Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme 'Reality - A Grande Ilusão'


Nunca desista dos seus sonhos. Aproveitando esse lema bastante comum nas pessoas sensíveis e sonhadoras, o diretor Matteo Garrone (Gomorra) apresenta uma história dramática, com um particular humor europeu como pano de fundo, que poderia ser muito melhor desenvolvida senão fosse a cansativa introdução. O assunto não é recente, uma espécie de crítica à sociedade alienada, pena que acaba sendo mais uma boa ideia perdida em um mar de desinformação.

Na trama, acompanhamos a trajetória de um simpático e querido administrador de uma peixaria chamado Luciano (Aniello Arena) que vive com a família no subúrbio de Nápoles, na Itália. O trabalhador busca a cada dia melhorar a situação de sua enorme família contrabandeando aparelhos eletrônicos. Certo dia, após um insistente pedido de seus filhos, Luciano participa de um processo seletivo para concorrer a uma vaga no programa Big Brother. A partir daí entra em um surto psicológico quando pensa que será um dos selecionados da próxima edição do reality show.

O público aguarda ansiosamente que o filme tenha algum sentido. O arco introdutório é muito longo, por isso cinéfilos, paciência, o filme ganha uma certa direção quando começa a ter um objetivo. Um dos fatores que atrapalham é em relação aos personagens coadjuvantes que são arremessados dentro da história sem qualquer razão, deixando o público precocemente confuso sobre o porquê da existência deles para contar essa história.

A produção ganha possibilidade de aceitação se o público conseguir fazer uma análise mais profunda sobre o comportamento fora dos padrões do protagonista. É uma fábula sobre a sociedade alienada moderna. O personagem, completamente descontrolado, começa a ter atitudes inconsequentes quando cria a ilusão de que ganhará fama e reconhecimento. Abandona sua rotina de trabalhador e começa a compor os elementos de seu cotidiano como forma de se sentir ainda com esperanças de realizar o seu sonho.

O longa tem a proposta de ser profundo mas acaba sendo raso. É arrastado, mais longo do que deveria ser. Acaba se tornando cansativo. Quando chegamos ao desfecho, a sensação que passa é de que faltou alguma coisa. É o simples caso de que nem toda boa ideia vira um bom roteiro. 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...