Pular para o conteúdo principal

E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #69 - Andrey Lehnemann


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

Nosso convidado de hoje é crítico de cinema, jornalista e escritor. Andrey Lehnemann escreve para os dois maiores jornais de Santa Catarina. É um dos quatro brasileiros a fazer parte da Online Film Critics Society (OFCS), a mais antiga e prestigiada associação de críticos de cinema online do mundo. Foi curador da primeira Mostra Internacional de Cinema Fantástico, o Floripa Que Horror, além de ter feito a produção executiva de dois documentários catarinenses. Atualmente, especializa-se no cinema de terror.

Obs: meu querido amigo que nunca vi mas parece que morávamos no mesmo condomínio! Há 10 anos atrás mais ou menos, eu, Andrey e outros malucos de diversas partes do Brasil, criamos (antes de redes sociais bombarem, antes de zap e força do youtube) o que chamamos de Totalmente Cinéfilos, um programa semanal de cinema que durava mais de cinco horas seguidas no ar. Muitas saudades!!

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Moro em Florianópolis. Acho que cada sala tem sua personalidade. Gosto muito da sala do CineMulti, do Paradigma e, claro, do Cinesystem, onde fiz muitas amizades e é a melhor a passar o cinema mainstream. Todas elas contam com mais sessões legendadas e com uma ótima acústica, o que gera um diferencial. O Cinemulti, por exemplo, eu gosto muito do público que frequenta. O paradigma tem uma ótima programação. Cada um tem sua particularidade.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

O Rei Leão. Sem dúvidas. Eu era criança e acabei tendo tudo que você pode imaginar do filme, desde lancheira até toalha. Minha mãe insiste que é o filme a que mais assisti na vida, embora brigue que seja Pânico.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Da atualidade, é Darren Aronofsky. Fonte da Vida. É uma testemunha existencial das mais completas do cinema.

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Terra em Transe. Glauber Rocha no auge. Continua sendo o filme brasileiro mais político a que já assisti. Brilhante.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Amar qualquer forma de cinema. Encontrar sempre o melhor em qualquer narrativa e sentir imersão ao assistir a uma nova história.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Não. A programação costuma pensar no que é lucrativo, não é uma forma de reflexão. Consequentemente, os programadores costumam ser mais focados no mercado, não necessariamente cinéfilos.

 

7) Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Duvido muito. As formas a que assistimos cinema mudam, mas a essência permanece. Precisamos da tela, precisamos compartilhar, precisamos nos sentir conectados. Isso não é sempre possível em casa.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Dear Zachary, um documentário que mexe muito comigo.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Se obedecerem a certos critérios e quando a curva estiver controlada, sim. A vacina demorará ainda bastante tempo, ao que tudo indica.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

É um dos melhores do mundo, justamente por seu caráter multicultural. Há vários tipos de cinemas em várias regiões, no Brasil, o problema é a falta de recurso.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Irandhir Santos.

 

12) Defina cinema com uma frase:

É uma forma de reescrever a vida.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Minhas histórias inusitadas em salas de cinema são geralmente ruins. Em Faroeste Caboclo, uma moça obviamente racista confessou a amiga do lado que sentiu nojo ao ver o beijo entre um ator negro e uma atriz branca. Ela sentava atrás de mim na sala de cinema.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Risos.

 

15) Você é um dos maiores fãs do Aronofsky. Da onde surgiu esse fascínio pela filmografia desse brilhante diretor?

A primeira vez a que assisti a Réquiem para um Sonho com o meu pai. O filme me atingiu em cheio. Ainda era jovem e a decadência mental e física dos viciados no filme foi mais impactante do que qualquer coisa que já tinha visto sobre o assunto. Até meu pai ficou chocado. De poucas palavras, ele apenas disse: "esse diretor é diferenciado'. Mas sempre acompanhei tudo relacionado ao Darren desde que surgiu rumores dele dirigindo Batman. Isso nos anos 2000.

 

 

16) Dentro da Crítica de cinema, você é dono de um texto muito competente. Alguma referência de jornalista brasileiro ou internacional no qual se espelha?

Quando passei a escrever para jornais, eu me espelhei muito em dois nomes: Zanin e Merten. Admiro muito ambos. Mas meu principal mentor sempre foi o Pablo Villaça, embora meu texto tenha ido por um caminho completamente diferente. De todos os quais me espelhei, aliás. Hoje em dia, o meu campo de pesquisa é o terror. Lá fora, as minhas principais referências são Scott Weinberg, Michelle Swope, Matt Serafini, Anna Biller, Dede Crimmins e a Tomris Laffly. Mas as referências servem apenas como referência. Acho que a personalidade vem com o tempo.

 

17) Qual site de cinema brasileiro que você mais acompanha?

Poucos, hoje em dia. Acompanho mais o Filme B, pelas estreias da semana. Acho que Adoro Cinema sendo o maior referencial. Gosto do trabalho do Lucas Salgado e da Barbara Demerov, que é uma querida.

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...