28/07/2023

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Crítica do filme: 'O Lobo Atrás da Porta' *Revisão*


Do que o ser humano é capaz? Com um excelente roteiro, inspirado num caso que chocou o Brasil, conhecido como Fera da Penha, O Lobo Atrás da Porta completa 10 anos em 2023 sendo considerado por muitos um dos grandes filmes brasileiros da última década. Nos mostrando o sumiço de uma criança, um tenso interrogatório com versões de uma mesma história, o filme passa um raio-x na obsessão, impulsividade, na violência. Quem está mentindo? Qual a verdade? Ao longo dos 101 minutos de projeção detalhes de um chocante crime vão sendo revelados dentro de um alto clima de tensão.


Na trama, conhecemos Bernardo (Milhem Cortaz), um fiscal de uma empresa de ônibus, casado com Sylvia (Fabiula Nascimento) com quem tem uma filha. Quando a garota desaparece misteriosamente após ser pega por alguém na creche em que estava, Bernardo e Sylvia vão até a polícia onde um tenso interrogatório acontece. O delegado de plantão (Juliano Cazarré) começa a desconfiar de algumas versões da história e logo se descobre que Bernardo tem uma amante chamada Rosa (Leandra Leal) que também é convocada para prestar depoimento. O tempo passa e as verdades começam a aparecer.


Exibido em muitos festivais de cinema, inclusive no Festival de Toronto (onde estreou) e também no Festival do Rio (onde levou dois prêmios), O Lobo Atrás da Porta tem uma narrativa brilhante, tudo funciona para não deixar o clima de tensão escapar, onde o vai e vém nas histórias dos envolvidos acabam trazendo enormes surpresas. A traição é um ponto central, onde tudo começa, se desenvolve e termina, há um olhar minucioso para conflitos nos relacionamentos, onde o lado psicológico chama a atenção em relação as ações e consequências nas portas que são abertas para esses conflituosos personagens.


Rosa é a mais intrigante personagem, sonsa, obsessiva, dissimulada, se mostra capaz de qualquer coisa para não sair da sua bolha de carência que é repensada com a chegada de um novo amor, mesmo esse sendo casado e a usando como objeto de desejo. As reflexões sobre nossa sociedade e as formas de enxergar a violência, a vingança, se colocam sob as ações dessa chocante personagem. Brilha em cena Leandra Leal, uma das melhores atrizes em atividade no nosso cinema.


Escrito e dirigido pelo ótimo cineasta Fernando Coimbra, em seu primeiro longa-metragem, o filme teve orçamento abaixo dos 2 milhões de reais, muito abaixo de outras produções nacionais. O projeto nas bilheterias brasileiras alcançou nem 30.000 espectadores. O que gera várias perguntas: Por que as pessoas não foram assistir? Será que ainda existia/existe algum pré-conceito ou mesmo preconceito com as produções brasileiras no nosso próprio país? Quantas salas de cinema colocaram o filme? Será que as salas de cinema que não colocaram o filme em cartaz estavam repletas de produções internacionais? Para se pensar!


Para quem se interessou em conferir, o filme está disponível na Star Plus, na Netflix e na HBO Max.



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27/07/2023

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Crítica do filme: 'Depois de Ser Cinza'




A palavra certa que esclarece sentimentos. O perdão, as abruptas despedidas, a culpa, o adeus, como lidar com assuntos mal resolvidos, são alguns dos caminhos que passam Depois de ser Cinza longa-metragem dirigido por Eduardo Wannmacher, com roteiro de Leo Garcia. O projeto rodado em Porto Alegre e na Croácia, nos transporta para pontos de vistas de três personagens femininas apresentando com detalhes e inúmeras interpretações através de um mesmo homem que se relacionou com elas.


Na trama, conhecemos Raul (João Campos), um sociólogo gaúcho, com pós em antropologia, com intensas crises de ansiedade, perdido em histórias de amor no passado que não tiveram o final que queria. Num primeiro momento conhecemos seu encontro com a artista Isabel (Elisa Volpatto) na longínqua Zagreb, uma imigrante brasileira amargurada, inquieta que parece buscar encontrar sentidos para seu presente. Em meio a apresentação desses dois estranhos, mentiras, dificuldades em se abrir se colocam em evidência e assim vamos conhecendo também a história de Suzy (Branca Messina), uma estudante que extravasa seus vazios existenciais em festas e consumos desenfreados de seus vícios, presa na conflituosa relação com o pai, um pesquisador que já se foi, talvez o grande amor da vida de João. E em paralelo, chegamos na história de Manuela (Silvia Lourenço), uma terapeuta bem sucedida que não consegue se desprender da perda de um grande amor que agora está com sua irmã e num momento de sua vida também se envolve com João.


Os perigos de uma única verdade. A narrativa fragmentada em tempos onde giram em torno de fortes emoções à princípio pode parecer confusa mas os elos se encontram ao longo dessa história. E mesmo se perdendo na linha do tempo, o que importa é a força dos sentimentos que fazem nossos olhos cruzarem com o real sentido dessa história. O imaginário das relações e os embates com a dura realidade permeiam momentos chaves na vida de um protagonista que não se desprende de sua rotina de angústia. As transformações pessoais, que acontecem para todos os personagens, ganham luz principalmente através do olhar das mulheres que cruzam o caminho do protagonista.


