05/04/2023

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Crítica do filme: 'Dungeons & Dragons - Honra Entre Rebeldes'


Escolha seu jogador e comece a aventura! Baseado em um dos mais renomados jogos de RPG, criado por Gary Gygax e Dave Arneson na década de 70, o aguardado longa-metragem de aventura e comédia Dungeons & Dragons - Honra Entre Rebeldes é um empolgante projeto que usa da nostalgia como aliada em uma narrativa dinâmica que apresenta um grupo de heróis desajustados que precisam lutar para manter o equilíbrio do mundo onde vivem. Dirigido pela dupla John Francis Daley e Jonathan Goldstein, ambientado no universo fictício que também foi publicado como cenário para várias edições do famoso jogo de RPG, Dungeons & Dragons - Honra Entre Rebeldes deve agradar públicos de várias gerações.


Na trama, conhecemos o carismático ladrão Edgin (Chris Pine) que viveu toda sua vida dando pequenos golpes ao lado de sua companheira de aventuras Holga (Michelle Rodriguez) até que um dia precisa largar a família para mais uma jornada e acaba sendo preso por algum tempo. Quando consegue sair dessa prisão, a dupla de aventureiros embarca em mais uma aventura, agora ao lado de outros novos amigos, em busca de uma relíquia que está nas mãos de pessoas que querem criar o caos no mundo onde eles vivem.


Quarto projeto audiovisual oriundo do mundo Dungeons and Dragons e ambientado no mesmo período de tempo e universo que os famosos heróis do desenho Caverna do Dragão (como valida uma cena desse mesmo filme), Dungeons & Dragons - Honra Entre Rebeldes caminha numa linha tênue entre a comédia e a aventura com camadas superficiais de desenvolvimento dos personagens mas com um carisma que chama a atenção, visto em todas as cenas.  Mas afinal, é uma paródia de filme de fantasia? Não! A fórmula é muito bem construída, com dinamismo que empolga. Você nem enxerga as mais de duas horas passarem!


Aqui, igual ao jogo de tabuleiro, a ideia de escolher um personagem e seguir a narrativa pelos olhos e conflitos do mesmo se torna algo lógico mas obviamente sem perder a objetiva contextualização. Com filmagens na Irlanda do Norte e na Islândia, rodado entre abril e agosto de 2021, Dungeons & Dragons - Honra Entre Rebeldes finalmente chegou aos cinemas de todo o mundo nesse primeiro semestre de 2023 e promete levar multidões aos cinemas!



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Pausa para uma série: 'Marinheiro de Guerra'


Um lugar onde ninguém queria estar. Em mais uma produção que traz recortes sobre o caos do maior dos conflitos da humanidade, o projeto norueguês Marinheiro de Guerra mostra a visão de participantes involuntários da Segunda Guerra Mundial, homens e mulheres que foram obrigados a estarem no conflito quando navios mercantes ficaram sob o comando da coroa norueguesa, servindo aos aliados nas frentes de batalhas. Escrito pelo norueguês Gunnar Vikene, Marinheiro de Guerra também abre espaço para a visão em terra das famílias e tudo que precisaram passar, com muita dificuldade, sem dinheiro e sem notícias dos parentes. Esse projeto marca mais uma página nos horrores da grande guerra.


Lá fora lançado como filme de quase três horas, aqui no Brasil virou uma minissérie com três capítulos, inclusive foi o indicado da Noruega ao último Oscar, Marinheiro de Guerra segue a trajetória de Alfred (Kristoffer Joner) um homem trabalhador que mora com a esposa e os três filhos na cidade de Bergen, na Noruega. Com dificuldades de conseguir emprego em terra, e contando com a ajuda do melhor amigo Sigbjørn (Pål Sverre Hagen), resolve embarcar em um navio mercante, onde fica responsável pela cozinha, mesmo com receio de ir par ao mar pois o conflito da Segunda Guerra Mundial já está em pleno vapor por mais que seu país, até aquele momento, não estivesse em guerra. Só que, alguns meses após seu embarque, quando Alfred e seus novos amigos estão no meio do oceano atlântico, a Alemanha invade a Noruega. Nesse cenário, eles são obrigados a estarem em embarcações que vão para frentes de batalhas e presenciam mais fortemente dias nebulosos além de viverem traumas inesquecíveis. Em terra, a esposa de Alfred, sem notícias dele, busca seguir em frente.


A coragem de fugir do medo. A contextualização de uma época de conflitos intensos na Europa é muito bem feita em todos os três episódios. Mesmo sem explicar a fundo o porquê da invasão alemã ao território norueguês (que foi pelo minério de ferro, fato explicado bem melhor em outra produção da Netflix, Narvik) seguimos a história pela visão desses participantes involuntários. Vemos diversos dilemas que vão desde salvar ou não um alguém no meio de um conflito, os pensamentos de deserção e suas consequências, a agonia de estarem expostos e sem treinamento militar o que os torna um alvo certo dos perigosos submarinos alemães, a saudade da família. Passando por Liverpool, Malta, Nova Iorque, Canadá, e a cada novo porto que conseguiam chegar, o protagonista e seus companheiros  refletem sobre o que fazer e se voltariam para seus lares como as mesmas pessoas de quando embarcaram, drama que milhares de pessoas passaram nessa época de caos e desespero.


O projeto abre um espaço também para a visão da guerra por quem ficou em Terra, aqui na visão da família de Alfred. Sua esposa Cecilia (Ine Marie Wilmann) cuida dos três filhos, já com a Alemanha em território Norueguês, sofre com as incertezas, o aluguel atrasado e terrores de bombardeios constantes ainda na cidade natal deles, Bergen. Com o tempo que passa, essa parte da família de Alfred ganha novos holofotes quando Sigbjørn involuntariamente se torna um vértice de um improvável triângulo amoroso. Nesse surpreendente ponto, o projeto encosta em um forte dilema, visto em alguns filmes, como no longa-metragem Brothers da cineasta dinamarquesa Susanne Bier.


