01/03/2023

Crítica do filme: 'Piggy'


Uma ideia de curta que virou longa. Assim como outros projetos, como o aclamado Whiplash, por exemplo, Piggy, escrito e dirigido pela cineasta espanhola de 48 anos Carlota Pereda, em seu segundo longa-metragem da carreira, tem uma ideia oriunda de um curta-metragem homônimo (no caso Cereda, o título original). Nesse impactante suspense que encosta no terror a todo instante, ganhador de prêmios no Goya e exibido em San Sebastian e no Festival do Rio, acompanhamos o quanto pode ser triste e infeliz a vida de uma adolescente consumida emocionalmente pelas intimidações do bullying. O medo, variável constante nessa história, ganha novos significados com um iminente dilema. 


Na trama, conhecemos Sara (Laura Galán), uma adolescente que sofre fequetemente bulliyng das outras garotas da região onde mora, até mesmo de uma ex-amiga do qual era muito próxima num passado recente. Certo dia após ir nadar sozinha, numa espécie de piscina que tem no local, num horário onde não tina ninguém, acaba passando por mais uma situação constrangedora, tendo suas roupas roubadas e precisando voltar pra casa com o que não foi roubado. Nessa caminhada, seu destino cruzará com uma série de pessoas e situações que a colocarão no centro de escolhas aterrorizadoras.


A narrativa se joga para cima de um tripé abstrato ligado ao emocional (uma reunião de sentimentos vividos até ali) que envolve o terror, a culpa e o medo. O terror aqui tem várias camadas. Tem o bullying, o terror social que parece ser atemporal, cada vez mais cruel nos tempos dinânicos do instantâneo. Tem o comportamento psicopata, do assassino sem remorso e empatia. Essas linhas se cruzam dentro da narrativa, principalmente porque enxergamos os dilemas que chegam pela ótica da protagonista.


A culpa é um elemento predominante nas ações dos personagens, algo que gera mutias reflexões pelos diversos pontos de vistas sobre a questão. A protagonista não entra em uma estrada de redenção, vítima de difamações por toda uma juventude cruel que respira os esteriótipos das capas de revistas, o confronto maior é entender o sentido de medo, um estado paralisador do imaginário ao real.


O filme, entrou recentemente no catálogo da Paramount Plus. É um projeto de cerca de 100 minutos que traz críticas sociais importantes, mais um forte olhar para a intimidação vexatória que cisma em não sumir de atos cruéis de muitos jovens por aí.




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Pausa para uma série: 'C. B. Strike'


O encontro da melancolia bruta e a objetiva razão. Buscando uma união entre características de vários detetives famosos do mundo da literatura para um moldar de um protagonista, um ex-veterano de guerra com um enorme trauma, imerso numa bolha de melancolia tendo à sua disposição apenas o seu modo de pensar limitado aos aspectos negativos de cada situação que aparecem em seu caminho, C. B. Strike, baseado nas obras assinadas por Robert Galbraith, pseudônimo da criadora do universo de Harry Potter, a escritora britânica JK Rowling , é um seriado que vai se construindo aos poucos sempre nos complementares contrapontos de seus intrigantes personagens. Ao longo de poucos mas intensos episódios por temporada, esse projeto é um prato cheio para os amantes de grandes mistérios.


Na trama, conhecemos Cormoran Strike (Tom Burke), um condecorado ex-membro do exército britânico que teve uma parte do corpo amputada. Ele é filho de um famoso artista (como quem não se dá bem). Tempos atrás resolveu abrir um escritório de investigações que atualmente, e também após o término com a ex-epsosa, vai de mal a pior. Tudo parece começar a mudar com a chegada de Robin (Holliday Grainger), sua nova assistente, uma jovem com grande vontade de trabalhar como detetive. Ambos embarcam em jornadas misteriosas buscando decifrar não só os crimes terríveis que aparecem pelo caminho mas também as mentes por trás.


Pouco falado no Brasil, o seriado britânico, produzido pela própria produtora de JK Rowling, Brontë Film and Television, possui muita eficiência em sua narrativa, trazendo para o público um raio-x de dois intrigantes personagens que mesmo sendo muito diferentes, se completam. Strike é amargurado, sempre tenso, parece ter um futuro incerto, bagunçado que nem seu escritório. Ele não é brilhante mas persistente, teimoso, características que transformam ele numa figura imprevisível e inconsequente. Robin por sua vez é a razão em pessoa, super organizada parece ter um apetite para investigar qualquer tipo de caso como se não houvesse problema em ser o braço direito de quem quer que seja.  Dessa relação, portas se abrem e ao longo dos episódios vamos vendo um clima de tensão que sempre está no ar.


Os casos são brutais e dizem muito sobre a psiquê humana. Desenhado a partir de um foco grande no motivo, nos porquês, até as surpresas de quem está por trás do executado, vamos acompanhando na visão dos protagonistas diversas batalhas emocionais que precisam enfrentar para chegarem em um veredito. Cada intrigante caso mexe demais com a relação deles, e a forma como cada um pensa sobre o outro. 


C. B. Strike é feita para os amantes dos grandes clássicos de mistérios, daqueles personagens inesquecíveis que sempre estão em nosso imaginário, como: Sherlock, Poirot, Maigret. Somado a isso, há uma análise profunda sobre os personagens, repleto de dilemas,  brilhantemente interpretados por Grainger e Burke. Todas temporadas estão disponíveis na HBO Max.


