judiciário tendencioso da época de algumas cidades na Argentina – que distorcia qualquer imparcialidade – às questões morais envolvidas na situação, vamos conhecendo uma história repleta de dor e sofrimento que toca profundamente.  

Com essa estrutura simples, que abre espaço para importantes questões circularem com clareza e profundidade, o longa-metragem exibido no Festival do Rio 2025 e que chegou nesta semana no Prime Video, Belén: Uma História de Injustiça, nos mostra os detalhes do preconceito e os absurdos da criminalização de uma tragédia. Uma obra marcante que usa um tema social silenciado para dar voz a muitas mulheres.

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12/11/2025

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Pausa para uma série: 'Tremembé'


Não era algo fácil trazer para a ficção uma série de histórias marcantes em nossa sociedade, que tem como elo um presídio que ficou bastante conhecido do público. Das polêmicas aos curiosos fatos expostos, que buscam construir através de escolhas narrativas um complicado quebra-cabeça moral passando pela maldade de crimes bárbaros que chocaram a todos nós, chegou ao Prime Video, nesse final de ano, uma das séries mais aguardadas de 2025: Tremembé.

Com um total de cinco episódios – todos lançados no mesmo dia - que se iniciam mostrando alguns dos mais famosos crimes dos últimos tempos, oferecendo uma parte introdutória para contextualizar o foco de determinado capítulo, acompanhamos transtornos de personalidades e de comportamento, violência e manipulação, além de outras perspectivas sobre fatos de forte impacto emocional, que logo ganharam o sensacionalismo através de parte da mídia.    

Suzane von Richthofen, Daniel Cravinhos, Christian Cravinhos, Anna Jatobá, Alexandre Nardoni, Elize Matsunaga são nomes que estamparam páginas dos jornais, envolvidos em crimes chocantes. Poucas pessoas não sabem quem eles são. Esses são alguns dos personagens que tem seu tempo de prisão em Tremembé expostos, seja em disputas de poder ou relações amorosas, passando por questões políticas, a repercussão pública e pelos calcanhares de aquiles do sistema penitenciário. Isso tudo, tendo o presídio dos famosos funcionando como outro importante personagem, pelo peso igual a qualquer personagens mencionado, fugindo de meramente um pano de fundo.

O projeto, baseado nas obras Elize Matsunaga: A mulher que esquartejou o marido e Suzane: assassina e manipuladora, ambas escritas pelo ótimo jornalista Ulisses Campbell, busca tornar-se atraente para o público explorando elementos de fluidez narrativa. Ao longo dos episódios, as surpreendentes histórias daquele lugar proporcionam uma espécie de desafogo, mas acabam fazendo o roteiro se embolar no propósito do discurso.

A quebra de tensão é um dos grandes problemas dessa narrativa, um tiro que sai pela culatra. Ao tentar criar os contrates das inquietações que se seguem, acaba dando margens interpretativa ligadas à romantização de situações. Um exemplo disso é a trilha sonora, mirando na linguagem pop, um fator que acaba tendo um certo peso na narrativa, com músicas que marcam a chegada de determinados personagens, fugindo das tensões implícitas de todo um contexto.

Com direção geral de Vera Egito, vale uma menção ao ótimo elenco com destaque para Letícia Rodrigues, Kelner Macêdo, Carol Garcia e Marina Ruy Barbosa, simplesmente sensacionais - que realiza um excelente trabalho nessa grande produção, muito aguardada pelos fãs de True Crime. A questão em torno dessa obra sempre será as interpretações do seu discurso e a forma como apresenta sua narrativa: algumas pessoas vão gostar, outra nem tanto. Mas uma coisa é certa: você não pode deixar de assistir e tirar suas próprias conclusões.

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04/11/2025

Crítica do filme: 'O Amigo'


Percorrendo os caminhos lacrimosos da melancolia, chegou sem muito oba oba no Prime Video um filme que toca profundamente nossos corações. Através do luto e das surpresas que a vida apresenta, O Amigo consegue ampliar horizontes das razões existenciais em uma narrativa que combina a solidão dos momentos difíceis com a abertura de uma nova porta de oportunidade: a de viver sem esquecer.

Dirigido por Scott McGehee e David Siegel, o projeto também abre espaço para um olhar familiar nas relações interpessoais e sobre a maneira como enxergamos a compaixão dentro de um existencialismo construído de forma única por cada ser humano. Mas o ponto principal é a relação entre uma protagonista em crise e um cachorro apaixonante que só tem tamanho - o elo que move as correntes para as emoções. 

Baseado em um livro homônimo da escritora nova-iorquina Sigrid Nunez, nessa obra acompanhamos a história de Iris (Naomi Watts), uma escritora que acaba de perder seu amigo e mentor, o professor Walter (Bill Murray). Para sua surpresa, logo após o funeral, descobre um desejo dele: que ela ficasse com seu cachorro, Apolo – algo que vira sua vida do avesso.

