01/03/2026

Crítica do filme: 'A Acusada' (2026)


Duas médicas casadas. Uma denúncia de assédio. Duas perspectivas. Lançado há alguns dias na Netflix, o longa-metragem indiano A Acusada busca de maneira rasa e pouco consistente abordar um assunto sensível. Com subtramas entrelaçadas, que não ajudam a sustentar as possíveis camadas que o filme poderia acessar, a narrativa se limita a uma história que não causa o impacto que deveria.  

Dirigido pela cineasta Anubhuti Kashyap, o roteiro – assinado por Sima Agarwal e Yash Keswani - se estabiliza sobre a comodidade da dúvida, deixando a paranoia e um casamento prestes a ruir se sobressair sobre as reflexões importantes que o tema exigia.

A brilhante e egocêntrica médica ginecologista Geetika (Konkona Sen Sharma) é a grande estrela do hospital londrino onde trabalha e está prestes a ser convidada para assumir a chefia do lugar. Casada com a médica Meera (Pratibha Ranta), vive seus dias com grandes planos para o futuro. Acontece que uma série de denúncias contra Geetika – acusando-a de assédio – vira a vida do casal ao avesso, levando Meera a suspeitar da própria esposa.

Vamos avançando na trama através de duas perspectivas: a de Geetika e a de Meera. A primeira se apresenta como uma personagem ambígua, rígido em seu ofício, que é adepta de mentiras para com a esposa – bem mais jovem - e mantém uma proximidade com a ex-namorada. Já a segunda é a personagem que traz algumas possibilidades em seu desenvolvimento, vivendo um casamento em outro país escondido da família e à beira de dilemas entre o relacionamento e a carreira profissional.

A todo instante, percebemos que o drama vai se transferir para um thriller, ou algo próximo. O assunto principal fica de lado em muitos momentos. Na ponte entre a aparente felicidade e a crise provocado pela denúncia, personagens entram e saem sem desenvolvimento satisfatório, limitando-se ao essencial e se abraçando a uma resolução simples.

É muito frustrante quando um filme que levanta questões importantes para debates sobre a nossa sociedade tende a soluções previsíveis, praticamente anulando qualquer escalada nos embates sugeridos. Ao optar por desenvolver o conflito através de um relacionamento em crise, a trama perde o fôlego de colocar em evidência as condutas reprováveis se transformando em um suspense desalinhado, com peças soltas.  

 

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Pausa para uma série: 'Rainhas da Grana'


Trazendo carismáticas anti-heroínas para o centro de uma trama que se destaca pelo ritmo frenético, repleto de sarcasmo e ironias, o novo seriado francês da Netflix, Rainhas da Grana, é uma daquelas séries que deixam sua marca logo que começamos a assistir. Criado por Carine Prévot e Olivier Rosemberg – este último que também atua na série – a obra, entre tantos pontos positivos, desenvolve as contradições morais de seus personagens por meio de um humor ácido e inteligente.

Sufocadas pela opressão de um mundo machista e pela falta de oportunidades que as atinge diariamente, um grupo de amigas, moradoras de uma área de classe média baixa francesa, resolve assaltar um banco para conseguir algum respiro nas contas diárias que se acumulam. A questão é que, elas acabam se jogando nesse mundo do crime repleto de pessoas gananciosas, dispostas a tudo para ter sua parte em cada novo evento criminoso realizado.

Mesmo com muitas protagonistas, o foco se volta para Rosalie, interpretada pela excelente Rebecca Marder. Pela perspectiva dela, vamos rompendo as barreiras da intimidade das vidas das outras integrantes do grupo de assaltantes, um grupo que vê numa posição sem nada a perder. Completamente movida pelas emoções, com o marido preso e dois filhos para criar, ela quase sempre deixa de lado as consequências de seus atos. Essa forte personagem, de comportamento imprevisível, é o pilar dessa história.

Um dos pontos que logo chamam a atenção é que o projeto, dividido em oito episódios - um melhor que o outro -, não passa pano para as atitudes erradas das protagonistas, trazendo um recheio generoso de consequências – exatamente onde acontece o epicentro da trama. A narrativa, com seu mix de ação, comédia e drama, alcança o brilhantismo ao prender a atenção enquanto desfila críticas sociais contundentes, como o já citado machismo e a corrupção policial e política, sem perder o bom-humor.

