16/08/2023

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Crítica do filme: 'Crime na Rodovia Paraíso'


Os horrores de um crime imperdoável. Escrito e dirigido pela cineasta Anna Gutto, em seu primeiro longa-metragem, Crime na Rodovia Paraíso busca refletir sobre um tema impactante, o tráfico de pessoas, através do olhar de uma batalhadora caminhoneira que se vê sem saída, envolvida em um esquema. Mas o que deveria ser um filme impactante, se torna superficial, com uma narrativa com falhas, sonolenta, presa numa relação pouco aprofundada entre dois irmãos. Lançado em julho do ano passado nos Estados Unidos e disponível atualmente no catálogo da Prime Video, o filme tem no elenco Juliette Binoche e Morgan Freeman.


Na trama, conhecemos Sally (Juliette Binoche), uma mulher solitária que viaja com cargas por todo os Estados Unidos com seu caminhão. Seu irmão Dennis (Frank Grillo) está preso, e de dentro da prisão coloca Sally para ajudá-lo com alguns favores para sair das enrascadas que se mete atrás das grades. Num último movimento para ajudá-lo, já que Dennis está perto de sair da prisão, Sally se depara com uma situação impactante. Ela precisa transportar ilegalmente algo que não sabe o que é para um determinado homem. Quando descobre que se trata de uma jovem, ela resolve ajudar a garota percorrendo estradas perigosas, bandidos e o olhar da polícia, na figura de Gerick (Morgan Freeman), um consultor com mais de 50 anos de experiência, que começa a fechar o cerco contra ela.


O olhar fixo na protagonista limita a percepção como um todo de um problema global. Sally é uma trabalhadora que não consegue se desprender da relação conflituosa que tem com o irmão, faz as entregas que ele pede, cega de que está ajudando. A troca de perspectiva e a tentativa de entendimento da situação grave em que se meteu é um ponto de virada no seu olhar, só que a forma como a história é contada a partir dessa desconstrução acaba deixando lacunas pelo caminho. Quando há espaço para uma reflexão sobre a situação terrível que vive a jovem sequestrada, a narrativa entra na óbvia associação aos traumas que vive na sua vida sem esperanças, quando se depara com a relação de outras famílias um olhar diz mais que mil palavras. O papel da polícia caminha no superficial, contorna a trama dentro da já batida obviedade, não se aprofunda em instante algum.


O grande mérito do projeto é buscar alguma reflexão para um assunto pesado, terrível. Um atentado aos direitos humanos, um crime ultra violento que causa sequelas inimagináveis, a privação de vidas, um negócio completamente ilegal, desumano, que movimenta bilhões de dólares para inescrupulosos bandidos. O tráfico de pessoas, infelizmente é uma realidade. É função do cinema colocar para reflexão, as vezes até mesmo como papel de denúncia, assuntos doloridos de nossa sociedade.





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Crítica do filme: 'Retratos Fantasmas'


Exibido no Festival de Cannes e no Festival de Gramado de 2023, antes de ganhar as salas de cinemas do sempre conflituoso circuito brasileiro de exibição, o novo trabalho de um dos principais cineastas brasileiros da atualidade, Kleber Mendonça Filho, Retratos Fantasmas, mescla o antes e o depois de um Recife em constante mudanças, um reflexo de outras grandes cidades brasileiras. Com muitas reflexões nesse caminho dentro de um recorte profundo, pessoal, com alta carga de sentimentos ligados à memórias familiares, vamos das euforias às incertezas com a certeza de que o tempo foi alterando os lugares.


Em atos que definem bem toda a estrutura narrativa, essa jornada repleta de críticas sociais começa com um olhar familiar, no bairro Setúbal (situado entre avenidas Barão de Souza Leão e Armindo Moura), na zona sul de Recife, onde o narrador (o próprio Kleber) viveu durante muitos anos acompanhando as mudanças estruturais, emocionais, políticas, econômicas, sociais. Abrindo o baú de memórias, com vídeos antigos, lembranças de pessoas importantes em sua trajetória, percebemos aos poucos a importância desse lugar como um reflexo de outros tantos.


O que morre mas continua vivo. Não vai ter happy end? No segundo momento, estacionamos no epicentro da narrativa, o ponto que se liga com os outros, as memórias dos/nos cinemas. Art Palácio, Veneza, Trianon, São Luiz, todos grandes salas históricas em Recife, cada um ganha um pequeno espaço para o mundo conhecer algumas de suas ricas histórias. Alguns viraram igrejas, alguns viraram cinemas e antes eram igrejas. Lugares que foram alterados com o tempo, e que antes da extinção de alguns desses, levaram milhões de pessoas para assistir aos mais diversos filmes em muitas décadas de existência. Kleber navega em mais lembranças, nos tempos que trabalhou para uma sala de cinema, nos papos com um amigo projecionista, nas lembranças de filmes que passaram por ali. Como esquecer de lugares tão especiais? Impossível! Espaços que gosta de se reencontrar mesmo que atualmente de fora para dentro.


Os centros esquecidos, aqui, chegam quase na conclusão. Nesse ponto, o campo de reflexão é mais amplo, passando rapidamente numa mudança da onde o dinheiro circula. Os contextos com os lugares que percorreu se juntam às suas memórias, levando o espectador a um tour por registros históricos e culturais importantes, algo que pode traçar paralelos com outras cidades brasileiras.