Marinheiro de Guerra está no catálogo da Netflix, se você curte recortes sobre a Segunda Guerra Mundial, esse projeto tem muito a oferecer ao seu refletir.



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04/04/2023

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Crítica do filme: 'Vagão nº6'


Os laços que nascem através das mais diversas conexões. Baseado na obra homônima da antropóloga e escritora Rosa Liksom e dirigido pelo cineasta finlandês Juho Kuosmanen, Vagão nº6 aborda o inusitado encontro de dois estranhos e suas formas de entender a vida e, numa pegada Junguiana, como podem reagir ao confronto imposto pelo destino através da conexão com outras pessoas. Exibido no Festival de Cannes em 2021, na Mostra de SP e representante da Finlândia ao Globo de Ouro e ao Oscar 2022, o filme é uma jornada repleta de conflitos rumo às respostas que os personagens muitas vezes nem sabem de quais perguntas. Uma história de amor? Uma história de amizade? Peças que de tão diferentes se encaixam? A interpretação para a relação que vai se estabelecendo entre essas duas almas, que parecem completamente opostas a princípio, fica aos olhos do espectador.


Na trama, conhecemos Laura (Seidi Haarla), uma estudante finlandesa que mora em Moscou e se vê desolada com o não avanço amoroso na relação de uma amizade colorida de longa data. Se sentindo sozinha e deslocada com um alguém que não quer compromisso sério com ela, resolve embarcar sozinha, numa viagem de quase 2.000 Kms, de Moscou até Murmansk, lá perto da fronteira com a Finlândia e a Suécia. Durante a viagem, ela precisa dividir o pequeno vagão do trem com Ljoha (Yuriy Borisov), um atrapalhado mineiro russo que está indo à trabalho para o mesmo destino dela. Assim, essas duas almas entrarão em conflitos mas também observarão conexões que podem fazê-los entender um pouco mais sobre a vida.


O roteiro é muito inteligente em traçar um paralelo com o círculo polar ártico, região onde é o destino da protagonista, um lugar com pelo menos um dia completo na escuridão durante o inverno e um com luz por 24 horas durante o verão. Os paralelos aqui vem das duas personalidades que dividem o mesmo espaço com um foco maior em Laura que se vê presa num relacionamento em Moscou que só existe aos olhos dela. Ljoha é uma enigmática variável nessa história, conhecemos seu jeito meio bronco através do seu cotidiano já no destino final e a maneira como enxerga as possibilidades num mundo muito limitado ao trabalho. Alguns dos pilares do cinema, a imagem e o movimento, aqui encontra-se em sacadas interessantes do diretor que nos leva para o foco naquele interior de cabine que é onde os conflitos mais se estabelecem.


No campo abstrato das conexões humanas, chegamos na camada mais profunda de reflexão desse curioso longa-metragem. Vagão nº6 nos faz pensar sobre os encontros e desencontros além da maneira como podemos lidar dentro dos conflitos que podem se estabelecer. Uma interpretação é a reação e a transformação que acontece de qualquer encontro, para o próprio indivíduo, através da dor do outro, dos sonhos, dos objetivos pessoais estimulam o rompimento de uma bolha egoísta e o embarque em uma maior compreensão emocional. Veja o filme e reflita você também.


 

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Crítica do filme: 'Kill Boksoon'


A violência e a ternura misturados num liquidificador. Exibido no Festival de Berlim do ano passado, o longa-metragem sul-coreano, diretamente lançado na Netflix, Kill Boksoon nos leva até a história de uma mulher que vive da violência como seu ganha pão e em seu presente enfrenta um enorme conflito existencial já que na vida pessoal enfrenta uma luta onde sempre perde, no relacionamento conturbado com a filha adolescente. Escrito e dirigido pelo ator e cineasta sul-coreano Byun Sung-hyun, o projeto é recheado de camadas profundas, ironias do mundo, cenas de ação de tirar o fôlego, duelos entre mestre e aprendiz, tudo que um bom filme de ação pode oferecer e com uma narrativa que vai do conflito ao clímax com ótimo desenvolvimento, deixando muitas vezes a violência em segundo plano para dar espaço a conflitos maternais.


Na trama, conhecemos uma impecável, e já experiente, matadora de aluguel chamada Gil Boksoon (Jeon Do-yeon), uma verdadeira lenda na organização que trabalha sem nunca ter falhado em uma única missão sequer. Ela é mãe da adolescente Gil Jae Yeong (Si-ah Kim), uma jovem que passa por alguns conflitos na escola por conta de sua sexualidade. Para a filha, Gil diz que trabalha em uma empresa de organização de eventos. Ambas vivem em um luxuoso apartamento e tem uma vida muito confortável. As duas tem uma relação complicada no presente, o que deixa Gil em grande conflito. Quando as coisas começam a dar errado no seu trabalho, ela se vê envolvida em uma cilada onde precisará encarar as consequências de seu atos a partir disso com o seu ex-mentor e dono da empresa de assassinos de aluguel Cha Min Kyu (Sol Kyung-gu).


