21/03/2023

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Crítica do filme: 'O Rio do Desejo'


A angústia do desejo. Tema de várias obras ao longo do desenvolvimento da humanidade, a traição, o desejo, o amor proibido se chocam em conflitos quase sempre amargurados onde os pontos de vistas se tornam a estradas para reflexões. O Rio do Desejo, do ótimo cineasta Sérgio Machado, nos leva para esse paralelo, uma jornada muito bem construída, objetiva, que busca criar um recorte dentro do universo abstrato do desejo na visão de um quadrado amoroso. Baseada em um conto chamado O Adeus do Comandante da obra A Cidade Ilhada do escritor amazonense Milton Hatoum, o filme consegue dar vida, movimento, a sentimentos conflitantes.


Na trama, conhecemos o capitão da polícia Dalberto (Daniel Oliveira) um homem sério que resolve abandonar a corporação e comprar um barco depois de se apaixonar perdidamente pela bela e alegre Anaíra (Sophie Charlotte). Ainda em fase de mudança de vida, Dalberto resolve levar a amada para morar por um tempo na casa onde vive com os dois irmãos, Dalmo (Rômulo Braga) e Armando (Gabriel Leone), o primeiro um fotógrafo que tem um pequeno empreendimento na cidade, o outro um amante do universo musical que faz apresentações com sua banda. Mas a aparente harmonia é colocada à prova quando Dalberto precisa fazer uma viagem de quase dois meses e Anaíra começa a se aproximar de Dalmo e principalmente Armando.


Os pontos de vista dos ótimos personagens criam recortes instigantes no quadrado amoroso estabelecido. Os laços dos irmãos são rompidos com a presença de Anaíra, esse é o estopim que navega durante todo o clímax. O ciúmes, o proibido, tornam-se elementos constantes na trajetória de cada um deles. Dalberto se vê completamente perdido em seu descontrole, o irmão do meio embarca no desconhecido onde o perdoar não é uma opção. Dalmo, o mais velho se vê no cárcere do voyeurismo buscando a razão, estando próximo do seu desejo mas mantendo distância na realidade dura que chega na sua frente, prefere o sofrer. Armando é o lado da imaturidade misturado com inocência do lado desbravador de um primeiro intenso amor. Anaíra, o ponto de interseção dessa história, se vê em enorme conflito, se sentindo abandonada, aflorando seus desejos a cada novo pensamento de desilusão.


Essa reflexiva obra, que já foi até questão de vestibular em 2017 na UFN (Universidade Franciscana), teve uma carreira internacional consolidada passando por alguns festivais, e inclusive já está vendida para muitos países (terá exibições em cinemas, da Coreia do Sul, Japão, França, Itália, Portugal).


Com filmagens na bela Itacoatiara (AM), um pouco antes da chegada da Pandemia da Covid-19, O Rio do Desejo se constrói em torno da iminência da tragédia, através dos conflitos, ações e consequências, de personagens amargurados dentro de laços fortes que são quebrados. A narrativa, muito bem construída, apresentação a situação sem esquecer de contextualizar elementos para a história, acelera para seu competente clímax que perdura nas linhas da melancolia deixando um profundo retrato que envolve essa família.



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Crítica do filme: 'O Faixa Preta - A Verdadeira História de Fernando Tererê'


Os caminhos e conflitos para a glória. Chegou ao catálogo da HBO Max nesse mês de março uma das mais incríveis história de superação no esporte brasileiro, uma jornada que começa na origem humilde de um homem que colecionaria títulos no disputado universo do Jiu-Jitsu  mas que no auge da carreira enfrentou muitas dificuldades por conta do vício em drogas e logo após um transtorno mental que colocou em dúvida o seguir em frente na carreira. O Faixa Preta - A Verdadeira História de Fernando Tererê em pouco mais de uma hora e meia de duração, de forma bem objetiva, sem muita profundidade, molda sua narrativa em torno de um famoso fato dessa trajetória que abre e fecha o longa-metragem.


Na trama, ambientada nos anos 90, baseada em fatos reais, conhecemos Fernando Augusto da Silva, o Tererê (Raphael Logam) nascido e criado na favela do Cantagalo no Rio de Janeiro. Desde a infância se interessa pelo universo da luta e já adolescente consegue a chance de treinar em uma academia de Jiu-Jitsu. Ele desenvolve sua técnica sempre sobre os olhos de inspiradores professores e começa a competir profissionalmente virando campeão mundial por mais de uma vez. Só que no auge da carreira, com o nome consolidado entre os melhores da história, Tererê começa a se envolver com drogas pesadas levando tudo que construiu praticamente às ruínas. Nessa época ele até vendeu sua faixa preta por 5 reais. No meio disso, ainda descobre estar com esquizofrenia, uma doença sem cura. No fundo do poço, Tererê consegue se reerguer aos poucos, com a ajuda da família e dos amigos.


