Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'American Fiction'


Indicado para cinco Oscar em 2024, inclusive na categoria Melhor Filme, American Fiction usa sua brilhante e hilária narrativa para ir na contramão dos hipócritas de plantão, que recheiam olhares com estereótipos. Baseado na obra Erasure do escritor e professor da USC (Universidade do Sul da California) Percival Everett, o filme apresenta recortes na vida de um escritor em crise, entediado, completamente sem paciência com as hipocrisias na sua frente que tem uma ideia que o coloca no epicentro de tudo que pensa. Excelente estreia na direção do cineasta norte-americano Cord Jefferson.

Na trama, conhecemos Monk (Jeffrey Wright), um escritor e professor num presente repleto de conflitos não deixando barato os absurdos culturais que percebe ao seu redor. Após ser afastado pela universidade que leciona, vai passar um tempo na casa de praia da família se aproximando dos irmãos e da mãe em fase inicial de Alzheimer. Um dia, resolve escrever um livro de forma aleatória, longe das complexidades de suas outras obras e acaba vendo o sucesso chegar de forma curiosa e mostrando muitas verdades da sociedade.

As pessoas não se resumem aos erros. Um dos méritos do roteiro é chegar numa ampla reflexão sobre seu protagonista através do relacionamento com a família. A narrativa é empolgante, até uma cena espetacular de personificação da escrita nós vemos. Perdido nos pensamentos que se juntam a absurda conclusão de uma ideia inusitada, nas perdas recentes, a volta do convívio com os mais próximos familiares, um espaço para um novo amor, o protagonista duela com seus conflitos sem nunca deixar de expressar sua opinião. Tudo isso é colocado de forma brilhante na tela.

Personagens surgindo aos montes só validam o pensar de Monk, aqui uma analogia com a sociedade e seus valores se torna uma reflexão importante. O mercado literário também ganha holofotes, o lucro com o entretenimento raso, preconceituoso em muitos momentos, se mostra evidente através da armadilha feita pelo personagem principal dessa história maravilhosa que ficará nas nossas lembranças por muito tempo.

As entrelinhas da moral da história chega através dessa narrativa dinâmica, envolvente, que nos faz rir, emocionar e pensar sobre muitas verdades que estão por aí pra quem quiser ver.


Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...