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Crítica do filme: 'Sharper - Uma Vida de Trapaças'

 


Nada é o que parece ser. Depois de dirigir alguns episódios de badalados seriados da atualidade, como 11 capítulos da aclamada série da Netflix The Crown, além de três do seriado Andor da Disney Plus, o cineasta britânico Benjamin Caron debuta na direção de um longa-metragem no engenhoso filme disponível na Apple TV Plus Sharper - Uma Vida de Trapaças. Escrito pela dupla Brian Gatewood e Alessandro Tanaka o projeto nos apresenta o confronto desleal entre a oportunidade e a fraqueza (também visto aqui como ingenuidade) além de uma visão pessimista sobre as relações humanas. Hipnotizante em muito momentos, os arcos são definidos pelas histórias individuais dos personagens, os profundos pontos de vistas em relação ao conflito principal que comanda as ações. Pena que na hora do 10, o desfecho fica bem óbvio, como se as surpresas que tanto nos surpreendem percam força pois vamos conhecemos os personagens e sabemos do que podem ser capaz.


Na trama, conhecemos o jovem Tom (Justice Smith), um amante de livros, que possui uma simpática livraria no centro de uma grande cidade norte-americana. Certo dia, entra pela porta do local uma jovem doutoranda chamada Sandra (Briana Middleton) e logo os dois se apaixonam perdidamente. Certo dia, Sandra, desesperada, avisa Tom que precisa de 350 mil dólares e ele, um herdeiro do milionário Richard (John Lithgow), logo consegue a quantia. Só que Sandra some, e Tom percebe que caiu em um golpe. Paralelo a isso, vamos conhecendo Max (Sebastian Stan) e Madeline (Julianne Moore), um dupla de trambiqueiros que vão nos mostrar os lados desse golpe aplicado por Sandra.  


Ao lado da trilha sonora afiada, a brilhante narrativa (a maneira como a história é contada) tem grandes momentos. A escolha pelos arcos na visão de cada personagem é certeira, dá uma cronologia aos fatos de forma interessante mantendo um ritmo de tensão como nos bons filmes de suspense que se mistruram nas profundezas de dramas existenciais. Mas aqui acontece algo que foge da criatividade vista, com tantos detalhes apresentados o espectador começa a desconfiar de tudo, entrando na parte de conclusão da história enxergando o desfecho bem óbvio, como se as surpresas a partir de determinado ponto percam força pois já conhecemos os personagens e sabemos do que podem ser capazes. O elemento surpreso, tão bem trabalhado pelo roteiro durante toda a trama, acaba se evaporando na linha de chegada. 


O conhecimento. A mentira. Sharper é um filme sobre golpes, manipulações sem pena, sobre vigaristas e os respectivos egocentrismos numa sociedade que enxerga a fraqueza do ser humano na sensibilidade que alguns podem ter sobre relacionamentos. A crueldade é a ferramenta mais usada por aqui dentro desse recorte bastante pessimista sobre a humanidade. Qualquer ação egoísta, de má-fé, tem várias interpretações ligadas as escolhas vingativas ou não dos ótimos personagens. 


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28/02/2023

Crítica do filme: 'Belas Promessas'


Política se faz com o que se é. Escrito pela dupla Jean-Baptiste Delafon e Thomas Kruithof, dirigido pelo segundo, o longa-metragem francês Belas Promessas passeia pelos bastidores da política nos arredores da grande capital francesa, mais detalhadamente nas ações, escolhas e conflitos de uma prefeita do subúrbio parisiense. Rodado em pouco mais de um mês em Clichy-sous-Bois e Seine-Saint-Denis, lugares próximos de Paris, o longa-metragem passeia pelo ‘disse, me disse’ da engrenagem política em uma França com problemas no campo da habitação. O projeto é protagonizado pela ótima atriz francesa Isabelle Huppert.


Na trama, conhecemos Clémence (Isabelle Huppert), um ex-médica que é a prefeita de um município, terceira maior cidade do subúrbio parisiense, uma figura política bem próximas de toda a comunidade da região que está nos últimos momentos no cargo não deixará após esse mandato. Um dos seus maiores desafios é resolver a situação de um quase abandonado conjunto habitacional chamado Bernardins. Para tal, ela conta com a ajuda de seu chefe de gabinete, o inteligente Yazid (Reda Kateb), um homem que já morou nesse lugar no passado. Certo dia, Clémence recebe uma ligação com a possibilidade de um cargo para ela no alto ministério francês, fator que vai influenciar suas decisões dali pra frente, mudando inclusive algumas visões que tinha sobre política.


Em certos momentos o espectador pode se enxergar perdido na história. A narrativa se constrói em torno de uma protagonista mal definida na trama e por isso os primeiros minutos tornam-se maçante. Um embolado blá blá blá sobre política, muito confuso, ganha espaço. Quando o clímax se aproxima, o que gera o maior conflito, a possível nomeação para ser ministra, pensamos na expressão que é dita durante a projeção: ‘Mais poder, menos liberdade’. Tendo esse contraponto por perto, tudo começa a fazer um pouco mais de sentido, é a melhor maneira de nos guiar pelos enroscados conflitos que se seguem na vida da protagonista. Até os embates com seu chefe de gabinete, em certa altura de uma determinada situação que se envolvem onde a verdade acaba não importando mais, ganham relevância. Há um outro fato interessante sobre a personagem de Huppert: se é de direita, centro ou esquerda, o próprio espectador precisa definir, já que não há menção sobre a questão de qual partido político ela pertence.


