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Critica do filme: 'Bar Esperança, o Último que Fecha'


Lançado no início da década de 80, um dos grandes clássicos da comédia brasileira, Bar Esperança, nos leva até os saudosos tempos da clássica boemia carioca. Falando sobre diversos assuntos que vão desde os bastidores do cenário artístico da época até mesmo a causa indígena, passando por um recorte de uma crise conjugal, o longa-metragem dirigido e protagonizado por Hugo Carvana tem um elenco maravilhoso com destaque para a outra protagonista, a fabulosa e inesquecível Marília Pêra. De Caetano à Gretchen, a trilha sonora também ganha destaque dentro de uma empolgante narrativa.


Vencedor de vários Kikitos no Festival de Cinema de Gramado, Bar Esperança nos leva a um badalado estabelecimento no número 39 de alguma das famosas ruas do bairro de Ipanema, na zona sul carioca de décadas atrás. Nesse lugar, encontramos diversos personagens que se reúnem noite após noite para tomar aquela cervejinha, ouvir música e papear sobre os mais diversos assuntos que envolvem a sociedade. Tem artista, tem camelô, tem jornalista do Pasquim. Assim conhecemos mais profundamente o relacionamento conturbado de Ana (Marília Pêra) e Zeca (Hugo Carvana), uma atriz que trocou o cinema pela televisão e um operário da dramaturgia, um escritor, num presente de desilusão na profissão. Quando a dona do bar esperança, cansada, desiludida, sozinha nos negócios da família, resolve vendê-lo, os assíduos frequentadores resolvem se unir contra a demolição ou até mesmo num último encontro.  


Já nos tempos da televisão colorida mas ainda na época do Telex e da ditadura, esse bar (assim como tantos outros por aqueles tempos), uma espécie de catedral da boemia carioca, era a fonte de informação de muitos, uma troca de experiências que de alguma forma fazia a vida fazer mais sentido. Os dramas, os conflitos, eram vistos diariamente, os duelos de argumentações sobre causas políticas, sociais, também faziam parte de qualquer uma rodinha de bate-papo do local. A narrativa abre um pequeno espaço para falar também sobre Gentrificação, aqui na aquisição do bar por um grupo de investidores que querem criar um shopping center no lugar. Há espaço também para as causas indígenas, uma profunda crítica social ligado ao descaso.


Um cacique demitido da própria tribo. A crise conjugal ganha maiores espaços e acaba se tornando o grande alicerce do roteiro. Ana e Zeca estão em um momento sem se entenderem, deixando a pressão que sofrem nos seus respectivos trabalhos influenciarem o cotidiano em um Brasil à beira de transformações. As tomadas de decisões ditam o ritmo da narrativa, que nos leva a subtramas que envolvem o cenário artístico instável numa época onde a televisão era a grande porta de entrada para a fama e onde alguns atores faziam de tudo para conseguirem seguir na profissão.


Você é meu caminho. Meu vinho, meu vício. Na trilha sonora, a música de Caetano Veloso Meu bem, meu mal se torna um ponto importante sob a ótica da crise conjugal e o misto de sentimentos provocados por esse conflito. Também ouvimos o clássico de Gretchen, Conga, Conga, Conga além de uma das mais emblemáticas marchinhas de carnaval, Bandeira Branca (essa já no desfecho).


Anos atrás, o filme entrou na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Essa obra-prima do nosso cinema, pouco visto pelas novas gerações, completa 40 anos em 2023 sem perder o fôlego nem sua capacidade de refletir sobre tudo que acontece até hoje ao nosso redor.



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