A cada capítulo, novas subtramas se somam a esse turbilhão de loucuras, enquanto novos personagens entram em cena e adicionam sua contribuição. Políticos arrogantes, traficantes de drogas, ex-maridos babacas, integrantes de associações criminosas e até mesmo um milionário romântico, vão e vêm, abrindo camadas ligadas às dinâmicas familiares e até à sexualidade.

Rainhas da Grana, apostando em tudo que foi para o ar, deixa pontas soltas em um final aberto e cheio de possibilidades futuras. Essa deliciosa série, pela qual torcemos que retorne para uma segunda temporada, nos faz querer maratonar tudo de uma vez só. Liga na Netflix e confira!

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Crítica do filme: 'A Cela dos Milagres'


Baseado na obra sul-coreana 7-beon-bang-ui seon-mul, de Lee Hwan-kyung – que já ganhou outras versões pelo mundo –, chegou à Netflix, nesta semana de carnaval, um filme que busca no convencional de sua narrativa apresentar uma história de amor e redenção. Trazendo como alicerce o caos da injustiça e os respingos de esperança, esse projeto mexicano dirigido por Ana Lorena Pérez Ríos caminha pela força que a bondade pode provocar mesmo em meio a um mar de tristezas.

Hector (Omar Chaparro) vive seus dias com a mãe e filha, Alma (Mariana Calderón), em uma humilde casa. Com deficiência neurológica adquirida, dedica todo seu tempo para realizar os sonhos da criança. Um dia, é acusado injustamente por um crime terrível e enviado para uma prisão barra-pesada, comandada por um diretor implacável. Aos poucos, Hector conquista a empatia de outros prisioneiros, que fazem de tudo para ajuda-lo a sair daquele lugar. 

Esse é um filme que tem a força das mensagens camuflando qualquer deslize narrativo. É o famoso entretenimento que chega fácil nas emoções: você sente mais que observa.

Seguindo uma estrutura de roteiro convencional, sem se arriscar em outras possibilidades de como contar essa história já conhecida por muitos, não é preciso de muito tempo para logo se ver envolvido nessa narrativa, conduzida por um protagonista que domina as ações em cena. Nesta versão, ele é interpretado pelo ator e cantor mexicano de 51 anos Omar Chaparro.

Sustentando por uma jornada de forte apelo emocional, guiada pela comoção e atravessada por variados personagens que se aproximam através de atos bondosos de um homem marcado por uma vida limitada - mas que nunca deixou de amar ao próximo – a obra se desenvolve tendo essa base que não se aprofunda na esfera moral, simplificando conflitos.

Conforme a narrativa se desenvolve, percebemos construções dramáticas frágeis e leves críticas sociais (como a opressão dos militares, por exemplo) apostando que suas reflexões mantenham a atenção do público.

A Cela dos Milagres logo alcançou ao Top 10 da plataforma de streaming mais famosa do planeta. Mesmo com seus deslizes, apresenta um leve provocar sobre como refletimos a respeito das injustiças que encontramos pelo caminho.

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Pausa para uma série: 'Salvador'


Tem alguns artistas cujo nome, quando aparece nos créditos, já nos faz correr para conferir. Luis Tosar é um desses. Ele é o protagonista da nova série da Netflix, Salvador.

Esse projeto expõe muitas formas de violência, apresentando a perspectiva desesperada de um pai após uma tragédia. Ao longo dos intensos episódios - angustiantes em muitos momentos - a obra propõe provocações sociais capazes de balançar nossas reflexões.

Com um episódio piloto explosivo, que posiciona a narrativa em uma trama principal e outras correntes em forma de subtramas que vão se juntando, a série criada pelo roteirista espanhol Aitor Gabilondo, provoca o público ao atravessar, de forma profunda, a intimidade de grupos extremistas e o declínio da segurança pública, ampliando debates sobre discriminações, os passos ao ódio e as fake News.

Salvador (Luis Tosar) é um motorista de ambulância tentando recomeçar a vida após o passado cheio de erros. Ex-alcoolatra, ex-apostador, ex-médico, ele é pai de Milena (Candela Arestegui), uma jovem que se junta a um grupo neonazista chamado White Souls, formado por membros inseridos na sociedade. Quando uma tragédia acontece, Salvador vai atrás de verdades dolorosas que colidem com o caos social provocado por ideologias extremistas.