Um homem e suas batalhas. A vida de Tererê nunca foi fácil. Nascido no final da década de 70, sempre muito próximo da violência, por conta do lugar aonde nasceu, encontrou no esporte uma maneira de fugir daquela realidade. O filme busca mostrar os primeiros passos no Jiu-Jitsu, a importância das boas referências, os paralelos com a paciência e a disciplina dessa arte marcial oriunda da índia que se aperfeiçoou no Japão e criou raízes no Brasil por meio da família Gracie.


Nas partes onde os conflitos se escancaram aos nossos olhos, tendo conseguido muito e depois perdido tudo (academias, respeito, dinheiro, investimentos), vemos pontos de vistas diferentes sobre o mesmo drama, tererê jogado ao caótico universo das drogas e todo o sofrimento de amigos e família em busca de encontrar ajuda para ele. Essa história que vai da glória, ao desastre chegando na redenção tem um momento marcante que envolve outro grande lutador brasileiro, Alan Finfou, o homem que comprou a faixa preta de Tererê (seu primeiro mestre) e num ato inesquecível num campeonato europeu se tornou personagem importante na história do seu mestre.


Mesmo corrido em alguns momentos, principalmente na sua introdução, a narrativa modela seu desenvolvimento nos fortes conflitos pessoais do protagonista e suas lutas constantes dentro e fora do tatame. Dirigido por Caco Souza e com roteiro de Rangel Neto, O Faixa Preta - A Verdadeira História de Fernando Tererê é uma das mais impactantes histórias do esporte brasileiro, uma vida que merecia ter sua história contada na telona.



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19/03/2023

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Crítica do filme: 'Navalny'


A luta contra a opressão em um país que tem o mesmo líder faz 23 anos. Vencedor do Oscar de melhor documentário em 2023, Navalny nos mostra parte da trajetória recente de um advogado e blogueiro na casa dos 40 anos que acaba sendo o grande opositor ao governo Russo e seu comandante Vladimir Putin. O projeto foca nas estratégias de campanha de Alexei Navalny, em busca de apoio, que usando a internet como uma verdadeira força, uma ferramenta de comunicação que o governo russo não consegue controlar, acaba ficando muito famoso em todo o planeta. Dirigido por Daniel Roher, Navalny possui algumas surpresas que acontecem no caminho e ditam o ritmo do filme até seu desfecho faltando em partes uma profundidade maior no passado do protagonista. Confrontado de relance nesse mesmo documentário sobre polêmicas em seu passado, apenas disfarça.


Pra entender melhor essa história, é preciso se ambientar com o sistema político russo, o semipresidencialismo, onde o poder executivo é partilhado entre o presidente eleito pelo povo e o primeiro-ministro. Até agora, no século XXI, o país só viu um presidente, Vladimir Putin, que está no cargo desde o ano 2000 após substituir Boris Iéltsin. E isso pode perdurar mais um tempo, já que Putin sancionou recentemente uma lei que lhe permite concorrer para mais dois mandatos.


Profissão mais perigosa do mundo? Ser político em uma Rússia comandada por uma mesma pessoa faz quase 20 anos realmente não é uma tarefa simples. Putin e seus comandados criam embates, barreiras, contra qualquer tipo de ascensão política e ainda se fortalecem por uma oposição cada vez mais fragilizada. Em 2024, novas eleições estão marcadas na terra da segunda maior potência nuclear do planeta. Será que algo vai mudar?


Assim chegamos em Alexei Navalny que começou a andar pela política quando em seu blog, muito acessado, começou a denunciar irregularidades em empresas estatais russas e logo subiu em palanques e passou a ser o mais conhecido rosto opositor à Putin. Ele foi inclusive banido de concorrer as eleições em 2018 por uma suposta condenação criminal no passado. Proibido de se expressar nos principais meios de comunicações de seu próprio país, o carismático político, pai de dois jovens, em seu canal com mais de 13 milhões de seguidores, virou sensação no meio político mundial e uma enorme dor de cabeça para o governo de um um país com a expectativa de vida apenas na casa dos 60 anos.


O documentário, rodado em tempos recentes, foca na aliança de Navalny com um jornalista búlgaro que mora em Viena e investiga crimes na Rússia. Ambos passam por uma angustiante jornada quando uma tentativa de envenenamento de Nalvany é realizada usando Novichok, um poderoso veneno criado pelos russos faz mais de 40 anos atrás. Com essa informação nas mãos, Navalny e sua equipe investigam o envenenamento, sequência surpreendente que logo vira o clímax do documentário.


Será então essa uma batalha igual que vemos toda hora nos filmes? Entre um herói e um vilão? Entre o bem e o mal? Não é bem assim e aqui mora o calcanhar de aquiles desse vencedor do Oscar: não conseguir criar um recorte mais profundo desse impactante protagonista que tem seus méritos na corajosa luta contra Putin mas que já foi criticado até mesmo pela Anistia internacional  por tristes falas em seu passado.



