05/07/2023

Crítica do filme: 'O Crime é Meu'




As verdades e mentiras com ar teatral. Baseado em uma peça teatral escrita por Georges Berr e Louis Verneuil em meados da década de 30, o novo trabalho do ótimo cineasta francês François Ozon aborda a gangorra de emoções de uma jovem que vai da tristeza e anonimato até as flores e os aplausos após ser acusada de assassinato. Com diálogos ágeis, ritmo contagiante, e todo um ar teatral, o filme passa, de maneira superficial, por assuntos como: machismo, preconceito e até mesmo a cumplicidade moral em uma França perto da Segunda Guerra Mundial.


Em uma época onde os cinemas exibiam o filme Semente do Mal de Billy Wilder, conhecemos Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz) uma jovem atriz com uma carreira que não decola, com conflitos na vida amorosa, sem dinheiro quase sempre, devendo aluguel todo mês. Ela divide um apartamento no sexto andar de um edifício em Paris com a amiga Pauline Mauléon (Rebecca Marder), uma jovem advogada sem emprego que parece ser o único apoio de Madeleine no presente. Certo dia, após passar horrores em uma reunião, a protagonista acaba sendo acusada de assassinar um famoso produtor. A partir daí, sua vida ganha novos rumos quando verdades aparecem.


Mais ou menos cinco anos antes de começar a Segunda Guerra Mundial, em meados da década de 30, a França vivia dias de desenvolvimento artístico e cultural muito forte, inclusive Picasso pintara um de seus famosos quadros nessa época na própria capital francesa. O cinema se tornou cada vez mais relevante o que fez de objetivos de muitos e muitas serem artistas. Nesse contexto encontramos a protagonista, desiludida na vida, talvez até mesmo por não ter talento para a profissão escolhida, sofrendo os horrores do machismo por todos os lados. Quando sua vida muda, a partir de uma alegação de legítima defesa, a narrativa embarca no olhar da mudança de perspectiva dela através de olhares de muitos que a julgavam.    


Comédia biruta? História sem sentido? Ritmo alucinado? Um pouco disso mas há mais que isso! O espectador que não conseguir se conectar com as poucas mas existentes reflexões que há nas entrelinhas, ir até o fim do filme pode ser uma jornada sonolenta. Mas há pontos importantes para reter nossa atenção, é só ter um entendimento do contexto, das referências que o projeto traz.   


Com filmagens que duraram apenas dois meses, com locações na Bélgica e na França, O Crime é Meu tem um ótimo elenco, que mescla artistas renomados como: Isabelle Huppert, André Dussollier, Fabrice Luchini e Dany Boon, com duas jovens artistas da nova geração francesa.



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Crítica: 'Uma Babá quase Perfeita' (Revisão)


Um assunto de adultos na visão de todos. Camuflada de comédia mas com fortes traços de drama, principalmente sobre toda a problemática que gira em torno de um divórcio complicado, 30 anos atrás chegava aos cinemas um filme que marcou uma geração e marcou para sempre a carreira de um os mais artistas que o mundo da sétima arte já viu: Robin Williams! Dirigido por Chris Columbus e baseado na obra Aliás Madame Doubtfire, de Anne Fine, Uma Babá Quase Perfeita é um daqueles filmes sempre bom de rever!


Na trama, acompanhamos Daniel (Robin Williams), morador de São Francisco, na Califórnia, um ator com enorme coração mas sem emprego fixo, imaturo, também um pai que não consegue viver longe dos filhos após um doloroso divórcio. Sem saber o que fazer e já na linha do desespero, tem a inusitada ideia de se vestir de governanta mais velha e assim se candidatar a vaga de babá na casa da mãe dos filhos. Uma série de situações loucas acontecem e o protagonista passa por mirabolantes situações para manter o seu disfarce.


Profundo sem perder a ternura. Falar sobre divórcio é sempre complicado, principalmente em um roteiro que se aprofunda na visão dos filhos em relação a essa situação. Tudo é bem cirúrgico por aqui, se aproximando dos detalhes desse casal depois de uma década e meia juntos resolvem se separar, ela uma executiva e sócia de uma empresa de designer de interiores, ele um desajustado, imaturo que parece não levar a sério as responsabilidades do cotidiano. A dor, o sofrimento, o sentimento de mudança, o desespero ganham tons cômicos na figura de uma personagem que é o retrato de tudo que Daniel não conseguiu ser quando junto da esposa.


Vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem em 1994, Uma Babá quase Perfeita teve na maquiagem um fator importante. Robin Williams levava cerca de quatro horas e meia para se vestir na sua personagem. Reza a lenda que para testar a eficácia da maquiagem e sua personagem, uma vez Williams foi até uma livraria fora das gravações e não foi reconhecido. Falar desse ator é sempre muito especial, durante as filmagens improvisos atrás de improvisos eram vistos e o diretor Chris Columbus chegou a filmar com várias câmeras a mesma cena pois não sabia o que podia vir da mente brilhante do humorista que deixa saudades até hoje. E nossa... que saudades do Robin! Uma outra curiosidade, é que o papel da filha mais nova quase foi de Blake Lively mas na audição final o papel ficou com Mara Wilson.


Emocionante e engraçado, Uma Babá Quase Perfeita é um filme que sempre ganha uma nova leitura a cada vez que assistimos mas uma coisa é certa: mostra que o laços de amor são a base de qualquer família.

