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Crítica do filme: 'Narvik'


As ações do tabuleiro estratégico em meio ao caos da segunda guerra mundial. No início da segunda guerra mundial a Noruega adotou uma postura neutra nos conflitos que se seguiam pela Europa mas isso não quer dizer que o país nórdico não fosse uma peça chave num capítulo da pior das guerras. Dirigido pelo cineasta Erik Skjoldbjærg, o longa-metragem Narvik nos apresenta fatos históricos dentro do contexto dos horrores de uma sangrenta batalha pelos olhos noruegueses de uma cidadezinha gelada de pouco menos de 20.000 habitantes. O conceito de sacrifício aqui ganha contornos quando pensamos ao mesmo instante sobre a moral. Os conflitos nessa linha se jogam nas condutas militares de todas as partes e nas escolhas sobre família em meio ao desespero do não saber como vai ser o amanhã.


Na trama, conhecemos o soldado do exército norueguês Gunnar (Carl Martin Eggesbø) que está muito feliz por estar retornando para sua cidade natal, Narvik, e reencontrar sua esposa Ingrid (Kristine Hartgen), seu filho e seu pai. Só que os alemães resolvem ocupar a cidade por conta da importância estratégica pelo minério de ferro, deixando as autoridades norueguesas em uma gangorra política pois isso fere o conceito de neutralidade que eles tem no conflito. Assim, Gunnar, segue as ordens do seu major e vão para resistência enquanto Ingrid, que trabalha em um hotel e fala alemão, acaba virando intérprete de um cônsul alemão. Ao longo desse retrato cheio de dilemas, marido e esposa precisarão enfrentar conflitos em busca de algum dia voltarem a viver juntos como família.


Nessa história, que marca mais um recorte angustiante na mais letal das guerras, há um contexto importante sobre a posição geográfica da Noruega e o minério de ferro produzido lá que abastecia grande parte das indústrias de armas alemães. Essa questão política é muito bem detalhada nos primeiros minutos de projeção, além de ser algo que aparece como pano de fundo para todos os conflitos que se seguem. Os personagens são fictícios mas esse conflito realmente existiu e é considerado até hoje a maior batalha em solo norueguês.


O lado da população norueguesa e as iminentes cicatrizes da guerra giram em torno do desespero de estarem literalmente no meio de um conflito. Vemos famílias, pais e filhos traumatizados, no meio do fogo cruzado entre britânicos (depois franceses e poloneses) e alemães. As escolhas, e perguntas sobre de qual lado você está na guerra (um dos fortes conflitos de um dos personagens), giram em torno da necessidade, com lampejos na moral, enquanto a destruição toma conta da pequena cidade no norte da Noruega.


Considerada a primeira derrota de Hitler na segunda guerra mundial, a retomada de Narvik é um fato histórico e que nessa produção disponível na Netflix ganha contornos angustiantes nos dilemas que passam seus impactantes personagens.



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