15/01/2023

Crítica do filme: 'Ruído'


Existo porque resisto. Ruído, longa-metragem mexicano dirigido pela cineasta Natalia Beristain é quase um filme denúncia, uma obra que abre o olhar para a violência, para a repressão policial, para a corrupção, todo esse contexto gira em torno de uma trama que nos mostra a incansável busca de uma mãe por informações sobre sua filha desaparecida. Ao longo dos intensos 105 minutos de projeção somos testemunhas de relatos aterrorizantes, de sofrimentos imensuráveis, de absurdos e incertezas que a protagonista encontra pelo caminho. O título não poderia ser mais certeiro, Ruído, aqui no sentido de algo desagradável, com um olhar para dentro, na mistura de sentimentos conflitantes e desesperadores nas dores de uma mãe. No papel principal, a experiente atriz mexicana Julieta Egurrola, mãe da diretora do filme.


Na trama, acompanhamos a jornada de dor, tristeza e lampejos ligados à esperança de Julia (Julieta Egurrola), uma artista plástica que vê sua vida tomar outros rumos quando, durante uma viagem a uma cidade do México, sua filha, a psicóloga Gertrudis, desaparece. Lutando com todas as forças que lhe restam, passando pelos absurdos burocráticos, descasos de autoridades, sem saber em quem confiar, acaba conhecendo Abril (Teresa Ruiz), uma jornalista que está disposta a se juntar a Julia nessa caminhada e assim também denunciar os horrores da violência que encontra pelo caminho.


Uma mãe em busca de sua filha. O olhar de Julia quase atravessa os sentimentos, é impactante pensarmos sobre o abstrato universo desse sofrimento, essa experiência aversiva modela passos dolorosos em busca de qualquer informação. Atrapalhada pelos passos de uma arrogante burocracia, tendo como referência pelo lado da lei já o terceiro promotor em nove meses, Julia não consegue mais se comunicar com os outros, se jogou num mar sem fim de solidão, seus desabafos chegam pela voz do desespero. Viajando de ônibus por cidades onde possa ter notícias da filha, o que parece ser seu último ato, se joga com sua última força para se manter na luta de seus direitos.


A narrativa é lenta sem deixar de ser impactante, busca seu clímax no choque dos encontros dessa mulher que sofre com tudo que encontra pelo caminho. Inclusive em um momento, conhece outras mães, irmãs, avós, parentes que lutam batalhas diárias parecidas pelos parentes desaparecidos buscando entender melhor tudo que vive pela ótica também de alguém que sofre como ela. Aqui, uma curiosidade, as mulheres que aparecem procurando seus entes queridos desaparecidos não são atrizes, mas mulheres interpretando elas mesma, são de um grupo chamado ‘las buscadoras’, que organizam grupos de busca na esperança de encontrar seus familiares desaparecidos.


Ruído é intenso do início ao fim, um poderoso drama que fará você pensar bastante sobre os temas que são abordados, uma história que mostra a força de uma mulher, um alguém que nunca está só nos seus pensamentos e está sempre pronta pra lutar contra os absurdos do mundo.



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14/01/2023

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Crítica do filme: 'Os Fabelmans'


Tudo acontece por um motivo. Passeando, em partes, pela incrível história de uma das maiores lendas da história do cinema, Steven Spielberg, Os Fabelmans nos apresenta a descoberta do mundo mágico da sétima arte aos olhos de um jovem, que por meio de suas lentes da memória, da lembrança do que significa família, se tornou um ícone que transcende gerações. Ao longo de duas horas e meia de projeção, onde transbordam-se emoções por todos os lados, Os Fabelmans nos mostram as estradas, conflitos e escolhas de um eterno sonhador.


Na trama, conhecemos Sammy (Gabriel LaBelle) um jovem que começa a ter suas primeiras experiências com cinema logo na pré adolescência após ficar impactado pelo seu primeiro filme visto numa tela grande. O protagonista mora com o pai, o engenheiro elétrico Burt (Paul Dano), a mãe e pianista Mitzi (Michelle Williams), e suas irmãs. Ambientado nas décadas de 50 e 60, vamos caminhando na sua aspiração em ser um cineasta, fato que encontra paralelos com uma descoberta dolorosa que impacta para sempre sua família. Com versões fictícias de pessoas reais na vida de Spielberg, Os Fabelmans busca um enorme recorte sobre a influência para um sonho e como tudo que aconteceu em sua trajetória, de alguma forma, o levaram por esse caminho.


Desde o primeiro impacto após uma sessão de cinema, passando pelo seu primeiro filme caseiro: um acidente de trem envolvendo seus trens de brinquedo, Sammy percebe que o cinema não sairia de sua vida. Um dos clímax do filme, o conflito com a mãe, algo que impacta sua família, ganha uma melancolia profunda, algo que se torna inesquecível e que de alguma forma moldou o caráter e amadurecimento desse jovem que teve em sua vida muitas mudanças de cidades por conta da profissão em ascensão do pai. Esse sofrimento se junta a outros conflitos como o bullying numa nova escola. Esses momentos de reflexões acabam sendo fundamentais para o nunca descansar de sua vontade de recriar relações pelas lentes. O vazio existencial de em alguns momentos ir contra a real vocação chega numa fase de escolhas definitivas onde o caminho parecia apontar para uma estrada só.