Como crítica social que gera reflexões, chegamos na questão chave sobre os diferentes pontos de vistas que giram em torno de mais de 3 mil pessoas em situação complicada num conjunto habitacional. Indo a fundo, vemos desde problemas com o sindicato, com a prefeitura, até mesmo a exploração de imigrantes ilegais tendo que se alojar em lugares sem o mínimo de segurança e saneamento básico, tratados das mais diversas formas desumanas, principalmente o descaso.


Exibido no Festival de Veneza em 2021 e também no Festival do Rio do mesmo ano, Belas Promessas chega nas salas de cinema na primeira semana de março de 2023. Mesmo com um início nada promissor acaba gerando ótimos assuntos para refletirmos.



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26/02/2023

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Crítica do filme: 'Ajustando um Amor'


As mil e uma tentativas de um amor. A roteirista Noga Pnueli encontra boas soluções para falar sobre a imperfeição do amor aos olhos de uma romântica sonhadora sob a ação de um loop temporal, com direito a respingos no autoconhecimento, no longa-metragem disponível na Prime Video, Ajustando um Amor. Com direção de Alex Lehmann, do elogiado Blue Jay, vamos acompanhando longos diálogos na linha do déjà vu que tinham tudo para se tornar maçantes mas uma fuga dos medos e inseguranças de uma vida com conflitos não resolvidos acaba sendo algo que complementa e faz gerar reflexões existenciais. Um trabalho corajoso e muito interessante que deve fisgar os olhares mais atentos.


Na trama, conhecemos Sheila (Kaley Cuoco), uma jovem que durante uma noite onde conhece o introspectivo Gary (Pete Davidson) em um bar acaba descobrindo uma máquina de viajar no tempo 24 horas atrás, escondida nos fundos de uma manicure. Assim, sua rotina vira uma obsessão em transformar seu alvo amoroso na pessoa perfeita aos seus olhos. Algo que ela logo percebe ser uma missão bem difícil. Andando na linha do ‘O Amanhã nunca mais’ essa viajante do tempo, sentimental, era descobrir muito sobre si mesma. Gary é apenas um fantoche dentro da história, esse personagem não é bem um contraponto mas sim um complemento.


O projeto parece redundante em alguns momentos, nessa projeção de várias noites numa só jornada. Mas aí algumas questões aparecem para refletirmos. Os conflitos diferentes mas com a mesma pessoa nos fazem entender melhor a falante protagonista e sua esquisita distância quando aparecem dilemas. Há também uma óbvia confusão com a própria identidade em relação ao real sentido da sua vida. Estaria ela em um purgatório para lá de esquisito da qual tem a chave mas não consegue se libertar?


As deixas para a conclusão são inúmeras, o que de fato torna o filme mais interessante. A narrativa quase sempre embarca em uma melancolia ligada ao desencanto. Há muitas chances de fazer o ‘hoje’ de Sheila dar certo mas na sua própria visão pessimista arruinou todas as vezes. Parece que estamos folheando textos de Schopenhauer, onde os paradoxos dominam como o clássico ‘viver é sofrer’.



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25/02/2023

Crítica do filme: 'Vingança Solitária'


A necessidade de retaliação. Um dos Top 10 dessa semana no poderoso streaming da Netflix é o filme de ação Vingança Solitária, um simples filme de vingança, sem profundidade, em confrontos onde tudo é possível e com a iminência de vitória da nada carismática protagonista. Muitas vezes parece que a personagem está com a estrelinha do Mario Bros (sabem aquela do jogo?). Em seu terceiro trabalho como diretor, o cineasta Stephen Durham consegue realizar uma sonolenta batalha entre o bem e o mal, com personagens pessimamente definidos, onde as passagens de planos por meio de cortes diretos deixam a edição a desejar. A previsibilidade é algo que chama a atenção, não é preciso ser nenhum Nostradamus para saber o que vai acontecer logo na sequência.


Na trama, conhecemos o casal Brenner (Ellen Hollman) e Dillon (Matt Passmore), que após um grande trauma do segundo, resolvem realizar uma road trip, inclusive indo acampar numa cidade do interior dos Estados Unidos tendo apenas a natureza ao seu redor. Pelo menos eles achavam isso. Quando eles resolvem adentrar uma casa que parecia abandonada acabam sendo surpreendidos por criminosos da região, grupo esse comandado por Mama (Geraldine Singer). Os bandidos matam Dillon e acham que mataram Brenner mas ela consegue sair viva. Brenner é uma ex-Ranger (a tropa de elite dos Estados Unidos), medalhista de Pentatlo, e resolve emplacar uma vingança pra lá de sangrenta contra toda a gangue.


A narrativa se perde completamente logo no início, tudo é muito corrido e confuso, parece querer chegar logo na ação, que deveria ser um porto seguro, mas as cenas deixam muito a desejar. Conclusões simplistas são vistas aos montes, é praticamente como se estivéssemos assistindo a um gameplay de algum novo lançamento do mundo dos vídeo games. Dillon é o personagem mais estranhamente colocado em cena, não conseguimos entender nada do seu trauma que ganha muita relevância no começo da trama. Sem esse fio condutor, já nos jogam para outros conflitos e muitas questões ficam com lacunas em aberto.