Do luto aos seus desenrolares, sem se desprender de um estado de tristeza contemplativa – expressa em gestos, atitudes e palavras -, esse é um filme que diz muito sobre nós, seres humanos: as prioridades, os erros, os acertos, as diversas formas de dizer adeus. Com esse roteiro cheio de camadas profundas, a narrativa encontra ritmo em meio à melancolia, conduzida por ótimos personagens em total harmonia.

Pelos olhos de uma protagonista muito bem interpretada pela excelente atriz Naomi Watts, entramos numa jornada que vai do lembrar ao sentir, colocando pedaços a serem construídos de um futuro que passa por um presente com definições importantes. Alguns diálogos da protagonista são memoráveis, com grande impacto em cena, o principal deles, já no desfecho ao lado de Bill Murray – cirúrgico no papel, com pouquíssimo tempo de tela – provocam contrastes que se completam numa dicotomia entre a morte a vida, fechando uma história pra guardar no coração.  

 

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27/10/2025

Crítica do filme: 'Eden'


O que fazer para ser forte e sobreviver numa utopia? Trazendo ao epicentro dos conflitos personificações filosóficas e correntes que se cruzam em busca do novo, o novo trabalho do vencedor do Oscar Ron Howard volta até o início dos anos 1930, apresentando uma história - inspirada em relatos reais de quem sobreviveu – na qual as virtudes e os deslizes andam lado a lado, se entrelaçando as razões da existência.

Entre as estações do ano, a narrativa, bem construída e com poucas pontas soltas, apresenta uma legenda inicial suficiente para entendermos todo o contexto que se destrincha no recorte existencial. Vai da selvageria, nada distante da moral, à esperança - um choque entre o ideal e a realidade que se apresenta nua e crua, com respingos da crueldade humana.

Com a primeira guerra mundial destruindo economias em toda Europa, o casal Heinz (Daniel Brühl) e Marget (Sydney Sweeney) resolve abandonar tudo e se mudar para uma ilha distante no arquipélago de Galápagos, um lugar quase inabitável. Eles chegaram até ali a partir de relatos e ideias do médico Ritter (Jude Law), que vive no local com a esposa Dore (Vanessa Kirby). Ao longo dos meses, passarão por situações alarmantes, nas quais o respeito e a interpessoalidade são dribladas pelos instintos e seus propósitos (essência humana corrompida), principalmente após a chegada de uma baronesa (Ana de Armas), que deseja construir um hotel no lugar.

Há muitos pontos interessantes para analisar nesta obra. Da filosofia radical à reflexão da humanidade e seus propósitos -  dentro de um contexto sobre a essência humana corrompida – caminhamos por um olhar sociológico sobre a interpersonalidade. Princípios criados e corrompidos, inseridos em um ideal distante que sugere a possível harmonia e pureza de um novo Eden, constituem a força de um roteiro que bate na tecla do valor e significado da vida.

A maldade, a ingenuidade, o ser humano e o egoísmo, são quatro elementos que se juntam em perspectivas divididas entre personagens que, de alguma forma, representam um ideal. Independentemente do olhar com que observamos, o outro se transforma em uma incógnita, guiado pelo espírito de sobrevivência na iminência das ações, e ambos chegam ao mesmo desfecho: uma dita ‘democracia’ com as mãos sujas de sangue – nada muito diferente do mundo que os protagonistas buscavam fugir.

Com ótimas atuações de um elenco estelar, Eden traz diversas reflexões sobre o ser humano em um cenário inusitado, que foi o palco real de uma história comovente.

 

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19/10/2025

Crítica do filme: 'Zoe, minha amiga Morta'


Totalmente focado em detalhar os caminhos de aflição de uma pessoa com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), o projeto Zoe, minha amiga Morta, que chegou recentemente ao catálogo do Prime Video, nos mostra uma jovem ex-militar perturbada pelo fantasma de uma amiga falecida. A partir do trauma de uma situação, percorremos os choques emocionais promovendo bons debates sobre saúde mental.

Dirigido por Kyle Hausmann-Stokes, em seu primeiro longa-metragem, o filme busca, por meio de seu roteiro, conectar todos os pontos de um diagnóstico que atinge milhares de pessoas ao redor do mundo. Do psicológico ao social, passando pelas fragilidades do estado de bem-estar até os sinais de alerta quando o descontrole se manifesta, o abismo profundo sobre o assunto é colocado para reflexões.

Merit (Sonequa Martin-Green) trabalhou durante muitos anos como mecânica em unidades militares. Durante o tempo que serviu ao exército, desenvolveu uma amizade profunda com Zoe (Natalie Morales). No presente, Merit enfrenta inúmeros conflitos provocados por situações que lhe causaram forte estresse. Buscando encontrar soluções para sua saúde mental e se reaproximando do avô – em fase inicial de Alzheimer – ela embarca em uma jornada de descobertas e enfrentamento dos medos.