O longa-metragem teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto e é de longe um dos filmes mais pessoais de Spielberg. Uma carta de amor ao cinema, à sua família. Mas como criar isso tudo numa tela de cinema? A ideia pro filme, que já vinha perseguindo o pensar de Spielberg, se concretizou durante os tempos de pandemia da Covid-19, onde ele e o co-roteirista Tony Kushner escreveram de suas respectivas casas durante dois meses. O projeto marca o retorno de Steven para os roteiros, fato que não acontecia desde o inesquecível A.I. Inteligência Artificial (2001). Entre algumas curiosidades e liberdades artísticas, até encontra-se brechas para o destino cruzar-se com o lendário John Ford (vencedor de quatro Oscars de melhor direção) e sua contra simpatia camuflada de genialidade interpretado por ninguém menos que um dos maiores diretores de todos os tempos David Lynch.


Será que a felicidade existe? Ou o que existem são momentos felizes? Os Fabelmans contorna olhares e reflexões para uma geração de sonhadores e a busca por um lugar ao sol de uma família de classe média, num período pós segunda guerra mundial, batendo forte na tecla de que na vida, não importa se o horizonte está em cima ou embaixo, o que importa é viver.



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13/01/2023

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12/01/2023

Crítica do filme: 'I Wanna Dance With Somebody - A História de Whitney Houston'


O eterno desejo de dançar com alguém que amamos. Dirigido pela cineasta norte-americana Kasi Lemmons (do elogiado Harriet - O Caminho para a Liberdade), I Wanna Dance With Somebody - A História de Whitney Houston é um filme homenagem, uma celebração à todos os fãs da espetacular cantora norte-americana Whitney Houston que faleceu de maneira triste e precocemente mais de uma década atrás. Dito isso, a narrativa, aqui no sentido de como é contado tudo que assistimos, busca mostrar uma história por meio das canções e se enrola completamente, sumindo com a magia do ponto mais alto de tensão numa narrativa aguardado ansiosamente por quem vai assistir sobre um filme da cantora conhecida como ‘A Voz’. Parece que estamos ligados na antiga MTV, vendo clipes musicais sem parar deixando lacunas a todo instante pelo caminho sem encostar na profundidade. No papel principal, a competente atriz britânica de 31 anos Naomi Ackie, que inclusive já venceu um BAFTA TV Awards por seu papel em sete episódios no seriado The End of the F***ing World.


Na trama, conhecemos Whitney Elizabeth Houston (Naomi Ackie), uma jovem nascida em Nova Jérsei, que desde cedo frequentava o coral da igreja do bairro onde morava com sempre com sua mãe ao lado Cissy (Tamara Tunie). Durante uma apresentação em um modesto bar, seu destino cruza com o do influente na área musical Clive Davis (Stanley Tucci) com quem logo assina seu primeiro contrato profissional. O início já é arrebatador e o sucesso chega de forma meteórica. Ao longo do tempo vamos acompanhando momentos chaves da vida da protagonista, sua íntima relação com a amiga Robyn (Nafessa Williams), seu relacionamento conturbado com o pai John Huston (Clarke Peters), seu casamento com o também cantor Bobby Brown (Ashton Sanders) e suas recaídas no universo do álcool e drogas.


Como afastar as tristezas se para ela tudo tinha sido feito certo até o momento. O filme se afasta de qualquer profundidade quando não busca refletir sobre as intensidades dos conflitos que cercaram a trajetória da cantora. Até começa dando esperanças em atingir além da superfície já com um abre alas mostrando a relação com a melhor amiga e também interesse amoroso Robyn. Mas aos poucos vamos entendendo que o roteiro foca na força das canções e esquece a história. Tinha tanto para se aprofundar... seja com as desconfianças com o pai, a relação pouco explorada no filme com a mãe (figura importante pra sua iniciação vocal), o conturbado relacionamento com o marido Bobby Brown, algo que volta e meia aparecia nas capas de algumas revistas sensacionalistas da época, ganha seu momento já rumando para os arcos finais que fez questão de não mostrar o desfecho triste de Whitney mas sim relatar algumas horas antes do fatídico dia.


Contar uma história tão complexa, de altos e baixos, e com alta exposição na mídia (como foi durante toda a carreira da homenageada) não seria algo muito fácil. O roteiro assinado por Anthony McCarten, indicado já para dois Oscars na carreira, na categoria roteiro adaptado (Dois Papas e A Teoria de Tudo) naufraga por caminhar na superficialidade, por não encontrar a força para se chegar a algum clímax de um filme que tem cerca de 95% de suas cenas com músicas utilizando o processo de sonorização de uma gravação prévia de trilha sonora (o playback) com a voz da Whitney Houston. E falando sobre curiosidade, Kevin Costner (o eterno Guarda-Costas) e Oprah marcam presença por imagens de arquivo.