A munição ideológica e as hipocrisias sociais enraizadas - também na alta sociedade – são os elementos de alicerce dessa trama que dialoga com assuntos que contornam a atualidade. A partir de marginais racistas que se camuflam como torcedores de um famoso time de futebol, vamos acompanhando situações inacreditáveis, totalmente provocadas por quem rejeita o diálogo democrático e avança nos discursos de intolerância.

Essa série se mostra interessante em termos narrativos, pois consegue ampliar seu contexto através também das ações paramédicas – em um ritmo encontrado em E.R e outras produções do gênero –, aproveitando todas as características vindas do desenvolvimento dos personagens, sem esquecer de atingir sua trama central.

Um soco no estômago em muitos momentos, Salvador nos conduz por questões existenciais complexas, como a ética na profissão e até mesmo em jornadas de redenção – amplamente amparadas pelas consequências dos próprios atos. Ao longo de seus oito episódios, se consolida como uma das produções mais potentes e reflexivas séries deste primeiro semestre.

 

 

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Crítica do filme: 'Os Cantores'


Indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2026, o projeto Os Cantores, que acabou de chegar à Netflix, é um hipnotizante retrato da solidão, no qual a arte apresenta uma contribuição na esperança de almas quase perdidas. Em apenas 18 minutos, o projeto dirigido por Sam A. Davis, nos apresentada personagens escanteados emocionalmente, enquanto canções atravessam a história e invadem a narrativa de maneira fulminante.

Inspirado em um conto do século XIX do romancista e poeta russo Ivan Turgeniev, nesse curta-metragem acompanhamos parte de uma noite em um bar isolado, próximo a uma linha de trem, durante uma forte nevasca. Ali dentro, homens despejam suas mágoas com o presente e o sofrimento de memórias doloridas. Entre uma cerveja e outra, um deles lança um desafio inusitado: descobrir qual deles canta melhor. Revelações não faltam nos acontecimentos que se seguem.

Com muitos enquadramentos fechados intensificando as emoções, essa sensível obra constrói uma atmosfera de surpresas e revelações imprevisíveis, deixando lições importantes pelo caminho. Entre elas, destacam-se a compaixão sugerindo a coragem de se expor, o reconhecimento da dor do próximo e o senso de comunidade, chegando até mesmo no fortalecimento de um todo beneficiando a cada um individualmente – algo que sempre apareceu em várias correntes filosóficas. 

Seguindo o lema: ‘quem canta seus males espanta’, seja por meio de um blues que atinge a ama ou de uma impactante interpretação de uma canção romântica famosa, vamos acompanhando uma espécie de show de calouros formado por homens amargurados pelo tempo, que perderam o rumo e trocam o entornar da próxima bebida por uma tentativa de esquecer, por um instante, seus tormentos mais íntimos.

 

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Pausa para uma série: 'Assassinato na Cidade da Bola de Espelhos'


Navegando por citações de um livro, pelas conexões de uma mesma cidade, por um relacionamento tóxico, drogas, vizinhos observadores e um violento assassinato, o novo documentário da HBO MAX, Assassinato na Cidade da Bola de Espelhos, apresenta uma narrativa envolvente, repleta de detalhes sobre o antes e o depois de um crime macabro.

Dividido em duas partes, o projeto busca jogar uma luz sobre um caso de assassinato ocorrido em 2010, que chocou um bairro na cidade de Louisville, no Kentucky. O casal de namorados Joey Banis e Jeffrey Mundt é suspeito de eliminar uma terceira pessoa, cujo corpo foi deixado em um contêiner de 200 litros, no porão da casa do casal, por seis meses.

Há uma básica pergunta que fica no ar à medida que vamos entendo melhor o que aconteceu: ‘quem é o verdadeiro culpado’. No entanto, a obra não se prende somente a essa questão, ampliando seu contexto com depoimentos marcantes, nos quais os próprios vizinhos se tornam importantes personagens. 

O roteiro é muito bem definido e equilibrado, fruto de uma ampla pesquisa. Na primeira parte, vamos entendendo o caso por meio de depoimentos de pessoas que conheciam os envolvidos. Na segunda, chegamos aos julgamentos – ocorridos de forma separada - e as questões jurídicas e inestigativas que se somam ao veredito, além de um mergulho profundo pela vida dos personagens centrais dessa história.