O projeto busca realizar algo que pode ser bem complicado quando pensamos em narrativa: ligar um acontecimento trágico do passado – sem revelações iniciais, apenas sugestões - a questões incômodas do presente. Essa junção de elementos ganha força a partir de lembranças vívidas, em forma de flashbacks, mas que estacionam em muitos momentos na melancolia da introspecção, mesmo fazendo sentido pela culpa e o medo que destroem qualquer fortaleza.

Preparando o terreno para o seu iminente clímax, o filme segue em um ritmo dosado, através de um humor triste – entre o doloroso e o cômico -  percorrendo detalhes da intimidade de uma forte amizade, ponto inicial para o desenvolvimentos dos personagens. Falando em personagens, além das duas boas atuações das protagonistas, em papéis complexos e executados com interpretações comoventes e sólidas, os dois coadjuvantes interpretados pelos experientes Morgan Freeman e Ed Harris também chamam a atenção.

Zoe, minha amiga Morta através de uma história que pode encontrar paralelos com muitas outras, de forma envolvente, nos leva para reflexões sobre o universo muitas vezes silencioso da saúde mental.

 

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25/08/2025

Crítica do filme: 'O Mapa que me Leva até Você'


Com seus quase 80 anos de idade – muitos deles dedicados à sétima arte e marcado com três indicações ao Oscar – o cineasta sueco Lasse Hallström já nos proporcionou emoções diversas: de excelentes filmes a outros um tanto sonolentos. Diretor de Sempre ao seu Lado, Regras da Vida, Chegadas e Partidas e Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador, o experiente artista lança agora seu novo trabalho direto no Prime Video: O Mapa que me Leva até Você. E olha... que decepção!

Com uma trama que se desenrola dentro da já conhecida ‘receita de bolo’ das histórias de amor – superficiais e apressadas – o filme caminha a passos largos para uma espécie de sessão de autoajuda. Baseado no livro do professor de inglês e escritor Joseph Monninger – falecido no primeiro dia de 2025 –, o projeto tenta se impor, em seu discurso, a ideia de ‘viver o presente’. Essa proposta, no entanto, acaba refletindo na narrativa como uma corrida desenfreada em busca de qualquer emoção imediata, sem muitas referências à exploração da  variável tempo.

Heather (Madelyn Cline) é uma jovem organizada e dedicada rumando para um futuro de sucesso na profissão que escolheu. Antes de entrar com toda força no mercado de trabalho, resolve fazer um mochilão pela Europa com as amigas Connie (Sofia Wylie) e Amy (Madison Thompson).  Em terras estrangeiras, acaba conhecendo o desbravador de emoções e aventuras Jack (KJ Apa). Logo, uma atração mútua chega com impacto. Esses dois apaixonados resolvem esticar a viagem, indo atrás dos lugares mencionados no diário deixado pelo avô de Jack. Em certo momento, percebemos que Jack esconde um segredo que colocará um ponto de interrogação no futuro dessa história.

Em muitos momentos, parece que estamos assistindo a um filme que já vimos. Esquisito, né? Nem tanto: a mesmice vem agarradinha à inúmeras produções lançadas todos os anos. Essa sensação estranha nasce do ‘mais do mesmo’, daquela receita de bolo que se joga em clichês, caminha para a previsibilidade e não expande pontos reflexivos. É sempre frustrante se deparar com uma obra que, no universo literário, tem fôlego, mas que no cinema se mostra completamente limitada pela falta de habilidade em encontrar soluções criativas na tela. 

É uma pena que falte emoção. O filme não alcança seu clímax em nenhum momento. O primeiro grande amor – um dos fortes elementos que se apresentam - é retratado de forma fria, em contraste com a protagonista, definida como cética. De romance com ar filosófico, o filme vira uma vitrine de pontos turísticos europeus, um caminho que se mostra decepcionante. Apenas simpático - muito graças à leve, mas eficiente, sintonia entre os dois personagens principais, O Mapa que me Leva até Você entrega uma história de amor cinematográfica igual a tantas outras, daquelas que esquecemos rapidamente.

 

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Pausa para uma série: 'A Mulher da Casa Abandonada'


Um fato jornalístico relevante, trazido através de um podcast, logo se transforma em matéria de diversos jornais, ganhando ampla repercussão. No centro do debate está um caso macabro que envolve um casarão - que parecia abandonado -, uma foragida da justiça norte-americana e uma subtrama que se desenrola entre o Brasil e o Estados Unidos, ao longo de anos. Esses são alguns dos principais elementos da nova minissérie do Prime Video, A Mulher da Casa Abandonada.

Criado pelo jornalista Chico Felitti, o podcast homônimo em que se baseia esse projeto foi um enorme sucesso no ano de 2022, tornando-se um dos mais ouvidos em todo o país. Com a grande divulgação dos fatos apresentados nesse produto digital, um casarão em Higienópolis – um bairro de alto padrão em São Paulo – passou a atrair as atenções de todos. Foi assim que chegamos ao nome de Margarida Bonetti, figura central da trama e moradora da tal casa abandonada.

