02/02/2023

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Crítica do filme: 'Mergulho'


O sonho e o pesadelo. Chegou quase desapercebido no catálogo da Prime Video esse impactante longa-metragem mexicano que nos mostra uma introspectiva e experiente atleta mexicana de saltos ornamentais e os seus fantasmas do passado que após uma revelação chocante voltam com mais força no presente. Baseado em fatos reais, o projeto constrói seu refletir em cima da personalidade de sua protagonista e os irreversíveis abalos psicológicos que a destroem lentamente. Mergulho é um filme angustiante e conta com uma atuação espetacular, na pele dessa difícil personagem, da atriz Karla Souza.


Na trama, conhecemos a veterana atleta Mariel (Karla Souza) que vem treinando muito forte para mais uma olimpíada, dessa vez em Athenas, na Grécia. Ela faz parte da equipe de saltos ornamentais do México e possui boas chances de medalha no tão competitivo campeonato. Só que às vésperas da competição, um escândalo envolvendo o treinador da equipe, que comanda as melhores saltadoras aquáticas do país há mais de duas décadas, e uma jovem revelação da modalidade acabam gerando lembranças terríveis do seu passado.


O roteiro apresenta um intenso olhar sobre a protagonista e o seu caminho rumo às angustias do passado. Há um trauma nítido, mas ele parece em um conflito constante com a verdade. Entra em um período de medo, de lembranças escondidas, de descontrole, que não envolvem somente a pressão de uma grande competição, há algo mais que vai sendo revelado aos poucos. Será que ela também foi vítima do treinador no passado?  


O papel da família nessa história se apresenta em duas estradas. A da protagonista, que tem um envolvimento afetivo com o treinador e parece não reconhecer as barbaridades que o mesmo pratica. Tem a família da nova vítima, uma mãe desesperada, gritando por socorro só que quase sempre não ouvida. A veterana Mariel se vê em uma caminhada sobre escolhas e busca forças, mesmo chegando ao limite, para enfrentar as verdades que reaparecem.



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Crítica do filme: 'Os Banshees de Inisherin'


Solidão que não encontra a solitude. Escrito e dirigido pelo britânico Martin McDonagh, Os Banshees de Inisherin, indicado à 9 Oscars é um projeto repleto de reflexões. Uma busca pela fuga da mesmice desencadeia o rompimento de uma longa amizade o que acaba trazendo novos conflitos dentro de uma espécie de síntese da loucura, tudo isso em um curto período de tempo numa fictícia pequena comunidade na Irlanda, uma ilha no litoral, chamada inisherin. O elenco é brilhante, não à toa todos os intérpretes dos personagens que vemos em tela com poder de subtramas foram indicados ao Oscar em 2023.


Na trama, ambientada em 1923 num lugar onde tiros de canhões e espingarda são audíveis vindo do continente (pois são tempos de guerra civil), conhecemos Pádraic Súilleabháin (Colin Farrell) um homem confortável na sua monotonia que vive seus dias sem muitas pretensões morando numa casa humilde com sua irmã Siobhán (Kerry Condon). Sua maior diversão (e a de todos ali naquela ilha) é ir até o bar e beber. Ele sempre faz isso com o melhor amigo Colm (Brendan Gleeson). Certo dia, ao chamar o amigo, ele percebe que algo está errado e Colm deseja romper a amizade que eles tem, o que acaba gerando enormes conflitos com variáveis imprevisíveis.


A forma como a história é contada é fundamental para nos vermos em reflexões sobre várias situações. O conflito é logo apresentado, a ruptura de uma amizade e o embarque de dois passageiros em um lamento deprimente, até mesmo não explicado. Reunindo as peças jogadas pelo caminho tentamos entender Colm e suas questões. Morador sozinho de uma casa próximo ao mar se desprendeu da monotonia para a busca de um recomeço, como se tivesse outras coisas a fazer no que lhe resta da vida, o que traça paralelos com o significado de Banshee algo como um espírito do folclore irlandês que anuncia a morte de um membro da família.  


Já Pádraic é alegre com o pouco tem, definido pelos outros como limitado, acredita que vive uma boa vida fato que o faz cair de um enorme abismo emocional quando a amizade é desfeita. A raiva e a violência tomam conta de suas ações quando se vê prejudicado em outros campos e relações. Assim o personagem entra em uma desconstrução profunda. Os Banshees de Inisherin não entrega de bandeja ao espectador os porquês do que são ditos, refletimos em relação ao que entendemos de cada personagem. Essa linha muito pessoal, totalmente interpretativa, deve gerar ótimos debates numa mesa de bar.


Outros ótimos personagens embarcam em suas próprias descobertas a partir da situação inusitada vivida pelos dois ex-amigos. Um jovem perdido que se arrisca na iminente desilusão amorosa de uma mulher mais velha, a irmã de um deles e as escolhas de oportunidades no continente que se colocam em seu caminho.