Ebulições emocionais, pessoas em conflitos, qual o limite para o vazio existencial? O que é interpretado como ajuda ou como necessidade? Através de olhares distintos rumamos à melancolia, até mesmo um estado de tristeza profunda tendo como pilar central o não se conformar. Depois de ser Cinza, brinda o público com cenas belissimamente bem filmadas sem esquecer do refletir de que na vida nem tudo são flores sendo importante as alegrias e tristezas que lidamos pela nossa jornada emocional.



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26/07/2023

Crítica do filme: 'A Outra' (1988)


Quando o inconsciente é despertado através do olhar para o outro. Vida vazia? Fuga de sentimentos intensos? Quem já parou para se fazer essas perguntas ou conhece alguém que já o fez? Trazendo para debate o abstrato dos sentimentos e todos os conflitos provocados por escolhas ao longo de toda uma vida, uma dos ótimos, porém, pouco comentados filmes do cineasta nova iorquino Woody Allen, A Outra, embarca aos poucos em uma volta ao passado, revendo relações, situações, escolhas, a partir de revelações íntimas em conversas do consultório de um psicólogo que fica ao lado do apartamento de uma mulher num presente infeliz. O filme teve como diretor de fotografia, Sven Nykvist que trabalhou em alguns projetos do aclamado cineasta sueco Ingmar Bergman (falecido em 2006).


Na trama, conhecemos a professora e escritora Marion (Gena Rowlands), uma mulher super culta, casada com um médico nada amoroso, frio, seco, chamado Ken (Ian Holm), que aluga um apartamento para escrever um novo livro durante sua licença do cargo de professora de filosofia. Certo dia, percebe que vazam conversas do apartamento ao lado, que é de um psicólogo que recebe seus pacientes diariamente. Numa dessas conversas, o que ela escuta, acaba sendo um estopim para uma difícil e conflitante auto análise sobre o seu atual casamento e outras relações na sua vida. Assim, embarca aos poucos em uma volta ao passado, revendo relações, situações, escolhas.


Décimo oitavo longa-metragem dirigido por Woody Allen, rodado nos últimos três meses de 1987, A Outra busca com seu ritmo lento trazer o refletir através de uma personagem em crise. A partir de relatos profundos, crises existenciais, passando por temas como o casamento, o adultério, o aborto, ao longo de 81 minutos de projeção vemos a vida de Marion aos olhos dos outros girando em torno de ser caracterizada por sua ligação com o racional, deixando as emoções em uma caixa escondida no seu subconsciente. Algo desperta nela após se ver nessa situação, como se a presença de um espelho invisível a fizesse embarcar em novos cenários chegando até arrependimentos do passado, como se possibilidades diferentes da tomadas de decisões, aparecessem na sua frente ao mesmo tempo, causando uma maré incansável de reflexões.


Os sonhos se justificando pela realidade? Uma crise de meia idade? O filme é muito mais profundo do que isso, é um obra que destaca o momento que na realidade chega alguma hora para todo mundo que se transborda nas reflexões caminhando até as novas formas de encarar a vida.



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Crítica do filme: 'A Gaiola das Loucas' (1996) (*Revisão*)


Lançado em meados da década de 90, a comédia A Gaiola das Loucas é uma jornada que transborda questões familiares quando um iminente confronto entre um casal gay e outro conservador vira o epicentro para uma divertida história que reflete sobre preconceitos, homofobia, amor, pais e filhos e laços familiares. Baseado em uma peça teatral de Jean Poiret, também remake do longa-metragem europeu La Cage aux Folles dirigido por Édouard Molinaro, o filme foi indicado ao Oscar de Melhor direção de arte, além de duas indicações ao Globo de Ouro (Melhor Filme e Melhor Ator em Filme de Comédia).


Na trama, conhecemos Armand (Robin Williams) e Albert (Nathan Lane) um casal homossexual de meia idade que possuem um clube gay super badalado na Flórida, repleto de apresentações. Certo dia, o filho de Armand, Val (Dan Futterman) diz ao pai que vai casar com Barbara (Calista Flockhart), a filha de Louise (Dianne Wiest) e do senador conservador Keeley (Gene Hackman), esse último prestes a ser reeleito mas metido em um escândalo. A questão é que Val pede ao pai que ele e Albert não entreguem num jantar de comemoração que são gays. Assim, é instaurada uma enorme confusão.  


Dirigido pelo cineasta norte-americano (mas nascido na Alemanha) Mike Nichols, um dos poucos cineastas a ganhar todos os principais prêmios do cenário artístico da indústria do entretenimento americana: Oscar, Emmy, Grammy e Tony, A Gaiola das Loucas teve uma pesquisa minuciosa no universo das drag queens, Nichols contratou um produtor para produzir uma espécie de documentário para ser exibido aos atores como laboratório para seus personagens.


Com um roteiro divertido e com uma narrativa com improvisações por todos os lados, Williams e Lane eram conhecidos por tais feitos, o filme consegue associar o humor na dose certa junto com reflexões que sempre viraram debates no cenário conservador americano. Há espaço também para o papel da mídia sensacionalista, algo corriqueiro até os dias de hoje, e debates sobre as questões da criação dos filhos, batendo na tecla de que mãe é quem cria.


Sucesso em todo o mundo, esse é um dos filmes de Robin Williams a arrecadar mais de 100 milhões de dólares em bilheteria somente nos Estados Unidos. O ator, que deixa saudades até hoje, rodou esse projeto logo depois de outro grande sucesso da década de 90, Uma Babá quase Perfeita. Um outro fato curioso é que o longa-metragem tem muitos fãs famosos até hoje, como o aclamado cineasta Paul Thomas Anderson.