Com a polícia abrindo investigações a partir de denúncias, novos fatos são revelados, nos levando para uma história aterrorizante que envolve patrões submetendo uma mulher, longe de casa, a condições desumanas. Assim, um elo jurídico é construído entre dois países tendo as mesmas figuras como elementos principais.

Com três episódios, com cerca de 30 minutos de duração, A Mulher da Casa Abandonada, busca, num primeiro momento, relatar os fatos base do caso que chocou o país. Como apoio à narrativa, entrevistas com o jornalista que jogou luz ao caso, com Margarida, com forças policiais que acompanharam o caso – tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos – além de um depoimento exclusivo da vítima dos maus-tratos praticado pelos patrões.

A questão é que, nos episódios que se seguem, com tanto material para ser colocado em evidência – e novas informações surgindo -, o projeto acaba soando como um complemento do podcast. Quando percebemos isso, e pra quem nunca tinha ouvido o que foi esmiuçado pelos aúdios que correram o país, a minissérie parece confusa e com aprofundamento apressado. Algo que limita mas não diminui a importância do registro realizado.

Do subúrbio de Washington a uma área nobre da maior cidade do país, tendo o abuso psicológico e físico como um dos importantes tópicos a serem refletidos, A Mulher da Casa Abandonada busca, ainda que pela superfície, apresentar uma história real: um true crime chocante que envolve muitas variáveis que conduz para um recorte sociológico relevante e que – felizmente – foi registrado, podendo gerar valiosos debates e reflexões sobre nossa sociedade.

 

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10/08/2025

Crítica do filme: 'Sombras do Passado'


Apesar de partir de uma premissa aparentemente frágil — uma mãe solteira que descobre nunca ter tido um irmão — o longa holandês Sombras do Passado ultrapassa as camadas superficiais dos conflitos para nos conduzir a um drama intenso, marcado por uma reviravolta surpreendente. Embora exija um pouco de paciência no início, o filme aos poucos conquista o espectador.

Sob a direção de Diederik Van Rooijen, a obra combina elementos de thriller jurídico com descobertas comoventes, mantendo o suspense sempre presente. Além disso, aborda temas profundos e relevantes, como autismo, maternidade, bullying e as complexas surpresas que permeiam os laços familiares.

Iris (Angela Schijf) é uma advogada e mãe de um filho autista que, inesperadamente, descobre a existência de um irmão (Fedja van Huêt) até então desconhecido — e, para sua surpresa, ele está preso, acusado de assassinato. Movida pela urgência de entender essa história, ela se lança em uma corrida contra o tempo, desvendando segredos profundos ligados ao crime e, sobretudo, à sua própria família.

Com o autismo como tema central, acompanhamos duas gerações de mães e suas distintas percepções sobre o assunto. Nesse cenário, a narrativa mergulha no suspense, onde cada nova descoberta da protagonista revela uma peça fundamental de um complexo tabuleiro emocional, marcado pelas consequências dos atos do passado. No embate entre presente e passado, dilemas e surpresas surgem constantemente, mantendo a tensão viva. A excelente fotografia intensifica e reflete essas emoções profundas, potencializando ainda mais a experiência do espectador.

Uma das grandes sacadas deste filme é direcionar a trama para um plot twist totalmente inesperado, sem oferecer nenhuma pista antecipada. Prepare-se para ficar de queixo caído! É aquele tipo de obra que merece sua atenção até os últimos segundos, pois a surpresa está garantida. Embora apresente momentos que beiram clichês já conhecidos, a história se mantém firme graças às atuações sólidas e a um roteiro habilidoso na dosagem dos mistérios.

Perdido no catálogo do Prime Video, esse longa-metragem de 2013 é atemporal! Vale a pena dar uma conferida!

 

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09/08/2025

Crítica do filme: 'A Mistake'


A exposição e a culpa. Chegou ao catálogo do Prime Video um filme profundo que aborda, com sensibilidade, um tema delicado que envolve medicina, ética e opinião pública. A partir de uma operação que se complica após um erro, somos conduzidos por uma narrativa densa que revela uma profissional brilhante vivendo no fio que separa o pragmatismo das emoções. A Mistake, dirigido pela cineasta neozelandesa Christine Jeffs, também encara de frente o sexismo, trazendo reflexões potentes sobre um ponto crucial: o desafio enfrentado por mulheres em ambientes machistas.

Elizabeth (Elizabeth Banks) é uma experiente cirurgiã em um hospital de alta demanda nos Estados Unidos. Durante uma cirurgia de rotina, seu residente, Richard (Richard Crouchley), comete um grave erro sob sua supervisão. No dia seguinte, a paciente morre, e Elizabeth passa a enfrentar embates com a administração do hospital, o machismo escancarado, o sexismo e o peso da opinião pública.

Baseado no romance homônimo de Carl Shuker, o filme coloca em evidência o erro - e, inevitavelmente, a culpa - para explorar as raízes complexas de nossa sociedade. Em uma descida por camadas cada vez mais profundas, acompanhamos os conflitos que se desdobram entre os personagens e os absurdos que, infelizmente, também encontramos na vida real, revelados em comportamentos egoístas que ferem princípios éticos e morais.