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16/03/2023

Crítica do filme: 'John Wick 4: Baba Yaga'


O limite que chega até aos imbatíveis. Chega aos cinemas no dia 23 de março, filme mais longo do sucesso de uma sequência de filmes protagonizado por Keanu Reeves, John Wick 4: Baba Yaga com quase três horas de duração. A franquia criada pelo norte-americano Derek Kolstad dessa vez volta a bater forte os corações dos amantes de filmes de ação com referência à filmes de faroeste e intensas sequências que lembram dos bons filmes de ação dos anos 90! John Wick chegou em 2014 quase desapercebido e virou logo uma força nostálgica se tornando ao longo de suas sequências uma marcante história dentro do cinema de ação que será sempre lembrado, sendo esse o último, ou não, filme da franquia.


Na trama, voltamos a encontrar o anti-herói John Wick (Keanu Reeves) que dessa vez busca refúgio nos últimos amigos que lhe restam chegando a uma única solução que é a de enfrentar a organização que comanda o crime no mundo e da qual está jurado. Percorrendo o Japão, a França, o protagonista terá que enfrentar novos e enormes desafios como novos desafetos e antigos rostos conhecidos.


Ao longo do tempo, o universo John Wick foi só expandindo. E olha, sem perder a essência do personagem, criatividade não faltou! Os ótimos diálogos, que vem desde o primeiro filme, continuam consistentes nessa quarta jornada, abrindo sempre caminho para um foco total em torno do emblemático personagem mas sem deixar de instigar com um contexto cheio de variáveis conflitantes ligados principalmente a vilões (melhor chamar de antagonistas) que somam demais à trama.


O diretor de todos os filmes da franquia, Chad Stahelski, foi um belíssimo trabalho! Chad está em Hollywood faz tempo, fez carreira primeiro como dublê e inclusive foi quem completou as cenas do protagonista de O Corvo (1994) após a morte de Brandon Lee, com o rosto de Lee sendo inserido digitalmente na pós-produção.


Será hora de dizer adeus? John Wick 4: Baba Yaga, no mínimo é o fechamento de um enorme e muito bem realizado arco que começa no primeiro filme e vamos vendo seus desenrolares, e surpresas, ao longo de suas sequências.




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Crítica do filme: 'La Situación'


Quando o uso de uma desenfreada sequência de mal-entendidos deixa pra trás qualquer conceito, ou mesmo o brilho de seus personagens. Dirigido pelo Tomás Portella, cineasta com alguns trabalhos como diretor delongas e que também foi assistente de direção do ótimo filme Ensaio sobre a Cegueira, a comédia road movie La Situación não é pretenciosa, apenas se joga no objetivo de conquistar o público com sequências em busca do riso fácil. É uma opção. Essa fórmula pode conquistar alguns, outros não. O roteiro, escrito pela dupla Carolina Castro e Natália Klein, se acomoda em apresentar saídas rápidas para um clímax dentro de uma situação esquecendo de deixar pelo menos algumas migalhas de explicações mais profundas pelo caminho para entendermos por completo a história.


Na trama, conhecemos Ana (Natália Lage), uma mulher bastante infeliz tanto no pessoal quanto profissional que não vê muitas saídas para uma necessária rápida mudança em sua vida. Sua prima por parte de pai, a excêntrica Yovanka (Thati Lopes), pra completar, ainda insiste em passar mais alguns dias no apartamento dela. Certo dia, Ana recebe um aviso dizendo ser herdeira de terras na Argentina. Sem pensar duas vezes, ela embarca em uma road trip com Yovanka e a melhor amiga Letícia (Júlia Rabello), essa última uma mãe de três, consumida pela rotina e com o relacionamento um pouco estremecido com o marido.


A busca por uma inusitada herança se torna o pontapé inicial dessa trama que embarca em somatório de eventos que se seguem sem reviravoltas impactantes e sim mirabolantes. São muito forçadas as sequências de mal-entendidos, mais um fator que atrapalha o entendimento sobre o que é a história. As três mulheres, completamente diferentes, podem ser uma luz para quem busca se conectar com a trama através das personagens. Letícia, interpretada pela ótima Julia Rabello, é de longe a personagem que consegue expor mais camadas associativas com a realidade, uma mãe com enormes conflitos no casamento, no cotidiano em educar seus filhos, vê a viagem que se apresenta como um oásis onde exageros não são julgados. Acompanhar essa jornada pela ótica dessa mãe, como muitas do lado e cá da telona, pode ser interessante.


O desenvolvimento da história se torna limitado a encontrar logo ‘La Situación’ sem deixar respirar para o seu conceito (seja esse qual for). De forma análoga, é como se, pensando em um apartamento, o foco fique total em um objeto, ou algo nas linhas do abstrato, dentro de um quarto, sem tempo para conhecermos o resto da casa. Filmado no Uruguai mas ambientado na Argentina e também no Paraguai, o projeto estreia nos cinemas dia 23 de março.



 

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Crítica do filme: 'Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo'


As descobertas da vida a partir de inúmeros pontos de vistas. Um dos filmes sensações dos últimos anos no universo do cinema, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é engenhoso e ao mesmo tempo confuso, tendo uma criativa narrativa que insiste em não tirar o pé do acelerador em nenhum momento. Dirigido pela dupla Daniel Kwan e Daniel Scheinert, o projeto indicado para 11 Oscars, com diálogos em cantonês, mandarim e inglês tem seu foco no relacionamento conturbado entre mãe e filha, essa questão é ponto de intercessão de um roteiro que vai à fundo na teoria de que toda pequena decisão cria ramificações, outros universos, esbarrando no já batido conceito de multiverso. Superestimado? Sim! Demais! Mas o projeto tem seus méritos.