Algo que percorre todo o documentário e que se torna uma certeza sobre Kleber: sua vida conversou com suas obras. Seja em Aquarius, em O Som ao Redor, nas referências de filmes rodados ali naquela cidade, somos testemunhas de pontos que se encontram entre a ficção e a realidade, onde a magia do cinema sempre foi uma saída para gerar reflexões mas sem nunca esquecer o passado, onde tudo começou.


Retratos Fantasmas estreia dia 24 agosto nos cinemas.



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12/08/2023

Crítica do filme: 'Casa Vazia'


Um recorte doloroso sobre o olhar de uma caminhada na constante solidão. As aflições de um mundo, sem nem ao menos uma pitada de esperança, é o pontapé inicial de Casa Vazia, dirigido por Giovani Borba, que aborda a falta de oportunidades, o desespero, a inconsequência aos olhos de um homem pacato, sem muitas palavras, que está num presente solitário, abandonado pela família. Perdido no seu cotidiano de perdas, sem muitas escolhas, limitado em relação a estudos, vemos um protagonista que se distancia cada vez mais do que seria uma importante pausa sobre as inconsequências de seus atos. Muito bem filmado, com imagens e movimentos que dão beleza às reflexões da narrativa, o projeto foi exibido no Festival do Rio e chegou ao circuito exibidor nesse ano.


Na trama, conhecemos Raul (Hugo Nogueira), um homem que mora em uma casa simples no meio de uma estrada. Desempregado e com óbvios problemas com bebida num passado muito próximo, se vê em um presente sem opções, fruto da falta de qualificação já que a mão de obra limitada se perde em meio a tecnologia em constante evolução. Pra piorar o cenário, é abandonado pela esposa. Flertando com a tragédia, sua única forma de sobrevivência dentro desse cenário é aceitar o bico de ladrão de gados em ações noturnas repletas de perigos por todos os lados. Assim, conforme situações acontecem, Raul precisará parar e entender as possibilidades do que fazer com sua vida.


Ambientado e filmado na fronteira com o Uruguai, na cidade de Santana do Livramento, município do Rio Grande do Sul de pouco mais de 80.000 habitantes, que tem um foco gigante na agricultura e pecuária, Casa Vazia consegue dentro de sua bolha melancólica explorar os porquês de um personagem principal em conflito abrindo seu foco para o contexto da vida no campo em uma região que associa a falta de oportunidades a rara mão de obra qualificada. O espectador precisa ter paciência porque o desenrolar é lento mas há um simbólico objetivo nisso, as pausas para reflexão são constantes nos levando para um desfecho interpretativo.


Casa Vazia e seus muitos méritos, vai da fé até a crise familiar, passando por constantes ‘bang bangs’ na calada da noite, elementos que se juntam para explicar a falta de solução na vida de um homem que perdeu a esperança faz muito tempo e agora se vê passando por cima das inconsequências, muito pelas dificuldades financeiras, chegando até a sobrevivência, o único foco de uma vida limitada, sem muitas saídas.



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Crítica do filme: 'No Outro Encontro Você'


Os vários recortes em um só. Com uma narrativa contornada pela melancolia e as desilusões da vida, seja no lado pessoal, ou no profissional, o longa-metragem brasileiro No Outro Encontro Você busca seu alicerce numa espécie de ‘cansaço de si mesmo’ dentro de lembranças embaralhadas com o não sucesso em um presente cercado de tristeza. Esse liquidificador de emoções acaba sendo a base do que assistimos ao longo de pouco mais de uma hora e meia de projeção desse projeto dirigido por André Bushatsky.


Na trama, ambientada no último mês do ano, conhecemos quatro amigos que se reúnem pela última vez na casa de campo de dois deles, já que a residência será vendida após o falecimento da matriarca da família. Tem playboy enrolado com seus empreendimentos furados, tem administrador boa praça endividado, uma artista introspectiva que está de mudança para outro país, além de uma dondoca que se joga numa traição em busca de algum sentido existencial. Nesse grupo de pessoas que se conhecem faz muito tempo, vamos acompanhando um recorte do presente deles, maduros ou imaturos, que convivem com segredos, mentiras e traições.


Os seus problemas são menores que os meus problemas? O que é o fracasso? Com algumas perguntas ligadas aos obstáculos da vida, que circulam na trajetória desses conflitantes personagens, No Outro Encontro Você tem seu epicentro nos relacionamentos em crise, buscando um olhar aos sentimentos mais íntimos dentro de uma montanha russa de emoções. Com uma locação apenas, vários assuntos contornam a trama, algumas de forma mais profunda, outras no campo superficial. O aborto, o rompimento com o ponto básico de um casamento, a infelicidade nos negócios, o não se desprender de uma bolha egoísta, mimada, ligada à criação que teve, os paralelos com o real são constantes, são personagens que dentro de suas características podemos enxergar do lado de cá da telona.