Tendo sua première mundial no Festival Internacional de Cinema de Veneza, Os Banshees de Inisherin explora os caminhos para a solitude em um filme repleto de personagens carismáticos que mesmo sendo enigmáticos e imprevisíveis, principalmente sobre o que passam por seus pensamentos, não deixam de contagiar o público com uma ótima história.



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Crítica do filme: 'Tár'

 


As respostas que imploram por outras perguntas. O hipnotizante novo trabalho do cineasta Todd Field propõe ao público se jogar em uma imersão pelos fascinantes porquês interpretativos da música clássica através da figura de uma personagem fictícia e completamente impulsiva que parece querer lutar contra sua realidade como se todos tivessem a postos à ela. Como se fosse uma peça de um concerto, o roteiro (escrito por Field) nos leva para uma jornada intensa mas nunca maçante sobre uma tentativa frustrada do exercer o controle de tudo chegando a um esgotamento mostrando que o tempo, essa variável incontrolável pelo menos na vida real, é essencial. No papel principal, brilha mais uma vez Cate Blanchett, novamente indicada ao Oscar, por esse brilhante desempenho.


Na trama, conhecemos a maestrina Lydia Tar (Cate Blanchett) uma das figuras mais importantes da música em nossos tempos, PHD em musicologia pela faculdade de Viena que chegou com todos os méritos ao posto de regente de uma grande orquestra alemã. Próxima de uma aguardada gravação, a quinta sinfonia de Mahler, um dos maiores compositores do período romântico, uma série de conflitos fora dos palcos acontece culminando em uma caminhada da genialidade ao desespero.


Indicado para seis Oscars, incluindo melhor filme e melhor atriz, Tár é pulsante. Explora com maestria os paralelos entre a vida pessoal e a vida profissional de uma figura ícone no meio da música. A belíssima construção, e depois desconstrução, dessa icônica personagem nos leva a refletir sobre os intensos sentimentos que são deixados em cada ação e nas escolhas da protagonista. Quando os bemóis e sustenidos de sua vida evaporam da harmonia desejada, se vê em um caos dominante. Mas será que para ela, nada mais importa senão a música? Nada disso, estar presa com seus sentimentos na realidade que batem à sua porta a transformam a todo instante se mostrando mais exposto no recomeçar de seu desfecho.


O limite é um ponto importante aqui nessa investigação emocional que parece querer muito refletir quando os paralelos já citados se convergem. Estar no topo profissional, inclusive em uma área dominada pelos homens, tendo consigo muitas conquistas escondem um lado de manipulação como sabemos que pode acontecer com quem está com o poder. Conciliar trabalho e família apresentam à sua frente variáveis nada controladas bem diferente das harmônicas perguntas que cativam os ouvintes de Bach. Um castelo de cartas se destroçam quando é rompido os limites, ou pelo menos expostos, em frações as peças se desligam do brilhantismo à loucura.


Pulsante, repleto de intensos diálogos, com um forte paralelo com a música, Tár apresenta em suas quase três horas de projeção um recorte da desmistificação hipotético do poder. Assim como a vida, para entender a música, diferentes e profundos sentimentos indefinidos acabam se jogando à nossa frente. Por todos os lados, com um recheio de imperfeições, buscamos enxergar o regente que há entre nós dentro da nossa própria trajetória.



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Crítica do filme: 'Certas Pessoas'


A atualidade, o amor e as angústias existenciais. Abordando diversos conflitos em torno do amor de dois jovens, um deles já na casa dos 30 anos, a mais recente produção da Netflix a entrar no catálogo da poderosa do streaming é uma comédia que se enrola no seu dinamismo e chega em seu desfecho se abraçando nos clichês. O objetivo de refletir sobre diversos temas, dentro de uma angústia existencial, que vão desde religião até o preconceito, se atropela com a necessidade de evidenciar os conflitos. O projeto marca a estreia na direção de longa-metragem de Kenya Barris, criador da premiada série de comédia Black-Ish.


Na trama, conhecemos Ezra (Jonah Hill), um homem branco, judeu, que está em um trabalho que não gosta mas tem o sonho de viver do podcast que tem com a melhor amiga Mo (Sam Jay). Certo dia, após entrar em um carro achando que era o Uber que havia pedido, acaba conhecendo Amira (Lauren London) uma jovem negra, descendente de muçulmanos, super alegre, que trabalha com figurinos. Eles logo se aproximam e se apaixonam. Quando resolvem se casar acabam tendo que conhecer mais profundamente a família um do outro, e aí vários conflitos acontecem principalmente com o pai dela Akbar (Eddie Murphy) e a mãe dele Shelley (Julia Louis-Dreyfus).


Qual o seu lugar no mundo? Rodado todo em Los Angeles, na Califórnia, o projeto se joga em uma investigação sobre o existir de alguns conflitos, que vão desde questões profissionais até pessoais, trazendo a realidade de alguns desses para diálogos inteligentes e dinâmicos. Culturas conflitantes viram esquetes com seus entendimentos nas entrelinhas. Até mesmo um olhar para um embate de gerações diferentes é visto, só que de maneira bem suave, nada explícita.