Será que até a melhor faca fica cega com o tempo? Partindo da crise existencial de uma protagonista que não consegue anteceder os passos no relacionamento com a filha, Kill Boksoon é um filme que tem um arco introdutório dúbio mas logo as peças se encaixam. Então, paciência num primeiro momento é importante! Talvez seja pela troca de perspectiva, não é um filme onde a ação rola solta cheia de diálogos na linha da ironia. Tem isso tudo mas uma camada, ligada à maternidade, vai nascendo e se torna a base dos conflitos. O roteiro é muito bem escrito, vemos claramente uma definição dos conflitos que são bem desenvolvidos através da ótima construção dos personagens.


Violento sem perder a ternura jamais. Os laços aqui vão desde a relação entre mãe e filha, até mentor e aprendiz, ou mesmo na linha do ‘amigos, amigos, negócios à parte’. Sim, o projeto é também sobre laços que se quebram ou podem se quebrar! Se aprofundando no primeiro ponto, o conflito que mais se estabelece, encontramos a protagonista confortável na perigosa profissão que escolheu, só que essa perspectiva muda completamente quando está em casa e tenta uma relação mais próxima com a filha. Isso há coloca em conflito, dentro de um dilema: se larga ou não a vida que leva por conta da filha.


Kill Boksoon não perde um segundo sua essência de filme de ação, mesmo ficando em segundo plano em alguns momentos. As cenas, muito bem dirigidas, devem empolgar o espectador. Com as duas facetas modeladas em um roteiro engenhoso, a do lado da violência e a do lado da ternura, quem ganha é o espectador.



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03/04/2023

Crítica do filme: 'Rye Lane: Um Amor Inesperado'


Um dia muito especial. Em seu primeiro longa-metragem da carreira, a cineasta de 33 anos, Raine Allen-Miller, traz aos olhos do público uma narrativa dinâmica, inteligente, pulsante, atual, que aborda as desilusões amorosas por meio de dois personagens que estão se recuperando de términos recentes. Escrito pela dupla Nathan Bryon e Tom Melia, Rye Lane: Um Amor Inesperado é cativante, com diálogos memoráveis, faz refletir sobre conflitos de muitos, em muitas idades, sem perder o ritmo contagiante tendo como plano de fundo a parte de Londres que fica ao sul do rio Tâmisa.


Na trama, conhecemos Dom (David Jonsson) e Yas (Vivian Oparah), dois jovens que se encontram de forma inusitada, numa galeria de arte e resolvem sair daquele lugar e irem andando pela cidade onde moram. Aos poucos vamos conhecendo essas duas almas. Dom é um jovem desiludido, até mesmo depressivo, abalado profundamente pelo término de um relacionamento onde descobriu por meio de uma foto que seu melhor amigo o estava traindo com sua namorada. Contador de profissão, tem uma paixão por música. Já Yas é super alegre, com uma energia contagiante. Ela tem o sonho de ser figurinista e também está passando por um recente término de relacionamento com feridas ainda em aberto. Essas duas almas vão buscando entender um ao outro enquanto se conhecem melhor.


Situações de relacionamentos passados contornam esse dia especial. O pontapé da história, e onde a narrativa mantém sua base, é o complexo universo dos términos de relacionamentos. Nesse mundo tão instantâneo em que vivemos, onde a informação aparece por todos os lados, as dores e conflitos de um término se tornam cada vez mais incômodas quando pensamos na nossa privacidade. Quando não temos alguém para dividir mais profundamente o que estamos sentindo, tudo fica maior. Nessa parte, a do desabafo, é onde esse filme consegue jogar sua âncora nos fazendo a seguinte pergunta: como alguém tão diferente de mim consegue me entender tanto? Mas depois, outra é logo feita: Mas será que esse outro alguém é tão diferente de mim?


Em menos de uma hora e meia de projeção um leque de reflexões aparece em nossa frente, seja para mostrar a vida ao sul de Londres, seja para conhecermos gostos e conflitos dos carismáticos personagens. Há tempo também do roteiro falar sobre imigração, assunto muito debatido em todo o mundo. Nesse ponto, conhecemos um pouco mais sobre Brixton, bairro ao sul de Londres, um lugar com muitos descendentes de jamaicanos.


Com participação especial de Colin Firth (em uma cena rápida e bem engraçada), esse projeto lançado diretamente no streaming da Star Plus aqui no Brasil, é um filme contagiante, com personagens carismáticos, que reflete sobre as dores dos amores mas também abre uma janela de esperança de que mesmo quando tudo parece perdido, sempre há alguém para se encontrar por esse mundão.



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01/04/2023

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Crítica do filme: 'Tetris'


A criatividade para todo o mundo. Nos tempos dos primeiros Game Boys, da toda poderosa Nintendo, na época da União Soviética, que considerava os EUA como inimigo número um (até hoje, né?), um engenheiro de computação russo criou em poucos dias um jogo super interessante que se tornaria epicentro de uma disputa comercial enorme envolvendo burocracias legais e conflitos geopolíticos. Tetris, dirigido por Jon S. Baird e roteirizado por Noah Pink, fala sobre a criação desse famoso jogo e a luta de seu criador e um holandês, empresário do ramo de jogos, para que o jogo ganhasse o mundo.  


Na trama, toda rodada na Escócia, conhecemos Henk Rogers (Taron Egerton), um ex-programador e depois empresário do ramo de jogos eletrônicos. Ele é holandês, criado nos Estados Unidos, que conheceu a esposa em uma universidade do Havaí e foi morar em Tóquio com ela, abrindo sua empresa lá. Durante uma feira de jogos, consegue (ou pelo menos acha que) a licença para consoles e Pcs no Japão de um jogo que viria a ser uma enorme sensação em todo o mundo: O Tetris. Só que logo ele percebe que não era algo fácil assim e embarca em uma história onde seu destino irá se confrontar com o regime russo da época, empresários gananciosos de Londres mas ele contará com a ajuda do criador do jogo, o engenheiro de computação Alexey Pajitnov (Nikita Efremov).