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11/01/2023

Crítica do filme: 'Nas Ondas da Fé'


As certezas e incertezas no caminho da fé. Chega aos cinemas nessas primeiras semanas de janeiro, uma dramédia brasileira que busca com dosados toques de humor refletir sobre o universo da fé de forma bastante diferente de outras abordagens, jogando pra escanteio o caminho mais fácil da piada pronta sobre o assunto, explorando conflitos de um protagonista em crise sobre sua própria identidade e seu real entendimento sobre o sentido da vida após uma meteórica ascensão numa igreja evangélica. Por incrível que pareça o filme se arrisca numa tentativa de drama profundo, algo escondido com sete chaves pelo ótimo trailer, derrapando em alguns momentos mas buscando fazer o público pensar sobre alguns assuntos que sempre geram polêmicas.  


Na trama, conhecemos o esforçado Hickson (Marcelo Adnet), um técnico de informática que faz bicos com um carro de som que leva mensagens carinhosas. Ele mora com a esposa Jéssika (Letícia Lima) em uma casa no subúrbio carioca. Certo dia, após ir até um culto, consegue uma oportunidade de emprego em uma rádio gospel e após uma brincadeira pensando que estava fora do ar, alcança um enorme sucesso com um programa onde assume o papel de um pastor falando para um enorme público.


Em certo momento, a narrativa parece que opta por um divisor de águas que vai do riso constante (encabeçado pelo ótimo Marcelo Adnet) para a crise existencial. E nesse momento, que é quase um plot twist diferente, a maneira como é construído tudo isso deixa lacunas em aberto como se tentasse alcançar ao clímax de maneira atabalhoada. Os risos ganham contornos de drama, os conflitos mal definidos se tornam a tônica de uma história que era pra rir mas alcança as profundezas dos conflitos sobre o sentido da vida chegando até mesmo a uma certa melancolia. Se você for para os cinemas esperando comédias superficiais, do riso fácil, esse não é o caso por mais que o trailer indique isso.


O foco, quando se entra nesse drama, começa pelos entornos do casamento do protagonista e chega até as vias interpretativas de seu novo lugar em um universo onde muitos abusam da fé alheia em busca de benefícios próprios. Mas então, qual é o seu lugar no mundo? Hickson parte em busca de respostas, na contramão da inveja e do egoísmo, se coloca como a maioria dos brasileiros que buscam se agarrar em alguma coisa, alguma razão (ligada à fé ou não) para passar com louvor pelos quebra-molas da vida.



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08/01/2023

Crítica do filme: 'O Pálido Olho Azul'


As pessoas que perdemos estão sempre com a gente. Reunindo uma trama cheia de mistérios, dois impactantes personagens em busca de respostas para curiosos crimes em uma Nova Iorque de 1830, O Pálido Olho Azul apresenta suas verdades com muitas informações onde perguntas entram e saem da nossa imaginação até o eletrizante desfecho. Um assassinato movido à vingança? Uma morte contextualizada por algum tipo de ritual? Será que tem algo haver com influência de poderes sobrenaturais? Escrito e dirigido pelo ótimo cineasta Scott Cooper, baseado em um livro do escritor norte-americano Louis Bayard, O Pálido Olho Azul surpreendente a todo instante.


Na trama, ambientada na região de Hudson Valley, conhecemos Augustus Landor (Christian Bale), um inspetor notável, com grandes mistérios resolvidos na carreira, também viúvo, filho de um pastor que passou com um forte trauma num passado recente onde perdera a esposa e logo depois sua filha desapareceu. Certo dia, ele recebeu uma inusitada proposta de trabalho de integrantes da alta patente da famosa Academia Militar Norte-Americana (West Point) para buscar soluções para uma estranha situação num espaço onde fica localizada a Academia, onde um cadete teve o coração arrancado após ser encontrado enforcado. Sofrendo ainda em busca das primeiras pistas, acaba encontrando com um outro cadete da academia militar, Edgar Allan Poe (Harry Melling) um leitor assíduo, inteligente, entusiasmado com que formará uma dupla para resolver o caso.


Há muitas informações durante toda a narrativa, o espectador deve ter uma atenção redobrada para não perder peças pelo caminho já que as linhas do roteiro são repletas de mistérios e reviravoltas. A busca pelo sobrenatural em paralelo à angústia acaba formando uma equação deveras profunda que traça um raio-x importante de alguns dos personagens. Explorando o universo sempre confuso do ocultismo, dos ligados em magias e rituais, até mesmo interpretações para tal de uma enigmática família, caímos em reflexões sobre o entendimento do ser humano sobre o universo das coisas fora do comum e sua busca incansável pelo miraculoso.


