Pular para o conteúdo principal

E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #508 - Ligia Helena Villon


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

 

Nossa entrevistada de hoje é cinéfila, de São Bernardo do Campo (São Paulo). Ligia Helena Villon tem 31 anos. Formada em Cinema Digital e animação. Atua principalmente como montadora, produtora, diretora e roteirista. Co-produtora no coletivo independente Alguma Coisa Filmes, colaboradora do Coletivo Quadrinhos do Mundo e na página Mulheres Audiovisual, cineasta independente, dirigiu 6 curtas e um média metragem. Possui história publicada pela editora Skript no quadrinho "Pândega" com mais outros artistas que foi ilustrada por Mazure Moganash. E como uma colaboração no livro "Al Azif - O Necronomicon", e na HQ "Crônicas de 2020".

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação à programação? Detalhe o porquê da escolha.

Essa pergunta é bem interessante porque, como eu cresci na década de 1990, os cinemas de rua já tinham sido praticamente instintos e só havia salas de cinema de shopping. E no caso de São Bernardo, havia menos opções ainda. Então onde eu moro tinha um lugar que era um “point” não pela qualidade ou pelas opções, mas sim pela falta delas. Era o Cinemark do Extra Anchieta. Ele é bem localizado e abrange SBC, Diadema, SCS. Depois, com o tempo, outros cinemas melhores apareceram em outros shoppings. Mas todas as grandes pré-estréias àquele cinema faziam filas de dar voltas gigantescas em todo hipermercado. Infelizmente, São Bernardo carece de diversidade de programação, Bacurau aqui, por exemplo, ficou só uma semana em cartaz em uma sala apenas.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Olga (2004) - Jayme Monjardim.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Anna Muylaert - Que horas ela Volta? (2015).

 

4) Qual seu filme nacional favorito e por quê?

Que horas ela Volta? (2015) – Anna Muylaert, pelo o tema e como ele foi abordado.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Adorar filmes, mas não só de ver filmes, de todos os aspectos dos que abrangem um filme como, por exemplo, a construção de um filme.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feita por pessoas que entendem de cinema?

Sim e não, quem faz a programação de um cinema entende cinema, mas do ponto de vista financeiro. Ele olha para o filme e calcula se aquele filme vai trazer retorno financeiro para ele. Falar sobre o tripé do cinema (produção, exibição e distribuição) no Brasil é bem mais complicado do que parece. Cada filme tem seu próprio acordo de distribuição e nosso país tem sérios problemas de distribuição e exibição.

 

7)  Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Não, é normal achar isso, mas a quebra de paradigma já aconteceu antes com a televisão e os cinemas não acabaram, apenas se reinventaram. O mesmo vai acontecer agora com a evolução dos streamings e a covid-19.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram, mas é ótimo.

Cléo das 5 às 7 (1962) – Agnès Varda.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não. Salas de cinema são ambientes fechados com ar-condicionado. Amo cinema, mas a vida vem antes. Existem soluções alternativas como drive-ins, por exemplo.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Como sempre muito boa, é que as pessoas têm pouco acesso aos produtores menores. Temos uma variedade muito boa de filmes, séries e etc. que não são tão conhecidos pelo público nacional. Por exemplo, você conhece a web-série Punho-Negro?

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Eu acho que não tenho nenhum artista favorito, nem nacional ou internacional, que me faça assistir todos os filmes dele. Eu apenas vou assistindo os filmes conforme me dá vontade. Eu vou pela história, se tem algum elemento que me chamou a atenção, eu assisto.

 

12) Defina cinema com uma frase:

A arte de contar histórias com imagens em movimento.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Numa sessão do que fui para o Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) o cinema estava quase vazio, mas tinha um grupo de adolescentes, que do nada, antes dos trailers começarem decidiram fazer uma volta olímpica pela sala de cinema. 

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Necessário, ele é tão ruim que fica bom. E a luta contra o trabalho infantil é nobre.