Na trama, conhecemos Evelyn (Michelle Yeoh), uma mulher consumida por sua vida totalmente sem tempo para ela mesma, com problemas com a receita federal, dividida entre o empreendimento da família nos Estados Unidos e as preocupações com a família. Mora com o pai, já na parte final de sua vida, o marido atrapalhado Waymond (Ke Huy Quan) e a filha Joy (Stephanie Hsu) com quem tem muitos problemas de relacionamento. Tudo não saia do lugar na sua monótona rotina até certo dia ser recrutada para enfrentar uma grande vilã dos multiversos e entender aos poucos melhor sobre questões que nunca imaginara.


Adepto de um ritmo frenético, do piscou perdeu alguma coisa, um dos filmes com maior número de indicações no Oscar 2023 é dividido em partes que deveriam deixar tudo menos confuso mas não é o que acontece. As questões físicas dos pensamentos em cima do saltos multiversais não ganham explicações nem os sentidos de conversas entre pedras, versões humanas com dedos de salsicha, talvez pelo abstrato mundo dos achismos nos aproximamos de alguma reflexão se pensarmos pela ótica da protagonista sobre o que teria acontecido se tivesse escolhido diferentes caminhos no passado.


A corajosa história busca alinhar o campo hipotético com razões sentimentais, com uma pergunta que se torna constante: Será uma questão de tempo até tudo desabar novamente? Os objetivos inacabados, os sonhos abandonados, a arte do cair e se levantar em um mundo muitas vezes cruel e cíclico entra em desconstrução para se buscar enxergar o lado bom das coisas. Aqui entra a variável mais importante da trama, os laços conturbados entre mãe e filha, o principal alicerce, a construção perfeita cheia de reflexões em todo lugar ao mesmo tempo.


Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo virou um dos filmes mais badalados dos últimos tempos, dentro de sua criatividade sem limites que encontra a confusão em um roteiro não tão certeiro mas que acha o brilhantismo no seu ponto mais fácil de entender, a força do amor de uma mãe por sua filha.  



 

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11/03/2023

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Pausa para uma série: 'Voo 370 – O Avião que Desapareceu'


Como é possível com a tecnologia de hoje um avião desaparecer e não ser mais encontrado? Tentando encontrar respostas para algumas perguntas que geram inúmeras interpretações, chegou nesse início de 2023 na Netflix a minissérie documental Voo 370 – O Avião que Desapareceu, dividida em três partes, que nos faz entender alguns pontos sobre uma inacreditável história sem conclusão que começou em um dia de março de 2014, quando, decolando de Kuala Lumpur na Malásia, em direção à Pequim, na China, um avião comercial marcaria para sempre a história da aviação mundial ao sumir menos de uma hora após decolar e nunca mais ser encontrado.


O documentário mostra a dor e sofrimento de muitos parentes que até hoje lutam por respostas satisfatórias dentro de uma investigação repleta de falhas, mistérios e que não foi nada transparente, inclusive gerando enormes protestos. Vemos depoimentos emocionados de pais e filhos que perderam pessoas queridas. O projeto abre o campo especulativo ao dar voz a jornalistas e estudiosos de vários campos que iniciam uma verdadeira maratona de investigação, alguns desses pegando caminhos repleto de pontas soltas.


Uma busca global sem trazer respostas. Com o caso sendo manchetes de todo o planeta, diversos países, principalmente os que estão próximos das possíveis rotas que o avião possa ter pegado iniciam buscam incessantes por terra e principalmente mar. Mas será que o raio de procura é o certo? As perguntas parecem se multiplicar conforme o tempo passa.


Qual foi o destino final do avião? Onde ele está? Quase dez anos depois do ocorrido, esse enorme quebra-cabeça parece ainda um caso sem solução. As teorias são várias, passando pela possibilidade do piloto ter provocado um suicídio coletivo, ou um sequestro ter ocorrido, ou até mesmo um conflito geopolítico por conta de equipamentos que poderiam chegar na China poderia ser a causa. Muitas dessas hipóteses, sempre especulativas de muitas dessas teorias da conspiração geram cada vez mais desconforto nos parentes das vítimas e críticas de quem acredita na sua teoria.


Mas qual será a verdade? Tudo é muito misterioso nesse caso. Será que ao longo dos próximos anos teremos alguma prova concreta do que aconteceu naquela noite de março com o Boeing 777, o MH370 da Malaysia Airlines? Será que ele foi em direção a parte sul do enigmático Oceano Índico? Será que ele foi abatido por questões de políticas internacionais? Será que houve um sequestro? Perguntas e mais perguntas se amontoam, nesse que é um dos mais misteriosos casos da aviação.