 


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Crítica do filme: 'Frio nos Ossos'


Uma casa isolada, quartos trancados, uma família que vive reclusa em uma enorme fazenda, uma visita inesperada em uma noite de forte tempestade. Esses são alguns dos elementos de uma surpreendente trama onde relações familiares conflitantes são a base para descobertas e segredos escondidos. Dirigido pelo cineasta alemão Matthias Hoene e escrito por Neil Linpow (que também interpreta um dos personagens do filme) Frio nos Ossos busca detalhar ao espectador passados de perdas, conflitos, vingança e loucura através de personagens esgotados emocionalmente que parecem estar prestes a serem confrontados dentro de suas bolhas criadas como proteção.


Na trama, conhecemos uma mãe super ativa (Joely Richardson), ex-anestesista, que vive com sua filha Maisy (Sadie Soverall) e o marido (Roger Ajogbe) em uma enorme fazenda numa área rural da Inglaterra, um lugar longe de tudo e todos onde o hospital mais próximo fica à 160 quilômetros de distância. Certo dia, em uma noite de tempo horroroso, dois irmãos bastante suspeitos batem na porta da família, que mesmo em dúvidas, resolvem ajudar. O que acontece dali pra frente é um jogo psicológico proposto através das ações e consequências, onde aos pouco vamos, através de atitudes drásticas, conhecendo as verdades de cada um daqueles personagens. Nos perguntamos até os minutos finais: O perigo vem de fora ou está dentro da casa?


O roteiro gira em torno da tensão, da composição de ações desesperadas onde laços maternais são elos, dentro de visões particulares conflitantes em relação ao passado dos personagens. Esse último ponto apresenta chocantes momentos de tensão ao longo dos 90 minutos de projeção. Aqui as reviravoltas são substituídas por surpresas, tudo é muito bem explicado, quando entendemos um fato, não há dúvidas sobre ele, isso tudo dentro de clima nada amistoso e constante no ar, com um ritmo intenso.


Quando as peças mostram suas verdadeiras faces ao público, dentro desse tabuleiro cheio de angústia, um jogo psicológico é proposto através das ações e consequências, assim conhecemos melhor todos as interpretações dos fatos que se seguem pelos personagens. Não importa o ponto de vista que refletimos, é possível sair daquela bolha que torna a tragédia algo constante e também iminente? Escolhas são portas que se abrem o tempo todo, para cada um dos personagens. Tem o aspecto psicológico pronto para análises e debates, principalmente na figura da mãe interpretada magistralmente por Joely Richardson. Sua personagem inclusive não tem nome revelado, apenas sendo chamada de mãe a todo instante. E esse ponto, dos laços maternais, é a interseção que navega as brilhantes linhas do surpreendente roteiro.


Disponível no catálogo da HBO Max, Frio nos Ossos prende a atenção do espectador do início ao fim. É um daqueles filmes onde tudo pode acontecer, onde desconfiamos de todos os personagens dentro de uma pulsante narrativa.

 


 

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Pausa para uma série: 'Agentes do FBI'


O que foi, o que é, e o que pode ser. A visão de uma turma de aprendizes do FBI sobre o mundo virtual mapeando o mundo real, conectadas por novas leis ligadas a avançada nova tecnologia, é a base de Agentes do FBI, minissérie disponível na Star Plus criada por Tom Rob Smith. Em três linhas temporais, uma no presente, uma no passado e uma no futuro, vamos percorrendo a obsessão pelo trabalho, os dilemas pessoais, as difíceis escolhas, os traumas que nunca vão embora de diferentes personagens e seus respectivos pontos de vistas na hora de entender mudanças drásticas na instituição que fazem parte. As relações pessoais são a base do refletir dessa distopia, através de um microscópio social proposto.


Na trama, acompanhamos um grupo de novos recrutas que são selecionados para fazerem parte de uma nova turma do FBI que vai se formar no ano de 2009. Assim, acompanhamos alguns protagonistas e suas dificuldades no início do recrutamento, depois no presente, já com alguma experiência na nova profissão, e também no futuro, onde uma série de situações acaba culminando na chegada forte de uma inteligência artificial que passa a realizar julgamentos de futuros transformando leis em donos de destinos onde o estado democrático aos poucos de torna um perigoso autoritarismo.


Ficção científica camuflada de drama policial, Class of '09, no original, joga luz sobre os recortes profundos sociais quando surge a variável da tecnologia desenfreada ligada às leis. As evidências, as relevâncias, entre outros pontos, se tornam variáveis com enorme peso, como se as linhas do algoritmo criado fosse capaz de prever situações através de uma estatística cheia de falhas. A visão dos personagens nessa trajetória é fundamental para entendermos as ações que são tomadas ao longo da longa linha temporal. Onde mais enxergamos pontos de refletir através da desconstrução na maneira de pensar é no personagem Tayo (interpretado pelo indicado ao Oscar Brian Tyree Henry), um brilhante agente que de aprendiz virou o chefe do FBI no futuro e se vê em conflito quando percebe as reais interpretações do que seriam as novas ‘Buscas pela justiça’.


Ao longo dos vigorosos oito episódios, o espectador precisa estar atento, em um mesmo episódio é um vai e vem danado na linha temporal. Como o debate proposto sobre a tecnologia é muito impactante, algumas subtramas (relacionadas a vidas pessoais) não conseguem profundidade, mas nada que atrapalhe a narrativa que executa com muito dinamismo as linhas do roteiro.