 

15) Muitos diretores de cinema  não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Sim, quando eu fiz faculdade de cinema eu pensava “Ok, eu vou ter que assistir de tudo agora”. E é isso mesmo, tiveram aulas que foram assistir filmes. Alguns colegas ficaram revoltados, mas não faz sentido. É como você ser médico e ter medo de sangue. É intrínseca à profissão, para você ser cineasta você tem que ter background, saber o que já foi feito. Tem que gostar de ver filmes.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Eu não lembro o nome exato, mas a sala começou meia cheia e terminou com 4 pessoas (eu, minha irmã, o namorado dela e mais uma pessoa). Num festival latino-americano, um documentário de uma hora e meia sem diálogos de uma menina andando pelo deserto do Atacama. Acho que era “Alice en La cidades”. Só no final explicava o porquê que a menina estava andando no deserto e só 4 pessoas sabem o porquê depois de uma prova de resistência.

 

17) Qual seu documentário preferido?

Ilha das Flores (1989) – Jorge Furtado

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão?

Já, mais de uma vez, principalmente em festivais.

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Homem-Aranha no Aranhaverso (2019)

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

Nenhum. Atualmente, eu tenho percebido uma tendência de sites de cinema a escrever qualquer asneira só pelo click. Então eu evito ao máximo. Eu sigo alguns colegas da área e a newsletter da Revista do Exibidor.

 

21) Qual streaming disponível no Brasil você mais assiste filmes?

Eu assisto bastante coisa pela Netflix, HBOMax e Amazon Prime Video, algumas coisas no Disney Plus. Mas tem também alguns streamings não tão conhecidos que valem a pena conhecer onde eu descobrir vários filmes: CineSesc, Darkflix, TelaTrans e Mulheresflix.

Postagens mais visitadas deste blog

Pausa para uma série: Absentia – 1ª Temporada

O desespero de uma nova vida dentro de uma mesma realidade. Protagonizada por Stana Katic ( Castle ), Absentia tem um dos roteiros mais complicados das séries de mistérios com tiro porrada e bomba da atualidade, mesmo assim coloca uma pulga atrás da orelha do espectador pois os episódios da primeira temporada parecem a todo tempo nos fazer várias perguntas que obviamente surgem entre em uma revelação e outra, deixando a icógnita se teremos respostas ao fim dessa jornada. Uma agente do FBI, um sumiço de anos, uma frenética volta ao convívio aos seus conhecidos e o paradigma das escolhas, isso tudo dento de um background de um assassino misterioso. Pra quem gosta de maratonar uma série com muitas surpresas, Absentia pode ser uma boa dica.  Tem na Amazon Prime . Nessa mistura de drama pessoal com suspense e ação, acompanhamos a trajetória de uma agente do FBI chamada Emily ( Stana Katic ) que sumiu por longos seis anos sem ninguém ter muita noção de seu paradeiro até que um certo...

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Criaturas do Farol'

As dúvidas sobre o canto da sereia. Se perdendo em alguns momentos entre os achismos que surgem naturalmente numa relação desconfiada entre duas pessoas que nunca se viram, o longa-metragem Criaturas do Farol é um peculiar suspense psicológico com poucas perguntas e também poucas respostas. O roteiro se fortalece em diálogos que nos guiam para uma jornada emocional e paranoias que prendem a atenção na maior parte do tempo mas não chegam a empolgar. Pensando em realizar um objetivo náutico, que remete lembranças ao pai e apoiada pelo avô, a jovem Emily ( Julia Goldani Telles ) parte com seu veleiro rumo às infinidades dos oceanos. Chegando no sul do pacífico, a embarcação é atingida por uma tempestade e acaba indo parar numa ilha onde é resgatada pelo faroleiro Ismael ( Demián Bichir ). Logo essa relação de gratidão passará por enormes desconfianças. Como contar uma história que está em uma bolha no campo das suposições? A tensão por meio do chocalhar psicológico se torna um corpul...