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Crítica do filme: 'Pequenas Criaturas' [Festival do Rio 2025]


Costurando a sensibilidade humana de forma poética – mastigando a imaginação e a expressividade –, chegou, em um dos últimos dias de Festival do Rio, a sessão do longa-metragem brasileiro Pequenas Criaturas: um filme que você assiste e não esquece. Escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, esse projeto encantador busca a comunicação com o público através de um roteiro envolvente, com personagens complexos e fascinantes, reunindo fragmentos de uma família dentro de recortes geracionais que se entrelaçam pelas amarguras do presente.

Ambientada numa Brasília de quase quarenta anos atrás, conhecemos Helena (Carolina Dieckmann) e seus dois filhos – uma criança e um adolescente – que chegam à capital do Brasil e se mudam para um prédio numa região central. Frustrada pela partida do marido, que logo viaja a negócios, ela se vê perdida e aflita, enquanto marcas do passado e inesperadas aventuras do presente se chocam, nos levando a um recorte cheio de conflitos, não só pra ela, mas para seus dois filhos.

Sob os três olhares desse núcleo familiar, as amarguras do presente logo se chocam com o acaso e o inusitado. Algumas vezes a bordo de uma Brasília amarela - símbolo interpretativo dentro da trama – percebemos a profundidade dos relacionamentos interpessoais sendo tratada com sutileza, fugindo da melancolia, mas sem deixar de ser incisivo nas provocações de reflexões. 

Um dos grandes desafios do filme era deixar atual um retrato familiar de quatro décadas atrás – e ele consegue. A construção dos personagens é envolvente, vai do riso à emoção, um dos trunfos de uma obra que contextualiza os primeiros anos de uma nova democracia – após a Ditadura Militar –, tendo como ambiente justamente a capital do Brasil. Assim, o roteiro parece se dividir em parábolas, que não fogem das lições morais, mas as tornam complementares. Uma mãe em um casamento infeliz, as descobertas da adolescência, até os amigos imaginários - cada peça desse quebra-cabeça emocional se encaixa para um norte de chegadas e partidas.

A solidão, as perdas, os medos, os perigos, as travessuras, o cuidar, a vida e a morte, se tornam elementos jogados em uma tempestade de sensações que nos entrega uma obra atemporal, vibrante e capaz de deixar marcas em nossos corações. Um dos melhores filmes exibidos no Festival do Rio 2025.

 

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