Conhecida por ser a capital da Bola de Espelhos – alcunha que chegou a partir dos anos 1970, quando produzia quase 90% desse objeto para todo os Estados Unidos -, a cidade de Louisville assume um papel estrutural na narrativa, por meio de um bairro que preserva a cultura de casas vitorianas e também as suas crendices. 

Entre o ‘disse me disse’ dos julgamentos, com a promotoria focada em condená-los e advogados de defesa fazendo de tudo para livrar seus clientes, vamos entrando em um jogo de argumentações que articulam passado e presente, transformando Assassinato na Cidade da Bola de Espelhos num verdadeiro raio-X de um crime macabro.

 

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Crítica do filme: 'Conexão Sueca'


Apresentando mais um herói improvável do período da segunda guerra mundial, o novo longa-metragem da Netflix, A Conexão Sueca, nos leva de volta ao ano de 1942, quando um funcionário subvalorizado da Ministério das relações exteriores da Suécia percebe algumas brechas na burocracia local e consegue salvar vidas de judeus durante o conflito que marcou o mundo.

Gösta Engzell (Henrik Dorsin) é um pai de família amoroso e diplomata que lidera uma equipe escanteada que recebe ordens de um ministério importante do governo sueco. Quando as notícias dos horrores provocados pelas ações alemãs contra judeus chegam com forte certeza ao seus ouvidos, ele não hesita em agir. Buscando soluções diante da burocracia de sua nação, que mantém uma posição de neutralidade durante a guerra, Engzell encontra uma brecha nas conexões entre cidadães suecos que precisam de ajuda, possibilitando o salvamento de milhares de pessoas durante o conflito.   

Com a geopolítica de uma época marcada por tensões políticas na ponta do lápis – reproduzindo de forma precisa esse cenário histórico -, o roteiro desfila sua ironia afiada, sem deixar de meter o dedo em feridas na forma de críticas mordazes ao governo sueco da época. Em seu discurso, circula por temas importantes, como a posição controversa de neutralidade da Suécia em meio ao caos que se seguia pelo mundo por meio do terror nazista, além de histórias pessoais que se entrelaçam à situação central da trama.

A narrativa tem um ritmo acelerado, buscando dinamismo através de fatos bem documentados que expressam cada ponta de conflito emocional presente entre os personagens. Uma ótima escolha, pois mantém o público em estado de atenção permanente, chegando rapidamente em pontos de reflexões sobre tudo que é apresentado, por meio também de diálogos bem elaborados e uma conjuntura de elementos que proporcionam intensa imersão.    

Escrito e dirigido pela dupla Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson, A Conexão Sueca nos mostra mais uma página de um período que manchou a humanidade, marcado principalmente pelo avanço de ideologias totalitárias. Um filme que aborda de forma inteligente uma situação que se expande para um enorme retrato, com críticas que permanecem contundentes.

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Pausa para uma série: ‘O Testamento: O Segredo de Anita Harley’


Uma herança bilionária, uma disputa pelo poder, narrativas antagônicas e possíveis relacionamentos amorosos são alguns dos elementos que moldam um dos casos jurídicos mais complexos em andamento em nosso país. Muitas vezes, a vida real consegue ser mais impactante do que qualquer obra de ficção: O Testamento: O Segredo de Anita Harley é a prova disso.

Com direção de Camila Appel, a nova minissérie do Globoplay, nos leva até a história de Anita Harley, herdeira e acionista da Casas Pernambucanas - uma mulher da alta sociedade com um patrimônio na casa do bilhão. Há dez anos, Anita sofreu um AVC e permanece em coma até hoje. Desde então, uma acirrada disputa por sua curatela se estabeleceu entre sua secretária de confiança, Cristine Rodrigues, e Sônia Soares, uma funcionária que alega ser a companheira de Anita.

Mas, se você pensa que a história acaba aí, não se engane. Logo surgem outros personagens para compor esse embaralhado cenário, abrindo novas camadas. Arthur, filho de Sônia, entra com um pedido de maternidade socioafetiva e, mais adiante, surge um advogado de Sônia, que vira, por um tempo, o presidente das Casas Pernambucanas.