Nos tempos do assembler, pascal, C, essa curiosa história começa em 1988, em meio a época de liderança de Mikhail Gorbatchov, por isso é importante uma forte introdução, fato que o roteiro busca fazer em partes. Com a tecnologia e o avanço do consumo dos jogos eletrônicos sendo enxergadas como uma mina de ouro, um futuro próspero, para quem estivesse nesse segmento. Henk busca ser um visionário do setor mas investe em projetos falidos tendo quase sempre problemas com seus financiadores (como muitos na época). Quando navega no mundo obscuro das burocracias soviéticas, se vê em conflito com a forte pressão do governo russo que enxerga no potencial jogo uma maneira do capitalismo invadir com força seu território.


Combinação da palavra ‘quatro’ em grego com um simples jogo de tênis (esporte que o criador do jogo adorava), o Tetris a princípio foi desenvolvido como um passatempo de um ótimo programador russo que passava por disquetes aos amigos versões do jogo. Ele trabalhava no centro de informática soviético, um lugar controlado muito rígido com informações controlado 100% pelo governo. Esse jogo, que viria a ser o mais vendido da história dos games, sendo superado somente em 2020 pelo Minicraft, se tornou a franquia de jogos mais vendida no mundo depois do Mario com mais de meio bilhão de cópias vendidas. O filme Tetris vem trazer à luz os bastidores desse sucesso e principalmente toda a luta inicial para o jogo sair da restrita União soviética e ganhar o planeta.


Com filmagens iniciadas em dezembro de 2020 e com diversas licenças poéticas, mesmo o roteiro sendo lido pelos personagens reais, a narrativa consegue ser dinâmica, empolgante, unindo a fantasia de uma produção cinematográfica com fatos chaves que aconteceram na realidade. Dezenas de portas que se abrem nessa fantástica história que une criatividade, jogos, negócios e geopolítica.



 

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Critica do filme: 'Criminoso ou Inocente: O Caso Big Mäck'


Aquilo que foi dito pode ser de fato o que não é. Lançado em janeiro de 2023 na Alemanha, esse projeto, made for Tv, que ganhou espaço no catálogo da Netflix nesse início de abril, nos mostra a mirabolante vida e os conflitos de Donald Stellwag, um homem que ficara preso por quase 10 anos por um crime que não cometeu e anos mais tarde fora novamente acusado de um outro crime que pode ou não ter cometido. Dirigido pelo trio: Fabienne Hurst, Andreas Spinrath e Facundo Scalerandi, o documentário se divide em três arcos, o primeiro roubo, o segundo roubo e um raio-x geral sobre os bastidores da vida dessa figuraça que conseguia convencer todos ao seu redor (não importando o lugar onde estivesse). Uma vida que realmente merecia um filme!


Criminoso ou Inocente: O Caso Big Mäck nos mostra grande parte da vida de um homem que teve muitas profissões e foi epicentro de situações curiosas. Filho de um norte-americano e uma alemã, seus pais morreram quando ele era muito jovem e ele foi criado pelos avós maternos no interior da Alemanha. No início da fase adulta, descobriu dois tumores cerebrais, fato que o deixou limitado e amargurado por um bom tempo. Sua vida ganharia um roteiro digno de cinema quando na cidade de Nuremberg, no início da década de 90, mais de 50 mil marcos alemães foram roubados de poderoso banco alemão por um homem sozinho que fugiu num táxi após o delito. Donald foi acusado do crime e mais, inacreditavelmente sua condenação fora feita por um laudo de um perito baseado na semelhança de uma de suas orelhas por comparação as fotos do dia do crime. Ele passou quase 10 anos preso e logo após ser solto, descobriu que a polícia achou quem realmente cometeu o crime.


O documentário mostra com detalhes a questão do primeiro julgamento e todo seu desenrolar até a liberdade de Donald. Vítima de um erro judicial que colocou em mudanças determinadas questões na jurisdição alemã, ele foi atrás de seus direitos sendo indenizado pelo tribunal pelo erro cometido. Mas logo depois, um segundo crime é cometido por um rapper famoso, que acusa Donald de estar envolvido. Nesse segundo caso, o documentário apresenta versões de fatos que colocam em dúvida se ele participou ou não da tal situação.


Golpista mas também vítima? Uma batalha interna entre o bem e o mal? Definir um raio- do protagonista desse documentário é algo muito complexo. Através de conhecidos dele, durante fases de sua vida, vamos entendendo que Big Mäck é uma figura central de várias histórias, além de ser um aumentador de suas próprias façanhas. Aproveitando a fama após a justiça reconhecer o erro de sua condenação, frequentou todos os programas sensacionalistas da televisão alemã se tornando uma figura conhecida por todo o país. Mas será ele um malabarista na arte do enganar? Em uma hora e meia de projeção vamos buscando decifrar esse personagem intrigante da história alemã.



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Crítica do filme: 'O Som do Caos'


Quando a narrativa não chega a lugar algum. Chegou ao catálogo da Netflix nas últimas semanas um filme belga que é uma verdadeira confusão quando pensamos em narrativa, com um roteiro cheio de falhas, até mesmo sem sentido. Dirigido por Steffen Geypens, somos convidados a conhecer a abrupta mudança de personalidade de um viciado em redes sociais, um influencer de quase 200.000 seguidores, que parece lutar para não lembrar de situações do passado. Com um esforço, pode refletir sobre traumas e gatilhos mesmo tudo sendo embaralhado de uma forma decepcionante.


