Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Waves'


Como lidar com os abalos emocionais que preenchem as lacunas do nosso interior? Como começar a escrever sobre um dos filmes mais impactantes que você verá (ou já viu) nos últimos anos? Waves é a reunião de um excepcional roteiro, uma direção impecável e atuações que farão você estar em todos os lugares como testemunha ocular desse belíssimo filme escrito e dirigido pelo cineasta Trey Edward Shults (Ao Cair da Noite). Ao longo dos 135 minutos, dando a impressão de ter duas partes profundamente intercaladas, como se fossem um lado A e labo B daqueles vinis antigos, Waves conquista os corações cinéfilos de maneira arrebatadora. Magnífica obra-prima.


Na trama, conhecemos Tyler (Kelvin Harrison Jr.), um jovem estudante por volta dos 18 anos que faz parte da equipe do colégio de lutas e vive uma bela vida ao lado de sua madrasta Catharine (Renée Elise Goldsberry), seu pai Ronald (Sterling K. Brown) e sua irmã Emily (Taylor Russell). Extremamente pressionado aos seus treinos e em ser o melhor pelo seu pai, Tyler vive um grande conflito interno quando recebe a notícia de que sua namorada está grávida e vai ficar com o bebê. A partir dessa situação se desenrolam fatos que vão marcar para sempre a vida do jovem e também de sua irmã que precisará ter forças para lutar contra pensamentos do seu passado para seguir em frente e tentar encontrar a tão sonhada felicidade.


Profundo, impactante e inesquecível. Cheio de metáforas, câmeras que giram 360 graus, olhares que falam mais de mil palavras, indo fundo sobre os atos e consequências dos mesmos, somos testemunhas de uma tragédia familiar vista por alguns ângulos que debruçam sobre a culpa e o inesperado. Quase um espelho da realidade do lado de cá da telona, vemos tudo que acontece, principalmente as transformações de uma família que parecia perfeita mas que muda toda sua rotina a partir de uma situação que influencia pra sempre o modo como cada um deles observa a vida.


O roteiro é primoroso, duas partes que nos fazem pensar sobre a vida, preenche todos seus arcos com uma profundidade extensa além de uma carga emocional gigante. Os artistas estão excelente, um melhor que o outro, mesmo que Sterling K. Brown e Taylor Russell roubem as cenas em diversos momentos. Merecem o Oscar os dois. A direção é dinâmica, delicada que mete o dedo na ferida mostrando a dor de forma dura, como é do lado da realidade daqui de fora. Waves é um dos grandes filmes da década, e você não pode perder. Bravo!

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...