Uma subtrama importante é a caminhada de Landor até aquele presente, um homem amargurado com tudo que o destino lhe tirou, como se uma pedra estivesse em cima de qualquer lapso de felicidade. A curiosidade em torno da presença de um Edgar Allan Poe na solução de um crime (aqui um homem que recebe inspirações para poesias de sonhos), é uma cereja no bolo, ainda mais com uma atuação maravilhosa de Harry Melling. Aos poucos, os olhares mais atentos, percebem que estamos rumando para algumas propostas de soluções que estão andando lado a lado cada qual com seu objetivo e tendo como premissa a afirmação sobre a vida e a morte: onde uma acaba a outra começa.



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06/01/2023

Crítica do filme: 'Matilda: O Musical'


A vida é um milagre. Fruto da mente de Roald Dahl, um dos escritores britânicos mais aclamados do universo literário, Matilda é uma história bastante conhecida para os amantes de musicais tendo montagens emblemáticas na Broadway e em outros palcos. Nessa versão cinematográfica da história da carismática protagonista, dirigida pelo cineasta Matthew Warchus, acompanhamos Matilda, uma leitora assídua, uma contadora de histórias cheias de detalhes lutando para ser feliz tendo como trunfo sua imaginação e inteligência. O filme é uma fofura, com cenas muito divertidas, uma narrativa dinâmica que mistura a profundidade das emoções em conflitos com números musicais bem construídos. O filme está disponível no catálogo da Netflix.


Na trama, acompanhamos a história de uma jovem chamada Matilda (Alisha Weir) que vive em uma extravagante casa e sofre com pai e mãe que não demonstram carinho por ela. Quando há a oportunidade dela enfim frequentar a escola (já que tinha sua educação toda em casa até então), num primeiro momento aterrorizante, esse lugar se torna o mais novo desafio para a carismática protagonista. As novas amizades e o carinho da professora a ajudam a combater os medos e principalmente as ações cruéis da diretora do lugar, a infeliz Agatha (Emma Thompson).  


Uma mente extraordinária. Matilda sabe tudo sobre os grandes autores, se dedicou a combater todas suas frustrações desde pequena tendo como ferramenta de combate os livros. E esse paralelo com a leitura é um dos pontos reflexivos mais interessantes do projeto. Em alguns dos exemplos: a figura paterna se projeta para suas histórias se personificando em pessoas e situações que ela queria que seu pai fosse, suas histórias ficam mais sombrias em paralelo com o seu presente e os conflitos que pioram em casa e os intermináveis duelos com a temida diretora da escola. O avanço nos desafios do seu cotidiano a transformam em uma heróina de sua própria trajetória, e como quase toda fábula precisa-se de um vilão (por mais que aqui tenha mais de um) o estereótipo escrachado de Agatha, uma diretora que odeia crianças inteligentes, se encaixa perfeitamente.


As cores que faltam no seu olhar para tudo que vive, muitas vezes são espelhos dos seus próprios sentimentos. A fantasia chega como uma mensagem indireta do que ela enxerga no caminho. O poder da mente, do mover objetos com a mente chega de forma lúdica pelo tom da fantasia que se guia os alicerces da narrativa que se torna empolgante ao olhos de pessoas de qualquer idade.



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Crítica do filme: 'Aftersun'


Uma eterna busca por respostas sobre alguém que achávamos que conhecíamos. Um dos filmes mais dilacerantes que chegaram ao circuito exibidor nos últimos anos, Aftersun nos mostra lembranças de uma mulher sobre um feriado que passou com o pai anos atrás, na época que tinha ainda 11 anos. Há conflitos nesse pai que são aparentes, parece a todo instante controlar-se de algum pensamento, alguma tristeza profunda, algo que o filme se dedica aos detalhes. Depressão? Sim, podemos pensar nessa variável. Escrito e dirigido pela cineasta escocesa de 35 anos Charlotte Wells, em seu primeiro longa-metragem da carreira, o filme muitas vezes acontece no detalhe, quando percebemos a importância daquele momento, tudo isso somado a uma narrativa que deixa nosso refletir respirar. Um trabalho primoroso que vai demorar para sair de nossos corações.


Na trama, conhecemos Sophie (Frankie Corio), uma jovem bastante esperta, curiosa, de recém completos 11 anos, que vai passar férias com o pai Calum (Paul Mescal), que é separado da mãe, na Turquia. Desde a chegada ao local, Sophie registra tudo com uma câmera, as alegrias, as discussões, as dúvidas, as descobertas, os marcantes momentos daquele curto período. Percebemos logo que são lembranças, memórias, com uma carga alta de sentimentos vindos de vários lados.


Durante o filme você se vê perguntando constantemente: o que aconteceu com esse pai? Tudo aqui é importante para você buscar entender as peças embaralhadas da personalidade dele, que tem 30 e poucos anos, e reúne em sua vida algumas frustrações nas quais está preso emocionalmente. Tudo parece ter um significado, como se fosse uma pontinha do iceberg do que dizia internamente, no caos das emoções mais profundas. Por exemplo, a prática do Tai Chi Chuan com o objetivo de meditação e terapia nos mostra uma busca por algum ponto de equilíbrio, algo como se fosse uma segurança para um descontrole dessas tristezas e frustrações constantes.  