No Outro Encontro Você promove um refletir sobre recortes do cotidiano de quatro almas que se encontram com seus pensamentos diversos sobre a vida, jogando uma luz marcante dentro dos fracassos nos caminhos que os seres humanos precisam lidar. Pra quem se interessar, o longa pode ser assistido no NOW, no Vivo e na Amazon Prime Video (para aluguel).




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Crítica do filme: 'Agente Stone'


Amigos, amigos, negócios à parte? Se apoiando no determinismo para mostrar um recorte dentro de um elo da importância das relações interpessoais com o profissionalismo, Agente Stone, novo filme protagonizado pela Gal Gadot é um divertido longa-metragem, com suas mentirinhas, que busca sua base no universo quase sempre criativo da espionagem. Dirigido pelo cineasta britânico Tom Harper, com roteiro assinado pela dupla Greg Rucka e Allison Schroeder, o projeto conta com a participação especial de Glenn Close além de ser o primeiro filme em Hollywood da atriz indiana Alia Bhatt.


Na trama, conhecemos Stone (Gal Gadot), uma agente secreta infiltrada em uma equipe do MI6. Já mais de um ano nesse time, ela foi criando laços carinhosos com todos os outros três integrantes, só que ela responde a uma organização chamada ‘A Carta’, que consiste em ex-agentes secretos que não respondem à países, nem ninguém e entram em complicadas situações para resolver crises diplomáticas, políticas, sociais, à sua maneira sem interferência de nações. Essa organização utiliza um programa tecnologicamente avançado chamado ‘coração’, que traça estratégias, porcentagens de êxito em determinadas ações além de hackear tudo e todos em qualquer lugar do planeta. Quando uma missão dá errado, seu caminho cruza com o de Keya (Alia Bhatt), uma poderosa hacker que tem lá seus objetivos contra ‘A Carta’.


Será esse projeto o início de mais uma franquia de filmes de ação? Unindo o campo da probabilidade, da estatística, refletindo sobre o determinismo, Agente Stone consegue aliar em sua narrativa fugas eletrizantes, empolgantes cenas de ação, além de reviravoltas que percorrem também o caminho da reparação de ofensas no epicentro do sentido de vingança. O ritmo é intenso, a trama passa por países como: Itália, Portugal, Senegal, Inglaterra e consegue encontrar um norte na desconstrução dos personagens dentro da causa e consequência que acabam sendo bem desenvolvidos por aqui. Ao longo de duas horas de projeção, o filme acaba perdendo um pouco do fôlego no seu último ato, após o início alucinante e cheio de surpresas, quando as peças já estão apresentadas nesse tabuleiro com estopins pra todo lado. Mas nada que tire as qualidades apresentadas até ali.


Agente Stone está em cartaz na Netflix e se consolida como o possível primeiro filme de uma franquia que pode dar muito certo.




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Crítica do filme: 'Scarface' *Revisão*


Quando a ganância encontra a inconsequência. Mostrando os avanços do crime organizado, principalmente o tráfico de drogas em um Estados Unidos tomados por avanços criminosos por todos os lados, Scarface, ao longo de suas quase três horas de duração, escancara a violência sem deixar pelo caminho críticas sociais de uma terra de oportunidades. Dirigido pelo genial Brian de Palma e com roteiro assinado por ninguém mais ninguém menos que Oliver Stone, baseado num livro homônimo escrito por Armitage Trail, o filme completa 40 anos em 2023.


Na trama, conhecemos Tony Montana (Al Pacino) um perigoso criminoso cubano que chega aos Estados Unidos no início da década de 80 ao lado de alguns comparsas e logo busca seu espaço na ilegalidade se infiltrando em organizações criminosas pela cidade de Miami. Com um histórico violento ele começa a ascender na organização e prepara o terreno para assumir seus próprios negócios que envolvem em grande parte o contrabando de drogas de países sul-americanos para os Estados Unidos. O tempo vai passando e o império de Montana só aumenta o levando a ser alvo de concorrentes e ações policiais ao mesmo tempo em que se perde de sua própria realidade.


Para um melhor entendimento sobre essa obra, é preciso entender o contexto daquela época. No início da década de 80, o até então manda chuva de Cuba, Fidel Castro, abriu um dos portos de seu país com a oportunidade para cubanos com parentes da terra do tio Sam pudessem enfim sair de Cuba, porém, muitos criminosos embarcaram nessas viagens (que passaram das 3.000 embarcações). Esse é o pontapé inicial dessa história, com um protagonista que se encaixa nesse perfil de criminosos que chegaram em Miami pra tocar o terror.


Filmado quase todo em Los Angeles, mesmo que o filme seja ambientado em uma Miami dos anos 80, a ascensão e queda de Montana, esse terrível traficante e alucinado usuário de drogas, passa por todo um sistema. A narrativa é bastante detalhista nesse sentido. Corrupção policial, de banqueiros, uma região em crise pelo avanço de drogas pesadas, disputas territoriais pelo comando do contrabando, tudo é visto pela ótica do protagonista.


Scarface é um dos trabalhos mais impactantes, e lembrados, da carreira de Pacino no mundo do cinema. Pra quem ainda não viu, ou quer rever esse clássico de Brian De Palma, o filme está disponível no streaming da Star Plus.