O filme, que está disponível no catálogo do streaming MGM (a versão europeia, original também) é um passeio cômico sobre tabus, um brinde a todas formas de amor, projeto feito para se divertir sem deixar de ser aquele tapa na cara bem dado nas cabeças conservadoras!



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24/07/2023

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Pausa para uma série: 'A Superfantástica História do Balão'


Com um dos trailers mais bombásticos de um projeto brasileiro com estreia no mundo dos streamings dos últimos tempos, A Superfantástica História do Balão, série documental de três capítulos disponível na Star Plus busca apresentar visões do começo, meio e fim de uma história repleta de variáveis de um conjunto musical de sucesso, depois astros de um programa de televisão na emissora mais poderosa do país, que marcaram gerações de fãs, lembrados até hoje, a Turma do Balão Mágico. Com polêmicas e buscando se aprofundar na visão do negócio, dos bastidores, esse projeto apenas fica na superfície em algumas questões na rica história que todo o Brasil conhece.


40 anos depois do início da banda e 10 anos depois do último encontro, os antigos artistas mirins, Toby, Simony, Mike e Jairizinho se reúnem novamente em um papo franco, juntos e de forma individual, botando para fora toda sua visão dessa intensa experiência de uma carreira de sucesso mas também que gerou traumas, lágrimas, logo no início da vida deles. Em complemento, depoimentos de personalidades, como: Lázaro Ramos, Fabio Jr, Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Simoninha, Raul Gil, Rita Cadillac que vivenciaram cada qual de uma forma o sucesso do grupo. Há um destaque, em depoimento separado dos demais, de um ex-diretor musical do grupo mas não é explicado o motivo dele dar seu depoimento longe dos outros.


O pioneirismo tem preço? Recordes de vendas de discos, sucesso de audiência na televisão, a cena cultura brasileira dos anos 80 foi impactada com a chegada no ano de 1983 desse conjunto musical composto por crianças que fariam um tremendo sucesso, numa época onde a faixa etária infantil não era público alvo de artistas. Nas paradas musicais mais de 5 milhões de cópias vendidas, na televisão líderes de audiência por quase três anos com mais de 1000 programas produzidos. Quando grande parte do grupo abandonou o projeto, outros integrantes chegaram mas já perto do fim do grupo. Os altos e baixos dessa trajetória, além de alguns conflitos, são vistos nos três episódios. Uma das perguntas que fica no ar é: Por que o grupo acabou?


O que acontece quando você cresce? Diversos pontos de vistas sobre situações que viveram e também uma análise atual sobre aqueles tempos ajudam a responder a pergunta acima. Mas a certeza é que não foi uma coisa instantânea, foi com o tempo. Nesse ponto, algumas questões se entrelaçam, como as estratégias de mercado e a troca da primeira empresária. Há tempo também para pequenos recortes das vidas pessoais de cada um dos quatro principais integrantes do grupo, nesse momento a história de Michael Biggs, o Mike, rouba a cena, com revelações bombásticas sobre sua vida.


A Superfantástica História do Balão pode ser visto como um complemento de informações e curiosidades para os fãs do grupo, busca em sua linha narrativa mostrar o antes e o depois de um grupo que marcou para sempre seu nome na história da cultura popular brasileira.



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Pausa para uma série: 'Amor Platônico'


A amizade no centro do tabuleiro conturbado da meia idade. Chegou de mansinho, quase desapercebida uma brilhante comédia que gira em torno da crise de meia idade impulsionada pelo realinhamento de uma antiga amizade. Mostrando que é possível fazer rir e refletir de forma madura, trazendo paralelos interessantíssimos com a realidade, Amor Platônico é mais um achado da Apple tv Plus que vem se consolidando como uma mina de ouro para quem gosta de séries com alta qualidade e altamente envolventes.


Criada por Francesca Delbanco e Nicholas Stoller, que também dividem a direção dos episódios, na trama, conhecemos Sylvia (Rose Byrne) uma dona de casa, formada em direito, que abdicou da carreira para cuidar dos três filhos e vive um casamento feliz com seu marido, o advogado Charlie (Luke Macfarlane). Após aparecer em seu feed, de uma rede social, que o seu ex-melhor amigo, o mestre cervejeiro Will (Seth Rogen) acabara de terminar o casamento, ela resolve entrar em contato com ele. Assim, esses dois amigos, antes com 20, agora perto dos 40 anos se envolvem em várias situações onde um ajuda o outro a enfrentar os problemas nessa fase da vida cheia de variáveis e escolhas difíceis.


Nada como um roteiro inteligente para fazer a gente pensar sobre a vida. De forma leve e descontraída, a narrativa envolve o espectador atingindo o epicentro entre a maturidade e a melhor idade. Assuntos como: problemas no trabalho, desconfianças nos relacionamentos, o próximo passo dentro de um casamento, as idas e vindas conflituosas por problemas que surgem aos montes, a amizade, as diferentes formas de amar, o ciúmes são plano de fundo de situações hilárias que a dupla de protagonistas se metem ao longo de dez excelentes episódios na sua primeira temporada.  