O objetivo de chocar com cenas fortes de violência (até respingos de sangue na câmera) nesse caso acaba indo por água abaixo. Um duelo é estabelecido, bem típico dos roteiros feijão com arroz, aqui temos a heroína que luta contra um inusitado clã, donos de 10 mil hectares, comandado por outra mulher, que fica nas regiões montanhosas de uma pequena cidade norte-americana. Será esse palco uma terra sem lei? Na tentativa de seguir na linha de alguns filmes de faroeste, onde o vale tudo quase sem a presença da lei é instaurado, mencionando tráfico de armas e de pessoas, o filme se perde na imensidade de conflitos que são estabelecidos sem que saia de uma superfície. Quase tudo é raso, sem desenvolvimento.



 

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Crítica do filme: 'Meu Nome é Vingança'


Quando mostrar piedade é um sinal de fraqueza. Dirigido por Cosimo Gomez, o longa-metragem Meu Nome é Vingança consegue furar a bolha de limitadas produções sobre vingança explorando com bastante profundidade uma forte relação entre pai e filha. Isso, na visão de um homem que vivia para matar e matava para viver com um passado tumultuado na Calábria. Para ele haverá algum tipo de redenção? Essa pergunta vai sendo respondida ao longo dos impactantes 90 minutos de projeção. O projeto conta com uma destacada atuação do ótimo ator romano Alessandro Gassmann.


Na trama, conhecemos Santo (Alessandro Gassmann) um pacato pai de família, fã de um livro do californiano Jack London, que mora bem longe dos grandes centros italianos em uma casa confortável com sua esposa e sua filha adolescente Sofia (Ginevra Francesconi). Certo dia, após a postagem de uma foto em uma popular rede social, um grupo de criminosos invade a casa da família e mata a esposa de Santo. O motivo é que Santo é um procurado assassino de uma máfia italiana que mudou de nome tempos atrás quando era da organização criminosa Ndrangheta. Sem entender direito como lidar com essa informação Sofia terá que confiar no homem que achava que conhecia e sempre chamou de pai embarcando em uma vingança pelas ruas de Milão.


Se você é atacado, tem que revidar. Uma vida repleta de crueldade e violência mas que foi salva pelo amor. Vamos conhecendo o intrigante protagonista, um homem de duas facetas que nunca teve escolhas em seu início na guerra entre mafiosos na Itália. Salvo por bons sentimentos que aparecem em sua estrada após um rompimento de seu passado sem futuro, viveu intensamente outro tipo de valor familiar, onde como pai entrou em uma jornada de redenção. Quando a dor da culpa chega com força, isso acaba virando combustível para uma vingança e junto a isso uma tentativa de deixar legado que deseja passar para filha. O filme parece muito com a trama de Marcas da Violência do canadense David Cronenberg (ótimo filme que está disponível na HBO Max).


As produções que exploram os sentimentos de vingança estão cada vez mais em evidência. Se procurar com calma, você achará inúmeros filmes que abordam o assunto. Em Meu Nome é Vingança uma profundidade gigante é vista nos dois ótimos protagonistas e o reforço de uma conturbada relação entre pai e filha fortalece o roteiro que mesmo focando em cenas de ação (muito bem feitas por sinal) deixa migalhas pelo caminho sobre a relação ‘conflito x ação’ que passam os personagens. Essa batida de tecla sobre família é vista nos dois lados rivais, como se para se chegar em reflexões precisamos entender primeiros os filhos, depois os pais. É muito interessante os contrapontos vistos sob essa ótica familiar nessa produção que está disponível na Netflix.



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23/02/2023

Crítica do filme: 'Na Palma da Mão'


As lentes de uma obsessão. Chegou fresquinho na Netflix, fruto da indomável indústria sul-coreana cinematográfica que só gera sorrisos nos cinéfilos de todo o mundo, um suspense que gira em torno da privacidade quebrada de uma jovem que embarca em uma jornada obscura contra um meticuloso stalker que vive suas emoções em uma constante escuridão procurando vítimas parece satisfazer suas obsessões. Dirigido pelo cineasta de 35 anos Tae-joon Kim, com roteiro baseado na obra do escritor japonês Akira Shiga, Na Palma da Mão consegue manter um intenso clima de tensão, fazendo uso da atualidade e suas tecnologias imediatistas, equilibrando com os mistérios que se revelam por trás dos conflitos apresentados.


Na trama, conhecemos Lee Na Mi (Woo-hee Chun) uma jovem super alegre que conseguiu uma oportunidade numa empresa de geleias e ainda ajuda seu pai no bem frequentado café da família. Certo dia, após uma noitada daquelas, ela deixa seu celular cair no ônibus. Uma misteriosa pessoa encontra o aparelho e a partir daí um jogo maquiavélico é imposto por um obsessivo criminoso. Ela precisara lutar com todas as forças quando seu mundo desaba completamente.


O celular e seu excessivo uso acaba sendo o start para essa trama que busca na atualidade os caminhos para criar cenários de reflexões sobre privacidade na era das redes sociais. Os crimes cibernéticos e as burocracias pelos olhos da lei são duas estradas pela qual navega a protagonista, o que não deixa de ser uma crítica social importante. É realmente frustrante pensar que a tecnologia avança a todo vapor mas as leis para crimes digitais parecem ainda uma estrada sem sinais e asfalto (não é só por aqui!).


