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Crítica do filme: 'Quinografia' [Bonito CineSur]


Exibido pela primeira vez no Brasil durante o Bonito CineSur 2025, o aguardado documentário argentino Quinografia nos convida a uma imersão afetuosa na vida e na obra de Quino - o lendário cartunista e humorista conhecido mundialmente por criar a eterna Mafalda. Em 75 minutos de projeção, o filme traça a trajetória desse observador aguçado do cotidiano, passeando por sua arte, suas ideias e pelas curiosidades de sua história. Agradável de assistir, a produção opta por um tom leve do início ao fim, o que pode soar como um céu de brigadeiro - bonito de ver, mas sem grandes turbulências dramáticas no percurso.

Falecido na primavera de 2020, Joaquín Salvador Lavado Tejón — o inesquecível Quino — foi um dos mais influentes criadores de histórias em quadrinhos do mundo. Nascido na região fronteiriça com o Chile, no início dos anos 1930, ele deu vida a personagens que atravessaram gerações, permanecendo atuais pelas situações e reflexões que ainda ressoam nos dias de hoje. Quinografia constrói sua narrativa como um tabuleiro em constante movimento, encaixando peça por peça com certa precisão, rumo a uma cronologia sem conflitos e também reveladora da trajetória desse mestre de sua arte.

O pulo do gato desse projeto é inserir o próprio Quino como contador de sua própria história - algo que sempre é arriscado em qualquer documentário sobre um alguém que já se foi. Mas aqui tudo é feito com maestria. Uma entrevista dada para um veículo seis anos antes de falecer circula a narrativa, juntamente com lembranças a partir de imagens e através de outras entrevistas e depoimentos de familiares e amigos próximos. Assim, o longa-metragem se divide em algumas partes que vão desde sua infância e primeiros traços, passando pelo tempo onde os militares assumiram o poder e logo um forçado exílio se tornou única saída, até a disseminação (legado) da sua obra pelo mundo.

Entre os muitos detalhes que compõem essa trajetória, é inevitável um mergulho mais profundo em sua criação mais emblemática: Mafalda. A personagem nasceu em 1964, a princípio como parte de uma campanha publicitária de eletrodomésticos, mas logo ganhou vida própria — inspirada pelo traço de Charles M. Schulz, criador do Snoopy — e não demorou a conquistar as páginas dos jornais. Tornou-se um fenômeno global, presente até hoje em diferentes cantos do mundo. Mafalda era uma menina à frente de seu tempo: curiosa, questionadora, inquieta com o futuro da humanidade e sempre atenta às contradições da política. Um reflexo direto do olhar crítico e das referências culturais que cercavam seu criador.

Para quem nunca conheceu esse artista, esse filme pode se tornar uma referência, até inspiração. Da simplicidade, até um legado presente em todos os lugares, Quino deixou sua obra como ferramenta de questionamentos de um mundo em constantes mudanças, algo que cada vez se torna mais importante no momento presente. Quinografia poderia ter ido mais fundo nessa trajetória, encontrar camadas mais profundas, mas não deixa de ser uma eficiente maneira de como contar uma história mas com o calcanhar de aquiles de não ser profundo em conflitos.

 

 

 

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