A química entre Byrne e Rogen é fantástica, os artistas já haviam trabalhado juntos 10 anos atrás na comédia Vizinhos e mais uma vez mostram toda a harmonia em cena. Você, em um mesmo episódio, consegue rir muito e também se emocionar trazendo inclusive paralelos com a realidade. Passando por cima da pergunta: ‘É possível uma amizade entre um homem e uma mulher?’ o platônico do título é quase desnecessário, irreal. Esse projeto é um brinde à  amizade e todos seus altos e baixos.



 

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Crítica do filme: 'Driveways – Uma Amizade Inesperada'


As descobertas pelos caminhos mais distantes. Com um ritmo lento, detalhista, deixando inteligentes pausas para reflexões sobre o enigmático universo do abstrato ligado aos sentimentos, chegou ao catálogo da Looke um filme que respira a amizade dentro de um contexto de recomeços e despedidas. Driveways – Uma Amizade Inesperada dirigido por Andrew Ahn com roteiro assinado pela dupla Hannah Bos e Paul Thureen é uma jornada rumo as escolhas que a vida nos permite e as oportunidades que se chegam quando escolhemos a porta certa para desbravar. Esse é um dos últimos trabalhos do veterano ator Brian Dennehy, falecido em 2020.


Na trama, conhecemos Kathy (Hong Chau), uma mulher batalhadora que trabalha com transcrições médicas e tem o sonho de ser enfermeira. Ela, junto o filho pequeno, o sensível Cody (Lucas Jaye), estão indo reformar, para uma possível venda, a casa de sua irmã recém falecida. Chegando no lugar, uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos, acaba conhecendo aos poucos a vizinhança, principalmente seu vizinho de porta, o veterano da Guerra da Coreia Del (Brian Dennehy). Aos poucos começa a perceber que o sentido de casa, lar, pode estar bem próximo dali.


O reflexo daquele presente está em cada cena, junto com as diferentes formas de enxergar a vida. A protagonista, interpretada pela ótima e recente indicada ao Oscar Hong Chau, se vê perdida em um momento de escolhas para ele a e o filho, com a oportunidade de lucrar com a venda de uma herança que chega no seu colo com uma imensa carga emocional ligada aos desentendimentos com a irmã. Aos poucos vai descobrindo mais sobre essa parente que antes próxima, se tornou distante, como se o lugar contasse histórias que ela não sabia, além de mexer com momentos importantes na passado dessa relação.


A visão de Cody é um ponto fundamental na trama, um menino solitário, com poucos amigos, começa uma amizade com o vizinho, um homem mais velho que tem vive seus dias reclusos com o único passatempo de ir ao bingo onde se encontra com outros amigos veteranos do exército. O jovem começa a entender melhor a vida, tendo essa outra referência no seu cotidiano. O sentido de lar começa a fazer mais sentido para mãe e filho e toda essa transformação é muito bem apresentada pela narrativa.  


O alzheimer, a solidão, as despedidas, as escolhas, a amizade, o amor entre mãe e filho, os arrependimentos, Driveways – Uma Amizade Inesperada parece um trem que para em cada uma dessas estações o tempo suficiente para se refletir e como consequência faz emocionar mostrando que a simplicidade é o melhor caminho para decifrar o abstrato das emoções.



 

 

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22/07/2023

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Pausa para uma série: 'O Negociador'


A verdade é o único caminho. Abordando diversas questões dentro da linha de ação de uma equipe do Gate, o novo seriado brasileiro da Prime Video, O Negociador, apresenta ao espectador conflitos, traumas, dramas, de um experiente negociador, envolto em uma crise emocional que precisa lidar com um abalo traumático de num passado recente e seu cotidiano repleto de variáveis já que a violência faz arte da sua própria rotina. Ao longo de oito intensos episódios de sua primeira temporada O Negociador busca refletir em cima das ações dos personagens e principalmente na linha que existe entre a justiça e justiceiro.


Na trama, conhecemos Gabriel Menck (Malvino Salvador) um policial que fez parte do processo de reestruturação do GATE, se tornando seu principal negociador. Num presente, retornando de uma licença após a morte da esposa e ainda em evidente estresse pós-traumático, ele precisa lidar com seu dia a dia, uma nova major que assume o comando da sua equipe, os olhares duvidosos de seu ex-mentor e em paralelo o olhar da corregedoria que caminha para acusá-lo pela morte da esposa.


Produzido por Zasha Robles e Gustavo Mello, com direção de Isabel Valiante, esse thriller policial possui uma narrativa consistente que busca um olhar amplo para os dilemas de alguns personagens quando a vida pessoal se choca com o lado profissional. Além do protagonista e seus conflitos, ganham espaço uma major (interpretada pela ótima Barbara Reis) que assume o comando tático depois de passar um tempo de treinamento na SWAT que possui um relacionamento no passado com outra pessoa da equipe e Embates com outros membros do time tático. Também há um olhar pra um suspeito chefe do GATE com óbvias questões misteriosas.  


A informação como interesse público ou questão de segurança? O papel da mídia em cima das ações ganham espaço na figura de uma repórter em muitos momentos deveras crítica em relação aos desfechos de algumas operações. Em paralelo enxergamos a parte política que acabam se associando à impudências dentro de todo o teatro de operações. Adotando o lema: ‘Hoje ninguém morre’, vemos uma equipe de homens e mulheres que se descontroem não limitando questões a certas ou erradas, tudo é muito mais profundo.