Não precisamos ser nenhum Jung para entender as reflexões sobre a psiquê humana apresentadas, algo como a psicologia por trás dos motivos do Serial Killer Stalker, um óbvio desvio de caráter, características narcisistas e manipulador ao extremo. Nessa parte, a narrativa derrapa, fica até confusa, pois são apresentados fatos em paralelo que parecem estar em interligados ao vilão mas acabam jogados em subtramas que beiram à superfície. Mas nada que atrapalhe o bom entretenimento de mais um interessante projeto sul-coreano a chegar na Netflix.



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20/02/2023

Crítica do filme: 'Promoção do Século'


O que nos aguarda nosso destino? Baseado em quase inacreditáveis fatos reais e ambientada em agosto de 2017, o longa-metragem argentino Promoção do Século nos apresenta um peculiar personagem em total declínio na carreira que resolve apostar toda sua credibilidade restante em uma ideia pra lá de inusitada que envolve uma empresa do ramo eletrônico e a maior paixão nacional dos nossos hermanos. Dirigido por Ariel Winograd com roteiro assinado por Patricio Vega o filme que apresenta detalhes da jogada que ficou marcada na história do marketing argentino é protagonizada pelo experiente ator argentino Leonardo Sbaraglia e está disponível na Paramount Plus.


Na trama, conhecemos Álvaro Torres (Leonardo Sbaraglia) um homem metódico, óbvio, previsível, que parece não se atualizar mesmo trabalhando no dinâmico universo do marketing. Ele, não se sabe ainda porquê, é um dos gerentes criativos de uma empresa chamada Noblex que entre outros eletrônicos busca soluções para melhorar as vendas de suas televisões. Certo dia, já no limite de conflitos não só na vida profissional mas também na pessoal, ele acaba tirando da cartola uma ideia inusitada: aproveitando a onda de descontentamento com a seleção argentina de futebol, que na época dessa ação que se segue era quinta colocada nas classificatórias para a Copa do Mundo de 2018, ele sugere que caso a Albiceleste não se classifique para a Copa a empresa devolveria o dinheiro das televisões da marca para os que comprassem durante determinado período. A ação dá muito certo, muitas televisões são vendidas, só que a seleção argentina, a cada jogo que passa, corre mais riscos de não se classificar, levando Álvaro a uma enorme pressão.


Preso em teorias de auto ajuda, o protagonista se mostra um perdido em seu próprio cotidiano e entendermos ele por esses conflitos faz todo sentido. Passando por uma crise de meia idade, com medo de fazer exames, buscando de forma atrapalhada reunir os cacos de uma separação com a ex-esposa que ele nunca aceitou por completo, com uma distância cada vez mais notória no diálogo com o único filho e na mira de outros do seu trabalho que farejam sua incompetência a cada nova frustrante ideia, Álvaro está em colapso reprimindo e negando as emoções. Quando, por um lapso, um acaso do destino, tem a ideia conectando um produto à maior paixão nacional do argentinos, igual a de nós brasileiros, o futebol, o protagonista com o espírito vitorioso de volta tenta abandonar a obviedade e driblar a iminência. A narrativa se mantém a observação total à ele deixando subtramas apenas na superfície de seus desenrolares.


Rodado todo em Buenos Aires, Promoção do Século não é nenhum Mad Men, mas cumpre seu objetivo de refletir sobre a capacidade do ser humano em pensar criativamente em meio à batalha pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional, até mesmo quando o próprio detentor de uma brilhante ideia não acredita muito em si. Parece não fugir muito da realidade de muitos por aí...não é verdade?



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Pausa para uma série: 'Meu Namorado Astronauta'


Uma simples missão espacial? Um experimento? As duas coisas? Criogenia de humanos? Uma nova função para as células tronco? Top gun polonês? Um romance picante, sensual, com cenas calientes? De forma confusa e com corajosas lacunas em aberto, mesmo sem saber se haverá uma segunda temporada, chegou ao catálogo da Netflix em fevereiro desse ano um seriado polonês de ficção científica que busca nas mais diversas subtramas, que envolvem política, amorosos separados pelo tempo, e estudos do corpo humano, apresentar ao público um jogo de adivinha que se equilibra em duas linhas temporais separadas por três décadas. O espectador, se quiser se prender ao que assiste, precisa se jogar em alguma subtrama e a partir daí tentar entender o contexto que basicamente tem seu ponto em comum em um jovem que durante uma viagem espacial, em vez de dormir 24 horas, acaba dormindo 262.800, o equivalente a incríveis 30 anos.


Na trama, conhecemos Niko (Jedrzej Hycnar), um brilhante e indomável piloto da força aérea polonesa que certo dia tem seu destino cruzado com o de Marta (Vanessa Aleksander no passado, Magdalena Cielecka no presente) uma jovem por quem logo se apaixona. Niko é muito amigo de Bogdan (Jakub Sasak), um outro piloto. Esse amigo acaba se apaixonando também Marta, o que forma um intenso e imprevisível triângulo amoroso que terá desdobramentos no presente e no futuro já que Nico é selecionado para uma missão no espaço e acaba conseguindo retornar somente 30 anos depois. Assim, vamos acompanhando duas linhas temporais e os segredos que se revelam aos poucos.


