06/07/2021

E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #465 - Gabriel Gilio


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

 

Nosso entrevistado de hoje é cinéfilo, de Osasco (São Paulo). Gabriel Gilio tem 27 anos. É jornalista, redator e um dos criadores do @sobrecine

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Em Osasco, região metropolitana de São Paulo, não temos muitos aparelhos culturais, infelizmente. Por isso, todos os olhos se voltam para a capital mesmo. Sendo assim, fico com a Cinesala, que é cinema de rua desde 1962, quando nasceu como Cine Fiammetta. O endereço tem uma única sala de cinema e o diferencial da opção de ver os filmes em uma espécie de sofá gigante (duplo ou individual).  Por não ter a possibilidade de múltiplas sessões simultâneas, a Cinesala sempre arrasa na curadoria, pra acertar "na veia" mesmo.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Não consigo pensar em um único momento. O cinema é parte de mim desde antes de eu me entender por gente, quando aprendi a rebobinar as cópias de Toy Story, O Rei Leão, Labirinto - A Magia do Tempo e o Mágico de Oz, que minha irmã e eu víamos à exaustão.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

O terror dos "favoritos" de quem gosta de cinema (rs). Vou citar um diretor que foi importantíssimo pra mim enquanto ia desvendando o cinema como arte: Stanley Kubrick e sua adaptação de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (até o 'nadsat' eu decorei).

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

O Homem que Copiava (2003), do Jorge Furtado, sempre mexe comigo. Tem uma nostalgia no clima do filme, que puxa mais para os anos 90 do que para o século XXI. Gosto do thriller romântico, da juventude de atores que hoje são mega representativos... enfim, sempre que posso, revejo.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Eu sempre digo que gosto de cinema e ponto. Aí, na minha opinião, cinéfilo é essa pessoa que só gosta de cinema, mesmo, sem pensar muito. Por mim, não precisa ser especialista, crítico, gênio. Eu carrego o cinema comigo a vida toda e incluo na cinefilia também quem é louco pela sensação que envolve a experiência cinematográfica: cheiro de pipoca, carpete do corredor para a sala do cinema, poltronas, mídias, VHS, DVD, enfim... tudo junto. Ver filme, ir ao cinema, é o tipo de programa que eu nunca nego e que eu sempre proponho.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Não me considero apto a dizer quem entende ou não de cinema, sabe? E também não tenho essa pretensão. Eu sinto que a necessidade comercial dos grandes multiplex de shoppings atrapalha a pluralidade dos títulos, as possibilidades. Por assim dizer, talvez quem escolhe os filmes até goste de "filme arte", mas precisa exibir o mais novo blockbuster em 12 das 15 salas disponíveis, porque é o que as pessoas querem ver. Eu acho que também gosta de cinema quem vai 10 vezes ver o mesmo filme de herói, porque ama o universo, adora a energia que o cinema traz. Então, sei lá... questão de proposta. Agora, se você me perguntar se eu queria mais salas de rua, mais possibilidades e, principalmente, mais títulos brasileiros, a resposta é SIM!

 

7) Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Acredito que não. Não há substituto para o que o cinema proporciona. Onde as pessoas vão poder curtir seus filmes com mais imersão, qualidade e coletivamente? O cinema, como expressão artística, é vivido nesse espaço. Tudo é feito pra chegar até você ali, naquela poltrona, com a sua pipoquinha na mão e ansioso pela história que está por vir.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Sempre indico Hedwig: Rock, Amor e Traição (2001), do John Cameron Mitchell. Ele é necessário em tantos aspectos que eu não sei nem por onde começar. É genial em tudo, além de ser uma benção ainda maior para os ouvidos.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não gosto da ideia, mas entendo a necessidade. Não deveríamos precisar "flexibilizar" a necessidade do isolamento por esse medo de ficar sem os espaços que a gente tanto ama quando tudo isso passar. Há inúmeras medidas que deveriam ter sido tomadas, mas o Brasil não tem governo. Eu estou morrendo de saudade, preocupado com as minhas salas favoritas, mas não saio de casa.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

É e sempre foi genial. Como disse acima, queria mais espaço para ver e falar sobre cinema nacional. No @sobrecine a gente tenta bastante, porque mesmo os títulos que caem no gosto "comercial", ainda assim não tem a visibilidade que deveriam. O Brasil é riquíssimo em cultura, arte e essa sensibilidade está em tudo. A gente só precisa acreditar (e consumir) um pouquinho mais.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Entre os cineastas, Kleber Mendonça Filho é o cara da vez, né? A gente mal termina de ver um filme e já quer que ele mande outro. Também adoro o trabalho da Anna Muylaert.

 

12) Defina cinema com uma frase:

É o meio ideal para quem ama ouvir e contar histórias.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Fui com uns amigos da escola ver Cisne Negro (2010), do Darren Aronofsky, numa das últimas sessões em um dia de semana. A sala estava surpreendentemente cheia, o que ajudava a construir a tensão do filme. Não sei se para se acalmar ou se por pura sacanagem, dois caras começaram a fazer comentários em voz alta durante cenas importantes do longa. Seria motivo pra ficar muito irritado, mas os caras eram GENIAIS e muito engraçados. Eles colocaram a sala toda pra rir durante boa parte do fim da sessão e a gente saiu do suspense dramático com dor de barriga de tanto gargalhar.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Poxa, nunca vi. Mas dei um google aqui e, olha... puro suco dos anos 90 axézeiro. Quero ver. haha

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Como eu disse acima, essa coisa de ser "cinéfilo" ou não eu não consigo muito definir. Sinto que, sei lá, talvez o cineasta acabe se influenciando demais pelo que estuda, pelos gostos, pelos grandes nomes de sucesso que prefira, e acabe perdendo a originalidade, o novo... não sei. Eu gosto de quem tenta o diferente, o simples, sem se preocupar muito com essa "carga histórica" como referência, sabe?

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Esse tipo de pergunta eu nunca sei responder, porque eu nunca acho um filme realmente ruim. Eu adoro ver filmes, então pra mim é sempre bom. Como, pra mim, essa cinefilia vai além do filme e está também na experiência, até quando o filme não é tão legal, a sessão vale a pena. Aquele monte de comédia repetida do Adam Sandler, por exemplo: é um horror, mas eu sei de cor e revejo sempre que estiver passando. haha

 

17) Qual seu documentário preferido?

Não é um gênero que eu tenha explorado devidamente. Nunca foi minha preferência. Me indica algum?

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão? 

Já, mas só quando é natural, né? Não costumo ser o solitário aplaudindo, não, mas adoro uma histeria coletiva.

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Eu nunca entendi essa coisa com o Nicolas Cage. Cresci vendo muitos filmes dele, porque minha mãe era fã. Tenho que responder Cidade dos Anjos ou Con Air, porque eram os preferidos dela e eu vi e revi um milhão de vezes nas nossas sessões.

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

Costumo acompanhar mais as redes sociais do que portais em específico, mas não piro muito em acompanhar a crítica ou notícias de novas produções. Eu não gosto de saber dos filmes, adoro a surpresa de chegar só conhecendo o título e mais nada. Não sou obsessivo, mas é assim que eu prefiro.

 

21) Qual streaming disponível no Brasil você mais assiste filmes?

Eu estou adorando o catálogo do Prime Video, tem muita coisa boa lá. O problema com os streamings, pra mim, é que eles estão fazendo a pirataria voltar. A ganância dos estúdios querendo vender seus próprios canais e tirando suas produções de outros provedores está fazendo com que a gente precise assinar 5 streamings diferentes pra poder ver tudo que se quer ver. Já está custando mais que pacote de TV por assinatura.