A cada episódio um novo caso de sequestro e uma subtrama envolvente sobre uma investigação sobre a morte suspeita da esposa do protagonista. Com isso, a série se torna dinâmica, até mesmo com um ritmo eletrizante espalhando surpresas principalmente na última cena do episódio que fecha a temporada que além e ser uma baita surpresa deixa margens para uma possível próxima jornada.



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19/07/2023

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Critica do filme: 'Oppenheimer'


Como resumir uma história complexa que envolve sentimentos conflitantes e brilhantismo em paralelo a impactantes poderes dentro de um cenário bélico mundial que se estende até os dias atuais? O novo trabalho do cineasta britânico Christopher Nolan, baseado no livro vencedor do Pulitzer, American Prometheus, uma biografia de J. Robert Oppenheimer escrito pela dupla Kai Bird e Martin J. Sherwin, explora com maestria o uso das possibilidades de uma narrativa, buscando em detalhes chaves os elos para contar uma história de brilhantismo e caos emocional que influenciou poderes que vemos até hoje na geopolítica mundial. Sem adotar o tão batido CGI (imagens geradas por computador), o filme mais longo da carreira de Nolan, com 180 minutos, nos mostra de forma impactante a vida, os romances, os fundamentais encontros, sua relação conturbada com o governo americano, as decisões polêmicas do ‘pai da bomba atômica’.


Na trama, em meio a passagens de tempo, voltamos até o início do século XX, onde um prodígio aluno do curso de química da prestigiada universidade de Harvard, J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) daria seus primeiros passos rumo a física teórica, viajando pelos principais centros de estudos do tema, conhecendo nomes depois renomados da ciência, até chegar ao comando do ‘Projeto Manhattan’ encarregado de desenvolver armas de destruição em massa, no laboratório de Los Alamos, e onde foi criada as famosos bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagazaki já no final da segunda guerra mundial. Em paralelo a isso, vamos conhecendo também sua vida pessoal, repleta de amores, traições, problemas nos relacionamentos interpessoais, e seus embates com a política norte-americana, muito por conta dos tempos em que foi considerado comunista, inclusive o filme retrata o tempo em que foi vítima da caça às bruxas durante o Macartismo.


Nesse segundo filme onde Nolan encontra um recorte para sua narrativa dentro do cenário caótico da segunda guerra mundial (o outro foi Dunkirk), passamos a refletir sobre por boa parte de um dos períodos mais conflitantes da história norte-americana, próximo do fim da segunda guerra mundial, com a não acenada dos japoneses em se renderem. Mas antes de encontrar esse ponto da história, vamos percorrendo a vida de estudos e descobertas do personagem título, um homem que parecia uma chaminé ambulante que se dedicava de forma integral ao seu trabalho. O lado psicológico aqui também ganha destaque, o protagonista se vê em um quadros depressivos constantes e ao longo de sua trajetória foi se aproximando dos movimentos políticos pelo mundo principalmente depois dos impactos do nazismo e fascismo. Ele se associou ao partido comunista nos Estados Unidos, apoiou greves, ajudou amigos cientistas a saírem de uma Europa em chamas, entre outras ações, algumas delas são relatadas no filme.


Mecânica quântica, física nuclear... O fisiquês aqui é mostrado de forma bem didática, objetiva, um caminho inteligente para uma narrativa que quer trazer o refletir para o máximo de pessoas possíveis. Desde a descoberta do Neutron até a concepção de uma bomba com poder de várias, períodos que acabam andando em paralelo a vida de Oppenheimer, contar essa história do início ao fim acaba sendo um dos grandes desafios da produção. Um fato curioso, é que Nolan ligou o sinal positivo de realizar essa obra, entre outros pontos, quando recebeu de presente um livro sobre a vida de Oppenheimer dado a ele pelo ator Robert Pattinson.


Com um elenco estelar, com nomes como: Robert Downey Jr, Emily Blunt, Florence Pugh, Matt Damon, e claro, Cillian Murphy , Oppenheimer é mais uma obra-prima de um diretor que usa da inteligência, da grande pesquisa, para ampliar a imersão do espectador dentro de uma sala de cinema.

 

 

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14/07/2023

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Crítica do filme: 'Cadê o Amarildo?'


Um caso que chocou o Brasil e até hoje com pontas soltas. Trazendo para o público mais um olhar para uma história que completa 10 anos em 2023, uma abordagem policial feita por membros da UPP da rocinha, no Rio de Janeiro e o sumiço de um ajudante de pedreiro, o novo documentário da Globoplay Cadê o Amarildo? ao longo das quase duas horas de projeção, busca encontrar mais respostas através de depoimentos da família, das autoridades policiais da época, de testemunhas nunca ouvidas e do julgamento de policiais envolvidos em uma ação que até hoje parece ter peças que não se encaixam. A dor e o sofrimento dos familiares também é mostrada, uma busca por justiça constante ao longo de todo esse tempo.


O contexto por aqui é muito importante para entendermos melhor tudo que se passou. Implementada em 2008 no Estado do Rio de Janeiro, no governo do ex-governador e depois condenado pela justiça Sergio Cabral, as Unidades de Polícia Pacificadora, conhecidas por UPP, eram uma aposta das autoridades do Rio de Janeiro para o combate ao tráfico de drogas nas favelas cariocas e uma melhor relação entre os moradores e a polícia. Dentro desse cenário e uma pressão por resultados da polícia na maior favela carioca desencadeou uma série de ações que culminou na abordagem e sumiço de Amarildo.