Não é fácil contar uma história tão repleta de questões e narrativas conflitantes buscando a imparcialidade – algo que toda boa obra documental apresenta. Se debruçando sobre depoimentos, fatos e ampla pesquisa, esse projeto alcança uma longa linha temporal – bem organizada de forma não-linear - para situar o público num entrelaçar de hipóteses que culmina em todo o imbróglio que permanece até os dias atuais.

Um dos grandes méritos dessa obra é exatamente a maneira que é organizada e apresentada essa história – bem complexa em todos os sentidos. A cada final de episódio, um gancho para o próximo convida o público para uma maratona de algumas horas, onde há muitas reviravoltas ao longo de toda a trama. Assim, chegamos em fortes depoimentos que envolvem os personagens já citados, parte de familiares de Anita, advogados e ex-funcionários. É revelação atrás de revelação.     

Com tantas versões de uma mesma história – fora os desdobramentos recentes, que surgem como a cereja do bolo no campo das revelações bombásticas - O Testamento: O Segredo de Anita Harley revela-se um projeto que transforma uma curiosa premissa em grande impacto, conduzindo as reflexões a um conflito de interpretações situado em uma fronteira tênue e nebulosa entre os sentimentos e as dinâmicas de controle.

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Pausa para um série: 'Eu, Gordon Ramsay’


Negócios globais, programas de televisão e um rosto conhecido em grande parte do planeta. Não é de hoje que o britânico Gordon Ramsay vem popularizando a culinária, abrindo as portas para a pulguinha de curiosidade entrar em todas as pessoas que gostam de cozinhar.

Mostrando aspectos da vida pessoal do chef de cozinha, sem deixar de lado seu espírito incansável de empreendedor do ramo culinário, chegou à Netfix a série documental Eu, Gordan Ramsay. De peito aberto, Ramsay compartilha sua vida e experiências ao longo de décadas dedicadas a um dos ramos mais desafiadores ligados à cultura.

A espinha dorsal do projeto são os preparativos para o maior empreendimento da carreira do chef: não apenas um, mais vários restaurantes em um dos edifícios mais altos do coração londrino, o arranha-céu 22 Bishopsgate. Com esse gatilho, ao longo de seis episódios, chegamos em um retrato equilibrado que apresenta os desafios dos 30 anos de casamento com Tana – com quem tem seis filhos –, sua relação com os herdeiros e a eterna busca por restaurantes requintados, sempre à procura de diferenciais no ramo.

Expressando valores e tradições em cada prato criado, e mantendo um nível de exigência altíssimo com sua equipe, o experiente profissional - ao longo dos capítulos - traz reflexões sobre sua trajetória até este momento em que, mesmo tendo se tornado um artista do entretenimento, nunca deixou de estar próximo à cozinha.

Eu, Gordon Ramsay, a princípio, parece um produto de autodivulgação – talvez mais um projeto para ampliar sua visibilidade. No entanto, à medida que vamos assistindo aos episódios – e Gordon ficando mais à vontade – percebemos muita verdade em cada parte que é mostrada, o que pode, inclusive, servir até de incentivo para quem sonha em ingressar nesse ramo tão desafiador.

Com filmagens que duraram meses e espiaram grande parte desse seu cotidiano, entre o lar e os compromissos da profissão, passeando por seus dezenas de restaurantes espalhados pelo mundo - seja em uma inauguração nas Filipinas, seja em compromissos ligados à parceria que tem com a Formula 1 -, vamos aos poucos buscando decifrar esse intenso personagem, cheio de autenticidade e que fala o que pensa.


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Crítica do filme: 'Mother’s Baby'


A euforia diante de uma possibilidade até o silêncio das incertezas e imprevisibilidades são traços marcantes de um longa-metragem perturbador que nos leva até a mente de uma mãe de primeira viagem. Em Mother’s Baby caminhamos na linha tênue entre o drama e o suspense, presenciando de forma intensa e profunda a maternidade sob uma perspectiva imersiva da depressão pós-parto.

Dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder, a obra encontra caminhos para se expandir por meio de uma narrativa com recheios de ambiguidades, que usa o silêncio como aliado para impulsionar sensações da intimidade emocional de uma protagonista em conflito. Um trabalho de direção impressionante, com ritmo dosado, causando reflexões a todo instante.