Rodado em locações na Turquia, vagamente baseado na experiência pessoal da diretora Charlotte Wells, em um feriado que ela passou com o pai, esse projeto, que demorou quase uma década para acontecer, também gera reflexões sob a perspectiva de Sophie, nos dois momentos de sua vida que parecem entrar em choque em buscas de respostas na tentativa de decifrar o pai, que nos seus momentos introspectivos se fechava sem possibilidades de diálogos.


‘Eu falei demais?’ ‘Eu não disse o suficiente?’ ‘Eu acho que pensei ter visto você tentar.’ Impressionante como a música Losing my Religion, uma das música da trilha sonora, composição da banda R.E.M. , encaixa como uma luva no que assistimos em tela. Há culpa? É saudade? Não há perspectivas de respostas até o desfecho, os arcos conclusivos parecem vir com mais força chegando com alta carga emocional em um clímax interpretativo e repleto de significado, principalmente sobre a importância para a personagem daquelas memórias. Quando deciframos o valor daquelas recordações, nossos corações ficam apertados, como um abraço que nunca termina, uma música que nunca para de tocar.



 

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05/01/2023

Crítica do filme: 'Raymond & Ray'


O despertar do desalento. Buscando um exercício complicado de fazer refletir sobre as margens de divergentes sentimentos ligados à figura de um pai aos olhos de dois meio irmãos que não se falam faz bastante tempo, o cineasta colombiano Rodrigo Garcia, diretor e roteirista desse projeto, apresenta um passeio fúnebre numa estrada da melancolia, passando por um enterro pra lá de inusitado, que para os olhares mais atentos se torna um recorte interessante sobre os muitos jeitos de enxergar a vida. O filme tá disponível lá no streaming da Apple Tv Plus.


Na trama, conhecemos Raymond (Ewan McGregor) e Ray (Ethan Hawke), dois meio irmãos que não se veem faz algum tempo e sempre tiveram em comum muitas mágoas com o pai. O primeiro é metódico, todo certinho, recém separado, que trabalha no departamento de energia da cidade de Cincinnati no estado de Ohio. O outro, um mulherengo, um viciado em recuperação, parece viver seu cotidiano na leveza de não precisar de muito para viver, tem um fascínio pela música, principalmente o trompete algo que está ligado de maneira muito emotiva ao seu passado. Após saberem do falecimento do pai, recebem um último pedido do falecido e assim resolvem embarcar em uma road trip que ativa lembranças e apresentam surpresas do homem que achavam que conheciam por completo.


Os irmãos, com o mesmo nome de batismo, vão aos poucos descobrindo mais sobre a figura paterna que sempre detestaram, um homem que parecia distante e cruel em muitos momentos de suas vidas. Durante a viagem, conhecem Lucia (Maribel Verdú), o último amor de seu pai, uma batalhadora, mãe, que faz bicos no Uber e como bartender. Através do olhar dela, eles começam a enxergar que estão dentro de uma estrada sem rumo para conseguirem quem sabe chegar ao perdão ou pelo menos a compreensão.


A angústia de dormir entre sonhos e pesadelos. A solidão dos sentimentos, aquela mágoa guardada por anos, aqui é vista como um enorme vulcão, prestes a entrar em erupção. Os conflitantes sentimentos, da dor, da perda mas também da raiva e das más recordações, acabam ditando o ritmo desse projeto que faz questão de ter uma narrativa lenta, que explora o vazio existencial de peças de vidas que nunca foram encontradas até então. A reconstrução dos personagens através desse jornada para deixar pra trás o medo e a raiva acaba fazendo muito sentido com as escolhas que se apresentam dentro das diferentes maneiras de enxergar a vida.



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Crítica do filme: 'É Apenas uma Fase, Amor'


Os desenrolares da frustração e as novas chances que o destino reserva. A simpática fita alemã É Apenas uma Fase, Amor, disponível no catálogo da HBO Max, aborda uma enorme crise em um relacionamento de anos, de um casal que para todos era perfeito, navegando de maneira divertida e também emocionante na constatação da infelicidade dentro de um conceito que explora o envelhecimento precoce de toda a geração X. Dirigido pelo cineasta Florian Gallenberger, vencedor do Oscar de Melhor Curta-metragem em 2001 com o filme Quiero ser (I want to be...).


Na trama, ambientada na cidade de Colônia, na Alemanha, conhecemos um escritor Paul (Christoph Maria Herbst), pai de três filhos, já batendo nos quarenta e poucos anos, que passa por uma fase de observação sobre a importância do sexo na sua vida o que também o leva a refletir sobre como era no passado. Sua esposa, Emilia (Christiane Paul), uma atriz que trabalha como dubladora, já dá sinais de esgotamento pela distância que os separam, diferente de outros tempos onde eram bem mais animados e grandes desbravadores das estradas da vida. Eles então enfrentam uma iminente separação que vão fazer com que essas duas almas repensem sobre tudo que viveram (e como querem viver) suas vidas a partir dessa ruptura.