O documentário, produzido pelo Jornalismo da Globo, busca recriar o passo a passo de Amarildo na noite do sumiço, contando também com uma reconstituição com atores e um cenário virtual. Depoimentos na justiça de todos os envolvidos e autoridades da época são mostrados, além dos pontos de vistas de quem acompanhou o caso desde seu início. Alguns desses depoimentos são impactantes, chocantes, até mesmo contraditórios. Dá pra sentirmos um pouco da dor de uma família que perdeu um membro querido de forma tão violenta e até hoje não foi indenizada pelo Estado.


Com direção de Rafael Norton, direção de produção de Clarissa Cavalcanti e roteiro de Andrey Frasson e João Rocha, o documentário tem o mérito de conseguir criar uma narrativa cinematográfica interessante, pulsante, com um trabalho de pesquisa e investigação jornalística que se destacam, não deixando de mostrar detalhes importantes desse caso que é uma emblemática crítica social e política em um país que se pergunta há 10 anos: Cadê o Amarildo?

 

 

 

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10/07/2023

Crítica do filme: ' Meus Sogros tão pro Crime'


A sonolenta falta de criatividade de querer fazer rir o tempo todo. Produzido por Adam Sandler e dirigido por Tyler Spindel essa nova comédia disponível no catálogo da Netflix tem a pretensão de querer fazer rir o tempo todo se tornando uma fórmula de exageros, piadas nada engraçadas, situações constrangedoras totalmente fora da realidade, transformando a narrativa, que busca seu alicerce em conflitos familiares oriundos de uma suspeita, em uma desenfreada estrada rumo ao absurdo.  Meus Sogros tão pro Crime é o suprassumo da falta de criatividade.


Na trama, conhecemos Owen (Adam Devine), um gerente de banco que está em um momento de vida maravilhoso prestes a se casar com a professora de Yoga Parker (Nina Dobrev). Mas uma coisa sempre o incomodou, o fato de nunca ter conhecido os sogros. Perto do dia do casamento, a chance chega e aparecem na vida do casal Billy (Pierce Brosnan) e Ellen (Ellen Barkin), os pais da noiva. Tentando se entender com os sogros, certo dia o banco em que trabalha sofre um terrível assalto e Owen passa a desconfiar que quem cometeu o crime foram Billy e Ellen que podem ser os famosos ‘Bandidos Fantasmas’, criminosos com registro de mais de 100 assaltos à banco ao longo dos anos de atividade. Tentando confirmar sua teoria, acaba se metendo em diversas situações esquisitas.


As subtramas são esquecidas, passam de forma tão superficial que logo esquecemos. Um policial obcecado em pegar os bandidos, a família conservadora de Owen, os objetivos de carreira de um protagonista que parece viver numa bolha. Nada é aproveitado de forma mais profunda. Por aqui as reflexões são pausadas por uma maioria de diálogos toscos que flertam com o contrassenso. Inclusive a personagem Parker é completamente esquecida na trama, uma variável aleatória que as vezes esquecemos que está no roteiro. Em falar em roteiro, aqui tem aquela fórmula de bolo de algumas comédias, repletas de clichês e que buscam chamar a atenção pelo absurdo.


Não será nenhuma surpresa se Adam Devine aparecer na próxima premiação do Framboesa de Ouro, seu personagem é uma confusão, o que reflete em tudo que vemos. A busca pelo riso fácil acaba sendo um grave problema, tornando maçante assistir 95 minutos de um filme que não tem nada a dizer. Previsível até sua última linha, Meus Sogros tão pro Crime é um entretenimento bobo que escolhe a estrada do tédio se escondendo do senso crítico a todo instante.



 

 

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Crítica do filme: 'O Retorno da Lenda'


Quando as surpresas mexem nas páginas famosas de uma história. Exibido no Festival de Cinema de Veneza em 2021, o faroeste O Retorno da Lenda, que entrou recentemente no catálogo da Netflix, é uma surpreendente jornada de escolhas e segredos que tem seu epicentro girando em torno de um misterioso homem que é encontrado por pai e filho em uma remota região no leste de Oklahoma, no início do século XX. O roteiro apresenta surpresas e seguem na linha de uma teoria sobre um marcante personagem da história americana. O projeto é o quinto filme de faroeste da carreira do ótimo Tim Blake Nelson.


Na trama, conhecemos Henry (Tim Blake Nelson) um pacato agricultor viúvo perto dos 50 anos que mora com seu único filho, o adolescente Wyatt (Gavin Lewis), em uma casa isolada, instalada entre duas colinas, distante dos agitados dias fora dali. Eles levam uma vida simples e de muito trabalho até que um dia a rotina deles sobre um enorme abalo quando resolvem ajudar um estranho homem que foi alvejado perto dali e levava consigo uma bolsa repleta de dinheiro. Quando um grupo de homens aparece para procurar o homem que eles ajudaram, Henry precisará entender o quebra-cabeça e saber em quem confiar, ao mesmo tempo que segredos do seu passado começam a serem revelados.


Escrito e dirigido pelo cineasta norte-americano Potsy Ponciroli, o roteiro busca sua força num primeiro momento mostrando a importância da relação entre pai e filho na visão de Henry e Wyatt, isso acaba sendo fundamental para entendermos as ações que são tomadas mais pra frente. Henry é um solitário homem, de poucas palavras que parece ter sofrido abalos no passado nem tão recente e que encontrou um novo sentido para a vida através do amor de sua falecida esposa. Ele lida com o filho de forma dura, as vezes até ríspida, uma disciplina que ele acha ser importante para dias como aqueles. Wyatt, é um jovem curioso que talvez se enxergue limitado dentro da monotonia de sua vida, sem entender os porquês de morarem tão isolados. Esse embate que aparece mais nas entrelinhas é uma peça importante para todo o clima de tensão que se estabelece quando escolhas sobre em quem confiar aparecem na frente dos personagens.