Julia (Marie Leuenberger) é uma maestrina bem-sucedida, que vive em uma linda cobertura e está em um relacionamento saudável ao lado do companheiro, Georg (Hans Löw). Eles resolvem tentar ter um filho e começam um tratamento em uma clínica de fertilidade e, algum tempo depois, ela engravida. Após o nascimento - que passou por um parto com algumas questões -, Julia se vê perdida entregue às incertezas que a cercam.

Na maneira de contar essa história, percebemos também um ganho narrativo importante com elementos de luzes contrastando-se em alguns ambientes, reforçando emoções e elevando a tensão. São adições a um jogo de contrastes que propõe dualidades de maneira equilibrada, culminando num desfecho com seus simbolismos e interpretações.

O medo e a culpa aproximam o público, a todo instante, da personagem, completamente fragilizada e indefesa sobre os próprios pensamentos. Sufocando dentro da própria mente, causa reflexos no seu relacionamento com amigos e o marido. O inesperado é um elemento que se acopla, tendendo aqui ao suspense muito mais do que ao drama e, de alguma forma, também humanizando uma experiência que pode-se chegar em muitos paralelos com realidades do lado de cá da tela.

Nesse impactante projeto, não há espaço para o sobrenatural: é um filme sobre a realidade, sobre as peças que a mente nos prega. Entre o planejamento e o que se espera, entre a expectativa e o que se apresenta, há uma longa estrada - e isso é um dos combustíveis dessa trama, que parte com intensidade rumo aos abalos psicológicos que transitam entre a necessidade do concreto e a iminência do descontrole.

 

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21/02/2026

Crítica do filme: 'Corta-Fogo'


Uma família em luto, em um dia caótico e repleto de acontecimentos assustadores, é o start de uma trama que embaralha suas peças entre o drama e o suspense. Acredite: nada em Corta-Fogo é o que aparece!

Em apenas 15 minutos, já estamos envolvidos com a história que se projeta por meio do luto prolongado, o confronto com as memórias, achismos, e uma figura misteriosa que beira à ambiguidade e pode estar ligada a um desaparecimento. A sinopse esconde sobre o que é esse filme e somos frequentemente surpreendidos ao longo do restante da projeção. A guinada que o roteiro provoca é muito bem desenvolvida, deixando o público atento a cada nova informação.

Mara (Belén Cuesta) chega com a filha Lide (Candela Martínez) e o cunhado Luis (Joaquín Furriel), sua esposa Elena (Diana Gómez) e o filho do casal, para encaixotar roupas e objetos da sua casa que será vendida – decisão tomada após a perda do marido. Enquanto estão no local, uma torre de telefonia em meio à floresta solta faíscas que rapidamente se propagam, culminando em um incêndio florestal arrasador. Prestes a irem embora, Lide desaparece, levando a família a uma corrida contra o tempo – somada a uma variável que surge de forma inesperada.

Muito bem dirigido por David Victori, este surpreendente longa-metragem espanhol caminha através da moral no campo das suposições, onde a razão humana é colocada em evidência sob o efeito do que é certo e errado quando a desconfiança aparece e não larga mais. Nesse ponto, quando acontece a grande virada da trama, percebemos o nível de tensão crescer a cada possibilidade de descoberta.

De um drama familiar até as certezas imprecisas, suposições e desespero que formam o alicerce que afloram nas atitudes dos personagens, vamos sendo surpreendidos por uma narrativa repleta de sugestões apontados para a dúvida. É muito difícil imaginar para onde o roteiro chega em seu desfecho. Essa imprevisibilidade é um dos pontos altos do projeto.  

Corta-Fogo não é um filme de sobrevivência. Se coloca muito mais como um thriller provocativo sobre a culpa que corrói e o perdão que ampara.

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Crítica do filme: 'Encontros e Despedidas'


Diretamente da Ásia, chegou ao catálogo da Netflix, neste início de 2026, um filme que explora os caminhos tumultuados das escolhas importantes da vida por meio de uma família que se esconde do perdão, mas que tem novamente uma chance de se unir. Com essa premissa logo estabelecida para os conflitos que se seguem, chegamos a uma trama de grande apelo popular, que sugere fáceis identificações com a realidade.

Dirigido por Cathy Garcia-Sampana, o longa-metragem filipino Encontros e Despedidas nos convida a mergulhar nas intimidades de uma família – seus dilemas e confrontos - que vive seus dias na luta de um empreendimento familiar e vê sua rotina completamente alterada pela chegada do primogênito, proprietário de um restaurante nos Estados Unidos.