Agentes do FBI se torna marcante por trazer para debate os perigosos caminhos que se chega em uma ditadura, no autoritarismo, na censura, onde códigos culturais são substituídos por códigos artificiais.



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01/07/2023

Crítica do filme: 'Homens Brancos não Sabem enterrar' (Revisão)


Escrito e dirigido por Ron Shelton, cerca de 30 anos atrás chegava aos cinemas de todo o mundo a história de dois jogadores de basquete de rua, um homem negro e um homem branco, que buscam suas respectivas sobrevivências em malandragens combinadas onde as ações e consequências preenchem com brilhantismo uma narrativa empolgante. Tendo o basquete como plano central, o mais interessante é o que está nas entrelinhas: da amizade ao preconceito, das desilusões aos sonhos perdidos, das frustrações aos lapsos de felicidade. Reza a lenda que Stanley Kubrick tinha esse filme como um dos favoritos a vida.


Na trama, conhecemos Sidney (Wesley Snipes) e Billy (Woody Harrelson), o primeiro um homem casado que divide seu cotidiano como agente imobiliário e jogador de basquete de rua se jogando impulsivamente em apostas diárias. O segundo é um atrapalhado jovem que praticamente vira um nômade, levando sempre consigo um violão e uma bola de um dos esportes mais populares dos Estados Unidos, ao lado da namorada Gloria (Rosie Perez), pois está devendo dinheiro para mafiosos locais, em busca de algum trocado tenta a sorte pelas quadras se fazendo de péssimo jogador mas acertando a cesta a todo instante. Ambos vão aos poucos descobrindo uma improvável amizade e bolam planos de golpes juntos pelas quadras de Venice beach, na Califórnia. 


Quando a maturidade bate à porta, as opções se tornam mais evidentes. Pegando o gancho de interações e visões de um dos esportes mais populares da América, a narrativa se aprofunda em dramas pessoais e pelo contexto das entrelinhas busca um recorte social impactante flertando a todo instante ao conceito de ‘terra das oportunidades’. O olhar de cada um dos protagonistas sobre o que seria um futuro ideal acaba sendo uma variável flutuante, dinâmica, muito difícil de se enxergar mas com pistas dos caminhos que não pode se deixar levar caso queira atingir seus objetivos. O vai e vem da esperança é associado aqui a uma imaturidade, o que de fato nos leva para uma jornada de desconstrução dos personagens.


Um dos trunfos para o filme se tornar marcante é a química entre os dois protagonistas em cena. Woody Harrelson e Wesley Snipes participaram juntos de alguns filmes, antes e depois desse projeto. Um fato curioso dessa amizade que foi crescendo ao longo do tempo, é que ambos estrearam nos cinemas no mesmo filme: Uma Gatinha Boa de Bola (Wildcats). Em uma outra curiosidade, o projeto contou com um consultor sobre o esporte que gira a trama, o ex-pivô do Detroit Pistons, Bob Lanier.


Com uma trilha sonora maravilhosa, personagens carismáticos, um roteiro primoroso que faz o espectador refletir sobre a sociedade norte-americana nos anos 90, Homens Brancos não Sabem Enterrar aos poucos foi se tornando um clássico quando pensamos em filmes sobre esportes. Mas esse projeto é muito mais que isso, é um poderoso retrato sobre os caminhos que aparecem entre os sonhos e as frustrações.



 

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28/06/2023

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Pausa para uma série: 'Falando a Real'


Criado por Jason Segel, Bill Lawrence e Brett Goldstein (o Roy Kant de Ted Lasso), Falando a Real chegou sem muito oba oba ao ótimo streaming da Apple Tv+ e foi logo conquistando corações por todo lado. Com ótimos personagens, um episódio melhor que o outro, aqui o debate é sobre as camadas de emoções a partir de um trauma e as novas formas de lidar com conflitos que parecem gigantescos obstáculos. Batendo forte na tecla de que ajudar aos outros também é uma forma de se ajudar, o seriado, de 10 episódios em sua primeira temporada, é um aulão divertido e emocionante de reflexões sobre a vida.


Na trama, conhecemos Jimmy (Jason Segel), um terapeuta que trabalha com outros dois amigos em um enorme consultório que depois de um ano apenas sobrevivendo após o falecimento da esposa em um trágico acidente de carro, volta a despertar para a vida, reconectado laços perdidos, principalmente com a única filha, a adolescente Alice (Lukita Maxwell). Para buscar soluções para suas próprias barreiras que ele mesmo colocou na sua vida, contará com a ajuda dos amigos Paul (Harrison Ford) e Gaby (Jessica Williams) com quem divide esse enorme consultório de atendimento psicológico e também de um casal de curiosos vizinhos, Derek (Ted McGinley) e Liz (Christa Miller).


O luto é um canalha ardiloso. Nesse projeto, tudo começa com o luto e as variáveis que se aproximam quando esse chega em uma trajetória. Assim, conhecemos o protagonista na primeira etapa de sua recuperação que é reconhecer que precisa de ajudar. Redescobertas, memórias, lembranças positivas começam a fazer mais sentido para uma fuga de um lugar que afeta sua vida e aos de muitos ao seu redor.


