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Crítica do filme: 'Vagão nº6'


Os laços que nascem através das mais diversas conexões. Baseado na obra homônima da antropóloga e escritora Rosa Liksom e dirigido pelo cineasta finlandês Juho Kuosmanen, Vagão nº6 aborda o inusitado encontro de dois estranhos e suas formas de entender a vida e, numa pegada Junguiana, como podem reagir ao confronto imposto pelo destino através da conexão com outras pessoas. Exibido no Festival de Cannes em 2021, na Mostra de SP e representante da Finlândia ao Globo de Ouro e ao Oscar 2022, o filme é uma jornada repleta de conflitos rumo às respostas que os personagens muitas vezes nem sabem de quais perguntas. Uma história de amor? Uma história de amizade? Peças que de tão diferentes se encaixam? A interpretação para a relação que vai se estabelecendo entre essas duas almas, que parecem completamente opostas a princípio, fica aos olhos do espectador.


Na trama, conhecemos Laura (Seidi Haarla), uma estudante finlandesa que mora em Moscou e se vê desolada com o não avanço amoroso na relação de uma amizade colorida de longa data. Se sentindo sozinha e deslocada com um alguém que não quer compromisso sério com ela, resolve embarcar sozinha, numa viagem de quase 2.000 Kms, de Moscou até Murmansk, lá perto da fronteira com a Finlândia e a Suécia. Durante a viagem, ela precisa dividir o pequeno vagão do trem com Ljoha (Yuriy Borisov), um atrapalhado mineiro russo que está indo à trabalho para o mesmo destino dela. Assim, essas duas almas entrarão em conflitos mas também observarão conexões que podem fazê-los entender um pouco mais sobre a vida.


O roteiro é muito inteligente em traçar um paralelo com o círculo polar ártico, região onde é o destino da protagonista, um lugar com pelo menos um dia completo na escuridão durante o inverno e um com luz por 24 horas durante o verão. Os paralelos aqui vem das duas personalidades que dividem o mesmo espaço com um foco maior em Laura que se vê presa num relacionamento em Moscou que só existe aos olhos dela. Ljoha é uma enigmática variável nessa história, conhecemos seu jeito meio bronco através do seu cotidiano já no destino final e a maneira como enxerga as possibilidades num mundo muito limitado ao trabalho. Alguns dos pilares do cinema, a imagem e o movimento, aqui encontra-se em sacadas interessantes do diretor que nos leva para o foco naquele interior de cabine que é onde os conflitos mais se estabelecem.


No campo abstrato das conexões humanas, chegamos na camada mais profunda de reflexão desse curioso longa-metragem. Vagão nº6 nos faz pensar sobre os encontros e desencontros além da maneira como podemos lidar dentro dos conflitos que podem se estabelecer. Uma interpretação é a reação e a transformação que acontece de qualquer encontro, para o próprio indivíduo, através da dor do outro, dos sonhos, dos objetivos pessoais estimulam o rompimento de uma bolha egoísta e o embarque em uma maior compreensão emocional. Veja o filme e reflita você também.


 

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