Baby (Maricel Soriano) é daquelas mãezonas que gostam de ter toda sua família por perto. Mas isso raramente é possível, pois seu primeiro filho se distanciou de todos - inclusive deixando a filha para Baby criar. Quando seu negócio chega à beira da falência, Tupe (Piolo Pascual) volta para casa em busca da ajuda da mãe, mas descobre que ela está com uma doença cruel, já em estágio bem avançado. Precisando se entender com toda a família, que sempre joga um olhar desconfiado a ele, todos percebem que precisam se unir novamente para realizar o último desejo da mãe: conhecer um astro coreano.

De forma leve e com bons momentos de descontração – além de personagens carismáticos -, a narrativa percorre os caminhos tumultuados da arte de amar, do perdão e das consequências em torno de uma decisão. A emoção é direta, sem contornos, inserida em uma estrutura de narrativa tradicional, que se torna atraente ao público logo de cara. Você pode facilmente se emocionar ou ser fisgado a qualquer momento por essa história.

Nada aqui soa piegas, apelativo ou sem sentido. Há um certo respeito pelo instante de dor -algo vivido por muitos em algum momento da vida – expresso no período difícil enfrentado pela personagem matricarca. O certeiro roteiro chacoalha as emoções do público através da simplicidade, fugindo de uma experiência angustiante e apostando nas reflexões positivas que o tema permite.

Mesmo com leves exageros e até uma certa redundância ao apresentar os conflitos que se projetam, cada pedaço de desenvolvimento da trama caminha de mãos dadas com o discurso da dinâmica familiar – um grande acerto do projeto.

Encontros e Despedidas é um filme que te instiga a pensar sobre sua própria família e as maneiras como o amor sobrevive e transforma.

 

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18/02/2026

Crítica do filme: 'A Miss'


Ambientado em um dos bairros mais deliciosos da zona norte carioca, o longa-metragem brasileiro A Miss levanta a bandeira do pertencimento por meio de uma família e seus conflitos. Escrito e dirigido por Daniel Porto, o filme parte de uma relação conturbada entre mãe e filhos para alcançar temas importantes da nossa sociedade, através de uma fórmula que diverte sem esquecer de encontrar camadas – ainda que, por vezes, beirando à superfície dramática.

Martha (Maitê Padilha) e Alan (Pedro David) são dois irmãos que vivem seus dias em pé de guerra com a mãe, a exigente – e sem paciência - Iêda (Helga Nemetik). Dona de um salão de cabeleireiro, ela está à beira do descontrole e possui uma obsessão por um famoso concurso de beleza. Os irmãos entram em apuros quando Marta descobre que Alan quer participar da competição no seu lugar. A partir daí, contando com a ajuda de Atena (Alexandre Lino), embarcarão em uma estrada de descobertas.

Um dos méritos do roteiro é conseguir chegar na identificação rápida com o público através de situações, o lugar e seus personagens. Há exageros pontuais, situações amplificadas mas que fogem de qualquer estigma de caricatura. Não se prendendo a um tema, consegue ser plural ao entrelaçar questões ligadas ao pertencimento, maternidade, identidade e sexualidade.

Caminhando pelo bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro - com pedaços de Vila Isabel e Maracanã – o projeto disseca as frustrações e as maneiras como encaramos esse sentimento. Em um dos centros dos debates está uma mãe repleta de vulnerabilidades, que criou os filhos sozinha após o falecimento do marido, e cujas ações revelam mais sobre si do que sobre eles, totalmente responsável pelo que cativa. Uma personagem hipnotizante, que transita entre leveza e força, ganhando vida pela bela atuação de Helga Nemetik.

A narrativa sustenta a emoção por meio do presente, preenchendo lacunas com um humor fácil de digerir, sem suavizar as tensões. O amor de mãe e o se aceitar misturam-se a brincadeiras com o delicioso bairro do Grajaú, elevando o filme a um patamar que mescla divertimento e reflexões.

A Miss estreia dia 26 de fevereiro nos cinemas.

 

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Crítica do filme: 'Olho por Olho'


Se jogando em uma provável interpretação sombria de uma figura mítica do folclore europeu, o longa-metragem de terror Olho por Olho – que estreou recentemente na HBO MAX - aposta suas fichas nas crendices populares, trazendo o sobrenatural sob os holofotes colocados em gerações de uma família que sofrem a consequência da culpa. Pena que inconsistências no roteiro nos levam para uma jornada sonolenta e irregular.