Para entender mais sobre a vida, é preciso sofrer, chegar ao fundo do poço e assim recomeçar. Esse acaba sendo o lema do protagonista num segundo estágio, um homem que se vê em um presente confuso, com muitas arestas a se consertar após um tempo longe de tudo e todos. Quando se aproxima dos conflitos se vê forçado a usar suas habilidades para também tentar ajudar e assim buscar inspirações para seus próprios conflitos. Algo como um start é dado na sua sistemática emocional, como se a felicidade e conquistas dos outros fossem ferramenta para ele entender melhor a vida.


Paralelo a trama principal, subtramas profundas são acopladas as linhas do roteiro, nos levando a entender novos conflitos na visão de outros personagens. Tem o emburrado Paul e seu problema com o distanciamento da filha, Gaby e suas impulsividades além de ações e consequências no seu conturbado relacionamento, o casal Derek e Liz, o primeiro próximo da aposentadoria e a segunda querendo ter função na vida alheia, além de Alice, uma jovem que se vê sozinha com o pai em conflito e a descoberta de amores e situações conflituosas. Além dos pacientes do Doutor Jimmy, principalmente o carismático Sean (Luke Tennie).


Falando a Real é aquela série que você precisa ver todos os episódios de uma vez, no melhor estilo maratona. Os arcos complementares e as deixas fazem de cada episódio uma peça importante para diversas reflexões com enormes paralelos com a realidade do mundo.



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27/06/2023

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Crítica do filme: 'Horizonte'


Grande Vencedor do Prêmio de Melhor Longa-metragem na segunda edição do Festival de Cinema de Vassouras no Vale do Café, Horizonte nos mostra de forma delicada e poética a história de um homem condenado a vive em um cubículo, tendo seus direitos jogados para fora de um lugar que já chamou de lar, juntamente com seus restos de sonhos, ficando preso a uma solidão angustiante. A virada nesse projeto é um ponto de partida para surpresas e emoções, quando a coragem bate à sua porta e um novo amor chega trazendo de volta para sua vida tudo que lhe havia sido roubado. Dirigido por Rafael Calomeni, filmado em grande parte na cidade de Aparecida de Goiânia, segundo município mais populoso do estado de Goiás, Horizonte nos mostra que, as vezes, nas mais simples histórias estão inesquecíveis reflexões sobre a vida.


Na trama, conhecemos, um senhor já na parte final de sua vida (Raymundo de Souza) que se vê em um presente tumultuado, com a família em conflito após a morte de um membro. Morando numa casa onde não é bem-vindo, onde a solidão bate mais forte a cada segundo que passa, certo dia, após ouvir um anúncio numa rádio local, resolve se mudar para um condomínio de casas que está sendo construído com o apoio da prefeitura. Nesse lugar descobre um novo sentido da vida e até mesmo é surpreendido por um novo amor.


Onde há esperança em meio ao caos de um cotidiano triste, sem vida? As traduções de linhas do abstrato mundo dos sentimentos camuflados pela solidão, em muitas histórias dentro de uma casa dividida, acaba sendo o pontapé inicial desse roteiro surpreendente. Uma câmera inquieta, em constante movimento, busca completar lacunas por meio de detalhes. Seja num gesto, num olhar, num ato de confronto, aqui o espectador precisa estar preparado para refletir sobre a desconstrução, principalmente quando quatro paredes logo se tornam oito em um recorte profundo sobre a solidão que nunca encontra a solitude.


Se queres que eu sofra é grande o teu engano! Um clima de conflitos e mais conflitos, longe de primeiros passos para uma possível fuga acaba despertando no protagonista uma necessidade de viver melhor o tempo que lhe resta, ele sabe que só terá uma oportunidade quando essa chegar. É o que acontece! Quando resolve desbravar o mundo, sempre com seu violão no colo, a redescoberta da vida logo chega. E com ela, surpresas. Nesse caminho para um tantinho de esperança tudo começa a fazer mais sentido aos seus olhos, que não estão chorando!


Produzido por Dostoiewski Champangnatte (um dos roteiristas do sucesso Fala Sério, Mãe!), o filme conta com boa direção de Calomeni, uma fabulosa e inesquecível atuação do experiente ator Raymundo de Souza. Horizonte deixa suas reflexões pelo caminho, com um final aberto que deve gerar várias interpretações. A única certeza é de que é um filme que merece ganhar o circuito de exibição e emocionar plateias de todos os cantos de nosso país.



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12/06/2023

Crítica do filme: 'Sangue e Ouro'


Em mais um recorte sobre a segunda guerra mundial disponível na Netflix, essa produção alemã foca no período de quase fim da batalha onde em um vilarejo com fortes marcas da guerra uma luta por um tesouro judeu coloca em conflito um desertor, uma fazendeira, nazistas e moradores do local. Bastante sangrento e bem objetivo, o roteiro apresenta os vários lados de uma batalha que envolve ganância, desespero, vingança e oportunidade. A direção é assinada pelo cineasta Peter Thorwarth.


Na trama, ambientada na primavera de 1945, conhecemos Heinrich (Robert Maaser), um soldado alemão que acabara de desertar e logo é sentenciado à morte. Só que o destino lhe ajuda e coloca em seu caminho a humilde fazendeira Elsa (Marie Hacke) que o salva e cuida do seus ferimentos na casa onde mora com o irmão. Os nazistas que sentenciaram Heinrich estão na cidade em busca de ouro deixado para trás por judeus em fuga, fato que todos ali naquela região parecem conhecer. Logo, uma imensa batalha é vista, com vários lados em busca de seus objetivos.