Em uma análise densa, que cruza a ética na medicina com as emoções humanas, acompanhamos uma protagonista cuja vida é virada de cabeça para baixo após uma mancha em seu brilhante currículo. O roteiro consegue expandir os debates que surgem, lançando luz sobre uma profissão tão essencial quanto desafiadora: a medicina. Em meio à exposição dos procedimentos cirúrgicos — sustentada pelo ideal de transparência pública, mas incapaz de revelar as complexas variáveis e imprevistos que moldam cada cirurgia —, a narrativa mergulha nas tensões entre dever e julgamento social.

A Mistake também enfrenta de forma direta a questão do sexismo — o preconceito baseado no gênero — no ambiente profissional, trazendo reflexões relevantes e precisas sobre o tema. A habilidade do roteiro em ampliar seu epicentro narrativo para discutir problemas que atravessam nossa sociedade diariamente é um dos grandes méritos desse filme, que merece ser descoberto.

 

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07/08/2025

Crítica do filme: 'A Última Missão'


A Última Missão, novo filme disponível no Prime Video, aposta em um roubo mirabolante e no humor escrachado como base para uma trama já bastante familiar. Recheado de clichês e situações previsíveis, o longa não se arrisca em novos caminhos nem propõe algo além do que já vimos em tantas outras produções do gênero. Dirigido por Tim Story, com roteiro de Kevin Burrows e Matt Mider, o filme reúne os comediantes Eddie Murphy e Pete Davidson — ambos ex-integrantes do icônico Saturday Night Live — como protagonistas dessa comédia de ação que entrega pouco além do riso fácil.

Russell (Eddie Murphy) é um experiente segurança de carro-forte prestes a celebrar 25 anos de casamento. Já Travis (Pete Davidson) é um novato ingênuo, sem grandes ambições, que acaba de ingressar na mesma profissão. Quando os dois são escalados para trabalhar juntos, tudo parece rotineiro - até serem surpreendidos por um grupo de criminosos liderados por Zoe (Keke Palmer), uma figura misteriosa ligada ao passado recente de Travis. A partir daí, a dupla improvável se vê em meio a um plano perigoso e precisará encontrar uma forma de sair dessa enrascada com vida.

No cenário atual do cinema, ousar é uma qualidade cada vez mais valorizada - afinal, é no risco que muitas vezes nasce a originalidade. Já a repetição excessiva ou qualquer traço de semelhança com obras anteriores pode rapidamente afastar o público. Neste projeto, no entanto, o que se vê é uma jornada rumo à mesmice: uma trama rasa e superficial, repleta de cenas de ação desenfreadas e um discurso limitado. O filme resgata clichês antigos, envoltos em situações forçadas e absurdas, sem conseguir oferecer frescor ou autenticidade.

O filme segue à risca uma velha receita já exaustivamente usada em produções semelhantes — algo que, em outros tempos, foi bem mais lucrativo no cinema norte-americano. O roteiro, por vezes confuso, se apoia em uma estrutura previsível, sem espaço para reviravoltas ou momentos realmente intensos. Tenta encontrar brilho nos diálogos cômicos e no exagero das situações, apostando no deboche e no absurdo como formas de inovação. No entanto, com personagens pouco desenvolvidos e uma narrativa que carece de autenticidade, o resultado é pouco convincente.

Sem grandes momentos e preso a uma linha narrativa previsível, o filme desperdiça a oportunidade de equilibrar ação e comédia de forma envolvente. Com personagens sem brilho ou carisma, o projeto falha justamente onde poderia ter acertado: na química entre os protagonistas. Em vez de explorar o potencial da dupla com energia e tempo de comédia — como por exemplo Jackie Chan e Chris Tucker na icônica franquia A Hora do Rush —, a produção se acomoda no óbvio.

A Última Missão é o entretenimento miojo, rápido e decifrado em 3 minutos. São 90 minutos de explosões, diálogos insossos e personagens em graça. Uma fórmula que não encaixa em momento algum. E podem apostar: Eddie Murphy e Pete Davidson na corrida para o Framboesa de Ouro!

 

 

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07/07/2025

Crítica do filme: 'Um Tipo de Loucura'


Abordando a força do amor na batalha cruel contra o declínio nas habilidades mentais, o longa-metragem sul-africano Um Tipo de Loucura – completamente escondido no ótimo catálogo do Prime Video - nos leva até uma história apaixonante, com altos graus de emoções, em uma narrativa que mergulha de corpo e a alma nos últimos elos de lembranças enraizadas de uma linda história de amor. Escrito e dirigido pelo cineasta Christiaan Olwagen, o filme deve esquentar até aqueles corações mais gelados.

Elna (Sandra Prinsloo) e Dan (Ian Roberts) se conhecem há muitas décadas e abriram mão de tudo para formar uma família sempre com o objetivo de viverem juntos até os fins dos dias. Já com três filhos e vida consolidada, Elna começa a sofrer de demência, fato que a faz ser hospitalizada e ficar longe de seu grande amor. Sem saber como lidar com a situação, Dan resolve invadir o lugar e partir com Elna para o resgate de lembranças de momentos marcantes do casal.  