Na trama, conhecemos Matthias (Ward Kerremans) um empreendedor digital que parece a todo instante forçar uma rotina em torno de ser um super pai para ganhar likes no seu instagram. O pai dele, um ex-administrador e dono de uma fábrica química, mora em um asilo próximo do lugar que o protagonista volta a morar (e que não visitava desde a infância), dessa vez com a esposa Liv (Sallie Harmsen) e o filho recém-nascido. Aos poucos, algumas informações sobre essa tal fábrica começam a aparecer na frente de Matthias e o mesmo acaba embarcando em uma investigação solo que o leva à uma obsessão profunda. Nesse caminho, acompanhamos um pouco da visão da esposa em relação a tudo isso, em uma luta para trazer de volta à realidade seu companheiro.


O gatilho como porta de entrada para a loucura. O protagonista e suas rupturas com a realidade, nos levam a pensar sobre os limites da mente humana. A sua obsessão em descobrir verdades escondidas de sua família, causam dor e sofrimento, impactando pra sempre seu casamento. Um enorme efeito dominó! O espectador fica que nem a ótica da esposa, completamente perdido nas maluquices que o marido começa a desenvolver. A chegada desse mistério na vida de Matthias até tem uma construção inicial bem desenvolvida, através da nada amistosa recepção dos moradores do local, como se eles soubessem de algo grave que acontece num passado distante mas que marcou para sempre os habitantes aquela comunidade.


O desenvolvimento do roteiro é confuso, não consegue criar o clímax para mostrar a situação de maior conflito do protagonista nem mesmo ambientar para o espectador um contexto geral daquela história. Tudo é raso, com resoluções ambíguas, personagens confusos e um final pra lá de enigmático que vai gerar diversas interpretações. Mas sobre o que é essa história? É sobre alucinações? Ansiedade? Gatilhos do passado? Tudo é muito desequilibrado, como se jogássemos um quebra-cabeça onde percebemos em algum momento que estão faltando peças.



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30/03/2023

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Critica do filme: 'Bar Esperança, o Último que Fecha'


Lançado no início da década de 80, um dos grandes clássicos da comédia brasileira, Bar Esperança, nos leva até os saudosos tempos da clássica boemia carioca. Falando sobre diversos assuntos que vão desde os bastidores do cenário artístico da época até mesmo a causa indígena, passando por um recorte de uma crise conjugal, o longa-metragem dirigido e protagonizado por Hugo Carvana tem um elenco maravilhoso com destaque para a outra protagonista, a fabulosa e inesquecível Marília Pêra. De Caetano à Gretchen, a trilha sonora também ganha destaque dentro de uma empolgante narrativa.


Vencedor de vários Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, Bar Esperança nos leva a um badalado estabelecimento no número 39 de alguma das famosas ruas do bairro de Ipanema, na zona sul carioca de décadas atrás. Nesse lugar, encontramos diversos personagens que se reúnem noite após noite para tomar aquela cervejinha, ouvir música e papear sobre os mais diversos assuntos que envolvem a sociedade. Tem artista, tem camelô, tem jornalista do Pasquim. Assim conhecemos mais profundamente o relacionamento conturbado de Ana (Marília Pêra) e Zeca (Hugo Carvana), uma atriz que trocou o cinema pela televisão e um operário da dramaturgia, um escritor, num presente de desilusão na profissão. Quando a dona do bar esperança, cansada, desiludida, sozinha nos negócios da família, resolve vendê-lo, os assíduos frequentadores resolvem se unir contra a demolição ou até mesmo num último encontro.  


Já nos tempos da televisão colorida mas ainda na época do Telex e da ditadura, esse bar (assim como tantos outros por aqueles tempos), uma espécie de catedral da boemia carioca, era a fonte de informação de muitos, uma troca de experiências que de alguma forma fazia a vida fazer mais sentido. Os dramas, os conflitos, eram vistos diariamente, os duelos de argumentações sobre causas políticas, sociais, também faziam parte de qualquer uma rodinha de bate-papo do local. A narrativa abre um pequeno espaço para falar também sobre Gentrificação, aqui na aquisição do bar por um grupo de investidores que querem criar um shopping center no lugar. Há espaço também para as causas indígenas, uma profunda crítica social ligado ao descaso.


Um cacique demitido da própria tribo. A crise conjugal ganha maiores espaços e acaba se tornando o grande alicerce do roteiro. Ana e Zeca estão em um momento sem se entenderem, deixando a pressão que sofrem nos seus respectivos trabalhos influenciarem o cotidiano em um Brasil à beira de transformações. As tomadas de decisões ditam o ritmo da narrativa, que nos leva a subtramas que envolvem o cenário artístico instável numa época onde a televisão era a grande porta de entrada para a fama e onde alguns atores faziam de tudo para conseguirem seguir na profissão.


Você é meu caminho. Meu vinho, meu vício. Na trilha sonora, a música de Caetano Veloso Meu bem, meu mal se torna um ponto importante sob a ótica da crise conjugal e o misto de sentimentos provocados por esse conflito. Também ouvimos o clássico de Gretchen, Conga, Conga, Conga além de uma das mais emblemáticas marchinhas de carnaval, Bandeira Branca (essa já no desfecho).


Anos atrás, o filme entrou na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Essa obra-prima do nosso cinema, pouco visto pelas novas gerações, completa 40 anos em 2023 sem perder o fôlego nem sua capacidade de refletir sobre tudo que acontece até hoje ao nosso redor.



