Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Belfast'


Conflitos de uma memória sempre presente. Indicado a sete Oscars, escrito e dirigido por Kenneth Branagh, Belfast reativa as lembranças do hoje bastante famoso ator e diretor em paralelo em que a história de seu país era escrita e não de uma maneira muito orgulhosa, cheio de conflitos que duraram (até mesmo duram) por conta de uma intolerância acoplada à política. O preto e branco como uso das imagens mostra um sentido à questão temporal, que remete às memórias, e também ao sentimento que se aproximam das escolhas. Um trabalho primoroso de Branagh.


Na trama, ambientada na década de 60, enxergamos tudo pela ótica de um jovem menino chamado Buddy (Jude Hill) que vê se despedaçar e atravessar inúmeras mudanças o local onde nasceu e foi criado que agora é tomado por intolerância religiosa que geram conflitos agressivos. Em paralelo a esses conflitos vemos sua rotina, seu cotidiano dentro desse cenário mas sem deixar de brincar na rua com os amigos, se apaixonar pela primeira vez, os sonhos e dedicações na sala de aula, as discussões dos pais (interpretados pelos ótimos Caitriona Balfe e Jamie Dornan), as idas e vindas do pai que trabalha num lugar muito longe. Também refletimos dentro dos diálogos com os avós, os indicados ao Oscar Judi Dench e Ciarán Hinds, num misto de pré saudade e aprendizados que ficariam guardados por toda uma vida.


O filme é baseado em fatos reais da infância do diretor do projeto Kenneth Branagh, conseguimos entender uma parte muito falada da história da Irlanda do Norte e os conflitos entre protestantes (a maioria) e católicos. O tempo acaba sendo uma variável importante nas escolhas que precisam tomar os adultos na questão abordada: esperar os conflitos esfriarem ou até mesmo se resolverem, ou se mudar para um outro lugar iniciando uma nova vida também com incertezas?


O cinema também fez parte dessa trajetória com os filmes sendo usados por Buddy para fugir um pouco daquela realidade de incertezas, não só os faroestes de John Wayne que passavam na televisão mas também as idas ao cinema assistindo a filmes como o britânico Calhambeque Mágico (Chitty Chitty Bang Bang) de Ken Hughes. Em uma das cenas, uma leitura dos quadrinho de Thor nos fazem refletir sobre os tempos atuais já que Branagh foi o diretor do primeiro filme do herói de Asgard lançado no atualmente conhecido MCU (Universo Cinematográfico Marvel).


Belfast em resumo é recorte histórico de muitas vezes, em homenagem a tantas outras, dos que partiram e dos que ficaram. Um inesquecível e emocionante trabalho guiada por uma trilha sonora pulsante e um olhar de um diretor que sabe como transforma as emoções em cinema.



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...

Crítica do filme: 'A Colega Perfeita'

Sufocando a ironia e se apropriando de situações cotidianas sob um ponto de vista norte-americanizado de uma garotada que enxerga a vida adolescente de muitas formas, o longa-metragem A Colega Perfeita , novo lançamento da Netflix, busca ser uma comédia engraçada, com pitadas de reflexões. No entanto, a obra cai no lugar-comum na maior parte do tempo, sem apresentar nada de novo, numa mescla de baboseira e lições existenciais baratas. Dirigido pela cineasta canadense Chandler Levack , com roteiro assinado por Jimmy Fowlie e Ceara O'Sullivan , o filme apresenta uma narrativa feita para agradar a juventude que busca um passatempo ligeiro, sem muitas pretensões de fazer pensar sobre os temas que aparecem, encontrando nas situações conflituosas - e nos exageros - o riso fácil. Por meio dos mais diversos clichês e da falta de inventividade, recorrendo aos esteriótipos por todos os lados, embarcamos na comodidade de um roteiro que se esconde de qualquer profundidade. Uma orientador...