12/12/2020

E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #209 - Alex Gonçalves


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

 

Nosso entrevistado de hoje é cinéfilo, de Santo André. Alex Gonçalves tem 30 anos, escreve sobre cinema desde a adolescência, tendo inaugurado o site independente Cine Resenhas (http://cineresenhas.com.br) em 2007 (Instagram @cineresenhas). A produção de conteúdo se manteve focada por anos em lançamentos no circuito exibidor brasileiro, ganhando mais seriedade com a cobertura em festivais de cinema que acontecem em São Paulo. Atualmente, segue em um processo de transição de formatos, privilegiando atualizações em um canal de mesmo nome no YouTube, alimentado com entrevistas com diretores e intérpretes nacionais sobre os seus projetos, vídeo comentários sobre lançamentos recentes e obras revisitados e diálogos com outros colegas cinéfilos e jornalistas culturais. Além de cinema, adora música, literatura, fotografia, visitas em espaços expositivos e garimpos por sebos, estes acarretando em um grande acervo de filmes, livros e CDs/LPs que espera dar conta de apreciar em sua totalidade ainda nesta existência.

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Embora Santo André tenha atualmente uma quantidade considerável de salas de cinema, com dois shoppings com a rede Cinemark e um com a rede Playarte, não consigo selecionar alguma como favorita pela programação ser dominada por blockbusters do momento e com sessões legendadas cada vez mais raras. Portanto, elegeria o CineSesc, em São Paulo, a esse título. Mesmo sendo uma única sala, há uma variedade maravilhosa de títulos exibidos, além de abrigar mostras e retrospectivas imperdíveis.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Durante a minha infância e pré-adolescência, o cinema foi um tipo de entretenimento muito caro para curtir com frequência. Tinha 8 anos na minha primeira ida. O filme era Dr. Dolittle. Como foi uma excursão escolar, foi impossível me concentrar na tela com a algazarra toda. Só voltei a entrar em uma sala de cinema aos 14 anos, quando fui assistir com uma de minhas irmãs A Vila, do M. Night Shyamalan, graças a um par de cortesias que encontrei numa calçada. Foi essencial para mudar completamente a minha percepção de cinema como um templo e também como uma experiência coletiva.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

O meu diretor favorito é Brian De Palma e o meu filme favorito dele é Vestida Para Matar. A cada revisão, é como se um filme diferente se descortinasse diante dos meus olhos. Sem dizer que é uma aula de como se fazer suspense.

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Perfume de Gardênia, do Guilherme de Almeida Prado, que vem a ser o meu diretor brasileiro favorito e que infelizmente desapareceu - o seu último filme, Onde Andará Dulce Veiga?, é de 2008 e ninguém sabe onde raios se meteu o seu A Palavra. Essa obra-prima dele, que foi produzida diante de toda aquela tensão e descrença com a queda da Embrafilme e que fracassou comercialmente quando lançada finalmente na retomada do nosso cinema em 1995, tem todo um clima noir que gostaria que recebesse mais interesse por parte dos nossos criadores. Os espaços urbanos são explorados com um olhar que só o Guilherme tem, um cineasta também afeito a prestar homenagens ao cinema dentro de suas próprias narrativas. Rende uma sessão dupla maravilhosa com o seu longa seguinte, A Hora Mágica, de 1999, igualmente formidável.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Gosto de pensar que é aquele Alex que incorporo toda a vez que desejo fugir um pouco da banalidade de nossa realidade e das obrigações e protocolos que precisamos corresponder para manter a nossa sobrevivência. Ser cinéfilo e, consequentemente, apreciar filmes é viver por um par de horas outras vidas, visualizar o mundo com outras lentes e alimentar a alma com histórias que nos tiram da zona de conforto e da finitude da existência humana.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possui programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Por mais diferente que seja a programação dos cinemas andreenses e dos cinemas paulistas, penso que sim. Mas é uma questão da qual não gosto de romantizar muito, pois sabemos, sobretudo nesse contexto de pandemia, que "entender de cinema" é também ter habilidade para os negócios. Portanto, avalio que em cada cidade existe um entendimento diferente que busca contemplar uma maioria para que ingressos sejam vendidos - como sou um tipo de espectador que fica de fora dessa lógica que move a formação da programação da minha cidade, sempre busco refúgio em São Paulo, mesmo que para isso seja necessário mais de uma hora e meia de viagem em transporte público apenas para assistir a um filme.

 

7) Algum dia as salas de cinema vão acabar?

As salas de cinema nunca vão acabar, mas pode ter certeza de que testemunharemos muitas mudanças a curto prazo. Meu receio é que evolua para algo mais elitista do que é hoje, se transformando em uma opção de entretenimento ainda mais restrita para grande parte da população.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Eu gostaria de indicar Dias Vazios, do Robney Bruno Almeida. Excetuando os meus amigos cinéfilos que acompanham comigo essa aventura que é cobrir cinema, sinto que quase ninguém assistiu a essa preciosidade do nosso cinema, uma adaptação fidelíssima do romance Hoje Está Um Dia Morto, do André de Leones. É um raro registro do que realmente senti o que foi atravessar a adolescência, uma fase extremamente deprimida da vida por conta das nossas incertezas quanto a qual identidade sustentaremos para a vida adulta, além também daquele sentimento de estagnação quanto a vocação profissional e de amores que não se concretizam como idealizamos. É um filme extremamente pessimista, mas a gente sai dele ainda mais aberto para a vida.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