O filme navega em cima de um conceito próximo de uma grande sessão de terapia onde vemos os personagens, cada qual na sua ótica, se redesenharem para seus destinos através da emoções conflitantes de um término. Os amigos que os cercam acabam sendo variáveis importantes dentro dessa linha de aprendizagem que eles passam, aos olhos deles, inclusive, esse casal era o mais perfeito exemplo de sucesso num relacionamento. Em ótimos diálogos, os personagens parecem que passam a se conhecerem melhor quando embarcar nas reflexões do olhar do outro.


A frustração é algo que caminha na trajetória desses carismáticos personagens. Na visão de Emilia, o sexo, a intimidade, ganharam outros contornos ao longo do tempo fatos que a fizeram se sentir deveras infeliz, quase em uma prisão, sem tempo de respirar. Paul, parece estar perdido nos recentes fracassos de sua escolha profissional, vive dos primeiros sucessos dele no ramo literário, uma estrela em ascensão que logo caiu em um marasmo onde não consegue mais emplacar grandes obras num mercado consumido pelas novas óticas, novas maneiras de enxergar o mundo tão dinâmico e cheio de variáveis, algo que se reflete na sua vida pessoal. Quando chega a ruptura, é bonito ver como os reflexos da dor de uma separação podem se tornar fortes laços para duas almas que não desistem de se reencontrar.



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04/01/2023

Crítica do filme: 'Reputação' (2020)


Os choques na maneira de enxergar o mundo. Remake de um ótimo filme francês (e sucesso de bilheteria), chamado O Orgulho, essa versão alemã dessa história de um conturbado relacionamento, ligado pelas linhas de ensino, entre um arrogante professor e uma aluna descendente de imigrantes marroquinos nos leva a enormes pontos de reflexões sobre uma Europa atual e a visão sempre polêmica sobre a questão dos imigrantes. Com mais profundidade que a versão original, o longa-metragem dirigido pelo cineasta alemão Sönke Wortmann mostra que um remake pode ser mais impactante que uma obra original. O filme está disponível no catálogo da HBO Max.


Na trama, conhecemos a esforçada estudante Naima (Nilam Farooq) que após muita luta conseguiu entrar na prestigiada Universidade de Frankfurt para estudar direito. Ela vive em um apartamento de classe média baixa com a mãe (que é uma bioquímica mas na Alemanha conseguiu outro trabalho) e os dois irmãos. Certo dia, logo em seus primeiros dias no novo curso, acaba chegando atrasada na aula do professor Richard (Christoph Maria Herbst), um homem arrogante, com um passado ligado à uma tragédia, que a trata de forma muito cruel à expondo na frente de todos os outros alunos. Um concurso de debates acaba sendo um elo que vai aproximar esses dois personagens, completamente diferentes.


Qual o papel do professor? Nessa jornada dramática de pouco mais de 100 minutos de projeção vamos pensando sobre essa pergunta constantemente através da força que tem o poder da palavra aqui na narrativa um objetivo de impactar os rumos de uma jovem de forma bastante significativa. Os meios de se chegar a esse objetivo é que a razão de outros debates, talvez um recorte na visão do mundo de duas pessoas que enxergam um elo em comum mas que tem visões e experiências completamente diferentes. O roteiro adaptado consegue ir de forma profunda nas calos da história alemã além de reunir diálogos para reflexões sobre diversos paralelos com religiões, diferentes culturas, preconceito, imigração.  



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Crítica do filme: 'Glass Onion: Um Mistério Knives Out'


A queda das bolhas de proteções quando os pingos do fracasso começam a aparecer. Glass Onion: A Knives Out Mystery (assim mesmo é o nome oficial do filme, com esse subtítulo completamente desnecessário), escrito e dirigido pelo cineasta norte-americano Rian Johnson, envolve o espectador do início ao fim com um roteiro empolgante, até mesmo surpreendente, que abre brechas convidativas para uma série de hipóteses usando a troca de perspectiva como uma ferramenta importante, muito bem detalhada e com o foco da análise humana em cima da relação interpessoal que se sobrepõem em relação as ações morais. A antologia criada por Johnson (que provavelmente deve ganhar um terceiro filme nos próximos anos), e que começou com o sucesso de Entre Facas e Segredos no ano de 2019, tem em comum apenas uma peça no tabuleiro dos seus mistérios: o excelente personagem protagonizado por Daniel Craig, Benoit Blanc.