Ambientado, mais ou menos, duas décadas depois da época do famoso Billy The Kid e do famoso embate entre comerciantes e fazendeiros também conhecido como Guerra do Condado de Lincoln, O Retorno da Lenda mostra sua força no recorte de uma época, trazendo um frescor para o gênero faroeste, onde a lei e os foras da lei se entrelaçavam, onde as mentiras tomavam conta de objetivos, um espaço de tempo em que a sobrevivência virava uma necessidade básica na vida de todos.  



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09/07/2023

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Crítica do filme: 'Contagem Regressiva' (Revisão)


Quase três décadas atrás chegava aos cinemas de todo o mundo um longa-metragem com alta carga de tensão que nos apresentaria um dos mais cruéis vilões da década de 90, um especialista em explosivos com sede de vingança. Dirigido pelo cineasta jamaicano Stephen Hopkins, estrelado pelos espetaculares Jeff Bridges e Tommy Lee Jones, Contagem Regressiva gira em torno das memórias de um passado repleto de violência em um país onde o conflito armado era algo cotidiano e as opções que existem em seguir em frente ou se amarrar em pensamentos conflitantes. A aflição, a inquietação estão bem evidentes nas composições de personagens antagônicos que encaram seus traumas e inseguranças numa linha tênue entre o desassossego e o nada a perder. Na trilha sonora a famosa canção do grupo irlandês U2, With or Without You.


Na trama, conhecemos Jimmy Dove (Jeff Bridges), um boa praça, querido por todos, experiente oficial do esquadrão antibombas da cidade de Boston, já perto da aposentadoria, que vive uma vida repleta de adrenalina mas com tons de felicidade já que está prestes a oficializar o relacionamento com a namorada, a violinista Kate (Suzy Amis). Em paralelo a isso, um perigoso irlandês chamado Ryan Gaerity (Tommy Lee Jones), especialista em explosivos, escapa de uma prisão de segurança máxima chamada Castle Gleigh e embarca para os Estados Unidos em busca de vingança começando a tocar o terror pela cidade de Boston atingindo todos ao redor de Jimmy. Aos poucos vamos descobrindo segredos do passado do protagonista, que está ligado à Gaerity. Assim um duelo é estabelecido.


Como superar um trauma? O ótimo roteiro flerta com as maneiras que o ser humano tem de enfrentar marcas angustiantes de um passado. Jimmy esconde de todos quem era e o que fez no início de sua fase adulta na Irlanda, isso é algo que ele precisa enfrentar na sua nova vida, no renascer que lhe fez suportar as atrocidades que passaram na sua frente mas sem deixar de pesadelos corroerem noites aliado a um medo imperceptível mas em todas as vivas memórias. As linhas do roteiro possuem respiros para o refletir do espectador junto a uma desconstrução profunda de seu protagonista que entra em colisão com os maiores medos quando se vê com as mãos atadas.


A obsessão é a semente das ações de quem não tem nada a ganhar e nada mais a perder. Do outro lado dessa história, conhecemos um psicopata, agressivo, violento, que usa da sua inteligência para alimentar sua sede de vingança guardada nos pensamentos das décadas onde esteve preso, sem contato com o mundo. A dificuldade do remorso e suas interpretações para o que houve na Irlanda anos atrás o colocam como uma verdadeira bomba relógio capaz de qualquer coisa para cumprir seu desejo de magoar intensamente quem enxerga como inimigo mortal. A narrativa e toda a construção audiovisual de Hopkins e equipe fazem os dois personagens brilharem em cenas repletas de tensão por todos os lados.


Esse projeto tem algumas curiosidades. O primeiro deles, e que poucos sabem, é que Jeff Bridges recusou o papel principal no filme Velocidade Máxima para realizar esse longa. Sorte do Keanu né? Ambos os filmes foram lançados no mesmo ano, sendo que o estrelado por Reeves alcançou um sucesso bem maior. Outro fato curioso é que o filme tem vários vencedores do Oscar no seu elenco, além de Bridges e Jones, Forest Whitaker tem um papel de destaque, além de Cuba Gooding Jr., esse último apenas com uma participação. Outro fato: No filme, Jeff contracena com o pai Lloyd Bridges


Saudades daqueles ótimos filmes de ação dos anos 90? Corre e vá conferir Contagem Regressiva, disponível na Prime Video.



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08/07/2023

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Crítica do filme: 'O Chef Italiano'


Será que alguns trens só param uma vez em uma estação? Disponível no catálogo da Prime Video, a co-produção Itália/Austrália O Chef Italiano adota um forte tom melancólico para mostrar as profundezas do luto, as desilusões de uma vida onde as escolhas modificaram um caminho de brilho. Dirigido pela cineasta Ruth Borgobello, em seu primeiro longa-metragem, o filme é ambientado na belíssima Údine, cidade italiana ao norte com menos de 100.000 habitantes, lar do famoso time Udinese, onde inclusive o ídolo Zico jogou entre 1983 e 1985. O investir num drama existencial sem firulas românticas é de um acerto elogiável fazendo o refletir surgir através do curso de um protagonista em crise.