As impressões que sustento hoje quanto a esse período delicado que as salas de cinema atravessam são diferentes daquelas de poucas semanas atrás - e estou certo de que novamente refletirei sobre essa questão por um prisma diferente quando virarmos o ano. Compreendo perfeitamente a rigidez e a seriedade com as quais os proprietários das salas e redes estão seguindo para preservar a segurança do público, mas ainda não estou com o psicológico preparado para me desligar do mundo por duas horas e assistir a um filme na tela grande. Mas falo isso na posição de um indivíduo que teve o privilégio de seguir com a sua rotina de trabalho na segurança do lar e que hoje conta com bons equipamentos para apreciar filmes em total isolamento social. A reabertura talvez seja encarada como algo mais trivial para outras pessoas que não podem cumprir com o isolamento social devido as suas atividades obrigatórias fora de casa.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Penso que cada vez mais o nosso cinema se abre para diferentes possibilidades, um ativo importante para afirmar a sua qualidade. Apenas gostaria que o que produzimos fosse mais acessível para o público em geral. Muitos filmes notáveis fazem o percurso dos festivais, estreiam em uma dúzia de salas por todo o Brasil e ou desaparecem do radar ou são lançados em plataformas digitais com preços que julgo impraticáveis. Deveria existir mais debates quando a longevidade de uma obra audiovisual brasileira. Vejo o incentivo de prefeituras na criação de cineclubes em todas as cidades e até mesmo a utilização de nossos filmes como ferramenta para atividades escolares como iniciativas importantes para mudar essa realidade.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Sou um admirador das atrizes e admito que tenho um fascínio especial pela Camila Morgado. Penso que ela é a nossa Cate Blanchett e estou extremamente feliz com a participação dela cada vez mais frequente no cinema. Também reservei um dia para maratonar a primeira temporada de Bom Dia, Verônica e fiquei hipnotizado pela sua interpretação. Nunca canso de enaltecê-la.

 

12) Defina cinema com uma frase:

Uma fuga da nossa finitude.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

No fim de novembro de 2016, acompanhei a Mostra Cinema de Invenção no CineSesc. A projeção de O Império do Desejo, filme 1981 dirigido pelo Carlos Reichenbach, aconteceu com uma cópia 35mm preservada pela Cinemateca Brasileira. Foi inusitado quando alguns fotogramas "pegaram fogo". Nunca havia testemunhado aquilo, até porque hoje em dia tudo é exibido em DCP.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Pau que nasce torto nunca se endireita.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

De modo algum. Até mesmo por grandes nomes do cinema mundial dedicarem pouco de seu tempo a apreciar filmes alheios. Em alguns casos, até prefiro que não sejam, pois assim não se deixam contaminar por referências, entregando obras mais autênticas, com estilos e narrativas que não testemunhamos com frequência.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Não é o primeiro que me veio em mente, mas acho bem apropriado responder Flordelis: Basta uma Palavra para Mudar por razões que já conhecemos.

 

17) Qual seu documentário preferido?

Sou apaixonado por Coração de Cachorro, feito em 2015 pela Laurie Anderson. Assisti duas vezes no cinema e trata exclusivamente sobre um tema que já apareceu em algumas respostas daqui: a finitude da vida.

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão? 

Vou te dizer que acho meio brega essas reações muito externadas, embora eu admita que em filmes de terror ou barra-pesada eu possa tê-las involuntariamente. Gosto mais de guardar comigo ou compartilhar com algum amigo que esteja me acompanhando as impressões mais imediatas. Mas em festivais é habitual o aplauso na première de qualquer filme, algo que se dá mais de modo protocolar do que necessariamente por manifestação que corresponda ao que realmente penso sobre o que acabei de assistir.

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Nicolas Cage é um baita ator e só está metido em tralhas porque não é fácil envelhecer em Hollywood e as contas precisam ser pagas. Mas respondendo a questão, o melhor filme que ele já esteve foi Peggy Sue, seu Passado a Espera, do Francis Ford Coppola. Mas está longe de ser a sua melhor interpretação - neste quesito, você vai encontrá-la em Vício Frenético, a refilmagem conduzida pelo Werner Herzog do filme do Abel Ferrara.

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

Eu atravessei um período de conflito com o processo de escrita - na realidade, ainda estou nele. O YouTube foi a plataforma que renovou o meu interesse em produzir conteúdo sobre cinema, até porque lá realmente sinto um retorno da parte de quem esbarra com o meu trabalho. Portanto, tenho acompanhado cada vez menos sites de cinema, principalmente aqueles de médio e grande porte que dependem de clickbaits e um sem número de anúncios para conseguir retornos financeiros. Mas posso te dizer a pessoa que mais assisto pela internet atualmente: tem um sujeito engraçadíssimo que descobri recentemente chamado Tanner James, criador do canal Unboxed Watched and Reviewed. Eu adoro acompanhar qualquer conteúdo sobre bons filmes ruins, controversos e malditos e o dele é um prato cheio. Já no Brasil, acompanho o trabalho da Fernanda Soares, dona do canal Hollywood Forever TV e que também colabora pra TNT. Adoro o jeito que ela se comunica, além de fazer um trabalho muito detalhado de pesquisa e roteiro sem jamais cair naquelas afetações de pessoas que somente cobrem cinema pra ostentar uma imagem rasteira de influenciador digital. 

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