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Crítica do filme: 'Os Outros' *Revisão*


A fantástica observação de uma narrativa através da perspectiva. Explorando lugares sombrios, principalmente na mente de uma mulher em conflito, chegou aos cinemas 22 anos atrás um suspense psicológico intrigante que nos leva para dias tensos de uma família em meados da década de 40 em Jersey, pertencente às ilhas do canal. Escrito e dirigido pelo cineasta chileno Alejandro Amenábar, seu primeiro trabalho em língua inglesa, e produzido por Tom Cruise, Os Outros possui um criativo plot twist que dão todo sentido à ótima narrativa.


Na trama, conhecemos Grace (Nicole Kidman), uma mulher que mora com os dois filhos pequenos em uma enorme casa numa região isolada da ilha britânica de Jersey. Apreciadora do silêncio, numa casa sem eletricidade, essa católica fervorosa, cheia de regras muito por conta dos filhos que tem a rara doença da fotosensibilidade, assim, por exemplo, todas as cortinas da casa devem ser fechadas quando eles passam. Seu marido foi para a guerra e nunca mais voltou, ficando ela e as crianças sozinhas. Certo dia, três pessoas batem em sua porta e logo conseguem empregos para ajudá-la na casa. Ao mesmo tempo, mãe e filhos começam a ouvir vozes em aleatórias horas do dia. Será que eles não estão sozinhos? Se sim, quem são os outros?


Vencedor do Goya de melhor filme no ano de seu lançamento, Os Outros busca através de um peculiar olhar sob uma perspectiva refletir sobre o trauma, as lembranças ruins, tudo isso com um instigante clima misterioso onde possibilidades para o sobrenatural mudam a todo instante. Abordando os laços familiares de mãe e filhos desconectados do mundo, aos poucos vamos conhecendo segredos escondidos pela mente, numa região sombria. Pensamentos religiosos colocam frente a frente a fé e o sobrenatural, uma luta que confunde demais a protagonista amargurada por um forte trauma no seu passado que talvez possa ter colocado em análise no seu subconsciente em relação a tudo aquilo que acredita.


O longa-metragem que marcou a carreira de Nicole Kidman custou cerca de 17 milhões e faturou mais de dez vezes mais em bilheteria, se tornando um dos filmes do gênero terror de maior bilheteria das últimas décadas. Surpreendente é uma das palavras que mais bem definem o filme, principalmente quando pensamos naquele final de cair o queixo!


Pra quem nunca viu, ou gostaria de rever, o filme está disponível no catálogo da MGM.



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Crítica do filme: 'Serpico' *Revisão*


Em uma de suas maiores atuações nas telonas, o astro do cinema Al Pacino protagonizou 50 anos atrás um impactante projeto que nos leva para um olhar sobre a corrupção em longa escala na polícia de Nova Iorque na década de 60/70. Dirigido pelo excelente cineasta norte-americano Sidney Lumet, Serpico joga a moralidade para a evidência, um escudo de um protagonista que enxerga no seu sonho de ser policial uma caótica realidade sem saída. Indicado para dois Oscars (Melhor Ator e Roteiro Adaptado), o projeto, baseado em fatos reais, traça um recorte social importante com fortes críticas sobre quem deveria prezar pelas boas ações e honestidade.


Na trama, conhecemos Frank Serpico (Al Pacino), um policial boa praça, honesto, correto, íntegro, presente na guerra da coreia, descendente de italianos, que desde seu início na polícia de Nova Iorque presenciou absurdos em ações de outros policiais. Com a força policial dominada pela corrupção em todos os níveis, sem perder seu lado da moral, com ele não existe posicionamento em cima do muro, se torturando pela sua causa, que abraça com poucos incentivadores, vê amores indo embora, e um rompimento abrupto com a felicidade de sua vida pessoal. Aos poucos, quase sempre realizando suas rotinas como policial à paisana, ele resolve encontrar soluções para denunciar tudo que enxerga em todas as delegacias que é designado, sendo um alvo fácil de corruptos.


Baseado no livro homônimo do jornalista Peter Maas, biógrafo do verdadeiro Serpico, a narrativa busca traçar com muita coerência a trajetória de um policial que ficou entre a cruz e a espada, sem saber em quem confiar, como se sentisse um peixe fora d’água lutando para não compactuar com a normalização do errado. A desconstrução do personagem acaba-o o tornando também um anti-herói pelos descontos em seus relacionamentos amorosos, machista, metido a garanhão, acaba rompendo linhas na vida pessoal, situação que afeta seu relacionamento mais duradouro jogando para escanteio qualquer felicidade a longo prazo. O medo e a infelicidade transbordam no olhar dos seus próximos.


A instituição policial, definida como principal arma de defesa de qualquer sociedade, aqui é colocada em xeque, com a normalização do errado, dos abusos, da ganância desenfreada. Como enfrentar o sistema sendo um dos poucos a lutar contra? Lumet consegue ir fundo no seu olhar crítico sobre o caos dessa instituição. O papel da imprensa chega forte no desfecho, uma ferramenta que se torna necessária para causar impacto e jogar ao mundo os absurdos de ações policiais principalmente o pagamento de propinas por toda a cidade.


Pra quem ainda não viu, ou gostaria de rever, o filme está disponível no ótimo catálogo da HBO Max.