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29/03/2023

Crítica do filme: 'Creed III'


Jogo é jogo, treino é treino. Em seu primeiro trabalho atrás das câmera como diretor, Michael B. Jordan busca a emoção a todo instante seja no duelo profissional ou no pessoal do ótimo protagonista que dá título a essa franquia, oriunda da saga Rocky, que caiu nas graças de todos que viraram órfãos do garanhão italiano. Em Creed III, vemos o tom reflexivo de um campeão que precisa confrontar seu passado. Os conflitos familiares contornam a narrativa mas sem deixar de ter fôlego para cenas de ação de um dos esportes mais populares do universo das lutas. Esse é o primeiro filme do universo de Rocky que o lendário personagem não aparece.


Na trama, voltamos a encontrar Adonis Creed (Michael B. Jordan) agora um empreendedor do mundo das lutas após sua recente aposentadoria com um currículo invejável como lutador. Só que nesse terceiro filme da franquia vamos conhecendo mais a fundo o passado do personagem e o reencontro dele com um amigo do passado, o complicado e ex-presidiário Damian (Jonathan Majors) um antigo prodígio do boxe. Desse encontro, logo um confronto acontece e os amigos irão se enfrentar em uma batalha onde só um pode ficar com o cinturão.


A palavra família contorna as linhas da narrativa. Com certa profundidade, sempre aos olhos do protagonista, vamos vendo mais de perto sua profunda relação com a esposa, a filha e a mãe, essa última com lembranças do passado quando o assunto é Damian, um amigo encrenqueiro que ficou quase duas décadas preso por conta de confusões e uma situação ligada ao amigo Adonis. O desenvolvimento de Adonis nesse filme é uma estrada de conflitos que são muito bem executadas traçando um poderoso raio-x da personalidade, até mesmo um antes e depois, desse forte personagem. 


 

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27/03/2023

Crítica do filme: 'Luther: O Cair da Noite'


O confronto contra o caos. Em mais um capítulo da aclamada série da BBC criada por Neil Cross, Luther: O Cair da Noite nos mostra uma Londres em total caos com um criminoso impiedoso realizando assassinatos macabros onde um experiente detetive da polícia britânica, repleto de problemas no seu passado precisará correr contra o tempo para deter as ações dessa mente criminosa. Dirigido pelo cineasta Jamie Payne, o projeto ambientado nos dias atuais, tem como base o dinamismo, a narrativa segue o passo a passo de seus personagens antagônicos no clássico confronto entre o bem e o mal. Nos papéis principais, os ótimos Idris Elba e Andy Serkis.


Na trama, voltamos a encontrar (pra quem acompanhou a série) o introspectivo e brilhante detetive John Luther (Idris Elba) que após ser designado para resolver o desaparecimento de um homem acaba sendo acusado de diversos crimes pelos seus ‘Modus operandi’ do passado. Mas com um implacável criminoso à solta, ele bola uma plano mirabolante e contará com a ajuda do seu ex-chefe Martin (Dermot Crowley) e a nova detetive chefe do departamento de polícia Odette (Cynthia Erivo).


A atualidade como plano de fundo de uma caça. Com filmagens em pontos icônicos da capital inglesa, como a praça Piccadilly Circus, em uma Londres do presente, agitada, um jogo de gato e rato é instaurado. De um lado um chantagista que se alimenta dos segredos de outras pessoas que acha pelas redes sociais, um stalker perturbado que alimenta vícios terríveis por meio da angústia alheia. Do outro, um brilhante detetive que ao longo do tempo insistiu em resolver as coisas do seu jeito o que o fez ser julgado e até mal interpretado pela posição de confiança que tinha como detetive da exigente polícia britânica. O antagonismo é marcante, um clássico duelo entre o bem e o mal, onde as reflexões sobre os desenrolares da psiquê, da impulsividade humana, são deixadas como migalhas para uma montagem de um quebra-cabeça existencial desses dois impactantes personagens.  


A primeira pergunta que você pode se fazer é: assistir ao seriado primeiro é melhor? Já lhe respondo, não necessariamente. Saber o contexto do seriado te dá um raio-x mais completo desse incrível personagem que teve 6 temporadas eletrizantes ainda numa era onde os streamings não eram tão fortes como nos dias atuais. Mas se você ainda não viu, pode assistir ao filme sem problemas. O roteiro de Luther: O Cair da Noite preza pela objetividade e em um curto espaço já prende sua atenção, passando por ações macabras, chocantes que traça paralelos com o universo obscuro da Dark Web, um lugar onde o anonimato rola solto.



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25/03/2023

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Pausa para uma série: 'Origem' ('From')


Os fatos que levam a contradição lógica. O que você faria se estivesse em uma estrada dirigindo seu carro e encontrasse um lugar aparentemente sem saída, com pessoas que nunca viu na vida e ainda por cima tendo que se proteger de aterrorizantes seres quando anoitece? Criada por John Griffin e produzida pelos irmãos Russo e Jack Bender que também produziu e dirigiu a saudosa série Lost, Origem, também conhecida como From, possui um roteiro inteligente, repleto de proposições teóricas onde há um clima de tensão constante. Os paralelos com um jogo de xadrez, impostos nos primeiros episódios retratam bem o que é proposto dali pra frente, uma batalha contra o desconhecido, onde a paciência e a combustão emocional se tornam elementos que se chocam. Disponível na Globoplay, Origem é altamente indicada para os amantes de mistérios e também aos órfãos de Lost, Fringe, até mesmo as subestimadas Wayward Pines e Jericho.


Na trama, conhecemos Jim (Eion Bailey), um engenheiro que constrói atrações de parques de diversões e sua esposa Tabitha (Catalina Sandino Moreno), um casal em crise, perto de assinarem o divórcio que resolvem fazer uma última viagem juntos de trailer com os dois filhos após uma tragédia. Durante o caminho, são surpreendidos por uma árvore que impede de continuarem, regressando para uma outra parte da estrada onde se veem presos em uma cidade, dividida em dois grupos, que tem como referência o ex-militar e atual autoridade do lugar Boyd (Harold Perrineau). Muitas perguntas aparecem: será que eles sobreviveram ao acidente que sofreram? Aonde eles estão? O ótimo episódio piloto prende a atenção sem deixar de esconder os principais mistérios e nos contextualizar de boa parte do que seria a jornada dali pra frente.