É importante a situação da Segunda Guerra Mundial aqui nesse cenário. Com os franceses cruzando o Rio Reno, região que atravessa a Europa do sul ao norte e os norte-americanos se aproximando, os nazistas se veem cada vez mais encurralados. Nesse ponto começa a história desse longa-metragem que gira em torno de uma palavra: desespero. Seja na visão do desertor, em busca de sua filha, ou na da fazendeira que em certo momento não tem mais nada a perder. Quem possui os mesmos objetivos acaba criando alianças e a partir daí conflitos e mais conflitos são vistos pelos olhos também da ganância ou mesmo da vingança.


O projeto parece um pouco corrido em alguns momentos. Como escrito acima, é importante entender o contexto (final da guerra) do maior dos conflitos que o mundo já viu até ali. As cenas de ação são ótimas. A sobrevivência é outro encaixe que vemos nas escolhas dos personagens, até mesmo num já pensamento de pós guerra, aquele ouro tão desejado vira uma luta pela futura existência pois todos os lados não sabem o que vai acontecer com o futuro deles ao fim da guerra.  


Pra quem curte filmes de ação, principalmente de guerra, esse longa-metragem de pouco menos de 100 minutos de projeção é mais um projeto para você refletir sobre o tema.



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Crítica do filme: 'Mixed by Erry'


A malandragem nos primórdios da pirataria. Nos tempos das fitas k7, bem distante da globalização intensa dos dias atuais, um negócio lucrativo, e completamente ilegal, era criado de maneira despretensiosa por três irmãos italianos em meados da década de 70, fato que mudou a maneira como a Europa passou a combater os que infringiam os direitos autorais de diversos músicos. Dirigido pelo cineasta italiano Sydney Sibilia, Mixed by Erry consegue encontrar sua fórmula de sucesso com personagens carismáticos e uma trama empolgante, puxada para a comédia, mas sem esquecer de mostrar a profundidade das ações e consequências.


Na trama, conhecemos Enrico 'Erry' Frattasio (Luigi D'Oriano), um jovem tímido morador da região de Forcella, parte da grande Nápoles, que passou a infância tendo como referência o pai trambiqueiro, um falsificador de famosas bebidas destiladas. Erry sempre amou o universo musical, e tornando um grande conhecedor das novidades pela planeta e quando chega próximo da maioridade tem o sonho de ser DJ. Como todas suas tentativas não dão muito certo, ao lado de um dos irmãos Peppe (Giuseppe Arena) resolvem criar um negócio onde playlists de músicas nacionais e internacionais eram colocadas em uma fita k7 e vendidas por toda a região onde moravam. O negócio acaba sendo uma avalanche de sucesso, e com a chegada do irmão caçula ao negócio, Angelo (Emanuele Palumbo), o trio monta um verdadeiro império da pirataria se tornando um enorme alvo para as ações da polícia federal italiana.


Dinâmico, empolgante, o roteiro não foge em nenhum momento de sua trama principal, o que se torna fundamental para cada detalhe brilhar na construção da narrativa. Baseado em inacreditáveis fatos reais, as estradas da ilegalidade de um popular produto pirata da época são contextualizadas de forma que entendemos as razões, e até mesmo, emoções por trás de cada avanço da organização, uma das pioneiras nessa ação. Essa largada na frente no mercado ilegal, que infelizmente dura até hoje no mundo, mesmo com todo o avanço tecnológico, transformou também as investigações das autoridades, no filme é apresentado um olhar sobre as operações da polícia federal italiana que a cada movimento novo ganhavam os holofotes da imprensa.


A produção italiana busca seu aprofundamento em passagens rápidas no início da trajetória do grande protagonista dessa produção, um jovem que só queria ser DJ. Como através da perseguição desse sonho, que logo vira desilusão, a pirataria alcança essa família disfuncional? A explicação é até simples, o pai trambiqueiro e adorado pelos três filhos homens transforma a mais simples falcatrua em normalidade. Esse ‘exemplo’ de alguma forma guia seus herdeiros para um mar de inconsequências. Para vocês terem uma ideia, no auge da organização criminosa de pirataria criada pelos irmãos forma mais de 180 milhões de fitas pirateadas, além de que muitas das playslists criadas tinham músicas de um famoso festival de música chamado Sanremo durante o próprio festival (lembre-se, em uma época ainda sem internet!).


Mixed by Erry está disponível lá na Netflix e contorna os caminhos do crime de uma família que se distancia da ingenuidade conforme se perdem nas desilusões do sonhos.



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06/06/2023

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Crítica do filme: 'Trancada'


A árvore boa não pode dar frutos ruins. Chegou ao catálogo da Prime Video um suspense que gira em torno dos conflitos de uma mãe com um passado de inconsequências, se vendo em uma situação complexa tendo que lidar com variáveis incontroláveis. Dirigido pelo cineasta D.J. Caruso com um roteiro assinado por Melanie Toast, em seu primeiro roteiro para um longa-metragem, Trancada se guia pelas suas linhas de intensa tensão numa caminhada repleta de simbolismos que retratam conflitos, a luta entre o se entregar ou manter esperança.


