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E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #486 - Nicholas Correa


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

 

Nosso entrevistado de hoje é cinéfilo, de Belo Horizonte (Minas Gerais). Nicholas Correa tem 21 anos. É graduando em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas, crítico para o portal Plano Aberto, com uma participação em um episódio do Podcast Cinema em Transe.

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Dois lugares que me marcaram muito: o Cinema Usiminas Belas Artes e o Cine Humberto Mauro. O Belas Artes eu gosto particularmente pela programação que contempla filmes com um apelo menos comercial, é um lugar que eu posso assistir um filme do Hong Sang-Soo por exemplo. O Cine Humberto Mauro é uma sala que possui um trabalho de curadoria excelente, com mostras e festivais que marcaram a minha trajetória, assim como a trajetória de muita gente. A minha relação afetiva com esses dois espaços não é diferente da cinefilia belorizontina, tenho muito apreço por eles.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

É difícil pensar em uma sessão específica, minha relação com o cinema começou bem cedo e não foi nas salas, foi nos DVDs. Lembro que ver Titanic ainda criança foi algo bem marcante. Mas se eu tiver que apontar uma das sessões que mais ficou na memória nesse início de cinefilia foi uma exibição de O Circo do Chaplin em que fui com minha família.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Eu não tenho um diretor favorito, tem alguns que me chamam mais atenção por um determinado momento. Nesses tempos eu tenho pensado bastante no James Benning, dele eu gosto especialmente de Landscape Suicide.

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Eu simplesmente amo o Sem Essa, Aranha do Rogério Sganzerla. A liberdade, a desfaçatez, o atrevimento, tudo nesse filme é muito inspirador.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

Diria que é muita coisa. É ter paixão pelos filmes, claro, mas também é ter disposição, curiosidade, inquietações e também saber que, como tudo na vida, quanto mais você se aprofunda em uma questão, mais você se dá conta de que ainda tem muito o que ver e aprender. Ser cinéfilo é apreciar uma coisa inesgotável.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

De uma certa maneira, sim. Acredito que a maior parte das salas, os multiplex de shopping, tem uma programação feita por pessoas que conhecem o cinema mais por uma parte mercadológica do que qualquer outra coisa. Essas pessoas não são ignorantes a respeito do cinema, mas não imagino que elas vão tratar dos filmes de um ponto de vista estético, sociológico ou cultural, elas vão seguir uma lógica de mercado antes de mais nada. Elas conhecem o cinema tendo em mente o que “funciona” e o que “não funciona”. Mas claro, existem curadores e programadores que se preocupam com questões que estão além do mercado e é um trabalho que precisa ser cada vez mais valorizado.

 

7) Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Não. A sala de cinema pode perder espaço diante do streaming ou de outras mídias, mas acabar totalmente acho muito improvável. Além do mais, somos seres sociais, nós gostamos de aglomerar em vários tipos de arena, jogos de futebol, shows de música, espetáculos de teatro, de dança, etc. Enfim, não acho que vamos deixar de ir ao cinema.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Por algum motivo insondável quase ninguém fala do The Last Wave do Peter Weir, filme fantástico.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não, os cinemas deveriam esperar até a situação ser controlada. Eu não tenho o mesmo conhecimento de um infectologista e eu sei que as salas estão tomando alguns cuidados, controlando o ambiente e tal, mas acho que ainda existe um risco, principalmente em se tratando de um espaço fechado.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Não gosto de fazer generalizações e é difícil bater o martelo sobre o momento atual, mas uma coisa dá para ter certeza, o cinema brasileiro é muito rico. Só nessa última década o que teve de filmes excelentes vindo tanto de cineastas veteranos quanto de uma geração relativamente mais recente é impressionante. Para citar alguns dos filmes que eu mais gostei: Luz nos Trópicos (Paula Gaitán), Já Visto, Jamais Visto (Andrea Tonacci), Beduíno (Júlio Bressane), Vaga Carne (Grace Passô, Ricardo Alves Jr), Sinfonia da Necrópole (Juliana Rojas, Marco Dutra), República (Grace Passô), No Coração do Mundo (Gabriel Martins, Maurilio Martins), Sertânia (Geraldo Sarno).

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Gosto muito da Grace Passô. Ela não só está em vários filmes que eu gosto nesses últimos anos do cinema brasileiro como também dirigiu alguns.

 

12) Defina cinema com uma frase:

A rigor seria: “Um conjunto de imagens que tem uma duração própria”. Mas eu falo essa frase sob o risco de me arrepender depois. Essa é a pergunta mais difícil, porque o cinema, como toda a arte, é um conceito fluido, dinâmico e que não deve nada a coisa nenhuma. A gente pode se surpreender com ele.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Minha vida na sala de cinema infelizmente não é muito movimentada, mas me lembro de uma sessão de Era Uma Vez em Tóquio em que um sujeito muito bêbado entrou na sala durante os créditos iniciais. Ele fez um ou dois comentários com a voz toda troncha, até que alguém no fundo pediu para ele se aquietar e esse sujeito deu uma resposta engraçadinha. Não me lembro mais dessa resposta, mas ela rendeu umas risadas minhas e do restante da sala.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Venho aqui diante do povo brasileiro pedir perdão, não assisti Cinderela Baiana.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Não, ele só precisa ser sincero no que faz.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Antigamente eu costumava odiar certos filmes, mas hoje em dia eu tento enxergar filmes ruins de uma maneira mais fria mesmo, sem ressentimentos. Mas se eu tenho que apontar um que foi inesquecível, esse filme é O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante.

 

17) Qual seu documentário preferido?

Uma História do Vento do Joris Ivens e da Marceline Loridan. É um documentário que mescla elementos ficcionais também. Definir os limites do documentário e da ficção é uma dessas coisas que, quanto mais você tenta, mais você se frustra. Alguns dos melhores documentários exploram essa tensão.

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão?  

Eu normalmente bato palmas quando algum dos realizadores está presente na sessão, mas fora isso não costumo bater palmas.

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Do meu querido Nicolas Cage eu gosto muito do Face Off.

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

Não vou saber te dizer qual site eu mais leio. Além dos textos dos meus colegas no Plano Aberto eu gosto muito de revistas e portais como Contrabando, Multiplot!, Cinética, À Pala de Walsh. Também acompanho o blog Vestido sem Costura que faz um trabalho fantástico com a tradução de vários textos de críticos mundo afora incluindo alguns clássicos como os textos de Serge Daney. Um site que também leio bastante, mas que já está inativo há um bom tempo, é o da revista Contracampo. Como também é o caso de muita gente que eu conheço, essa revista foi fundamental na minha formação cinéfila.

 

21) Qual streaming disponível no Brasil você mais assiste filmes?

Eu também não vou saber te dizer qual streaming eu mais consumo. Assisto filmes não só pela Mubi e pela Netflix como também pelo Youtube, espaços como UbuWeb, Lux Moving Image, Light Cone e sites de cinematecas. Só que recentemente com a pandemia eu tenho focado mais em acompanhar festivais e mostras online, nesses eventos é possível encontrar filmes que são pouco vistos e pouco debatidos. As mostras e festivais também impõem limites de tempo para acessar os filmes, então eu dou prioridade para eles.

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