Na trama, conhecemos Marco (Flavio Parenti), um jovem perto dos 40 anos que teve a chance de sua vida no passado, quando tinha uma carreira promissora como chef em um badalado restaurante de Nova Iorque. Ele precisou abandonar tudo por conta de uma fatalidade com a mãe e regressou para o lugar onde foi nascido e criado. No presente, vive desiludido, sem rumo, trabalha em uma fábrica mas tem um outro trabalho ocasional ligado à alta gastronomia, projeto esse que leva com o melhor amigo Claudio (Lino Guanciale). Após uma tragédia, se vê ainda mais sem rumo e em um luto nada passageiro, paralelo a isso conhece a turista australiana Olivia (Maeve Dermody) que está em Údine para vender o apartamento dos avós que emigraram para aquela região da Itália na década de 50. Aos poucos, o ainda sonhador protagonista vai perceber que o destino lhe reserva outras oportunidades.


Como faz para abrir mão dos sonhos por outras pessoas? É o certo a se fazer? Conforme vamos conhecendo Marco percebemos suas angústias e os porquês de algumas atitudes. A vida não foi fácil para ele, que sentiu na pele as dores da perda o que acabou estabelecendo uma relação um pouco difícil com o pai. As escolhas do passado, principalmente abandonar sua carreira, onde trabalhava muito mas era feliz, fez com que ele se tornasse um reflexo de sua tristeza. O choque para ele chega, por coincidência, através de outra tragédia, só que dessa vez mesmo mais maduro começa a interpretar o destino de uma outra forma, até com a ajuda de enigmáticos sonhos. A variável do amor e as curas de algumas feridas abertas dão um ar de esperança e se somam rumo a um desfecho aberto, interpretativo.


Indicado da Austrália para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018, O Chef Italiano não é uma comédia romântica mas o romantismo está ali bem próximo da realidade onde o faz de conta não acontece. Se mantém em um tom de melancolia mas sem perder o ritmo, os ótimos diálogos e a boa narrativa ajudam a contar essa interessante jornada.  



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Crítica do filme: 'Chevalier: A Verdadeira História Nunca Contada'


Quando a maior maldade é nos convencer que não temos escolha. Nos tempos de Mozart e Maria Antonieta, nos prelúdios da revolução Revolução Francesa, um espetacular músico franco-caribenho luta contra o preconceito e consegue seu lugar na alta sociedade francesa se posicionando de forma impactante nas mudanças sociais de uma França à beira de mudanças. Exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto do ano passado, Chevalier: A Verdadeira História Nunca Contada mostra com maestria a história nunca contada desse exímio músico negro que escreveu sinfonias, concertos, óperas e marcou para sempre seu nome no cenário cultural europeu. A direção é assinada pelo ótimo Stephen Williams.


Na trama, conhecemos Joseph Bologne (Kelvin Harrison Jr.), nascido em Guadalupe, lugar que fica nas ilhas ao sul do mar do Caribe que pertence à França, filho de uma escrava e um senhor de terras que desde pequeno mostra sua vocação para música. Ele, sempre muito confiante e driblando o preconceito de muitos ao seu redor, consegue entrar na prestigiada Academia La Boessière onde desenvolve inúmeras habilidades virando um genial esgrimista, um gênio do violino. Os anos se passam e Joseph consegue grande destaque na alta sociedade francesa e em um determinado ponto, com um olhar crítico para tudo que acontece em uma Paris empolvorosa, escolhe seu lado na luta pelos direitos humanos.


A direção de Stephen Williams é primorosa. O cineasta com longa passagem no mundo dos seriados, dirigindo episódios de renomadas seriados como: Lost, Watchmen, Westworld, Bloodline apresenta sua contagiante narrativa através de detalhadas passagens de tempo na vida de Bologne. Suas dores, seus dilemas, suas angústias, seu grande amor, sua relação com a mãe, correm em paralelo com todo o contexto político dessa turbulenta época da história francesa que desagua em um clímax profundo, cheio de reflexões, um concerto em prol dos direitos humanos que ficou marcado na sua trajetória.


O contexto por aqui é fundamental para imersão do espectador, uma grande aula de história ao longo das pouco menos de duas horas de projeção é vista. Em 1789, o povo se revoltou contra a monarquia e principalmente contra a figura sempre controversa de sua rainha (no filme interpretada por Samara Weaving). A construção do protagonista nos mostra o todo de desse período, entre duelo de violinos, e pontos marcantes na vida do coroado Chevalier de Saint Georges. Sua relação com a mãe também é um dos pontos altos do filme. Ela que era propriedade de seu pai, com a morte desse, alforriada, é entregue a Joseph. Um diálogo emocionante entre mãe e filho, já no arco final diz muito sobre o que se escorre nas entrelinhas em uma época de muito preconceito.


Há uma importância gigante, cultural e social, dessa história ser contada. Quando Bonaparte apareceu no cenário político, anos após Antonieta, reestabeleceu a escravidão nas colônias francesas e por consequência proibiu Bolagne de se manifestar pelo seu ofício, fato que deixou grande parte da obra do artista cair aos poucos em esquecimento sendo somente redescoberta anos mais tarde. Que bom que existe o cinema, entre outras artes, que resgatam histórias que servem de inspiração e não deixam cair no esquecimento fatos importantes de outrora.



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