Na trama, conhecemos Jessica (Rainey Qualley), uma jovem de vinte e poucos anos, ex-viciada em drogas, com um recentemente passado vivido em algum tipo de reabilitação, que se vê em uma situação complicada quando fica presa dentro da dispensa da velha casa onde está morando de forma provisória com os dois filhos pequenos, ao mesmo tempo em que reaparece em sua vida Rob (Jake Horowitz) o ex-namorado viciado, pai das crianças. Lutando contra o tempo, contando com a ajuda da filha mais velha, mas ainda assim uma criança, e buscando soluções para sair dessa situação, a protagonista enfrentará seus medos.


Rodado todo no Estado do Tennessee, nos Estados Unidos, Trancada busca sua base nas complexidades de uma mãe buscando redenção. Lutando contra os demônios de seu passado ligado a inconsequência, a protagonista parece ter superado essa fase e embarcado na jornada de ser uma mãe melhor para seus filhos. Presa naquele lugar, se vê em conflito com o fato de ainda se achar uma péssima referência como mãe, até mesmo com conflitos não resolvidos com sua própria. O espaço onde fica trancada é pequeno mas esse tenso suspense consegue ampliar aquele cômodo, entendendo de forma objetiva medos e partes do passado de uma protagonista que briga até o último instante para não perder a esperança.


Somos colocados na visão da protagonista a todo instante, sem saber ao certo o que acontece longe daquele cômodo. Com os poucos recursos e os abalos psicológicos que sofre, Jessica se vê num ponto crítico, onde decisões precisam serem tomadas. De forma complementar, a fé ganha seu espaço, com uma protagonista perdida em seus pensamentos angustiantes que logo viram dilemas e com acesso ao mundo caótico que a levou em grande parte até ali. É um ótimo trabalho de Rainey Qualley, que é filha também da maravilhosa atriz Andie MacDowell.

 


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Crítica do filme: 'Fiéis'


A consciência social é algum tipo de mecanismo de defesa do mentiroso? Chegou em 2023 no catálogo da Netflix, uma produção holandesa que não deixa de ser um recorte sobre a mente humana. Com um pontapé inicial em cima de curiosa história de duas amigas que resolvem viver vidas paralelas longe do cotidiano maçante com seus respectivos maridos, Fiéis é um filme sobre mentiras premeditadas que abre espaços para reviravoltas acoplando ao drama um misterioso assassinato. Dirigido por André van Duren, o projeto se desenvolve na reflexão sobre moralidade, o cardápio que acompanham as ações e as inconsequências.


Na trama, conhecemos Bodil (Bracha van Doesburgh), uma experiente juíza holandesa que leva uma vida feliz com o marido, o médico Milan (Nasrdin Dchar). Sua melhor amiga, Isabel (Elise Schaap) é uma mulher que passa por uma crise no casamento. As duas, em determinadas épocas do mês fazem uma viagem onde vivem outras vidas, com calientes romances, um plano que dá sempre certo pois uma é cúmplice da outra. Quando um assassinato acontece e misteriosamente Isabel desaparece, Bodil se vê em um labirinto onde achar verdades em meio a tantas mentiras é uma tarefa complexa. Tudo se complica mais ainda quando Luuk (Gijs Naber), marido de Isabel resolve se juntar na busca pela esposa.


As verdades insuportáveis que se atolam nas mentiras. Tem muitos caminhos que o espectador pode seguir e refletir sobre alguns dos temas propostos pra debate. As fraquezas humanas, o buscar despertar para uma vida que nunca pode ser a principal, os segredos entre quatro paredes, as fantasias, as emoções conflitantes que surgem quando entendemos melhor as quatro peças desse tabuleiro repleto de traições, mentiras, voyeurismo, testemunhos falsos. Distinguir o certo do errado pode ter interpretações diversas nessa narrativa que busca seu clímax nos momentos de tensão, num confuso desaparecimento e um assassinato que pode ter mais de um motivo.


A questão da moralidade é algo que acaba sendo um ponto de interseção entre os personagens. As intenções, as decisões, andam em uma linha tênue onde o egoísmo se mostra presente quase sempre, arrancando qualquer tipo de certeza no que é certo ou errado. Essa transformação que passam esses casais acaba os fazendo ter uma nova visão sobre os próprios casamentos. Ainda sobre isso, Bodil se vê indo na contramão do sua própria profissão, burlando uma investigação para manter a sua mentira, o que não deixa de ser um enorme conflito não só no campo pessoal.


Infiéis e suas inúmeras interpretações está disponível lá no catálogo da Netflix. Um filme para assistir com bastante atenção, principalmente quando abre brechas para um olhar instigante sobre o buraco da fechadura de relacionamentos.



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27/05/2023

Crítica do filme: 'Sob o Sol de Toscana'


Procurar e não encontrar, não quer dizer que não exista! Dirigido pela cineasta californiana Audrey Wells, que na carreira só dirigiu esse e outro longa-metragem chamado A Lente do Desejo no final da década de 90, em Sob o Sol da Toscana as desilusões se misturam com um leque de possibilidades quando a vida de uma escritora e crítica literária se torna vazia, triste, percorrendo um caminho rumo a maturidade em se redescobrir. Com um ótimo elenco e com uma atuação absolutamente fabulosa da indicada ao Globo de Ouro por essa atuação, Diane Lane, esse filme encantador completa 20 anos agora em 2023.