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10/03/2023

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Crítica do filme: 'A Farsa'

Quando nada é o que parece ser. Depois dos elogiados Monsieur & Madame Adelman (2017) e Belle Époque (2019), o ator e cineasta francês Nicolas Bedos volta para trás das câmeras em mais um trabalho pulsante onde as descontroladas emoções de complexos personagens se misturam em conflitos ligados ao desejo, à inveja. Exibido no Festival de Cannes, A Farsa começa em um tribunal após um suposto crime ter sido cometido, por meio de depoimentos vamos conhecendo melhor os integrantes dessa história cheia de reviravoltas.


Na trama, conhecemos Adrien (Pierre Niney), um ex-bailarino, agora gigolô profissional que mora com a ex-atriz Martha (Isabelle Adjani). Certo dia ele encontra um novo sentido na sua limitada vida no amor por uma linda trambiqueira Margot (Marine Vacth). Juntos, o casal planeja os detalhes e execução de um golpe no corretor de imóveis e ex-alcoólatra Simon (François Cluzet) que assumiu o controle total da empresa da família. Mas muitas surpresas vão chegar nesse caminho que traçaram.


O ritmo pulsante e os longos diálogos vão buscando decifrar as personalidades que são expostos em situações de conflitos seja por uma carência no lado amoroso, seja numa inconsequência desenfreada. Os relacionamentos passam por um enorme raio-x, o desejo e a falsidade viram fatores artificiais, as vezes com as mesmas leituras de ambas as partes envolvidas. Elogiando ambições, realizando desejos, as subtramas se embaralham de forma equilibrada levando a narrativa para uma série de plot twists que acabam sendo o grande alicerce do roteiro escrito também por Bedos.


A grande reflexão que o filme consegue gira em torno do encontro cheio de dilemas entre o ócio e a manipulação, uma junção de sentimentos que explora as vaidades, as contra verdades, em cenas profundas onde precisamos deduzir se as mentiras estão em todos os lugares ou não. Para dar vida a tudo isso, um elenco primoroso é a cereja no bolo dessa fita francesa que passou voando pelo circuito exibidor brasileiro e hoje está estacionado no catálogo da prime vídeo. 

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Crítica do filme: 'A Baleia'


Os olhares sobre uma escolha. Indicado para mais de 100 prêmios desde seu lançamento mundial, A Baleia, novo trabalho do cineasta e ex-frequentador da Universidade de Harvard Darren Aronofsky, é um filme que navega nas escolhas de um professor de inglês, que sofre com transtorno da compulsão alimentar e seu caminho para deixar um legado em laços corrompidos, principalmente com sua única filha com quem teve um relação sempre distante. Indo a fundo em uma melancolia durante suas quase duas horas de projeção, o projeto marca o renascimento de um artista muito querido por fãs e pela própria indústria cinematográfica, o indicado ao Oscar Brendan Fraser.


Na trama, conhecemos Charlie (Brendan Fraser), um professor que trabalha home office dando aulas online para alunos de um curso de escrita. Esse personagem é amargurado, com fortes problemas emocionais muitos desses causados por um forte perda no seu passado. Ele se encontra com quase 300 quilos, com grandes dificuldades de locomoção, e parece entregue, sem querer ajuda de hospitais ou médicos especializados. Sua única companhia é a enfermeira, e ex-cunhada, Liz (Hong Chau), talvez a única pessoa que ele escute nessa fase final da vida. Durante essa jornada que marca o provável desfecho de sua trajetória, outros personagens começam a entrar em seus dias, como o enigmático e vinculado a uma religião Thomas (Ty Simpkins), sua ex-esposa Mary (Samantha Morton) e principalmente sua filha Ellie (Sadie Sink). Com essa última, Charlie se esforça para resolver a complicada relação de pai e filha.


Baseado em uma peça teatral homônima, dramaturgo americano de 42 anos Samuel D. Hunter, A Baleia é um recorte introspectivo de um homem que escolheu chegar ao fim de sua jornada (algo parecido do que acontece no filme Despedida em Las Vegas) e tem como objetivo uma última redenção na relação conturbada com sua filha.  Falando abertamente sobre transtorno da compulsão alimentar, o roteiro parece que não alcança seu clímax por completo mesmo recheado de ótimas reflexões pelos pontos de vistas dos ótimos coadjuvantes que complementam demais as lacunas dessa jornada.


Aronofsky não é bobo, seu cinema é muito pensado, vemos por exemplo o uso explícito de suas ideias na maneira como o público recebe seu filme, partindo para a primeira reflexão na  relação entre a largura e altura de como foi filmado, um paralelo com as limitações de espaço que enfrenta o protagonista. Há também lacunas que o próprio olhar e sensibilidade do espectador acaba precisando preencher dentre os achismos que compõe as ações dos personagens.


Com 90% de suas cenas dentro de um apartamento e com um dedicado Brendan Fraser, que teve que vestir um traje protético pesado e foi ovacionado durante a exibição no Festival de Veneza, A Baleia concorre à três Oscars em 2023 com fortes chances de vitória para Fraser.