Como contar uma história de amor de forma dilacerante? Partindo de um inusitado resgate – que simplifica o poder de um amar – Um Tipo de Loucura atravessa qualquer esconderijo da mesmice para nos levar até o pulsar de um subconsciente através de lapsos de memórias de um alguém com um declínio progressivo nas funções cognitivas. Apresentar esse tema já é algo valioso, que gera muitas reflexões, mas o roteiro consegue ir mais longe e mostrar o olhar de toda uma família para a situação que se apresenta.

Com o uso inteligente de flashbacks e cenas repletas de entrelinhas, a narrativa se desenrola com naturalidade e harmonia. Lançado discretamente em um dos principais catálogos de streaming no Brasil, o projeto apresenta uma história de amor que atravessa décadas, enfrentando dilemas e obstáculos – mas nada tão doloroso quanto os acontecimentos do presente. É fácil para parte do público traçar paralelos com a vida real, já que o tema toca diretamente em aspectos sensíveis da nossa realidade.

Com a demência posicionada no centro da trama – ainda que sem grandes explicações sobre os sintomas envolvidos – a narrativa abre espaço para diversas camadas significativas. Elas vão desde os conflitos sobre como lidar com a condição, que afetam toda a família, até os fragmentos de consciência da protagonista a respeito da própria realidade. Esse carrossel de emoções, com ótimas interpretações, transformam Um Tipo de Loucura é um filme necessário e certeiro para você que vive ou já viveu um grande amor.

 

 

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04/07/2025

Crítica do filme: 'Chefes de Estado'


Colocando no centro do palco o espinhoso universo da geopolítica mundial — desta vez focando em duas superpotências — o longa-metragem Chefes de Estado mistura comédia e ação em uma narrativa explosiva, onde o sarcasmo afiado e o deboche funcionam como combustíveis para situações tão absurdas quanto divertidas.

É um filme em que o impossível se torna possível, sempre com uma boa dose de irreverência. Dirigido pelo cineasta russo Ilya Naishuller (diretor do excelente Anônimo), o projeto, mesmo seguindo a famosa, e por vezes sonolenta, receita de bolo de muitos filmes de ação, consegue encontrar na comédia um abrigo.

Will Derringer (John Cena) é um ex-ator de filmes populares que vira presidente dos Estados Unidos. Nos seus primeiros meses de governo, ao fazer uma visita à terra da rainha, precisa dialogar com o primeiro ministro britânico Sam Clarke (Idris Elba). A questão é que os dois não se entendem já faz um tempo. Quando resolvem embarcar juntos no Air Force One rumo a uma reunião importante da OTAN, são alvos de um terrorista implacável. Assim, as duas autoridades precisarão unir forças, para desmembrar uma conspiração que coloca o mundo próximo de mais conflitos.

Para quem dá o play esperando um filme de ação exagerado e descompromissado, não está exatamente errado — essa é, sim, uma forma de enxergar o projeto. A aposta no trio clássico 'tiro, porrada e bomba' é evidente desde o trailer, deixando claro que o foco está na ação explosiva. O lado positivo é que essas cenas são muito bem executadas, com direção competente e ritmo envolvente. Naishuller já havia mostrado sua competência no universo da ação com o ótimo filme Anônimo.

O que pode diferenciar esse de outros projetos é exatamente o uso de um sarcasmo que traça paralelos hilários com o mundo real. John Cena se destaca em muitos momentos como um presidente que assume todas as facetas do homem mais poderoso do mundo. Mas quando tenta ingressar em assuntos da geopolítica, o roteiro derrapa nos exageros deixando as reflexões em segundo plano. A narrativa se projeta para gerar cenas de ação constantes mas o que brilha mesmo é a comédia aos moldes pastelão - um surpreendente trunfo - além da ótima harmonia em cena entre Cena e Elba.

Com filmagens na França e na Itália, Chefes de Estado estreou neste início de julho no Prime Video. É aquele passatempo que passa na média. Não é uma obra-prima, logo vamos esquecê-lo mas diverte, e isso é o que importa quando queremos apenas relaxar. Dê o play e tire suas próprias conclusões.

 

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20/06/2025

Crítica do filme: 'Cuckoo'


Lançando luz sobre um esquisitismo eficiente, onde as peças embaralhadas de um tabuleiro de suspense são apenas a superfície de conflitos mais profundos, Cuckoo conduz o espectador por uma trama de tensão crescente que transita por diferentes camadas de drama familiar. Escrito e dirigido pelo cineasta alemão Tilman Singer, em seu segundo longa-metragem, o projeto apresenta várias linhas a seguir até o seu decifrar.