Indicado em duas categorias para o Globo de Ouro 2023, o projeto conta a história de um empresário podre de rico chamado Miles Bron (Edward Norton) que resolve dar uma festinha particular (em tempos de ainda Covid-19 forte no mundo) em sua ilha na Grécia e para tal manda uma caixa charada para seus grandes amigos na vida e com quem tem relações profissionais também. Assim conhecemos a ex-celebridade e empresária que se mete em muitas polêmicas Birdie (Kate Hudson) e sua assistente Peg (Jessica Henwick), a governadora de um estado norte-americano Claire (Kathryn Hahn), o youtuber Duke (Dave Bautista) e sua namorada Whiskey (Madelyn Cline), um funcionário de alto cargo de sua principal empresa Lionel (Leslie Odom Jr.), sua ex-sócia Andi (Janelle Monáe) e o renomado detetive Benoit Blanc (Daniel Craig). Aos poucos vamos entendendo melhor sobre esse convite que gira em torno de um jogo de detetive com o assassinato fake de Miles. Só que as coisas se tornam mais intensas quando determinadas situações acontecem.


Cheio de referências cinéfilas, que vão desde uma enorme pintura com a cabeça de Edward Norton no corpo de Brad Pitt em óbvia referência ao clássico de David Fincher O Clube da Luta, até mesmo o figurino usado, em um flashback, pelo personagem de Norton que se parece muito com o usado por Tom Cruise no clássico de Paul Thomas Anderson, Magnólia, Glass Onion usa do seu eletrizante suspense (que realmente prende a atenção) para nos mostrar uma análise sobre a sociedade e seu entendimento sobre valores morais e éticos.


Há uma forte presença de um recorte sobre a natureza humana e as relações que a vida coloca pelo caminho onde as decisões acabam passando por uma análise egoísta com um espírito de proteção próprio fazendo com que valores importantes em uma sociedade se percam com a ventania da arrogância que certas atitudes podem provocar. O óbvio caminho errado seguido, coloca em xeque a moral e a ética nessas relações de amigos de longa data que se tornaram aos poucos prisioneiros da própria empáfia iludidos por uma bufonaria de um bilionário narcisista. Se conseguirmos ligar os pontos, alcançamos paralelos em forma de críticas sociais.  



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03/01/2023

Crítica do filme: 'Decisão de Partir'


Um peculiar recorte sobre encontros e desencontros. Indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e provável indicado na lista final do próximo Oscar na mesma categoria, o longa-metragem japonês Decisão de Partir navega na filosofia para criar uma tese sobre uma bolha irremovível dentro de conflituosos sentimentos que se justificam por uma visão bastante peculiar sobre o tempo (aqui revestido de momento). O projeto é escrito e dirigido pelo genial cineasta sul-coreano, filósofo de formação, diretor do clássico Oldboy e tantos outros ótimos filmes, Park Chan-wook que se inspirou em uma série de romances policiais suecos chamados de The Story of a Crime, dos escritores Maj Sjöwall e Per Wahlöö.


Na trama, conhecemos o ex-militar da marinha sul-coreana e detetive da divisão de homicídios da polícia de Busan Jang Hae-joon (Park Hae-il) que vive seus dias agitados decifrando casos complexos. Ele vive uma rotina monótona, é casado, e se afunda perto da linha da obsessão no seu trabalho. Certo dia, é chamado para investigar o caso de um homem que caiu do topo de uma montanha e logo percebe que a esposa chinesa do falecido, Song Seo-rae (Tang Wei), tem tudo para ser uma das suspeitas. Só que ao longo dos dias que se passam, o detetive acaba se interessando além da conta pela misteriosa mulher.


O tempo aqui se veste sobre a importância do momento. Buscando soluções para os significados complexos dos conflitos que se encontra o confuso protagonista e uma misteriosa personagem, Park Chan-wook rompe as camadas superficiais das emoções transformando encontros e desencontros em impactantes instantes, com camuflados significados. O roteiro, extremamente detalhista, modela suas ações variando entre drama, romance e um suspense de plano de fundo construindo seu alicerce em uma relação cheio de impossibilidades.


Há importantes reflexões existenciais que precisamos conversar. Além do jogo de gato e rato instaurado entre duas almas completamente diferentes que de alguma forma se completam dentro de uma enigmática harmonia, até mesmo com conclusões que danificam o entendimento pelo o que seria o sentimento que nasce alcançando outros significados, vemos uma paralisação de vida oriunda da decepção, uma bolha irremovível que se junta a carga negativa de uma dignidade esvaziada, sobre as feridas da ética, o descontrole perante à obsessão, o desejo impossibilitado, o abstrato num tom acima do que a razão. E as consequências de tudo isso culminam em uma apatia generalizada.


Decisão de Partir é um filme para olhares atentos, sensíveis, uma junção de peças ligadas ao abstrato universo dos sentimentos e suas construções que abraçam a filosofia em muitos momentos, principalmente quando implementa um exercício do pensar sobre a essência da necessidade de compreensão de tudo que existe no mundo.