Espíritos que manipulam? Pessoas presas em um pedaço de uma cidade? Lançada em fevereiro de 2022 no streaming MGM+ (antiga EPIX), e ainda pouco falada aqui no Brasil, Origem explora lacunas herméticas, adota o paralelo e teorias de paradoxo como fonte de reflexão. Pra quem curte ir mais profundo no pensar, teorias complexas reforçadas pelo evidente paradoxo, como o experimento ‘O Gato de Schrödinger’, criado pelo físico e vencedor do Nobel Erwin Schrödinger, são amplamente debatidas abrindo um enorme campo de interesse no espectador mais atento.


Os paralelos entre o estado caótico e a esperança (aqui revertida de fé) dominam as ações e consequências dos personagens, esses intrigantes, cada qual com sua forma de enxergar a situação em que não conseguem sair. A chegada dos novos membros na cidade acaba desencadeando conflitos no pensar, deixando muitos deles em dilemas profundos. Tem os que enlouquecem, os que pensam em como ajudar a comunidade como um todo deixando qualquer tipo de egoísmo para trás, os que enxergam o sonho de um lugar mais alto do que o pesadelo. Batendo na tecla do princípio darwiniano, de que quem consegue se adaptar vai ter chances de sobreviver, acompanhamos o cotidiano dessas pessoas, dentro de um liquidificador de sentimentos, que chegaram naquele lugar por cidades e estradas diferentes.


A organização da cidade nos leva para a reflexão de que uma sociedade só sobrevive quando há uma certa cadeia de comando e aqui tudo isso é colocado em prova na trajetória do ótimo personagem Boyd. Intitulado xerife da cidade, o homem que precisa tomar as decisões que precisam serem tomadas, por mais difícil que sejam, se vê em grandes conflitos procurando a fé, passando pela raiva, ainda buscando entender o que houve com a esposa logo depois que chegaram naquele lugar.

 

As histórias e embates dentro da trama nos guiam como se fosse uma mapa de personalidade. Os traumas vividos, as experiência compartilhadas, a chegada de muitos deles até ali, a forma como reagem quando são instigados pelas criaturas noturnas que fazem de tudo para entrar nas suas casas. Bebendo da fonte da premissa da ótima Wayward Pines, Origem é interpretativa sem deixar de ser inteligente seja qual o entendimento que você tiver sobre os surpreendentes acontecimentos da ótima primeira temporada. Que chegue logo a segunda!



 

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24/03/2023

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Pausa para uma série: 'Daisy Jones & the Six'


Como resolver os conflitos de almas perdidas querendo sair da escuridão? Percorrendo a década de 60 e entrando que nem uma avalanche na de 70, em terras norte-americanas agitadas pelo crescente e influente universo musical, a minissérie Daisy Jones & the Six explora o caótico relacionamento entre dois líderes de uma banda ficcional que após um enorme sucesso, realizam um emblemático último show e resolvem se separar, nunca mais se apresentando juntos. Baseado na obra homônima da escritora Taylor Jenkins Reid, com um roteiro que teve consultoria de Kim Gordon, da banda Sonic Youth, o projeto, no melhor estilo documentário (mesmo não sendo um!), apresenta dramas contundentes, laços que se quebram, traições, euforias, dilemas em um total de 10 episódios, alguns desses com uma narrativa que abre um olhar mais forte para as subtramas de forma novelesca e outros (como o excelente último episódio) onde brilha a força da harmonia dos protagonistas.


Na trama, conhecemos os integrantes da Daisy Jones & the Six um ex-famoso grupo musical que vendeu milhões de cópias mas ficou marcado também por um último show feito no final da década de 70 em Chicago. Anos depois, os integrantes se reúnem por meio de depoimentos isolados para contar o que houve naquele dia e as razões da banda nunca mais se reunir novamente. Assim, por flashbacks, acompanhamos um pouco sobre a criação da banda e tudo de importante que houve no tempo que faziam sua primeira e única turnê pelos Estados Unidos, com uma lupa maior para os líderes da banda Billy Dunne (Sam Claflin) e Daisy Jones (Riley Keough), duas almas em conflitos permanentes que vão desde o forte interesse amoroso que possuem um pelo outro até os caminhos quase sem volta de vícios.


Dois caminhos, uma mesma estrada. O sonho de ser um músico de sucesso percorreu toda a juventude de Billy, optou pela música em vez da siderurgia ou a guerra, se casou e viu seu mundo que rumava à perfeição dar uma virada com a chegada da enigmática Daisy. Essa, mesmo tendo todo o conforto que o dinheiro do pai comprava, é uma alma solitária que amava música desde pequena, viveu desperdiçando seu talento musical presa à traumas e até mesmo a falta de carinho dos pais.


A narrativa novelesca que se apresenta, de forma detalhista em muitos momentos, se molda através dos conflitos desses dois, principalmente na questão do triângulo amoroso com Camila (interpretada pela ótima Camila Morrone), esposa de Billy, indo até mesmo em questões existenciais e embates emocionais. Há espaço também para o cenário musical de um Estados Unidos pulsante, repleto de jovens correndo atrás do sonho de serem famosos. Também não há o esquecimento de críticas profundas sobre a indústria fonográfica, principalmente sobre machismo e assédio.


