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Crônicas de um Cinéfilo Solitário #1 – O Porteiro e o Cinéfilo


Andando com meu cachorro, Nicolas ‘Juca’ Cage pelas calçadas do bairro onde estou passando os longos e intermináveis dias dessa quarentena mundial inesperada, sempre percebo um senhor de bigode volumoso cinza, uniformizado com uma roupa bordada com os dizeres de onde trabalha, sentado em um banquinho, na frente de um prédio, observando e observando. A cada dia que faço aquele trajeto olho para esse batalhador do cotidiano selvagem carioca e penso comigo como que o observar é uma das razões mais simples e inteligentes de entender melhor a vida e seu sentido (se existe algum...).

Para nós cinéfilos, nos alegramos em observar cada detalhe de cada filme, buscando sempre alguma referência aos dias que já vivemos. Dos mais complicados aos mais simples. Por em imensa maioria sermos almas sensíveis e fáceis de sermos conquistados, o nosso banquinho é alguma cadeira com número e letra em qualquer sala de cinema disponível para uma sessão. Dos mais cults até os mais
bobos e repletos de clichês, todo filme te coloca de frente a duas portas: a da razão e outra da emoção. O divertido é sempre entrar em uma, voltar e entrar na outra. Mas nem todos os filmes dá vontade de fazer isso.  


A paralelo do título acontece também quando pensamos na solidão. Sentados em banquinhos ou não, por vezes nos sentimos tão sozinhos, já que o cinema é tão importante para nós mas nem todos entendem isso. Na verdade, é muito difícil entender essa nossa necessidade de assistirmos a um filme, pensar sobre ele e só assim, depois, compartilhar o que pensamos com os outros. Para agradarmos nossos convívios sociais até assistimos filmes que não queremos ver mas sempre com aquela vontade incansável de arranjar um tempo para ver aquele que estamos loucos para assistir.  O porteiro do bigode volumoso também precisa do oásis dele, depois de um dia de trabalho, observar a vida sozinho, um gás, para alguns inusitado, mas que é fundamental para a semana dele.


E o que tiramos disso tudo? A vida é um sopro mas merece ser observada sempre, de uma sala de cinema ou de um banquinho em um fim de expediente. Aprendemos melhor sobre o mundo observando e observando...podem ter certeza!

 

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