Gretchen (Hunter Schafer) é uma jovem de quase 18 anos que, após um acontecimento, precisa ir morar com seu Luis (Marton Csokas), sua madrasta Beth (Jessica Henwick) e sua meia-irmã Alma (Mila Lieu) em um resort nos Alpes Bávaros, na Alemanha, que é o ponto de um futuro projeto de seu pai. Chegando nesse lugar, distante dos dias agitados dos Estados Unidos que está acostumada, Gretchen começa a perceber aos poucos que alguns curiosos segredos estão circulando pelo seu redor.

Cuckoo pode ser visto como um drama familiar que se abre em camadas através do inusitado, do fantástico. A protagonista, muito bem interpretada por Hunter Chafer, é um pilar de todos os enigmas que se mostram do início ao fim dos 102 minutos de projeção. Mas se você está pensando em algo mastigado, com fácil entendimento, procure outro filme.  

A trama pode parecer imprecisa em alguns momentos, demora um pouco pra ‘dar liga’, o que chama a atenção é como a narrativa consegue se desenvolver mesmo assim através dos pontos de interrogação do que vemos em cena. A construção da tensão, feita com uma eficiência quase cirúrgica, se apoia em uma combinação de ruídos ensurdecedores, personagens inquietantes, lapsos hipnóticos e visões trágicas que se repetem em um looping perturbador, nos levando pelo fascinante universo do esquisitismo e referências à algumas obras de Dario Argento.

Exibido no Festival de Berlim no ano passado e lançado diretamente no Prime Video, sem sequer passar pelos cinemas brasileiros, este terror constrói uma atmosfera densa de suspense ao mesmo tempo em que desafia a compreensão imediata de sua trama. Com uma premissa enigmática, o filme instiga a curiosidade do público, que se mantém atento na tentativa de decifrar os segredos que surgem ao longo da narrativa. Por mais estranhos que pareçam, os acontecimentos acabam se encaixando em uma lógica que se revela de forma convincente em seu desfecho.

 

 

 

 

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Crítica do filme: 'Improvisação Perigosa'


Trilhando com passos largos o caminho de uma comédia camuflada de ‘nonsense’, acaba de chegar ao Prime Video um longa-metragem que coloca três aspirantes a comediantes, todos flertando com o fracasso, na linha de frente do perigo. Com uma estrutura narrativa simples e um roteiro repleto de diálogos feitos sob medida para o riso fácil e também inteligente, Improvisação Perigosa, dirigido por Tom Kingsley, aposta na ridicularização para construir uma sátira afiada sobre o insucesso.

Na vida profissional, as coisas vão de mal a pior para Kat (Bryce Dallas Howard), Marlon (Orlando Bloom) e Hugh (Nick Mohammed). Kat é uma professora de improvisação que ainda não conseguiu emplacar sua carreira como comediante. Marlon, um ator em busca do papel que mude sua trajetória, vive de pequenas oportunidades que nunca o levam ao estrelato. Já Hugh, um funcionário tímido e deslocado em uma grande empresa, vê nas aulas de improviso uma tentativa de dar algum rumo à sua vida. Certo dia, o destino cruza o caminho dos três e, sob a orientação de um agente da polícia, eles embarcam em uma missão inusitada: se infiltrar em uma perigosa gangue, criando personagens como disfarces. A partir daí, uma série de confusões e situações inusitadas está garantida.

Como inserir a comédia num clássico caminho que percorrem muitos filmes de ação? Com esse foco como objetivo e deixando as entrelinhas brilharem com o insucesso profissional em pauta, Improvisação Perigosa pode ser analisado de forma bastante profunda com camadas ocultas que enxergamos através das incertezas, de uma crise existencial. Num primeiro momento parece estarmos diante de um filme bobo, sem perspectiva, mas aos poucos vamos entendendo a leveza de um desfile de críticas sobre a sociedade, o bom e o mau, o sucesso e o desastre.

Este é aquele tipo de filme que arranca risos justamente quando menos esperamos, comprovando a eficácia de um roteiro provocativo que desafia os estereótipos e subverte a tradicional lógica entre heróis e vilões nos filmes de ação. Aqui, os dilemas reais da relação entre indivíduo e trabalho são transportados para o terreno do absurdo, sempre carregados de desespero, o que cria uma identificação imediata com o público. Mérito de uma história original criada por Derek Connolly e Colin Trevorrow, posteriormente adaptada pela dupla de comediantes britânicos Ben Ashenden e Alexander Owen.


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18/06/2025

Crítica do filme: 'O Último Respiro'


Baseado em uma história real que envolve uma das profissões mais perigosas do mundo, o longa-metragem O Último Respiro vai direto ao ponto, sem rodeios, ao reconstituir um resgate inacreditável – e até hoje considerado inexplicável – ocorrido a centenas de metros de profundidade no Mar do Norte. Sob a direção de Alex Parkinson, o filme conduz o espectador por uma narrativa intensa e cheia de tensão, onde o foco e a precisão exigidos pelo ofício se chocam com variáveis incontroláveis da natureza.