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02/01/2023

Crítica do filme: 'Mais que Amigos'


As dúvidas ligadas ao abstrato sentimento do amor quando há a possibilidade de um relacionamento. Chegou nos cinemas brasileiros, no segundo semestre de 2022, uma divertida comédia romântica repleta de diálogos que chamam o espectador para refletir sobre relacionamentos, além de chamar a atenção para diversas questões importantes com uma descontrolada metralhadora de zoações que mergulha em diversos temas com diálogos repletos de sarcasmos. Mais que Amigos é dirigido pelo cineasta britânico Nicholas Stoller.


Na trama, conhecemos o Bobby (Billy Eichner), um homem na faixa dos quarenta anos, antissocial, que apresenta um podcast de boa audiência e também faz parte da administração de um futuro museu nacional de história lgbtqia+. Ele enfrenta com muito sarcasmo sua solidão e a vida de solteiro que leva. Certo dia, em uma boate gay, acaba conhecendo Aaron (Luke Macfarlane) um advogado nascido no interior dos Estados Unidos, muito infeliz na sua profissão (ele cuida de testamentos). Os dois acabam se conhecendo melhor e ao longo do tempo, onde passam por diversos conflitos, precisarão decidir se vale a pena manter esse relacionamento ou não.


É muito raso focar as reflexões sobre esse filme apenas em cima de ser uma das primeiras comédias românticas com personagens principais gays lançadas por um grande estúdio de Hollywood, Mais que Amigos é muito mais que isso. Com um roteiro dinâmico e muito divertido (mesmo escorregando em alguns clichês), que brinca e fala sério, explora a vida entre duas pessoas, as complicações de se assumir um relacionamento, além de atravessar as características dos personagens focando no conflitos das diferenças de personalidades. O riso e a emoção se encontram em muitos momentos, criando uma fórmula simpática de trazer o abstrato do sentimento para situações de um cotidiano.


O baixo rendimento nas bilheterias, mesmo ganhando elogios de muitos, nos mostra que alguns pontos de reflexões com o público em geral do lado de cá da telona ainda é uma estrada em construção em um planeta que vive em bolhas de conservadorismo que ainda bebem da fonte dos absurdos do preconceito.



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29/12/2022

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Crítica do filme: 'Pinóquio' (2022)


Espere o melhor, seja o que for! Baseada em partes na famosa história criada pelo jornalista e escritor italiano Carlo Collodi, publicada pela primeira vez no ano de 1883 com o título de As Aventuras de Pinóquio, Pinóquio de Guillermo Del Toro navega em uma profunda melancolia sobre a perda em seus atos iniciais, uma espécie de prólogo para uma aventura contagiante que mistura críticas sociais a um mundo de fantasia e muita aprendizagem sobre a vida. O projeto, que demorou mais de uma década para sair do papel é uma releitura mais sombria de um clássico da literatura infantil, uma fantasia detalhista que aqui esbarra no passado de um mundo repleto de incertezas além de conceitos filosóficos que esbarram na existência e na brevidade. Um trabalho primoroso do genial Del Toro e também de Mark Gustafson, o outro diretor do longa-metragem que está disponível na Netflix.


Na trama, conhecemos Gepeto, um velhinho faz tudo, gente boa, que vive seus dias felizes em uma pequena vila ao lado de seu filho Carlo. Certo dia, já durante os tempos difíceis de guerras entre as nações, uma bomba jogada por um avião atinge uma igreja onde Carlo estava causando o seu precoce falecimento. O pobre Gepeto que viveu apenas 10 anos próximo do filho, para quem tocava sanfona declamando canções de ninar, se tornou também mais uma vítima das guerras dos homens. Um tempo se passa, o mundo mudou, mas Gepeto caminhava na estrada da tristeza, até que um dia, durante uma tempestade, resolve criar um boneco, feito a partir de um pinheiro e quando acorda o boneco tem vida própria. Paralelo a isso, somos introduzidos a história de um grilo metido a romancista que terá papel fundamental nas escolhas que virão pela frente quando Pinóquio, o nome do boneco criado, resolver desbravar o mundo.


A mentira que não tem perna curta e sim nariz em progressão. A família, aqui recortada em um relacionamento muito forte entre pai e filho, é algo sempre lembrado nas linhas do roteiro. O choque nessa relação (aqui já na figura de Pinóquio) tem adicionada o contraste da descoberta, do resgate das boas memórias. O entusiasmo e ingenuidade da vida pelos olhos de cheio de vida Pinóquio vem na contramão da melancolia de seu criador, essa gangorra de emoções acaba sendo parte da estrada que a trama atravessa.


Vezes musical, vezes aventura, o projeto busca contemplar a jornada da vida. A partir da ótica do simpático boneco passamos por vários estágios de conflitos enfrentados por ele. A ganância, o orgulho, a guerra, um nada fácil caminho pela vida numa época de tristes momentos para o mundo, inclusive Gepeto mora numa vila italiana dominada pelo fascismo de outros tempos. A reinvenção dessa clássica história pelos olhos de Del Toro e seu perfeccionista stop-motion, aproxima a história mundial da fantasia, uma forte crítica à tempos nebulosos da humanidade mas sem deixar os pingos de esperança por dias melhores.



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