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Crítica do filme: 'Tár'

 


As respostas que imploram por outras perguntas. O hipnotizante novo trabalho do cineasta Todd Field propõe ao público se jogar em uma imersão pelos fascinantes porquês interpretativos da música clássica através da figura de uma personagem fictícia e completamente impulsiva que parece querer lutar contra sua realidade como se todos tivessem a postos à ela. Como se fosse uma peça de um concerto, o roteiro (escrito por Field) nos leva para uma jornada intensa mas nunca maçante sobre uma tentativa frustrada do exercer o controle de tudo chegando a um esgotamento mostrando que o tempo, essa variável incontrolável pelo menos na vida real, é essencial. No papel principal, brilha mais uma vez Cate Blanchett, novamente indicada ao Oscar, por esse brilhante desempenho.


Na trama, conhecemos a maestrina Lydia Tar (Cate Blanchett) uma das figuras mais importantes da música em nossos tempos, PHD em musicologia pela faculdade de Viena que chegou com todos os méritos ao posto de regente de uma grande orquestra alemã. Próxima de uma aguardada gravação, a quinta sinfonia de Mahler, um dos maiores compositores do período romântico, uma série de conflitos fora dos palcos acontece culminando em uma caminhada da genialidade ao desespero.


Indicado para seis Oscars, incluindo melhor filme e melhor atriz, Tár é pulsante. Explora com maestria os paralelos entre a vida pessoal e a vida profissional de uma figura ícone no meio da música. A belíssima construção, e depois desconstrução, dessa icônica personagem nos leva a refletir sobre os intensos sentimentos que são deixados em cada ação e nas escolhas da protagonista. Quando os bemóis e sustenidos de sua vida evaporam da harmonia desejada, se vê em um caos dominante. Mas será que para ela, nada mais importa senão a música? Nada disso, estar presa com seus sentimentos na realidade que batem à sua porta a transformam a todo instante se mostrando mais exposto no recomeçar de seu desfecho.


O limite é um ponto importante aqui nessa investigação emocional que parece querer muito refletir quando os paralelos já citados se convergem. Estar no topo profissional, inclusive em uma área dominada pelos homens, tendo consigo muitas conquistas escondem um lado de manipulação como sabemos que pode acontecer com quem está com o poder. Conciliar trabalho e família apresentam à sua frente variáveis nada controladas bem diferente das harmônicas perguntas que cativam os ouvintes de Bach. Um castelo de cartas se destroçam quando é rompido os limites, ou pelo menos expostos, em frações as peças se desligam do brilhantismo à loucura.


Pulsante, repleto de intensos diálogos, com um forte paralelo com a música, Tár apresenta em suas quase três horas de projeção um recorte da desmistificação hipotético do poder. Assim como a vida, para entender a música, diferentes e profundos sentimentos indefinidos acabam se jogando à nossa frente. Por todos os lados, com um recheio de imperfeições, buscamos enxergar o regente que há entre nós dentro da nossa própria trajetória.



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