O amor é uma variável importante nessa história, e aqui a chegada dos clichês tornam bastante previsíveis os desfechos. Mas é importante um olhar atento para as mensagens que a produção deixa pelo caminho, principalmente no subtópico do amor, a angústia existencial reina nas dúvidas e conflitos que giram em torno dos personagens algo que pode fazer o espectador ser fisgado.



 

 

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31/01/2023

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Pausa para uma série: 'A Garota na Fita'


A busca pela verdade. Baseada na obra La Chica de Nieve, do autor espanhol Javier Castillo, a mais nova minissérie espanhola disponível no catálogo da Netflix, A Garota na Fita, ao não optar pela linearidade, sua narrativa se joga num ping pong temporal que aborda muitos temas angustiantes. Há duas estradas que o espectador segue, a do desaparecimento de uma criança e a do trauma que a protagonista sofreu no passado. Com seis episódios ao todo, o projeto começa em janeiro de 2010 em Málaga e vai se seguindo por quase 10 anos em uma busca desesperada dentro de um labirinto de informações.


Na trama, conhecemos um casal com uma filha pequena que vai até o tradicional Desfile dos Reis Magos nas ruas de Málaga, na Espanha. Durante o evento, a filha deles desaparece, levando a uma busca durante anos. A jornalista Miren (Milena Smit) fica obcecada pela investigação e resolve da sua forma ajudar a solucionar o mistério.


Há uma melancolia ligada à angústia que envolve a trama, dentro dos dois dramas que estão no foco. Há a dor e desespero da família, dependendo da polícia e uma investigação jornalística para ter alguma notícia da filha, vemos a transformação desses personagens ao longo de momentos chaves dos nove anos que navega a trama. Há também os traumas gigantes sofridos por Miren, sua relação próxima com o professor da faculdade (interpretado pelo ótimo Jose Coronado), sua busca por ajuda para conseguir seguir em frente e a obsessão pela verdade sobre o caso que parou o país.


As rupturas de tempo e espaço, alicerce de roteiros não lineares, aqui funcionam como prévias de reviravoltas. Os episódios são muito bem definidos dentro da narrativa, com hiatos, passagens de tempo em três linhas temporais que dentro das idas e vindas propostas, acabam se complementando como se cada um deles fosse uma peça de um quebra-cabeça investigativo.



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Crítica do filme: 'Narvik'


As ações do tabuleiro estratégico em meio ao caos da segunda guerra mundial. No início da segunda guerra mundial a Noruega adotou uma postura neutra nos conflitos que se seguiam pela Europa mas isso não quer dizer que o país nórdico não fosse uma peça chave num capítulo da pior das guerras. Dirigido pelo cineasta Erik Skjoldbjærg, o longa-metragem Narvik nos apresenta fatos históricos dentro do contexto dos horrores de uma sangrenta batalha pelos olhos noruegueses de uma cidadezinha gelada de pouco menos de 20.000 habitantes. O conceito de sacrifício aqui ganha contornos quando pensamos ao mesmo instante sobre a moral. Os conflitos nessa linha se jogam nas condutas militares de todas as partes e nas escolhas sobre família em meio ao desespero do não saber como vai ser o amanhã.


Na trama, conhecemos o soldado do exército norueguês Gunnar (Carl Martin Eggesbø) que está muito feliz por estar retornando para sua cidade natal, Narvik, e reencontrar sua esposa Ingrid (Kristine Hartgen), seu filho e seu pai. Só que os alemães resolvem ocupar a cidade por conta da importância estratégica pelo minério de ferro, deixando as autoridades norueguesas em uma gangorra política pois isso fere o conceito de neutralidade que eles tem no conflito. Assim, Gunnar, segue as ordens do seu major e vão para resistência enquanto Ingrid, que trabalha em um hotel e fala alemão, acaba virando intérprete de um cônsul alemão. Ao longo desse retrato cheio de dilemas, marido e esposa precisarão enfrentar conflitos em busca de algum dia voltarem a viver juntos como família.


Nessa história, que marca mais um recorte angustiante na mais letal das guerras, há um contexto importante sobre a posição geográfica da Noruega e o minério de ferro produzido lá que abastecia grande parte das indústrias de armas alemães. Essa questão política é muito bem detalhada nos primeiros minutos de projeção, além de ser algo que aparece como pano de fundo para todos os conflitos que se seguem. Os personagens são fictícios mas esse conflito realmente existiu e é considerado até hoje a maior batalha em solo norueguês.


O lado da população norueguesa e as iminentes cicatrizes da guerra giram em torno do desespero de estarem literalmente no meio de um conflito. Vemos famílias, pais e filhos traumatizados, no meio do fogo cruzado entre britânicos (depois franceses e poloneses) e alemães. As escolhas, e perguntas sobre de qual lado você está na guerra (um dos fortes conflitos de um dos personagens), giram em torno da necessidade, com lampejos na moral, enquanto a destruição toma conta da pequena cidade no norte da Noruega.