Na trama, conhecemos Frances (Diane Lane), uma esforçada crítica literária, moradora da cidade de San Francisco, que também e professora e tem uns livros que está escrevendo estacionados na gaveta. Sua vida ia bem, casada, com um ótimo emprego, até que ela descobre que seu marido a está traindo. Tempos depois o divórcio acontece, e de maneira bem prejudicial para a protagonista, que além de entregar a casa onde morava com ele a vida toda, ainda teve que pagar pensão para o traidor. O tempo passa e Frances não consegue encontrar mais a felicidade, vive seus dias tristes sendo consolada muitas vezes pela melhor amiga Patti (Sandra Oh). E por essa amiga é onde chega uma oportunidade que mudará sua vida, Patti consegue uma passagem para Frances viajar até a Itália, na região da Toscana. Quando embarca, não sabe ela que laços profundos vão ser criados nesse novo lugar.


A decepção vai de encontro a oportunidade. Quem nunca se decepcionou com um possível amor? A narrativa é cirúrgica em pegar as linhas do roteiro e transformar em belíssimas cenas e diálogos onde percebemos toda a carga emocional envolvida nos conflituosos sentimentos que chegam para Frances. Essa que passa por péssimos dias, um sofrimento danado quando descobre a traição do marido e na hora do divórcio ainda precisa pagar pensão alimentícia e perder a casa onde morou durante todo o casamento. A oportunidade de mudança chega pela melhor amiga: uma passagem para a Itália, mais precisamente na região da Toscana, um lugar maravilhoso cheio de obras de artes da arquitetura renascentista, além de vinhedos fantásticos. Aqui a imaginação de pensar sobre a real possibilidade de enxergar mudanças através desse lugar se torna realidade.


A desconstrução da protagonista chega com tons de aprendizado sobre como ser feliz com o se tem. Praticamente monta sua base em uma casa de mais de 300 anos, onde revê passos do passado, dá pitacos sobre o amor, ajuda em um momento difícil da melhor amiga, troca conselhos com outra conhecida mulher estrangeira da região, encontra amizades verdadeiras, não deixa de encontrar novamente decepções amorosas, até a fé se aproxima dela nas figuras católicas que são sempre homenageados por essa região central da Itália onde ela resolve recomeçar, conhece a cultura e a culinária local, aprende a cozinhar, vai ao cinema (onde está passando, em italiano, George, o Rei da Floresta, com o atual vencedor do Oscar de Melhor Ator Brendan Fraser). Uma personagem muito próximo da realidade, que sofre, que se alegra, que se decepciona, que busca a volta por cima mesmo sem saber que está a caminho disso.


Com o objetivo de fazer refletir sobre o encontrar o olhar de forma positiva mesmo nos momentos mais difíceis, Sob o Sol de Toscana não esconde de ninguém que a vida não é fácil, que vamos encontrar decepções amorosas nas nossas estradas, mas que sempre podemos esperar que alguma coisa boa vai acontecer.

 


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25/05/2023

Crítica do filme: 'Dois Corações'


Um encontro não que não estava previsto, ou estava! O cineasta mexicano Lance Holl, que lá atrás, há quase 40 anos, comandou a ação em Braddock 2: O Início da Missão, com o lendário Chuck Norris, chega para seu quarto longa-metragem como diretor dessa vez para apresentar uma história baseada em fatos reais que nos apresentam as surpresas emocionantes de duas histórias que correm em paralelo pelas estradas sempre conflitantes dos sentimentos ligados à perda e ao amor. Esse é um filme para assistir com um lencinho do lado!


Na trama, conhecemos Chris (Jacob Elordi) um jovem universitário, que está em busca do que quer fazer de sua vida. Ele possui problemas de relacionamento com o exigente pai e vê sua rotina e destino mudar quando conhece a jovem Sam (Tiera Skovbye) por quem logo se apaixona. Em paralelo a essa história que rumava para uma romance como algum outro qualquer, conhecemos o cubano Jorge (Adam Canto), de família rica que levantou um império de Rum. Desde criança, Jorge possui graves problemas no pulmão mas isso não o impediu de seguir em frente e até encontrar o amor no relacionamento com a aeromoça Leslie (Radha Mitchell). Essas duas estradas, que aparentemente nunca se cruzariam, vão levar uma flechada do destino onde dilemas, dor, amor e perda vão se encontrar em um determinado momentos de suas trajetórias. Como fator de curiosidade, o longa-metragem, conforma já dito, é baseado em fatos reais. O personagem Jorge é inspirado em Jorge Bacardi, um dos herdeiros da famosa marca de bebidas destilada.


A narrativa, em busca do iminente plot twist complica o que deveria ser fácil: explicar com importantes detalhes as duas histórias, que em muitos momentos andam por uma linha previsível e confusa. Quando chegam os dilemas, a trama ganha força insistindo na mensagem que está presente em todas as linhas do roteiro: valorizar os momentos. Acompanhar essa história pelo ponto de vista de Jorge é um caminho mais amplo e cheio de reflexões, até mesmo de forma geopolítica quando detalhes da chegada do governo de Fidel Castro em Cuba fez a sua família se mudar para a Flórida em busca de manter seus empreendimentos. Pelo lado do jovem universitário, vemos um quase adulto sem pretensões na vida preso num eterna problemática na relação com o pai.