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09/03/2023

Crítica do filme: 'Pânico 6'


A fórmula que busca novidades mas vai se tornando cada vez mais entediante. Não há como negar que a franquia Pânico mudou o olhar do público em relação a filmes de terror deixando no posto de primeiro lugar os famosos filmes slasher. Desde meados da década de 90 vamos acompanhando mentes sombrias, em meio a marcantes metalinguagens, que colocam uma máscara e correm atrás de personagens sobreviventes de filmes anteriores. Nesse sexto filme de Pânico o roteiro se esforça em criar elos com outro filmes da franquia, mais uma marca de cada uma das sequências, mas o que chama a atenção no projeto dirigido pela dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett é o tom da violência, dessa vez somos testemunhas de um caótico cenário com sangue por todos os lados. Mesmo com um roteiro arrastado a produção não perde seu brilho.


Nesse primeiro filme da saga rodado todo fora dos Estados Unidos (as locações foram no Canadá), acompanhamos as irmãs Samantha (Melissa Barrera) e Tara (Jenna Ortega) e mais sobreviventes do último filme que resolvem se mudar de vez cidadezinha de Woodsboro para a badalada Nova Iorque em busca de paz. Só que obviamente isso não acontece e algum maluco com a máscara do ghostface volta a aterrorizar o grupo e dessa vez muito mais violento e com requintes de crueldade. Assim, o grupo de amigos se unem a novos rostos em busca da verdadeira identidade de mais esse assassino.


Tem reviravolta? Tem! Tem surpresas sobre quem é o assassino (ou assassinos)? Tem! Buscando serem mais criativos sem perder a essência da franquia, os roteiristas James Vanderbilt e Guy Busick transportam as ações para uma grande cidade onde a tecnologia instantânea está em todos os cantos, onde o ghostface se tornou preferência em época de halloween, onde a violência é mais impactante. Como em outras vezes, os motivos da vilania ditam o tom das ameaças e perseguições. Chama a atenção, como já mencionado, a extrema violência dentro do Modus operandi de quem usa a famosa máscara, até arma de fogo é manipulada. O clima de tensão é constante, a narrativa busca seu dinamismo nas reviravoltas, nas novas informações, mesmo que nessa página da franquia a obviedade ganhe um bom espaço.


A franquia busca aprender a seguir em frente sem seu principal rosto conhecido do público faz mais de 25 anos, a atriz canadense Neve Campbell que de acordo com informações contidas na ficha do filme no IMDB a causa da não presença dela nesse sexto filme foi devido a uma disputa salarial com a Paramount. Com Campbell ou não, a saga dos heróis contra os psicopatas que aparecem pelo caminho utilizando aquela famosa máscara segue em frente buscando novidades, tropeçando na obviedade, mas sem perder sua essência.



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07/03/2023

Crítica do filme: 'Remédio Amargo'


Quinto trabalho na direção de um longa-metragem na carreira do cineasta espanhol Carles Torras, Remédio Amargo busca mostrar as facetas de um psicopata, controlador, doentio, que após sofrer um grave acidente resolve destruir a vida das pessoas mais próximas a ele. A narrativa se joga num jogo amargurado e psicológico de um narcisista por completo repleto de ideias desarrazoadas, um vilão do início ao fim. Com algumas cenas muito forçadas, que fogem de qualquer razoabilidade quando trazemos paralelos com a realidade, o filme tem como único objetivo traçar seu recorte de uma mente perturbada.


Na trama, conhecemos o paramédico Angel (Mario Casas), um homem por volta dos 30 anos, que desde sempre não bate bem da cabeça, inclusive tem uma estranha obsessão em levar souvenires das vítimas que atende. Ele mora com a namorada, a ingênua francesa Vane (Déborah François) que divide o tempo em cuidar da casa e a faculdade de veterinária. Quando Angel sofre um grave acidente que o deixa paraplégico, a relação dos dois piora mais ainda e Vane resolve deixa-lo. Só que Angel não deixará essa situação ficar assim por muito tempo e começa a bolar planos mirabolantes para se vingar de todos ao seu redor.


Dono de um dos mais difíceis distúrbios mentais de detectar, principalmente para os que estão muito de perto envolvidos com tal indivíduo, a psicopatia é o alvo central dessa trama. O poder de manipulação, as facetas que escancaram o controle com a situação, a crueldade, a falta de consideração com o próximo, são algumas das características do insensível Angel. Sua trajetória aqui é restrita aos que estão ao seu redor, bolando maldades quando se sente prejudicado pelo acaso. Seja com o vizinho, com a namorada, com o amigo de trabalho, ninguém sai ileso dos encontros com ele.


Filmado todo em Barcelona, o projeto não consegue furar a bolha do seu alicerce, deixando as subtramas em ponto de espera quase sem nenhum desenvolvimento. Em alguns momentos, cenas forçadas enfraquecem a narrativa. Muito pouco para prender a atenção do público durante todo seu tempo de projeção.