Considerada a primeira derrota de Hitler na segunda guerra mundial, a retomada de Narvik é um fato histórico e que nessa produção disponível na Netflix ganha contornos angustiantes nos dilemas que passam seus impactantes personagens.



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29/01/2023

Crítica do filme: 'A Profecia do Mal'


Uma tese para um filme desinteressante. Caminhando de forma peculiar pela ficção científica e o terror, A Profecia do Mal, dirigido pelo cineasta canadense Nathan Frankowski, possui uma narrativa que, de forma atabalhoada, navega nos simbolismos, no misticismo, nas tentativas de clonagens de pessoas influentes da história humana (inclusive Jesus Cristo) e interpretações sobre as representações do bem e do mal. Busca seus sustos através do medo de figuras muito associadas à maldade e de representações fantasiosas com direito a efeitos visuais que não convencem.


Na trama, conhecemos a Laura (Alice Orr-Ewing), uma historiadora de arte talentosa, estudante norte-americana na Universidade de Turim. Certo dia se vê envolta à uma conspiração de satanistas que estão ligados à uma empresa de biotecnologia com o objetivo de clonar pessoas influentes que já estiverem na Terra. Eles querem libertar Lúcifer, que fora preso no passado pelo guardião dos céus Arcanjo Miguel (Peter Mensah). Para isso, roubam o Sudário de Turim, o manto de Cristo, colocando-os de posse do DNA de Jesus em busca de uma oferenda definitiva ao diabo para um novo recomeço. Para ajudar Laura e consequentemente a todo o mundo, Miguel desce à Terra e se projeta em um avatar terráqueo. Assim, Miguel e Laura precisarão unir forças para livrarem o mundo das garras de Lúcifer e seus comparsas.


Para tentar entender essa história (pelo menos um pouco), é importante uma atenção ao contexto inicial que se divide em dois paralelos: o místico e o da clonagem. Lúcifer colocou os céus em guerra contra o trono de Deus, derrotado por arcanjo Miguel, é preso nas profundezas da Terra. O tempo passa e ele de alguma forma consegue reunir um exército na Terra para poder voltar e dominar. A inserção da clonagem, que somos apresentados de forma relâmpago em meio a um leilão pra lá de esquisito, não é feito de maneira cirúrgica, é acelerado, deixando poucas explicações e apenas mostrando que esse é o elo que existe entre a entidade do mal e seu grupo de seguidores. Tudo fica muito confuso no roteiro escrito por Ed Alan.


Laura, a protagonista, também é muito mal inserida na trama. Sabemos muito pouco sobre ela e os porquês dela ser escolhida para o experimento esquisito que lhe é forçada a fazer. Essa mulher, que tem um trauma no passado, são os olhos do espectador em grande parte da história proposta, basicamente girando em torno das transformações que ela vai passando ao longo dos intermináveis 111 minutos de duração. Miguel, a representação do bem nessa história, acaba se tornando um 007 lutando contra impossíveis cenários repleto de lutas contra monstrengos que parecem ter saído de algum vídeo game dos anos 90.


Entretenimento? Um retrato divertido? Um filme desinteressante? Há muitas perguntas que giram em nosso pensar logo após conferir esse longa-metragem. Caminhando nas linhas do absurdo, A Profecia do Mal tem várias interpretações, inclusive um retrato atabalhoado sobre uma batalha entre o bem e mal.



 

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26/01/2023

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Pausa para uma série: 'Todo dia a Mesma Noite'

(Crédito: Guilherme Leporace/Netflix)

Uma dor que nunca terminará. Buscando trazer a história, além de detalhes chocantes para o público, de uma das maiores tragédias em território brasileiro, o incêndio na boate Kiss na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Todo dia a Mesma Noite nos faz reviver os horrores de uma madrugada onde as vidas de mais de 200 jovens se perderam, também o luto dos familiares, além da busca por justiça que vira uma estrada sem fim. Dividida em intensos cinco capítulos de cerca de 40 minutos, baseado no livro da jornalista Daniela Arbex, o projeto é profundo, intenso, impactante, angustiante com um foco grande, em seus últimos episódios, na lentidão e absurdos das questões jurídicas e seus desenrolares na busca pelos culpados.


Fundada em 1797, com um pouco menos de 300.000 habitantes, a cidade de Santa Maria, quinta maior em população do Rio Grande do Sul, nunca mais foi a mesma depois de 27 de janeiro de 2013 quando uma boate com super lotação (a capacidade permitida era pouco mais de 650 pessoas, lá tinham mais de 1.000) lambeu em chamas após o cantor da banda que tocava acender um sinalizador que tocou o teto do lugar e que logo se tornou um inferno em segundos. As dificuldades de sair do local foram diversas o que prejudicou a fuga de muitos que ali estavam. Pais, amigos e familiares foram acordados pela madrugada e partiram para o local em busca de notícias, se deparando com um verdadeiro cenário de uma tragédia. Uma cidade ficou em choque, o país em luto. Essa tragédia é difícil de sair da memória de todos nós que acompanhamos pelos noticiários tudo o que era divulgado.