Um caminho para abrir a mente e embarcar reflexões, pelo menos de parte da narrativa, é traçar os paralelos entre a rivalidade que se concretiza entre os amigos. Um deles um bon vivant, piloto brilhante, o outro um amargurado piloto com conflitos nada ultrapassados com o pai. O terceiro vértice do triângulo amoroso, Marta tem um grande desenvolvimento na trama que mostra os conflitos amorosos entre os três em dois tempos. Há o núcleo de 2022 que mostra a juventude dos personagens chaves da trama, e em 2053, somos apresentados aos mesmos personagens, só que envelhecidos. A questão é que o roteiro patina quando projeta a base de sua estrutura no piloto playboy da força aérea da Polônia, um protagonista que é mal definido em qualquer das linhas temporais.


As memórias são detalhes importantes nessa produção polonesa, seja na evolução da tecnologia em recriar momentos e lugares (algumas situações bem parecidas como algo já visto em Star Trek), ou nos laços de amor que vamos entendendo a força conforme as surpresas são reveladas, ou mesmo na ciência e sua busca por regenerar órgãos e tecidos lesionados.


Progresso requer sacrifício? Manobras políticas são o plano de fundo dessa tentativa de engenhosa trama que se perde em muitos momentos. Nos embates políticos que se estabelecem, vemos a mão de obra polonesa sendo usado por poderosos russos, algo complexo de se ver numa realidade já que historicamente há diferentes linhas de pensamento entre esses dois países ao longo do tempo.


Em resumo, Meu Namorado Astronauta tenta apresentar muita coisa em pouco tempo e ainda deixando lacunas em aberto, seja nas complexidades de uma batalha entre a ciência e a política, seja no inusitado reencontro de um jovem que não envelheceu e sua namorada que de repente tem quase 60 anos.



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18/02/2023

Crítica do filme: 'Jogada de Amor'


Devagar se vai ao longe. Dirigido pelo cineasta italiano Riccardo Milani e disponível no catálogo da HBO MAX, a comédia romântica italiana Jogada de Amor nos apresenta uma história de amor sobre um solteirão de quase 50 anos que adora inventar as mais mirabolantes mentiras para seduzir mulheres por onde passa e sua jornada de desconstrução após conhecer uma mulher paraplégica. A narrativa busca de forma leve e descontraída, sem ser vulgar, refletir sobre o preconceito e a acessibilidade em uma Europa que possui cerca de 120 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência.


Na trama, conhecemos Gianni (Pierfrancesco Favino) um mentiroso compulsivo, egocêntrico, arrogante, que adora desfilar seu carrão pelas ruas de Roma, dono de uma empresa de calçados com grande sucesso no mercado que gosta de contar vantagens para os amigos tão machistas quanto ele em relação as suas conquistas, todas elas baseadas em mentiras para embarcar em relacionamentos logo descartáveis. Certo dia, tentando seduzir a vizinha de porta do apartamento de sua mãe recém falecida, acaba conhecendo a bela violinista Chiara (Miriam Leone), que anos atrás, após um trágico acidente de carro, acabou perdendo os movimentos das pernas. Desse encontro, acaba nascendo uma relação que vai crescendo mas precisando enfrentar diversos conflitos pois Gianni à princípio mente dizendo também ser paraplégico.


Parece filme da sessão da tarde, enxergamos por todo seu percurso um conjunto de clichês de braços abertos com a narrativa. Mas isso não é um problema! A irreverência aqui, até um pouco exagerada, é verdade, busca conscientizar e acabamos entrando em reflexões sobre duas questões. O preconceito e a acessibilidade chegam com leves pitadas críticas, principalmente nessa segunda questão talvez pelo fato de 10 anos atrás, o país hoje comandado pelo presidente Sergio Mattarella fora condenado pelo TJUE (Tribunal de Justiça da União Europeia), Órgão que tem jurisdição sobre matérias de interpretação da legislação europeia, por não ter na maioria de seu território a aplicação de estruturas básicas de acessibilidade.


Eu andei pelas ruas do amor. E elas estão cheias de lágrimas. Com direito a Rolling Stones na trilha sonora, que chega forte em nossos ouvidos com a canção Streets of Love (que bem podia ser o título do filme), outro fator que assistimos ao longo das quase duas horas de projeção é a crise de meia idade que passam os dois personagens e suas lutas de confrontarem decepções de outrora e se jogarem na estrada de como é bom se sentir amado. Ambientado na sempre romântica e badalada capita italiana, que antigamente era o centro político e religioso da civilização ocidental, Jogada de Amor convence nossos corações sem esquecer de refletir sobre assuntos importantes da realidade.



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Pausa para uma série: 'Tulsa King'


Imaginem um gângster daqueles das antigas mesmo, com seu terno arrumado, falando com sotaque, jogado em nossa atualidade após algumas décadas preso, onde ao alcance de um clique uma comunicação mundial acontece. Esse é um início do caminho da nova série da Paramount Plus, Tulsa King, que brinca de forma inteligente com o novo e o antigo de forma equilibrada, sem perder a profundidade dos conflitos dos ótimos personagens, trazendo para o público um protagonista carismático, um clássico anti-herói, violento, exigente, mas com um coração enorme, que precisa entender de forma rápida o mundo de hoje. O projeto marca a primeira aparição do astro Sylvester Stallone como protagonista em uma série de televisão.


