Duas médicas casadas. Uma denúncia de assédio. Duas perspectivas. Lançado há alguns dias na Netflix, o longa-metragem indiano A Acusada busca de maneira rasa e pouco consistente abordar um assunto sensível. Com subtramas entrelaçadas, que não ajudam a sustentar as possíveis camadas que o filme poderia acessar, a narrativa se limita a uma história que não causa o impacto que deveria.
Dirigido pela cineasta Anubhuti
Kashyap, o roteiro – assinado por Sima
Agarwal e Yash Keswani - se
estabiliza sobre a comodidade da dúvida, deixando a paranoia e um casamento prestes
a ruir se sobressair sobre as reflexões importantes que o tema exigia.
A brilhante e egocêntrica médica ginecologista Geetika (Konkona Sen Sharma) é a grande estrela
do hospital londrino onde trabalha e está prestes a ser convidada para assumir
a chefia do lugar. Casada com a médica Meera (Pratibha Ranta), vive seus dias com grandes planos para o futuro.
Acontece que uma série de denúncias contra Geetika – acusando-a de assédio –
vira a vida do casal ao avesso, levando Meera a suspeitar da própria esposa.
Vamos avançando na trama através de duas perspectivas: a de
Geetika e a de Meera. A primeira se apresenta como uma personagem ambígua,
rígido em seu ofício, que é adepta de mentiras para com a esposa – bem mais jovem
- e mantém uma proximidade com a ex-namorada. Já a segunda é a personagem que
traz algumas possibilidades em seu desenvolvimento, vivendo um casamento em
outro país escondido da família e à beira de dilemas entre o relacionamento e a
carreira profissional.
A todo instante, percebemos que o drama vai se transferir
para um thriller, ou algo próximo. O assunto principal fica de lado em muitos
momentos. Na ponte entre a aparente felicidade e a crise provocado pela
denúncia, personagens entram e saem sem desenvolvimento satisfatório, limitando-se
ao essencial e se abraçando a uma resolução simples.
É muito frustrante quando um filme que levanta questões importantes
para debates sobre a nossa sociedade tende a soluções previsíveis, praticamente
anulando qualquer escalada nos embates sugeridos. Ao optar por desenvolver o
conflito através de um relacionamento em crise, a trama perde o fôlego de
colocar em evidência as condutas reprováveis se transformando em um suspense
desalinhado, com peças soltas.