Essa não é uma minissérie fácil de assistir. Principalmente os chocantes primeiro e segundo episódios. Gera um sentimento de revolta em todos. A luta pela condenação dos inúmeros culpados se torna um alicerce da narrativa nos três últimos episódios, onde o foco se desloca para a dor das famílias, os embates com o ministério público da cidade onde tudo aconteceu e as incontáveis idas e vindas à tribunais de várias cidades. A esperança de dar mais um passo na condenação de quem merece ser condenado se torna uma jornada cheia de lutas e burocracias e com um dos maiores absurdos: 10 anos depois que 242 pessoas foram mortas NENHUM réu foi responsabilizado por absolutamente nada que aconteceu naquela noite triste no sul do país.


Pode ser que para alguns esse projeto seja guiado por alguma polêmica sobre o uso como entretenimento, uma minissérie sobre uma tragédia. Mas como assim? Não existe a possibilidade de se negar o que aconteceu! Além do que, uma obra audiovisual traz ao espectador reflexões e o principal, o nunca esquecer!



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24/01/2023

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Crítica do filme: 'O Mochileiro Kai: Herói ou Assassino?'


As dúvidas e conflitos sobre um inusitado acontecimento que dividiu a opinião pública. Lançado em janeiro de 2023 na Netflix, o documentário O Mochileiro Kai: Herói ou Assassino nos apresenta um recorte cheio de variáveis de um mochileiro sem teto, nômade, que sobrevive de estado em estado através da bondade dos que encontra pelo caminho, que no primeiro dia de fevereiro de 2013, em Fresno, na Califórnia, empunhando uma machadinha, salva uma mulher de um maluco e logo vira celebridade nos Estados Unidos. Ao longo do tempo, a partir dessa situação outras facetas da nova celebridade não demoram para aparecer.


O projeto busca seguir uma lógica de narrativa onde a lineariedade é o foco, mostrando cronologicamente os passos desse jovem com graves problemas psicológicos, primeiro através de um repórter da KMPH News que acabou sendo o primeiro a entrevistá-lo, inclusive criando um vínculo de empatia com ele. Mas logo Kai vira uma celebridade da era digital, ganhando reacts, comentários em todas as redes sociais do momento além de ser pauta em programas que adoram explorar o sensacionalismo. Nesse momento outros personagens entram na história quando ele vira notícia. Seguindo na linha do tempo, uma outra situação acontece, uma terrível assassinato de uma pessoa que o ajudou num noite anterior ao crime, transformando o protagonista dessa história no principal suspeito.


A partir do momento onde Kai vai de herói a vilão muitas perguntas ficam no ar: Será ele um barril de pólvoras prestes a explodir? Há alguma culpa da mídia nessa exposição de sua história? E a família dele, o que pensam sobre isso? Logo entendemos que a trajetória de Kai já como celebridade num mundo pulsante das redes sociais vira um caso conflitante de opinião pública que levantam questões para reflexões dos espectadores.



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Crítica do filme: 'Noite Infeliz'


A importância do acreditar. Dirigido pelo cineasta norueguês Tommy Wirkola, Noite Infeliz é um filme que te conquista rapidamente com uma trama que nada mais é que um recorte debochado, sangrento e eletrizante do espírito natalino. A narrativa é em grande parte imersa em uma comédia escrachada, repleta de situações bizarras que busca alguma profundidade em subtramas ligadas aos problemas de relacionamentos que existem em qualquer família. No papel principal o ótimo David Harbour.


Na trama, conhecemos o verdadeiro Papai Noel (David Harbour) que aqui nesse projeto é um beberrão, desacreditado, desanimado na data onde é mais lembrado, pensando inclusive em se aposentar. Durante sua rotina intensa durante o natal, acaba chegando na casa da família de Trudy (Leah Brady), uma criança que ainda acredita no Papai Noel e vive dias difíceis com seus pais à beira da separação. Quando um grupo de criminosos resolve assaltar a casa da família dela justo no natal, Papai Noel fará de tudo para proteger Trudy e toda sua família.


Sangrento e violento em sua essência, o longa-metragem, lançado em dezembro de 2022 nos Estados Unidos, no Brasil em sequência, já faturou até o momento mais de 70 milhões de dólares em bilheteria pelo mundo. A ótima sacada do roteiro, que busca como pretensão apenas fazer rir com seus absurdos, é surfar em cima de uma releitura fantasiosa e depressiva sobre uma época marcada pela união e esperança. Há incluso nesse contexto uma subtrama que gira em torno de uma família milionária e bastante distante em suas relações com um maior foco em um pai tentando voltar com a esposa na noite de natal.