Dois Corações aborda um importante tema, que nunca deixou de ser polêmico: a doação de órgãos. Os Estados Unidos, até pouco tempo atrás, tinha o dobro de transplantes de órgãos em comparação a outros países, inclusive o Brasil. Mas isso não deixa de tirar méritos de nosso país no quesito, já que ocupamos a segunda posição no ranking mundial, a diferença para a maior potência do mundo são os investimentos nessa área. Tomara que o filme, com o sucesso de sua entrada na Netflix gere cada vez mais reflexões sobre esse tema tão importante ligado à salvar vidas.



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Crítica do filme: 'Tina'


Se você não cura as feridas do passado, você vive sangrando. Como contar a história de uma das maiores cantoras da história? Ao longo de cerca de duas horas, dirigido pela dupla Daniel Lindsay e T.J. Martin, o documentário Tina nos mostra com detalhes a trajetória profissional e momentos chaves pessoais da inesquecível Tina Turner. A sensualidade, o carisma, a energia, o sucesso, a fama, se entrelaçam com seu passado, voltando décadas atrás, para memórias de enormes traumas, ligados ao abandono de seu pai e sua mãe quando criança até os longos anos em que foi abusada e violentada pelo ex-marido. Esse projeto é o raio-x completo da vida intensa de uma mulher poderosa que soube se reinventar depois dos 40.


Disponível na HBO Max, repleto de imagens e gravações de shows antológicos, além de fitas k7 antigas com gravações de inúmeras entrevistas de momentos importantes na carreira da cantora, o projeto indicado para três prêmios Emmys em 2021 nos leva num primeiro momento até a década de 50, no Tennessee, onde a jovem Tina se encontrou com suas primeiras referências musicais, no gospel, no blues, na música de B. B. King, assim logo conseguiu uma vaga para cantar no coral da igreja batista quando adolescente. Aos 17 anos, foi chamada ao palco pela primeira vez dando início assim à carreira profissional, ao lado do ex-marido Ike Turner. O sucesso veio ao mesmo tempo que a violência, nos momentos difíceis na primeira fase de sua carreira profissional, principalmente no relacionamento repleto de situações absurdas com Ike.


Essa corajosa mulher, que ensinou Mike Jagger a dançar e que nunca estudou dança, nem música, tendo como sua marca registrada a voz marcante, suas pernas saltitantes, sua impressionante presença no palco precisou se reinventar quando enfim se livrou do ex-marido. Nessa fase, tudo foi novo de novo para ela, empresário que nunca havia trabalhado, uma maior liberdade artística enfim assinando sua carreira conforme ela queria. Nesse momento, sua carreira logo atinge o ponto mais alto, com sucessos marcantes como o número 1 da Billboard na época: ‘what's love got to do with it’. Em meados da década de 80, no auge da carreira, assinou para participar do filme Mad Max - Além da Cúpula do Trovão.


A menina que tinha o sonho de lotar plateias pelo mundo, feito apenas conseguido por alguns na época, principalmente no disputado universo do Rock and Roll, chegou lá! Até mesmo o marcante show no Rio de Janeiro, para mais de 180 mil pessoas, no final da década de 80, foi lembrado no documentário. Em meio a shows e mais shows e uma enorme preocupação com a carreira, o lado mãe também ganhou espaço, os tempos longe dos filhos e todos os conflitos que viveu ao longo da criação deles.


Tina, nos mostra de maneira impressionante como essa impactante super estrela conviveu durante anos com conflitos que levou por toda sua vida mas sem deixar de brilhar um segundo quando subia no palco.



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17/05/2023

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Crítica do filme: 'Uma Doce Revolução'


A revolução que está em todos nós. Escrito e dirigido por S.E. DeRose, atualmente disponível na catálogo da Prime Video, Uma Doce Revolução nos leva a um recorte do início da década de 60, aos olhos de uma mulher que de alguma forma inspira um detalhe importante na legislação de direitos civis norte-americano quando uma palavra foi incluída na lei: gênero. Baseado em fatos reais, o roteiro navega nesse instante de mudanças em um Estados Unidos segregado e repleto de preconceitos por todos os lados.


Na trama, conhecemos Grace Gordon (Anna Friel), uma mulher que vê sua vida de luxo, com os pés na futilidade, se perder na falta de dinheiro após retornar a sua cidade natal depois de se separar do segundo marido. Com o falecimento do pai, que era um juiz respeitado, vai atrás de um emprego e percorre o machismo e preconceito da época. Aos poucos começa a se reaproximar de um antigo conhecido, um congressista (Kelsey Grammer) ligado à legislação da nova lei dos direitos civis.


Em uma época de luta pelos direitos iguais, onde o preconceito racial ganhava fortes manifestações por toda a maior potência do mundo, acompanhamos a visão de uma mulher que acaba virando um importante alicerce na luta pela independência feminina. Mas o roteiro não coloca apenas esse ponto de vista. Através de Walter (Aml Ameen), Jubilee (Pauline Dyer) e Mattie (Starletta DuPois) temos a visão dos negros em uma época de forte segregação racial, toda a luta, sofrimentos e preconceitos vividos em uma época de oportunidades desiguais.


A narrativa busca refletir bastante sobre os conflitos desses tempos, inserindo um romance com o fator político, fato que transforma o congressista em um alicerce importante por conta da sua maneira de enxergar o mundo ao seu redor. A forte trajetória da emancipação feminina aqui é ligada ao empreendimento, conclusão que consolida a independência mesmo com o machismo reinando. Uma Doce Revolução é atemporal, nos mostra um pequeno recorte de uma época de conquistas mesmo que no presente a luta nunca termine.



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