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Crítica do filme: 'Entre Mulheres'


Os traumáticos absurdos para se chegar ao basta. Trazendo para o público reflexões sobre um choque de realidade, que envolve a fé, nascido através da violência cruel de homens contra mulheres, a premiada atriz e cineasta Sarah Polley apresenta um recorte de algumas mulheres  vivendo uma realidade ultraconservadora dentro de uma comunidade, que destrói qualquer ideia de modernidade no seu cotidiano, inclusive onde as mulheres não podem aprender ler, que precisam decidir em pouco tempo como buscar um futuro melhor para elas e seus filhos. Baseado na obra Women Talking da escritora canadense Miriam Toews, e indicado à dois Oscars em 2023, nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, Entre Mulheres é um filme urgente, importante e impactante.


Na trama, ambientada em 2010, conhecemos um grupo de mulheres de uma comunidade religiosa menonita que se reúnem de forma urgente para decidir sobre as opções para seus futuros após serem vítimas de abusos sexuais, sedadas e estupradas por homens dessa mesma comunidade. Elas precisam decidir se fogem ou ficam e lutam antes que os seus agressores voltem.  A história do filme se baseia nos fatos reais relatados no livro de Towes, ocorridos na colônia de Manitoba, uma remota comunidade menonita aqui na América do Sul, na Bolívia, mesmo que na adaptação cinematográfica não seja revelada sua localização.


Como transformar a dor em combustível para mudanças? As visões de mulheres de todas idades são muito bem detalhadas nesse importante projeto. Vemos os sonhos, as desilusões, a angústia, o sofrimento, as dúvidas, os entendimentos sobre a fé, o medo, pelos olhos delas. A questão da fé é muito presente, o choque da realidade em relação ao que acreditam e os absurdos que viveram contornam a narrativa com argumentos expostos em intensos diálogos ao longo de quase 110 minutos de projeção.


Há uma traição da fé por conta do entendimento de pacifismo? Os dilemas são inúmeros, o ódio pelo conhecido e o embarcar no desconhecido se chocam nos medos e dúvidas sobre a única casa que elas já conheceram. Como todo bom filme, há muito nas entrelinhas. Tendo a canção Daydream Believer em sua trilha, que aqui bate na tecla do sonhar acordado a partir do basta para sair de uma situação absurda, a destacada trilha do filme é composta pela artista islandesa Hildur Guðnadóttir que também compôs a trilha de Tár, outro filme concorrente em algumas categorias no Oscar desse ano.


O público não desgruda um minuto do que assistimos na tela, Entre Mulheres é um tocante filme, profundo, que mostra mais um capítulo nos absurdos cometidos contra mulheres. Um enorme e incansável grito de BASTA!



 

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03/03/2023

Crítica do filme: 'Coração de Neon'


Um sonho meu e seu nos torna mais felizes só de pensar. Chega do sul do país para as telonas de todo o Brasil, a partir do dia 09 de março, um profundo projeto que traz o choque da utopia contra a realidade de um choro engasgado, um peito apertado. Tendo um corcel antigo, todo enfeitado, como ferramenta de trabalho, uma família de dois que declamava o amor, se vê com o integrante que resta vivendo no caos emocional imposto por uma tragédia, um momento onde até as lembranças se tornam tristes. Escrito, dirigido e protagonizado por Lucas Estevan Soares, o projeto independente (sem depender de financiamentos ou leis de incentivo, bancado pelos próprios produtores) Coração de Neon busca mostrar os duros momentos entre um sonho, o fundo do poço e o recomeço. 


Na trama, ambientada em Curitiba, conhecemos Laudércio (Paulo Matos) e Fernando (Lucas Estevan Soares), pai e filho que são a sensação do bairro do boqueirão, um dos mais famosos da capital paranaense, por serem os  donos do 'Boquelove' um carro de mensagens de amor muito solicitado na região. Ambos tem o sonho de ir para Estados Unidos ganhar a vida por lá. Certo dia, uma tragédia acontece: Laudercio é morto por um sargento da polícia, machista, violento, que pensou que ele era amante da sua esposa Andressa (Ana de Ferro). Após a tragédia, conta com a ajuda do melhor amigo Dinho (Wawa Black), mesmo assim Fernando muda sua forma de enxergar o mundo, transformando sua antiga realidade otimista em um cotidiano com sentimentos conflitantes.  


Utopia contra a realidade. Quando a dura realidade pode atingir até mesmo os corações mais felizes. Imagine você viver do que ama, unindo arte e cultura em forma de flechadas românticas, sendo a ponte de uniões de corações apaixonados. Fernando e Laudércio vivem assim faz anos, fato que transforma o sonhar em comum quase que numa necessidade dentro de uma utopia que levam seus dias. A abrupta interrupção dessa rotina causa em Fernando as dores que desconhecia, traz para perto a dureza de agora estar sozinho e em um poço sem fundo, onde pensamentos ruins batem com desespero no seu coração que antes era cheio de ternura. O roteiro costura muito bem as diferentes maneiras que seu protagonista vai enxergar o mundo nessa jornada.


O sonhar é algo que percebemos ser o fio intercessor que compõe toda a narrativa. Mas também há espaço para reflexões sobre família, amizade, além de críticas sociais, violência doméstica e contra a mulher. Os recomeços por aqui é onde se juntam as subtramas, que mesmo em alguns momentos não muito bem amarradas no roteiro, nos apresentam diferentes formas de entender o trauma, de passar pelo conflito. Coração de Neon é um potente drama, que de forma simples, nada inventiva, apresenta seus fatos e desdobramentos da quebra de uma utopia e a descoberta de outras maneiras no saber viver.