Dirigido por Colin Tilley, essa é uma obra vai se construindo aos poucos, em um início sugerindo mais que mostrando. Esse ritmo cadenciado na composição da narrativa estabiliza a atmosfera de tensão – algo que pode ser uma faca de dois gumes -, ao criar sensações de incertezas através de recursos da linguagem visual que vão materializando algo que não podemos enxergar, em um primeiro momento.

A jovem Anna (Whitney Peak) vai morar com a avó cega (S. Epatha Merkerson), no interior, após uma tragédia atingir sua família. Sem ter muito o que fazer em um primeiro momento, resolve conhecer melhor a região. Em uma das caminhadas, conhece dois jovens arruaceiros, Julie (Laken Giles) e Shawn (Finn Bennett). Quando esses novos amigos tomam uma atitude absurda contra um garoto e Anna não faz nada para ajudar, acaba sendo amaldiçoada. Aos poucos, ela vai descobrindo também segredos sombrios da própria família.

Todo rodado na cidade de Savannah, no estado da Geórgia, o projeto parece querer impor uma série de lições de moral por meio do universo fantástico. Assim, atravessa a culpa e suas consequências, reunindo no centro das atenções uma dinâmica familiar marcada pelo distanciamento, com histórias que se separam entre gerações, encontrando-se no frágil elo com o eixo central da trama.

Esta não deixa de ser uma narrativa básica guiada pelo medo. Não há nada muito diferente em relação à linguagem em comparação a outros projetos do gênero. Os elementos de tensão são distribuídos através de situações aterrorizantes que se chocam com lendas urbanas – algo já visto muito por aí. Árvore misteriosa, a alma em forma de figura fantasmagórica que só pensa em vingança, figuras familiares ambíguas e jovens sem noção, tentam ser elementos importantes dentro de uma história que, em muitos momentos, se perde em seu discurso.

 

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12/02/2026

Crítica do filme: 'Zafari'


Criando uma atmosfera de confinamento a partir de uma distopia que mostra classes sociais em conflito, indo da sensação de ameaça a o silêncio desconcertante, em Zafari somos jogados até uma distopia sarcástica que apresenta um retrato impactante do comportamento humano quando o instinto de autopreservação está por um fio - ultrapassando qualquer linha de moral.

Dirigido pela cineasta venezuelana Mariana Rondón, que já havia nos brindado com o ótimo Pelo Malo (2013), o filme aposta na provocação de um roteiro que vai da ironia à acidez, expondo falhas morais aos montes e lançando críticas diretas a uma hipocrisia que se molda por meio de intrigantes personagens - e ainda evitando soluções previsíveis.

Ana (Daniela Ramírez) e Edgar (Francisco Denis) vivem dias de apreensão em um condomínio de alto padrão, ao lado do filho. Tentando sobreviver a um presente conturbado - com Gangues de motoqueiros dominando as ruas, blackouts constantes e a escassez de recursos básicos - o casal mais se afasta do que se une para encontrar soluções.

Ela usa sua posição na associação de moradores para entrar em apartamentos em busca de comida e itens básicos; ele é um acomodado que nunca pensa no coletivo. A chegada de um hipopótamo ao zoológico da cidade – próximo ao prédio onde moram – faz o casal embarcar em uma estrada de conflitos.  

Nesse liquidificador de elementos conflitantes que ruma a passos largos para um drama sufocante, vemos a situação se desenrolar por meio da perspectiva de Ana. Com o ambiente distópico impondo desafios, percebemos indivíduos presos a uma consciência egoísta, não sabendo entender como sobreviver - ou mesmo se adaptar.

A cada cena, com sensações variada de sufocamento em um ambiente fechado e com movimentos sutis de câmeras para ampliar o caos vindo de fora daquele lugar, a obra se mostra valiosa ao espremer o suco de uma tensão paranoica, ao mesmo tempo que apresenta diálogos afiados, repletos de críticas sociais.  

Totalmente fora da caixa, com abordagens inesperadas Zafari se arrisca ao propor o encontro com o constrangimento oriundo de alegorias do caos social, refletindo desigualdades e conduzindo o público a pensar a cada instante.

 

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