Noite Infeliz cumpre seu objetivo que é chocar e fazer os espectadores se divertirem. O projeto com toda certeza será lembrado nos próximos anos nas famosas listas sobre filmes de natal que dominam posts de quem produz conteúdos sobre cinema nas redes sociais.



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22/01/2023

Crítica do filme: 'Jung_E'


A ética, a distopia e a busca de respostas de uma filha. Novo filme do diretor do adorado Invasão Zumbi, Sang-ho Yeon, Jung_E é uma distopia que desenvolve possibilidades caóticas para o planeta, como se fosse um retorno na nossa história com guerras e conflitos ideológicos, a partir das intensas mudanças climáticas provocadas pelas ações do homem, deixando bem transparente a atemporalidade da natureza humana. Em paralelo a isso, assistimos uma história bem profunda entre mãe e filha. Com ótimas cenas de ação, mesmo com um roteiro um pouco confuso, o projeto busca suas atenções em um olhar sobre os relacionamentos, nas relações interpessoais em tempos onde a clonagem é algo que faz parte do cotidiano.


Na trama, ambientada no ano de 2.194, conhecemos um futuro onde a população da terra é afetada de maneira vital pelo aumento gradativo do nível do mar, oriundo dos desgastes provocados pelas agressivas mudanças climáticas. Obrigados a fugir do planeta, a população criou na órbita entre a lua e a terra algumas estações que foram chamadas de ‘abrigos’.  Mas como a história da humanidade já mostrara em outros tempos, não demorou muito para que conflitos ideológicos provocassem rupturas, assim alguns desses abrigos quiseram se tornar independentes e uma iminente guerra chegou pelo caminho se tornando algo presente já há quatro décadas. Para terminar de vez com essa guerra, há uma esperança na clonagem de uma vitoriosa guerreira que é o último elo familiar de uma das responsáveis pelos testes dessas clonagens.


Essa complexa distopia joga suas linhas narrativas em uma estrada que se mantém em um certo looping mas que de alguma forma não vira algo redundante. É como se a cada sequência uma enorme lupa fosse colocada sobre os personagens. É importante o espectador prestar a atenção logo no início do filme, para ser ambientado sobre o presente cenário onde se jogam as ações, há conceitos mais profundos sobre tecnologia, principalmente o desenvolvimento de inteligência artificial através de dados cerebrais em uma época onde a clonagem vira algo parte do cotidiano. Há também as simulações em um metaverso, uma série de repetições através de protótipos de clonagem onde buscam-se a essência do clonado.


Dentro desse universo tecnológico, há o arco da filha que busca respostas sobre os pensares da mãe que virou uma combatente mercenária para ajudá-la em uma situação no passado. Esse complexa relação se aproxima de conceitos, teorias, que vão da inteligência artificial até as linhas intensas que envolve o que pensamos sobre família. Dentro da narrativa, esse arco é jogado aleatoriamente o que confunde um pouco pois deixa lacunas pelo caminho.


Reflexões sobre a ética também ganham seus espaços por aqui, se incluindo no leque de demonstrações cujo objetivo é pensar sobre a natureza humana. Jung_E busca na sua distopia mostrar que o que vemos na atualidade são peças atemporais.



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21/01/2023

Crítica do filme: 'O Menu'


O inusitado recorte da comida como protagonista de conflitos. Depois de uma grande experiência dirigindo episódios de seriados de sucesso, como: Succession, The Affair e até mesmo Game of Thrones, o cineasta britânico Mark Mylod chega ao seu quarto longa-metragem da carreira trazendo para o público uma sátira sobre rejeição e medo, ao mesmo tempo inteligente que navega nos fenômenos que podem ocorrer na mente humana. A vibe gourmet que acompanha a narrativa nada mais é que uma alegoria já que o subliminar das refeições aqui traçam um paralelo com o instantâneo desabrochar dos pensamentos dos personagens, um reflexo de como enxergam a vida ao seu redor. O roteiro é assinado pela dupla Seth Reiss e Will Tracy, esse último teve a ideia durante sua lua de mel passada na Noruega, quando entrou em um barco para um restaurante chique em uma ilha particular.


Na trama, conhecemos um jovem casal, que logo perceberemos que não andam em compasso de harmonia, Tyler (Nicholas Hoult) um milionário que tem um verdadeiro fascínio pela alta gastronomia e Margot (Anya Taylor-Joy) uma mulher cheia de personalidade e também segredos. Eles e mais um grupo de selecionadas pessoas, pagaram um valor bem alto para terem uma experiência gastronômica de um dia em um restaurante que fica numa ilha chamada Hawthorn, com quase cinco hectares de florestas e pastos, sendo essa comandado pelo brilhante chef Slowik (Ralph Fiennes). Ao longo desse dia, coisas estranhas começam a acontecer e os clientes serão surpreendidos a cada minuto que passa.