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Crítica do filme: 'Adeus, Lenin!' *Revisão*


Chegou aos cinemas 20 anos atrás um longa-metragem alemão que impactaria os amantes da sétima arte com um recorte profundo, inteligente, divertido e emocionante do final da década de 80 quando após a queda do famoso Muro de Berlim uma família se blinda de mentiras por conta de uma situação peculiar, transformando um quarto numa espécie de museu de recordações de um tempo que nunca mais iria voltar. Adeus, Lenin! dirigido por Wolfgang Becker, transforma sua brilhante narrativa em uma aula de história e também de amor, entre um filho e sua mãe.


Na trama, conhecemos Alex (Daniel Brühl), um jovem morador da Alemanha Oriental, que tinha o sonho de ser astronauta e vive em um modesto apartamento junto de sua irmã e sua mãe. Essa última é uma influente mulher nos tempos de socialismo só que sofrera bastante no campo emocional, principalmente quando o marido a abandonara e nunca mais deu notícias. Durante uma passeata, mesmo que sem participar dela, a mãe sofre um ataque cardíaco e entra em coma. Em paralelo o Muro de Berlim não existe mais e a a crescente ocidentalização chega para o lado ex-oriental. Após 8 meses em coma, a mãe acorda milagrosamente, assim é dito pelo médico que ela não deve passar por grandes emoções. Alex então tem uma ideia mirabolante que é esconder que o socialismo alemão acabou transformando o quarto da mãe em um museu de memórias sobre aquele tempo. Mas será que ele conseguirá mentir pra sempre?


As descobertas culturais de um ocidente logo ali. A narrativa é brilhante em mostrar os impactos da crescente ocidentalização na visão de Alex e sua família. Ele consegue um emprego como instalador de antenas parabólicas e por meio do olhar do próximo vai tentando se encaixar em uma realidade nova, repleta de variáveis que ele nunca imaginara. Essa troca de ideologia política e seus rápidos impactos sociais, culturais e econômicos, chega ao mesmo tempo em que o protagonista encara a chegada do primeiro grande amor, uma enfermeira soviética que cuida de sua mãe, uma jovem que o ajuda a lidar com as transições desse momento.


Com a mentira precisando ser executada, através das suas mirabolantes criações para não deixar a mãe saber que o socialismo acabou, Alex acaba percebendo aos poucos que as descobertas culturais de um ocidente logo ali era uma questão de tempo e acaba criando todo um contexto como se daquela forma fosse a que ele gostaria que o rompimento acontecesse.


Há um olhar sobre a relação entre pais e filhos muito tocante. Um amor de um filho por sua mãe, a construção de uma família em meio a questões políticas importantes, um futuro promissor mas mesmo assim incerto repleto de laços quebrados onde a memória se torna uma peça importante do lembrar.


Adeus, Lenin! é muito mais que uma grande aula de história, é um filme que transborda as infinidades do amor, dos laços familiares em um mundo em constante modificações.



 

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05/08/2023

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Crítica do filme: 'O Acidente'


Nem tudo que a gente enxerga é real. Uma briga de trânsito acaba sendo um marco inicial de uma história de perdas, sexualidade, sentidos de família, que nos leva sob o olhar de uma protagonista em crise existencial que se joga em um curioso e improvável laço entre duas famílias. O Acidente, estreia na direção em longas de Bruno Carboni nos faz refletir sobre uma pergunta que percorre tudo que assistimos: Se conectar com outras histórias faz parte do nosso aprendizado?


Na trama, conhecemos Joana (Carol Martins), uma jovem que trabalha como tradutora e está grávida do primeiro filho com a namorada, Cecília (Carina Sehn). Certo dia, durante um trajeto ao trabalho de bicicleta, acaba se envolvendo em uma ríspida situação no trânsito, inclusive sendo atropelada. Ela resolve deixar pra lá, não que dar queixa, mas um vídeo da situação é publicado na internet fazendo a mudar de ideia e acaba entrando na vida da família que causou o acidente. Durante esse período, busca entender os personagens dessa história, principalmente o filho da mulher que a atropelou.


Tirar ou não satisfação numa questão de trânsito? Por mais que esteja certa, vale a pena se colocar em risco? Essas perguntas ficam em plano de fundo, escondem um olhar muito intimista sobre tudo que se desenrola a partir de uma variável incontrolável que contorna a sociedade. Partindo desse princípio, com uma narrativa que adota um ponto de vista exclusivo na protagonista percebemos um embarque no trauma dos outros fato que leva Joana remexer sobre seu próprio emocional, sua rotina, seus amores, seus dramas, suas perdas, suas escolhas.


Juíza da situação? Se conectar com outras histórias faz parte do nosso aprendizado? Quando entendemos melhor o detalhado recorte na vida de Joana, percebemos seu traçar paralelos a partir dos que cruzaram sua vida. A família em questão, vive em pé de guerra, com um pai militar rígido na educação de seu filho, uma mãe que está forte estresse, sem saber como agir. Nesse momento, o sentido de ser mãe aflora na jovem que logo se conecta com o filho do casal, como se tivesse algo a acrescentar, ou até mesmo uma troca de experiências, na rotina solitária do rapaz. O Acidente parte de uma situação extrema de violência para tantas outras, um olhar real sobre o viver, sobre o aceitar, sobre se conhecer.


Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Beijing, o projeto faz parte da seleção do Festival de Cinema de Gramado na competição de longas gaúchos e estreia nos cinemas no dia 24 de agosto.



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04/08/2023

Crítica do filme: 'Projeto Extração'


O mais do mesmo com tiro, porrada e bomba. Buscando uma rasa contextualização dentro de uma famosa zona conturbada mas que abriga uma das maiores reservas de petróleo no mundo, o novo filme de ação Projeto Extração, que reúne dois astros de duas gerações dos filmes de ação, Jackie Chan e John Cera, é um festival de cenas de ação e diálogos puxados para o tragicômico onde a trama fica em segundo plano, deixando pouco espaço para mais profundidade nas subtramas. Além de tudo, o filme é aquele famoso projeto onde deduzimos rapidamente seu meio e fim, se tornando um dos títulos mais previsíveis lançados pela Netflix em 2023.


Na trama, conhecemos Luo feng (Jackie Chan), o líder de um grupo de segurança que é chamado para uma missão complexa que compreende retirar trabalhadores de uma refinaria chinesa no Iraque que está sendo alvo de mercenários. Entre os trabalhadores está a filha engenheira do protagonista que tem um relacionamento frio e distante com o pai. Quando precisam atravessar a temida zona chamada ‘rodovia da morte’, são atacados (com direito até a motores à jato que criam tempestades de areia) e logo se descobre um plano do roubo de todo aquele petróleo da região. Para ajudar Luo Feng a combater os inimigos, ele contará com a ajuda do ex-militar norte-americano Chris (John Cena), que virou casaca quando seu irmão sofre as consequências de suas escolhas.


O deserto como mina de ouro. Falado em dois idiomas, essa co-produção China/Estados Unidos busca seu contexto na ganância e toda a problemática pela luta por petróleo em um mundo cada vez mais dependente desse poderoso recurso natural. E nada mais lógico do que ambientar um roteiro em uma zona de conhecidos conflitos já bem conhecida. Partindo desse princípio, a narrativa se desenvolve através do olhar de dois homens de guerra. Um experiente agente de segurança que está buscando uma melhor relação com a filha após um passado de magoas (que não é muito bem explicado), e um ex-fuzileiro naval que largou sua terra e vive no meio do deserto ajudando no desenvolvimento de uma região bastante carente. Mesmo tendo essas duas perspectivas o discurso conflituoso da narrativa não se desenvolve, o contexto se fecha sem maiores explicações metendo o pé no acelerador em alucinantes cenas de ação pouco empolgantes.


Dirigido por Scott Waugh com roteiro assinado por Arash Amel, com locações em um deserto chinês, rodado em meados de 2018 e só lançado em 2023 na Netflix, Projeto Extração pode até ser um entretenimento pra quem curte filmes de ação mas um grande sonífero para quem curte refletir com profundidade sobre os paralelos com a realidade, aqui, conflitos ligados as disputas (que percorrem anos) por um dos mais desejados recursos naturais do planeta.



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31/07/2023

Crítica do filme: 'Manhunter - Caçador de Assassinos'


Os labirintos que envolvem a mente humana. Primeira aparição na tela grande de um dos personagens mais enigmáticos do cinema, o Dr. Hannibal Lecter, Manhunter - Caçador de Assassinos, baseado na famosa obra do escritor e jornalista norte-americano Thomas Harris, Dragão Vermelho, explora com maestria os distúrbios da mente humana como forte elemento dentro de uma pulsante e minuciosa narrativa. Primeiro grande filme da carreira do genial cineasta Michael Mann (hoje com 80 anos e na ativa, com três projetos em pré-produção), o projeto percorre ao longo de quase duas horas de projeção detalhes de uma complicada investigação. Nessa obra, pouco explorada pelos amantes do cinema, repleta de curiosidades, a nomenclatura usada para o aterrorizante psiquiatra é Lecktor (então não estranhem). Mas o certo, das obras de Harris, é Lector como nos filmes que vem em sequência.


Na trama, conhecemos Will Graham (William Petersen) um licenciado agente do departamento de análise comportamental do FBI, que vive seus dias em calmaria, numa casa de frente pro mar quando é novamente recrutado para ajudar na caça de um terrível e brutal serial killer conhecido pela alcunha de ‘Dentes de Monstro’, um impiedoso assassino que age com a presença da lua cheia. Ao aceitar o convite, sabe que precisará interagir novamente com um outro serial killer que está preso, o ex-psiquiatra Dr. Lecktor (Brian Cox), um psicopata que quis matá-lo em eventos passados. Com traumas abertos nessa conflituosa relação com Lecktor, Will passará por muitos obstáculos para concluir esse misterioso caso.  