Há episódios que se perdem em enxergar determinada situação sem apresentar um todo e isso provoca uma certa confusão quando tentamos entender alguns porquês. Nesses momentos a melancolia e a aleatoriedade tomam conta como se a espinha dorsal de todo o roteiro fosse caminhando por caminhos simplistas e previsíveis. Mas a força da história deixa margens de interesse, desde o episódio piloto queremos saber o que houve com essa banda ficcional que fora vagamente baseado na Fleetwood Mac, banda formada em Londres no final da década de 60. Até mesmo o figurino dos protagonistas da série forma inspirados nas roupas de Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, dois integrantes da banda.


Daisy Jones & the Six já está com todos seus episódios disponíveis na Prime Video. É um ótimo passatempo para quem curte reflexões sobre sonhos e histórias de amor que podem ou não ter um final feliz.  

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23/03/2023

Crítica do filme: 'A Química que há entre Nós'


O viver para termos algo para dizer. Baseado no livro Our Chemical Hearts da autora australiana Krystal Sutherland, A Química que há entre Nós flutua sua poesia em um salvamento duplo, uma relação de mutualismo, entre dois jovens por volta dos 17 anos e suas angustias existenciais, ligadas a vida e a morte. Até a neurociência tem espaço, gerando reflexões importantes para quem gosta de se aprofundar sobre as histórias de amor. Lançado diretamente na plataforma da Prime Video e dirigido pelo cineasta Richard Tanne, o projeto se consolida como um profundo filme sobre adolescência.


Na trama, conhecemos Henry (Austin Abrams) um jovem tranquilo, focado, que está prestes a ser o editor-chefe do jornal do colégio. Ele está entrando no último ano do colégio e logo nos primeiros dias conhece a recém transferida Grace (Lili Reinhart), uma jovem super inteligente mas cheia de inseguranças que se esconde do seu presente por um forte trauma no passado. Uma amizade logo cresce entre os dois e logo a paixão acontece mas ambos precisarão buscar entender um ao outro e nada será tão simples.


O viver para termos algo a dizer. Um recorte do último ano do ensino médio vira plano de fundo para os próprios abismos e o dinamismo de um mundo sempre em constante mudanças. O roteiro adaptado chega para nos apresentar dois personagens em conflitos nada aparentes, duas peças dessa planeta que buscam encontrar encaixes dentro de suas limitações emocionais. As buscas para se seguir em frente após o trauma transborda em Grace, os momentos em que não conseguimos encontrar palavras incomodam Henry. Assim nasce um  amor que vem dos erros e acertos do ser humano em sua fase ainda imatura com um universo a descobrir.


Pra quem busca um filme simples sobre amores e adolescência pode ir procurar outro título. Aqui tudo é muito profundo, a reflexão se encontra por todos os lados. Desde paralelos interessantes com poemas de Neruda até as explicações sobre o mais forte dos sentimentos através da irmã de Henry (uma estudante de neurociência). Um universo de reflexões fascinantes se abrem. Nessa questão da neurociência, há um diálogo maravilhoso, onde entendemos que o cérebro se acostuma a um fluxo intenso de dopamina e ocitona e a substituição por hormônios de stress deixa a nossa máquina (corpo e mente) em curto circuito causando intensas dores. São bem legais esses paralelos com as reações do corpo, nas desilusões amorosas ou mesmo nas dores dos amores, vemos muito disso na trajetória dos personagens.


A Química que há entre Nós é fascinante. As buscas para se seguir em frente após o trauma, os dolorosos conflitos, até mesmo insuportáveis, a visão de quem ainda não tem maturidade para enfrentar os obstáculos, os momentos reversos da vida. A todo instante, o espectador é presenteado com um enorme pacote de reflexões existenciais. Pra quem gosta de assistir a um filme e pensar sobre o que se diz, esse é um prato cheio!



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Crítica do filme: 'Esquema de Risco: Operação Fortune'


Quando as peças não se encaixam. O britânico Guy Ritchie é dono de uma bela filmografia, com muitas produções explosivas, marcantes diálogos, excêntricos personagens que contornam quase sempre inusitados conflitos. Em Esquema de Risco: Operação Fortune, seu trabalho mais recente, tudo parece muito raso, corrido, sem pontos impactantes mesmo contando com um dos seus artistas favoritos, com o qual já trabalhou em cinco outros trabalhos, o astro dos filmes de ação Jason Statham. A narrativa (a maneira como é contada essa história) transborda sonolência, pecando no desenvolvimento, deixando apenas um lapso de brilho para o excêntrico personagem de Hugh Grant.


Na trama, conhecemos o competente (e cheio de regalias) agente secreto Orson (Jason Statham) que embarca em mais uma missão perigosa pelo mundo designado para tal pelo seu chefe Nathan (Cary Elwes). Ele precisa usar como bode expiatório o astro do cinema Danny (Josh Hartnett) para fisgar a atenção do bilionário Greg (Hugh Grant). Para essa nova batalha, Orson contará com a ajuda de uma nova equipe, formada pelo exímio atirador JJ (Bugzy Malone) e a especialista em tecnologia Sarah (Aubrey Plaza).


Satélites, comunicações, brigas geopolíticas. O roteiro se esforça em trazer assuntos que estão no cotidiano modelados para a ação tendo no ponto de vista do herói o foco total. As resoluções simplistas e personagens mal desenvolvidos acabam prejudicando a narrativa que sai correndo em busca da ação e esquece do contexto, deixando pontos soltas pelo caminho.


Filmado em lugares como Turquia e Catar, Esquema de Risco: Operação Fortune teve uma rápida passagem pelo circuito exibidor brasileiro e, pra quem interessar, deve tá chegando em alguma plataforma de streaming muito em breve.



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