O filme, que estreou no prestigiado Festival Internacional de Cinema de Toronto no ano passado, anda em cima das interpretações, muitas vezes ambíguas, do desprazer e satisfação provocadas pelas estradas de vida de cada um dos personagens, as linhas do afiado roteiro, que possui pitadas generosas de duplo sentido, nos mostra horizontes dentro das imperfeições da natureza humana aqui quase como se cada personagem se colocasse de frente a um espelho onde a partir de suas ações caminham para aceitações ou não da situação que estão metidos. Esse olhar dos selecionados para aquele menu e para tudo o que acontece em quase 110 minutos de projeção tiram de trás da cortina uma sátira de rejeição e medo muito inteligente.


Já ambientado nos tempo atuais, no pós pandemia da Covid-19, e com filmagens que incluíram a costa da Ilha Jekyll (na Georgia) o filme é um terror elegante, com entradas teatrais, que parece com muita calma, e usando do chocar como ferramenta, oferecer ao público o marinar, liquefazer, esterificar, geleificar, dentro de um cardápio de interpretações para seu desfecho impactante.



 

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20/01/2023

Crítica do filme: 'Casamento Sangrento'


As loucuras do olhar para o matrimônio de uma família perturbada. Lançado no final de 2021 no catálogo da Star Plus, o intenso longa-metragem dirigido brilhantemente pela dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, Casamento Sangrento é uma mistura de ação, comédia e terror que se joga em uma narrativa eletrizante, com altas doses de críticas sociais, na busca pela profundidade de um recorte bastante peculiar para uma milionária família e uma protagonista que tinha apenas um sonho: se casar!


Na trama, conhecemos Grace (Samara Weaving), filha de pais adotivos que sempre sonhou em ter uma família e está prestes a realizar seu sonho já que encontrou seu príncipe encantado, Alex (Mark O'Brien), um apaixonado futuro marido. No dia do casamento, ela vai passar as futuras horas na mansão da família do rapaz (que fez fortuna ao longo do tempo no início com uma fábrica que criava baralhos, depois vendia jogos de tabuleiros, e mais pra frente empreendedores bem sucedidos), e lá acaba conhecendo melhor uma tradição macabra onde o destino pode ser definido ao puxar uma carta que faz parte de um jogo que vem de ancestrais passados. Assim, em uma enorme mansão, cheia de passagens secretas, câmeras por todos os lados, vemos uma surpreendida protagonista que vai precisar ser muito corajosa em uma luta pela sobrevivência.


Com um modesto orçamento de seis milhões de dólares (arrecadando quase 10 vezes mais em bilheterias em todo o mundo), Casamento Sangrento é um terror que se camufla no terrir para abordar as linhas psicológicas de intrigantes personagens que passeiam pela tela em uma noite repleta de emoções. O esteriótipo aqui se torna peça chave para entendermos as ambiguidades das mentes perturbadas que conhecemos fazendo o espectador pensar o que faria se estivesse na situação de Grace. Os paralelos sendo trazidos em partes para com os conflitos entre sogros e nora são ótimos. A maneira como é contada essa história (que também chamamos de narrativa) é bastante certeira, embaralha os conflitos de sentimentos definindo muito bem as peças nesse enorme tabuleiro da loucura.


Sorte? Destino? Precisando passar por momentos surpreendentes, até mesmo um pisque esconde aterrorizante, a protagonista é um elemento fundamental nessa história. Muitas vezes nos sentimos dentro de um jogo de videogame, onde a heroína está bem definida aos nossos olhos. Ela precisa embarcar nos absurdos para entender e saber agir dentro de todo o contexto. E por falar em contexto, Casamento Sangrento tem um desfecho arrebatador, até mesmo desafiante e corajoso, que vai gerar inúmeras interpretações.



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19/01/2023

Crítica do filme: 'M3gan'


As inúmeras interpretações para a figura de uma boneca que assusta, faz rir e está em dia com as dancinhas tiktok. Escrito pelo criativo cineasta malaio James Wan, M3gan busca o pilar de sua narrativa debruçada no terrir (onde o objetivo é assustar e fazer rir), num amplo sentido do refletir sobre a relação humanos x máquinas incrementado para uma atualidade onde o sentir medo encosta no humor de ações de marketing que são bem sucedidas nas redes sociais. Cheio de referências a alguns filmes do gênero terror que envolve bonecos, principalmente ao clássico do final da década de 80, Brinquedo Assassino, o longa-metragem de cerca de 100 minutos, que teve seu trailer viralizado no TikTok, pode ser o primeiro capítulo de algo maior, já que há uma ótima deixa, bem sutil mas eficaz, que podem levar essa projeto a ser uma franquia futuramente.


Na trama, acompanhamos a engenheira mecânica Gemma (Allison Williams), uma programadora que mexe com robôs e inteligência artificial que desenvolve um projeto de uma boneca de nome técnico Model 3 Generative Android, mas nome fantasia M3gan, que promete ser algo revolucionário na indústria do entretenimento. Ao mesmo tempo, vê sua vida se revirar ao avesso quando acaba ficando com a guarda provisória da sobrinha que perdeu os pais em um terrível acidente de carro. Quando Gemma resolve testar a interação da boneca com a sobrinha, ela logo percebe que essa criação apresenta ações bem diferentes do que ela imaginava.