Criada pelo texano Taylor Sheridan (de sucessos como Yellowstone, O Dono de Kingstown e outros sucessos), na trama, conhecemos Dwight ‘The General’ Manfredi (Sylvester Stallone) que após quase três décadas preso sem falar uma palavra sobre a família da máfia nova-iorquina da qual pertence acaba indo parar na cidade de Tulsa no estado de Oklahoma, situado no centro-oeste dos EUA, com um único objetivo de levantar um domínio criminoso na região. Aos poucos vai conhecendo outros personagens que se juntam a ele nessa jornada que também navega pelo campo pessoal, principalmente no relacionamento conturbado com a única filha.


Uma bomba pronta pra explodir? Um romântico das antigas? Quais as vantagens e desvantagens de não conhecer o mundo de hoje, repleto de tecnologias, criptomoedas? Empreendendo pelas vias da violência pois é a única forma que enxerga o sucesso, Dwight, um orgulhoso nova-iorquino, durante toda a vida antes da prisão pensando de uma forma, vai se tornando um peixe fora d' água em uma região completamente diferente de tudo que viveu. Os coadjuvantes que cruzam seu caminho o fazem entender melhor aquele momento que vive onde vai percebendo aos poucos que precisa se descontruir sem perder sua essência. Mas como fazer isso? Várias antíteses o perseguem, violento e doce por exemplo, cabem na mesma frase desse que é um dos melhores personagens da vitoriosa carreira do ator norte-americano de 76 anos.


Ao longo dos nove episódios da primeira temporada (já renovada para uma segunda jornada), o ótimo roteiro abre espaço para uma jornada familiar repleta de conflitos e aqui por dois caminhos há reflexões. O sentido de irmandade da máfia, que se tratam como irmãos, e as quebras dos protocolos e seus sangrentos e obsessivos conflitos. Em paralelo, Dwight tem uma difícil missão de se reaproximar com a filha que tem uma visão muito negativa sobre ele. Essa última parte é algo que deve ser mais explorado nas próximas temporadas.


Tulsa King não é um retorno mas sim a estreia de Stallone no universo em expansão das séries via streamings. E que estreia! Seu personagem domina nossos olhares exalando carisma do primeiro ao último episódio. Parece seguir rumo ao sentido de um conceito contido na frase de um revolucionário da realidade: ‘É preciso ser duro, mas sem perder a ternura, jamais’.



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16/02/2023

Crítica do filme: 'At Midnight'


Está aberta a temporada na eterna busca anual do filme mais água com açúcar do ano! At Midnight, novo lançamento da Paramount Plus se joga de peito aberto na previsibilidade, na busca pelo carisma envoltos de clichês mas tudo isso de forma nada pretenciosa buscando conquistar a atenção do público dentro do charme no fofo, e até mesmo ingênuo, jogo de sedução proposto onde acaba encontrando Freud mesmo que de relance. Dirigido pelo nova-iorquino Jonah Feingold, o filme busca ter identidade própria de conto de fadas mas bastam poucos minutos para nos lembrarmos de Anna Scoot e William Thacker, inesquecíveis personagens de Um Lugar Chamado Notting Hill.


Na trama, conhecemos Alejandro (Diego Boneta) um exemplar funcionário de um hotel de luxo no México que tem o sonho de ter seu próprio empreendimento nos Estados Unidos. Certo dia, chega para se hospedar no hotel a mundialmente conhecida atriz hollywoodiana Sophie (Monica Barbaro), que vem de uma enorme decepção amorosa com um outro ator. Ela está no México para rodar a continuação de uma franquia de sucesso que faz parte. Alejandro e Sophie se conhecem de maneira inusitada e a partir desse dia combinam encontros sempre à meia-noite para se conhecerem melhor. Será que esse romance vai dar certo?


O roteiro, talvez de forma nada intencional, troca a reflexão banal e salta para pequenos paralelos com os princípios de prazer e desprazer nas linhas de Freud. A questão aqui é achar caminhos para entendermos os personagens na busca do que seria proporcionar prazer e evitar o desprazer. Mas aí o filme se perde novamente. O conceito de ‘não se apaixonar’, algo comum entre os protagonistas, acaba virando uma busca incessante para gerar reflexões sobre a questão mas cai em um efeito redundante gerando uma enorme dor de cabeça de quem se prendeu a reflexões ou até mesmo para quem ainda busca se segurar firme e forte até o fim do filme.


O pot-pourri de clichês já vistos em outras comédias românticas incomodam mas tem seu charme. Talvez parte do público se sinta seguro dentro de uma fórmula já estabelecida, a famosa receita de bolo seguida por produções que adotam o não se arriscar como meta. Às vezes assistimos à filmes em momentos difíceis, então nossa exigência acaba sendo algo que toque de alguma forma nosso coração e nos leve para o sonhar, nisso, o filme cumpre seu papel.