Obs: Legal a homenagem nos créditos finais a todos os integrantes da equipe, batalhadores do audiovisual brasileiro, que trabalharam nesse filme!




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Crítica do filme: 'Esta noite, Você Dorme Comigo'


O que é suficiente para você se sentir vivo? Deixando um rastro de reflexões sobre relacionamentos, o drama polonês Esta noite, Você Dorme Comigo desenha sua narrativa nos dilemas de uma mulher de meia idade que passa por problemas no casamento e precisa lidar com o retorno de um grande amor. A variável tempo é importante no contexto dessa história, camuflado de filme água com açúcar, a narrativa adentra uma tormenta de emoções de forma bastante inteligente. Não dá para entender a nota tão baixa do IMDB (até o momento em que esse texto está sendo escrito) desse projeto bem dirigido por Robert Wichrowski e com roteiro assinado por Anna Janyska e Anna Szczypczynska.


Na trama, conhecemos Nina (Roma Gasiorowska), uma organizada jornalista que precisar fazer o malabarismo de sua agitada vida lidando entre questões do trabalho e a educação de suas duas filhas. Ela é casada com Maciek (Wojciech Zielinski), um pai ausente, machista, que joga todas as obrigações na criação dos filhos em cima da esposa. Nina se encontra em um momento muito infeliz no casamento quando de repente reaparece em sua vida Janek (Maciej Musial), um antigo amor que voltou da Holanda após 10 anos e foi parar no mesmo trabalho que ela. Assim, Nina precisará decidir seu futuro. 


O foco é todo nessa esperança da mãe de duas filhas pequenas, infeliz, voltar a enxergar lapsos de felicidade através do amor. Simpático, dinâmico, o filme busca nas entrelinhas as respostas para os mais profundos sentimentos, inclusive traçando alguns paralelos. Por exemplo: as flores, tão citadas em muitas cenas viram a forma de citar o romantismo adormecido, estático, de uma mulher que está em um presente infeliz, não se sentindo amada. 


Quando chegamos na questão do dilema, de forma nada rasa somos apresentados a argumentos através do que enxerga a personagem além de uma troca de experiências com os pais dela, que dão mais peso na definição do que é família, escolha, amores. O peso da consciência é um ponto que também logo chega, afinal deixar a vida confortável que leva sempre na esperança de resgate do fogo da paixão com o distante marido por um outro relacionamento do qual já tentou fugir no passado a coloca em uma estrada onde só pode embarcar em um cenário.


Esta noite, Você Dorme Comigo é mais profundo do que aparenta, suas peças se encaixam para decifrar o abstrato universo do amor na visão de uma mulher em estado de abatimento moral. O desfecho é interpretativo, aberto. Qual caminho que ela tomou? Corre na Netflix e busque a resposta.




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02/03/2023

Crítica do filme: 'Meu Nome é Chihiro'


Se você quer saber quem é, é preciso olhar nos olhos. Indo na contramão de um aparente vazio existencial, explorando os encontros com diversos personagens de uma ex-acompanhante que trabalha numa tenda de bentô (marmita japonesa levada para viagem), Meu Nome é Chihiro apresenta um recorte sobre a importância dos recomeços. Com seu ritmo candenciado, com longas pausas para reflexões existenciais, o longa-metragem dirigido pelo japonês Rikiya Imaizumi chegou ao catálogo da Netflix nesse início de 2023.


Na trama, conhecemos Chihiro (Kasumi Arimura), uma jovem cheia de energia, leitora de mangá, que faz a diferença na vida de muitas pessoas, com simples gestos. Ela abandonou a vida como acompanhante em uma casa de massagens para trabalhar num pequeno estabelecimento em uma região litorânea japonesa. Parece se dar bem nesse recomeço na vida, exala alegria por onde passa mas por dentro as reflexões do passado se juntam a histórias de muitos personagens que vão cruzar seu caminho ao longo das pouco mais de duas horas de projeção.


A protagonista é um grande enigma, mas se encaixa mesmo como uma alegoria da solidão mesmo aparentemente sendo uma inimiga dessa mesma atmosfera. Há uma melancolia camuflada de ternura. Nômade em busca de respostas de sua própria identidade, se compromete a ajudar quem for que precise como se a cada resolução de conflito fosse uma resposta que ela precise para seguir no seu caminho. O exercício de tentar compreender a personagem nos leva a reflexões com paralelos sobre a relação humana.


A narrativa não deixa de ser dinâmica. Reflexões sobre a vida e a morte se tornam constantes e mesmo sem conhecer por completo o passado de Chihiro aos poucos vamos entendendo melhor sua história. Rodado todo em Hiroshima, cidade essa destruída por uma bomba atômica na Segunda Guerra Mundial, aos poucos vamos entendendo que essa história é sobre as maneiras que podemos enxergar a arte de recomeçar pelos olhos de uma dona de um vazio, uma solidão nada aparente. 



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