Ao longo de 93 minutos, acompanhamos a trajetória de Chris (Finn Cole), um mergulhador especializado em grandes profundidades, que é escalado para uma missão de manutenção em oleodutos submarinos, ao lado de Duncan (Woody Harrelson) e Dave (Simu Liu). Quando o navio que os leva começa a sofrer com o tempo ruim, Chris acaba ficando para trás com apenas 10 minutos de oxigênio emergencial restante. Correndo contra o tempo, Duncan, Dave e toda a equipe de comando no navio buscam soluções para trazê-lo de volta.

São 30 mil quilômetros de oleodutos – tubulações subaquáticas responsáveis pelo transporte de petróleo – cuja manutenção depende exclusivamente de mergulhadores de saturação, profissionais que passam longos períodos em grandes profundidades. Partindo desse cenário arriscado, o roteiro escolhe um recorte específico: uma intensa história de sobrevivência, que concentra seu foco no clímax e nas decisões cruciais de toda uma equipe, sem se aprofundar em muitas camadas narrativas.

Movimentando-se entre thriller e drama, uma fórmula eficiente acaba sendo imposta, indo direto ao centro de suas questões, algo que se difere de muitos outros filmes que retratam resgate e mostram o sopro da tentativa de sobrevivência. Soma-se a isso uma ótima direção e ótimas atuações. O projeto, com cenas de tirar o fôlego, teve locações em Aberdeen (Escócia) e em Malta, tendo o auxílio do documentário Last Breath como referência – também dirigido por Parkinson (ao lado de Richard da Costa).

Essa história é algo até hoje sem muitas explicações científicas. A água fria e a mistura de gases com alta pressão parcial de oxigênio pode ser algo que explique o retorno intacto do mergulhador. Mas até os dias atuais esse resgate bem-sucedido é um dos grandes mistérios do mundo e aqui nessa obra, que chegou na Prime Video em 2025, vemos com real impacto todo o mix de emoções que trabalhadores numa das mais arriscadas profissões do mundo podem passar a qualquer momento do seu perigoso ofício.  


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01/06/2025

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Pausa para uma série: 'A Melhor Irmã'


As surpresas de um homicídio contadas através de uma família disfuncional. Ao remexer traumas familiares, mostrando a bagunça da verdade de um assassinato através de personagens moralmente ambíguos, a nova série da prime video A Melhor Irmã mergulha em um drama incisivo que se entrelaça no suspense de forma organizada. Ao longo dos oito episódios, vamos criando uma imensa curiosidade sobre as verdades que vão aparecendo em doses precisas.

Baseado na obra The Better Sister, escrito pela romancista norte-americana Alafair Burke, o projeto apresenta seu ‘Casos de Família’ através dos ressentimentos e traições, um duelo entre a espontaneidade e o modelo da perfeição. O foco principal são duas irmãs e muito mais que um conflito. Em cena, brilham duas atrizes em excelência na atuação - Elizabeth Banks e Jessica Biel - nos guiando para um desfecho de tirar o fôlego.

Chloe (Jessica Biel), é um mulher bem-sucedida, editora-chefe de uma revista de sucesso, que vive sua rotina de milionária ao lado do marido, o advogado Adam (Corey Stoll), e do filho Ethan (Maxwell Acee Donovan). Sua rotina é interrompida quando Adam é brutalmente assassinado e Chloe encontra seu corpo quando chega em casa. A partir desse momento, segredos profundos sobre o casamento começam a vir à tona — incluindo a chocante revelação de que Ethan é, na verdade, fruto de um relacionamento entre Adam e Nicky (Elizabeth Banks), irmã de Chloe. Sem opções, a não ser lidar com o passado e os conflitos entre elas, Chloe e Nicky precisam superar as desavenças e encontrar soluções para os conflitos que aparecem.

O roteiro segue uma linha reta rumo ao desembaralhar os conflitos, um discurso forte e poderoso que passa pela curas das feridas mais profundas. Personagens ambíguos vão preenchendo todo o epicentro da trama dando forma a um instigante drama familiar. Passando pelas memórias nem sempre boas e as verdadeiras companhias nos momentos sombrios, as margens para surpresas se tornam constante em um esforço bem-sucedido de evitar a obviedade.

A narrativa é modelada com o auxílio de flashbacks, fato que ajuda demais para as arestas serem alinhadas. Com a investigação do assassinato indo calmamente para um plano de fundo, a luz se joga para assuntos que circulam os conflitos no presente entre as irmãs. Assim, ganhando camadas imprevisíveis, chegamos na violência doméstica, olhar para a maternidade, o alcoolismo, segredos e traumas do passado. Ainda em relação à narrativa, há um interessante ponto que merece destaque: poucos personagens são escanteados, cada subtrama exerce a função de complemento e se cruzam com a história principal.

A Melhor Irmã é uma série que surpreende, não tanto pelo suspense mas pelos fios de reconstrução de laços entre duas irmãs marcadas por eventos que fizeram seus caminhos se distanciarem - e novamente se unirem. É uma série que te prende desde o primeiro episódio. Se você está em busca de uma série envolvente para maratonar, essa é a escolha certa para dar o play.

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