Atos nutrem fantasias. A narrativa consegue do início ao fim, criar um importante clima de tensão. Um jogo sobre vaidades intelectuais é instaurado, de um lado um exímio analista comportamental que percorre fatos dando ênfase à detalhes perdidos dentro da investigação, de um outro um serial killer completamente insano que age de uma forma peculiar à procura de sua vítimas. Em paralelo a isso, Lecktor que parece jogar outro tipo de tabuleiro, talvez muito mais sombrio, algo ligado ao passado dele com o de Will. Navegando entre a loucura e o brilhantismo, o protagonista embarca rumo as investigações utilizando métodos bastante particulares, excêntricos, ao juntar peças complicadas para traçar o perfil do assassino, algo como se precisasse pensar como ele, entrar na mente do criminoso. Um caminho muito perigoso e que afeta não só a ele mas todos ao seu redor.


Muito antes de ser o temido executivo Logan Roy no seriado de sucesso Succession, o experiente ator escocês Brian Cox foi o primeiro intérprete de Hannibal. Uma curta aparição nesse filme, diga-se de passagem, inclusive filmou as cenas do personagem em apenas três dias. E esse foi um papel bastante concorrido na época, Cox disputou o papel com Brian Dennehy, Bruce Dern, John Lithgow (esse que depois viria a ser outro impactante serial killer, o trinity na Série Dexter) e Mandy Patinkin. Um fato curiosíssimo é que quando Cox interpretava o Dr. Lecter nesse filme, Anthony Hopkins (o interprete do mesmo personagens em outras adaptações) estava fazendo uma montagem da obra de William Shakespeare, Rei Lear no Teatro. Quando Hopkins assumiu o papel de Lecter em Silêncio dos Inocentes, Cox também estava em cartaz com uma montagem da mesma peça!


Completando 37 anos esse ano, Manhunter - Caçador de Assassinos é uma obra-prima do suspense, um filme com cenas de tirar o fôlego. Para quem se interessar em assistir pela primeira vez, ou mesmo rever, o filme está disponível no catálogo do streaming Looke.



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Crítica do filme: 'Flashdance' (Revisão)


Ser é acreditar! Contando a trajetória de uma dançarina que trabalha como soldadora, um dos filmes mais empolgantes da década de 80 aborda o sonho sem deixar de mostrar a realidade da sobrevivência, a distância entre esses dois pontos, uma jornada de incertezas, acaba sendo importantes variáveis da narrativa de um dos filmes mais assistidos nos cinemas de todo o mundo no ano de 1983 (só começou a ser exibido nas televisões brasileiras só no final da década de 80). Dirigido pelo cineasta britânico Adrian Lyne, com roteiro assinado pela dupla Thomas Hedley Jr. e Joe Eszterhas, Flashdance é inspirado na vida de uma dançarina e operária canadense chamada Maureen Marder.


Na trama, conhecemos Alex (Jennifer Beals), uma jovem de 18 anos, amante da dança, com o sonho de entrar em um concorrido conservatório de balé. Para sobreviver, ela trabalha de dia como soldadora em obra e de noite se apresenta em impactantes shows noturnos de dança em uma boate. Certo dia, se aproxima do seu chefe, Nick (Michael Nouri), um homem mais velho, mais maduro, que a ajuda no seu caminho rumo aos sonhos.


What a Feeling, Maniac, quem nunca ouviu essas músicas e logo lembrou no filme? Com uma das trilhas sonoras mais bem sucedidas em vendas nas lojas, em apenas duas semanas mais de 700.000 cópias já haviam sido vendidas, as vezes esquecemos sobre alguns temas importantes que o projeto aborda. As oportunidades, o lidar com o medo, a amizade, o trabalho como forma de sobrevivência (aqui ainda com a adição do universo machista que está inserida a forte protagonista), os conflitos de um relacionamento entre chefe e empregado. Ao longo de um pouco mais de 90 minutos de projeção, a narrativa é recheada de cenas de dança empolgantes que giram ao redor do sonhar.


Se abandonarmos nossos sonhos, não somos nada. O sonho é um emblemático ponto que liga todos os pontos dessa história que mora no coração de muitos cinéfilos. Além de acompanhar os passos da protagonista, tem o rapaz que sonha em ser um artista de stand up comedy, uma patinadora de gelo buscando alcançar o sucesso. Junto a isso tem o par romântico de Alex, um homem que veio da pobreza, alcançou seus objetivos com o estudo e trabalho honesto.


O filme tem algumas curiosidades na escolha dos personagens chaves. Kevin Costner fez o teste para o papel de Nick além do mesmo personagem ser oferecido a Gene Simmons (sim, o baixista do KISS!) mas o papel ficou com Michael Nouri. Já para o papel de Alex foi bem concorrido, Jamie Lee Curtis, Bridget Fonda, Melanie Griffith, Helen Hunt, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer e Sharon Stone fizeram o teste para o papel que acabou ficando com Jennifer Beals.


Flashdance marcou uma geração de fãs e sem dúvidas escreveu seu nome na galeria da cultura pop de uma década importante, com muitas mudanças sociais. Pra quem ainda não viu ou quer rever, o filme está disponível no catálogo da Paramount Plus.

 


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30/07/2023

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Crítica do filme: 'Supernova'


As dores incuráveis de uma tragédia. Numa região remota, em uma estrada de pouco movimento, uma mulher em fuga com os dois filhos estão prestes a serem o centro de uma situação dolorosa onde o espectador enxerga os fatos a se seguirem através da visão de três personagens. Alcoolismo, machismo, egoísmo, o desespero, são alguns dos elementos que envolvem a forte narrativa. Escrito e dirigido por Bartosz Kruhlik o longa-metragem polonês busca suas reflexões através do exato momento onde o inesperado encontra o destino.