O caminho inicial do filme é o de uma mulher em conflito, consumida pela rotina estressante e cheia de prazos no concorrido mercado de brinquedos cada vez mais sofisticados e bem longe dos tempos onde o Tamagochi era o sonho de todos. Afim de provar seu valor não mede esforços para desenvolver algo próximo da realidade mas com aquela mentalidade de gerações passadas. Essa parte do filme pode ser enxergada como uma crítica ao mercado dos brinquedos interativos e também sobre a limitação do seu próprio público, um exemplo é que a própria M3gan custaria 10.000 dólares. E falando da boneca, a grande estrela do filme, a narrativa para ela se protege no terrir, trocando momentos de tensão pelo riso fácil. Essa fórmula já bem usada ao longo dos anos aqui se joga em cima de uma escolha do espectador de embarcar ou não.   


Com locações nos subúrbios de Auckland (Nova Zelândia), o filme busca seus momentos chaves caminhando numa inversão de sentimentos, camuflando sua rasa trama com pitadas cômicas de referências para uma nova geração muito ligada à jogos cada vez mais cheios de inteligências artificiais e com alto grau de vícios. Inclusive, M3gan é um projeto que se baseia, em partes, na leitura de suas ações de marketing, fato que moldou sua redução de classificação com cortes de mais cenas violentas depois do trailer viralizar em uma das redes mais populares no momento: o TikTok. Mas será esse o filme que James Wan realmente queria fazer? A fórmula deu certo? Fica a sugestão para refletirmos.



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18/01/2023

Crítica do filme: 'Babilônia'


A grande confusão, e extravagâncias, de um tempo que marca inícios e logo depois rupturas. Metendo o pé no acelerador, buscando pulsar os conflitos de forma profunda em cada sequência, durante uma época que traça os primórdios da tão sonhadora Hollywood lá nos anos 20, o jovem prodígio do cinema Damien Chazelle (diretor de La La Land e Whiplash) volta aos telonas com sua mira inteligente para o refletir sobre uma ruptura de um tempo, na visão de três personagens, seus sonhos, ambições e perdições na época das badalações em torno do cinema mudo e os próximos passos dessa indústria hoje reconhecida como a maior do planeta. O projeto, de longas três horas de duração, fora indicado para diversos prêmios e deve conseguir algumas vagas na próxima cerimônia do Oscar.


Na trama, acompanhamos o em torno dos alicerces de Hollywood nos anos 20 na visão de alguns personagens. Manny (Diego Calva) é um imigrante mexicano que entre bicos em festanças descontroladas onde aparecem os grandes nomes da tão badalada indústria do cinema norte-americano consegue avançar no sonho de participar nos bastidores de algumas produções. Conhecemos também Nellie (Margot Robbie), um jovem atraente que tem um passado triste e acaba conseguindo adentrar ao mundo do cinema mudo. E temos Jack Conrad (Brad Pitt) um bem sucedido ator da Hollywood desse tempo que passará por intensos conflitos com a chegada do cinema falado. Essas três almas, interligadas pelos bastidores do cinema, nos guiam para uma trama que envolve declínios e ascensões meteóricas.


Grande parte da narrativa gira em torno de um pré e pós cinema mudo (inclusive encostando em conflitos vistos em O Artista). Os grandes momentos da indústria do cinema que se renovou ao longo do anos, que passou do mudo ao falado em uma ruptura que para muitos olhos na época geraram um fim de ciclo. Avançando pelos anos, dentro desse contexto, vemos sonhos e decepções. Os direitos trabalhistas, o anti-profissionalismo ligados ao ego, o assédio moral, o machismo, as loucuras e inseguranças nos sets de filmagens, visões de uma intensa época com todos os deslumbramentos contidos pela fama, são algumas questões que também ganham um olhar de Chazelle. Sendo esses pontos alicerces, algumas subtramas se tornam rasas mas dentro desse entorno intenso e vibrante ditado pelo ritmo frenético.


Em outras páginas do olhar da narrativa, chegamos no que seria babilônia, uma construção desenfreada sem planejamento? As escolhas que se colocam pelo caminho dos protagonistas são movidas a desequilibradas ambições onde sonhos são atropelados pelo interesse que nasce do dia pra noite. Aqui vemos um bom recorte no personagem de Pitt, que ruma sem saber para uma aceitação ou não do fim da estrada, do que seria o amor, a loucura, a desilusão, sentimentos exagerados longe de conseguir encontrar um equilíbrio num sentido de adaptação.


Babilônia é interpretativo de várias formas, aponta seu olhar para muitas questões que giram em torno de uma poderosa indústria, seus pontos de ruptura, seus exageros, seus deslumbramentos.



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