 


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Pausa para uma Série: 'Santo Maldito'



As dúvidas já dentro da incerteza pelos caminhos tumultuados do acreditar. Buscando refletir sobre diversos temas tendo como sua força motriz a fé, o seriado brasileiro Santo Maldito, de forma muito inteligente, propõe ao espectador um passeio investigativo canalizado pelos abstratos passos de um vazio existencial com forte ligação ao imprevisível, ao acaso, jogando seus holofotes para um professor de cursinho, declarado ateu, que ganha uma chance de sair da sua bolha de lassidão mas antes tendo que passar por um túnel de constantes questionamentos. Criado pela dupla Rubens Marinelli e Ricardo Tiezzi, com um elenco que merece muitos aplausos, Santo Maldito, disponível na Star Plus é um dos grandes seriados brasileiros lançado na ‘era do streamings’.


Na trama, conhecemos Reinaldo (Felipe Camargo), um estudioso professor e escritor de meia idade que bate no peito defendendo seu ateísmo para todos desde sempre. Ele vive com sua esposa, a doutoranda Maria Clara (Ana Flavia Cavalcanti) e sua filha adolescente Gabriela (Bárbara Luz) em uma casa de classe média de uma grande cidade brasileira. Certo dia, sua esposa acaba sendo atingida por uma bala perdida e entra em coma praticamente irreversível. Desesperado, e não aguentando mais aquela situação ele vai tomar uma drástica atitude quando milagrosamente sua esposa desperta. Durante essa situação chocante, ele é filmado por um enfermeiro bastante religioso e o vídeo viraliza chamando a atenção do pastor Samuel (Augusto Madeira), o líder de uma pequena igreja, que vai lhe fazer uma inusitada proposta.


Será que o desespero do caos nos fazer acreditar em qualquer coisa? Ao longo dos oito episódios (um melhor que o outro), o surpreendente roteiro desse projeto passeia pelas tumultuadas incertezas do acreditar sem deixar de nos apresentar um completo raio-x de seu intrigante protagonista, um homem com orgulho de seu ceticismo que se vê totalmente perdido e com a necessidade de se descontruir entrando em ebulição quando se vê em conflito com suas antigas certezas.


Ajudando a contar essa intrigante trama, ótimos coadjuvantes brilham e aos poucos vamos descobrindo que na verdade estamos rumando para um enorme duelo entre dois homens, um anti-herói com atitudes moralmente questionáveis e um enigmático homem de fé que pode estar escondendo outras facetas, assim somos levados a explicações bem profundas sobre suas maneiras de enxergarem o mundo através de seus traumas. Todo o elenco está fantástico, mas temos que destacar Felipe Camargo e Augusto Madeira, que nos proporcionam cenas com forte oposição de ideias que geram reflexões por todos os cantos.


A violência também ganha espaço de reflexões por aqui, na verdade é até mesmo um elo intercessor dos eventos que rumam para o mais exposto ponto de tensão de qualquer narrativa. As atitudes de controle de quem comanda a região de onde fica a igreja de Samuel, o porquê Samuel é um cadeirante, a ação sofrida por Maria Clara. A fé e a violência acabam se encontrando em muitos momentos.


Santo Maldito é uma enorme, insinuante e surpreendente estrada de um improvável santo, maldito no sentido de estar condenado a enfrentar seus conflitos através de seu estado de espírito amargurado. Um projeto que pode fazer você também se questionar sobre aquela famosa frase: ‘Só uma coisa que sabemos: é que não sabemos nada’.



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05/02/2023

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Crítica do filme: 'Nada de Novo de Front'


A dura realidade de um conflito armado. Baseado na obra homônima do escritor alemão Erich Maria Remarque, Nada de Novo no Front, indicado para 9 Oscars, mostra a brutalidade dos campos de batalha na primeira guerra mundial pelos olhos de um jovem que junto com um grupo de amigos se alistam voluntariamente mas logo percebem que a expectativa que tinham sobre o desejo de representar seu país no conflito vira uma dura realidade sem volta. O medo, o desespero, o beco sem saída com tragédias por todos os lados, as incertezas cada vez mais fortes sobre se algum dia voltarão para casa, um compilado de terror e tensão nessa visão do lado alemão da primeira grande guerra. Um excelente trabalho de direção do cineasta Edward Berger nessa obra marcante que está disponível no catálogo da Netflix.


Na trama, ambientada no terceiro ano da primeira guerra mundial, num primeiro momento no norte da Alemanha, vemos a chegada à guerra de Paul (Felix Kammerer, em seu primeiro longa-metragem) e seus amigos de escola. Seduzidos pela onda de discursos inflamados e contagiantes sobre a importância de exercer o patriotismo se alistando para defender os objetivos de seu país eles logo se colocariam dentro da dura realidade que é um conflito armado dessas proporções onde a morte está ao lado constantemente. Paralelo a isso, parte da alta cúpula alemã, aqui focado na figura de Matthias Erzberger (Daniel Brühl), propõe um cessar fogo para os franceses enquanto a cada minuto morrem centenas de jovens nas linhas de batalhas.


Nessa terceira versão da obra de Remarque para os cinemas, as outras duas foram: Sem Novidade no Front (1930) e Adeus à Inocência (1979), os horrores do sofrimento que os soldados eram submetidos são mostrados por completo. A fome é algo evidente em grande parte da história, assim como as estratégias militares descontroladas não se importando com as vidas perdidas. A obra é impressionante, impactante, realista ao extremo, fruto das experiências na primeira guerra do próprio autor. Outra questão que chama a atenção é a representação do campo de batalha, para tal a produção utilizou como locações uma área militar na capital da República Tcheca (Praga).



 

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