Na trama, conhecemos Iwona (Agnieszka Skibicka), uma mulher que já não aguenta mais as terríveis crises familiares provocadas pelo vício em álcool do marido Michal (Marcin Zarzeczny) e resolve fugir de casa, que fica numa comunidade rural, andando estrada a dentro com os dois filhos do casal. Nessa fuga, uma tragédia acontece, fazendo com que a vida desses dois personagens se cruzem com o arrogante Adam (Marcin Hycnar) e do policial Slawek (Marek Braun).


Em uma reunião de emoções dolorosas, o projeto tem o mérito de traçar um enorme e cirúrgico raio-x de alguns personagens que são os pontos de vistas principais sob o calor emocional de uma traumática situação. Assim, conhecemos um policial atormentado pela situação que presencia e que esconde um segredo na sua relação com a vítima, um mimado e inconsequente homem de meia idade ligado ao governo e um outro homem que se sente culpado pelos acontecimentos que se seguem. A partir do fato central da trama, um aterrorizante caos é instaurado, sendo imprevisível saber como essa história termina.


A justiça, seus limites e as leis dos homens. Há espaço também para o ponto de vista dos que deveriam lidar com a situação. As autoridades policiais paralisadas, atônitas, na cena do crime se perdem no procedimento e em não saber o que fazer para contornar o ocorrido. A reação pública é imediata quando a fragilidade da justiça se mostra evidente.  


O título, supernova, é uma menção aos novos começos após uma explosão de uma estrela, algo como um ciclo de alguns destinos que durante a vida renascem, vivem e morrem novamente. Um certeiro paralelo que tem tudo haver com o que assistimos ao longo de cerca de 80 minutos de projeção.



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29/07/2023

Crítica do filme: 'Paraíso' (2023)


Você já imaginou se pudesse vender ou receber tempo de vida? Navegando por uma engenhosa distopia até mesmo um criativo contexto geopolítico a nova produção alemã da Netflix Paraíso nos leva de encontro a uma realidade onde a variável tempo não necessariamente está ligada à idade já que as pessoas que vão decidir até onde vão. Com uma tripla direção, um caso bem raro, assinam: Boris Kunz, Tomas Jonsgården e Indre Juskute, o empolgante projeto entrega críticas sociais por todos os lados, os sinais de atenção aos avanços tecnológicos nas mãos erradas, além de paralelos com a realidade como o problema dos refugiados e imigrantes que estão ilegais, tudo isso ligado à força do instinto materno que se torna uma ferramenta que percorre toda a narrativa, um ponto central das ações dos personagens.


Na trama, conhecemos Viktor (Numan Acar) um jovem bem sucedido que mora em um bairro rico na capital alemã ao lado da esposa que é médica. O protagonista trabalha como gerente de doação de tempo no conglomerado farmacêutico AEON que possui a expertise de conseguir vender tempo de vida através de um polêmico programa de transferência. Viktor, sempre se beneficiou do sistema mas começa a repensar a ideia quando perde o luxuoso apartamento em um incêndio, sem direito ao seguro, já que o laudo atesta negligência. Só que na época do financiamento com um grande banco, a esposa deu como garantia seu tempo de vida em relação ao total do apartamento: 2,5 milhões de euros o que equivale a 40 anos de vida! Buscando uma solução para não ver a esposa envelhecendo antes do tempo, ele começa a percorrer pelos mais mirabolantes obstáculos em busca de alguma saída.


Rodado todo na Lituânia, num ciclo atemporal, capitalista, onde o dinheiro fala mais alto (nada diferente dos dias atuais!) o longa-metragem de quase duas horas de duração consegue prender a atenção do público do início ao fim pois o discurso da distopia é bem detalhado, os paralelos com a realidade são bem propostos. Há a questão também da moralidade, um conceito explorado de forma ampla. Aqui o protagonista em conflito não é herói de nada, parece sair da sua bolha acomodada a partir de um trauma onde invoca para si um sentido de heroísmo mas seu passado o condena. Em paralelo, vemos a dona de todo o experiente de transferência de tempo, uma CEO arrogante, egoísta, de Empresa com sua matriz instalada em uma Berlim num futuro não longe de nossos tempos, que personifica como alguns lidam com o poder que tem sobre os outros.


A relação entre marido e mulher, o casamento, os sonhos de terem filhos e construírem uma família juntos acaba sendo um importante trunfo da narrativa, tudo passa por isso. Ainda há tempo de uma construção criativa sobre o olhar pelo mundo: alguns países bálticos fora da união europeia, uma grande potência que não permite que o programa de doação de tempo seja feito em seu território, a vida virando mercadoria nas mãos de pessoas influentes, a situação dos refugiados, grupos de protestos, a questão da justiça com penas criminais trocadas por transferência de tempos de vida, o submundo, a ilegalidade.


Paraíso chega com o pé na porta, com um discurso afiado, abrindo nossos olhos para um refletir sobre a sociedade, fazendo perguntas que podem parecer meio distantes da realidade que estamos... mas nem tanto assim.



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