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Crítica do filme: 'Dois Procuradores'


Um dos filmes mais angustiantes que chegarão aos cinemas brasileiros neste primeiro semestre de 2026, Dois Procuradores nos guia a uma imersão sombria e sufocante em um centro de detenção soviético nos tempos de Stalin. Exibido no Festival de Cannes do ano passado, onde concorreu à Palma de Ouro, o projeto dirigido pelo cineasta ucraniano Sergey Loznitsa mostra, em detalhes, os absurdos cometidos ao estado de direito em uma época marcada pela legitimação de atos imperdoáveis por meio de confissões forçadas de inocentes.

No ano que se tornou um dos mais sombrios da história russa, 1937, marcado pela consolidação totalitária de Stalin e por ações desenfreadas contra a população - com julgamentos forjados e execuções -, uma mensagem de um antigo promotor do partido comunista, agora prisioneiro, acaba chegando às mãos do jovem promotor e inspetor de presídios locais em Bryansk, Kornev (Alexander Kuznetsov). Ao tentar abrir uma investigação sobre tudo o que escuta, descobrirá que não pode confiar em ninguém.

Impressiona como essa obra consegue ser atemporal e traçar, aos olhos mais atentos, fortes paralelos com o presente no mundo – quem gosta de geopolítica tem aqui um prato cheio! Com uma narrativa que nos coloca como testemunhas observadoras dos acontecimentos, gerando o desconforto de presenciar os absurdos cometidos e obrigando o público a questionar moralmente tudo o que acompanha, amplia-se a todo instante, ao longo de quase duas horas de projeção, o contexto de um período que marcou a transição russa do estado revolucionário a um estado totalitário.

Todas as peças desse jogo político são coladas na mesa em um roteiro detalhista, no qual o silêncio ecoa, baseado na obra de homônima de Georgy Demidov, que ficou refém da própria sorte, preso em campos de concentração soviéticos por mais de uma década. Com o poder não precisando se justificar, encontramos com o terror imposto pelo Comissariado do Povo para Assuntos Internos – a conhecida NKVD –, o órgão de segurança do governo do ditador soviético e instrumento direto do poder estatal em uma época que se passava por cima de tudo, violando o processo legal.

Com um mise-en-scène impecável, apontando para as relações de poder, Dois Procuradores apresenta seu forte olhar para a repressão do passado sem esquecer de indicar os caminhos para paralelos com o presente.

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