29/10/2020

E aí, querido cinéfilo?! - Entrevista #154 - Queops Negronski


O que seria de nós sonhadores sem o cinema? A sétima arte tem poderes mais potentes do que qualquer superman, nos teletransporta para emoções, situações, onde conseguimos lapidar nossa maneira de enxergar o mundo através da ótica exposta de pessoas diferentes. Por isso, para qualquer um que ama cinema, conversar sobre curiosidades, gostos e situações engraçadas/inusitadas são sempre uma delícia, conhecer amigos cinéfilos através da grande rede (principalmente) faz o mundo ter mais sentido e a constatação de que não estamos sozinhos quando pensamos nesse grande amor que temos pelo cinema.

 

Nosso entrevistado de hoje é cinéfilo, de Recife. Queops Negronski, fã do horror e suas vertentes desde sempre. Discute tudo o que vê e lê com as vozes que lhe habitam a cabeça. Aos quinze anos fez seu primeiro curso de cinema. Entre várias outras coisas, foi cineclubista, participou de curtas-metragens, foi membro fundador do Toca o Terror (site pernambucano especializado especializado no gênero) e fez parte da equipe de criação da série Fãtásticos (ainda não exibida). Tentou curso superior duas vezes, mas as supracitadas vozes sempre o convenceram de que o melhor para ele era ficar em casa vendo filmes, lendo livros/gibis/revistas e ouvindo música. Coisas da vida. É um dos criadores do instagram @meufilmedodia .

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Cinema da Fundação/Cinema do Museu, esses gêmeos siameses. Gosto porque percebo respeito não apenas à arte em si, mas também aos seus frequentadores e frequentadoras, procurando sempre exibir filmes de qualidade e fora da curva dos multiplexes. Se bem que caiu no meu conceito porque em plena pandemia reabriu as portas, então o respeito que eu disse que a sala tinha por seus frequentadores acabou. Uma pena. Quanto à qualidade do que exibe, são sem dúvida as melhores salas da cidade.

 

2) Qual o primeiro filme que você  lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Super-Homem (1978), de Richard Donner.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Não tenho apenas um diretor de cinema favorito (ou livro, ou banda, hq, etc), pois é uma decisão injusta dado o leque de excelentes opções oferecido, mas, posso citar cinco cujos trabalhos me instigam a continuar a ser fã do que vejo nas telas grandes e pequenas: George Romero, José Mojica Marins, Werner Herzog, Petter Baiestorff, Andrei Tarkovski, Ida Lupino, Lucrecia Martel, Juliana Rojas, John Carpenter... A princípio, escolhas que parecem díspares, mas todos eles possuem uma assinatura única em seus trabalhos... eu poderia falar de outros e outras, mas aí não teríamos uma entrevista e sim, um livro.

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Eles não Usam Black Tie (1983, de Leon Hirszman), curiosamente, um filme oriundo de uma peça teatral. Amo-o pelas verdades inquestionáveis que mostra em seu brasil autêntico de uma maioria fodida que almeja viver melhor enquanto os donos do poder tem ao seu dispor aparelhos de repressão estatal e social para manter o status quo. Amo de com força e recomendo muitíssimo.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

É alguém que coloca o cinema como cartão de visitas da própria existência. Me orgulho muito de ser reconhecido como tal.

 

6)  Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Não mesmo. O que rege as salas de cinema são as leis de mercado, se os programadores acham que vão lucrar com aquele filme, oito das dez salas dos shopping centers vão exibi-lo e os dois restantes estarão lá pelo mesmo motivo.

 

7)  Algum dia as salas de cinema vão acabar?

A impressão que tenho é de que estão trabalhando para isso, os preços dos ingressos impedem, por exemplo, que uma família composta de pai, mãe e dois filhos frequente as salas, fora isso, a comodidade dos serviços de streaming são inegáveis, mesmo que a qualidade oferecida por algumas plataformas para mim deixe a desejar. Pessoalmente eu torço que não, caberá ao tempo responder.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Vampyr (1932), de Carl Theodor Dryer.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não, pois o cinema deve ser lembrado como escape de emoções e gerador de alegrias, não faz sentido aglomerar pessoas num espaço fechado quando grassa no mundo uma doença mortal que é transmitida pelo ar.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

 

Excelente desde sempre, o problema é que o circuito exibidor dá mais espaço a filmes genéricos formando assim um público que acredita que o cinema brasileiro é feito exclusivamente desse tipo de produção, o que não é verdade. Porém, cabe ao público garimpar mais seus próprios interesses, deixar de ser regido pelos interesses das distribuidoras e descobrir quão rico é o cinema produzido no Brasil.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Rodrigo Aragão.

 

12) Defina cinema com uma frase:

“Cinema é a melhor diversão”, do Grupo Severiano Ribeiro, para mim é imbatível.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Cine Art Palácio, final da década de 1980 na tela, Rambo 3 (com Sylvester Stallone). Senti um clima estranho, público estava exaltado além da conta, alguns assentos de poltronas voando e gritaria nervosa. Assim que o filme acabou nem esperei pra ver os créditos finais (coisa que sempre faço) e fui embora. No outro dia li nos jornais que a sessão seguinte foi um festival de horrores onde a turba, ensandecida, destruiu parte do cinema, tendo a Polícia Militar ter que ser chamada para acalmar os ânimos.

 

14) Defina 'Cinderela Baiana' em poucas palavras...

Nunca vi, não posso opinar.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Da mesma maneira que existe o “político técnico”, aquele que manja das burocracias e não entende nada do povo, é possível que existam esses diretores e diretoras sim, eu é que não entendo-lhes as existências. Pra mim é como um escritor que não gosta de ler: não faz sentido. Mas, como eu disse antes, é possível que essas criaturas existam e se existem, deveriam ser estudadas e virar tema de documentário/série e teses universitárias, talvez até criar uma espécie de zoológico para que o público possa vê-las de perto e comprovar-lhes a existência. Enfim, sendo a humanidade o que é, podem existir mesmo esses espécimes mundo afora.

 

 16) Qual o pior filme que você viu na vida?

“O Brasil de 2016 pra cá”, roteiro alucinado com plot twists impensáveis estrelado péssimos atores e atrizes com diretor muito além da incompetência.

 

17) Qual seu documentário preferido?

O Ato de Matar (2012), de Joshua Oppenheimer.

 

18) Você já bateu palmas para um filme ao final de uma sessão?  

Sim, como homenagem e respeito aos profissionais envolvidos na produção. Há quem ache desnecessário, cago-lhes nas cabeças.

 

19) Qual o melhor filme com Nicolas Cage que você viu?

Mandy (2018), de Panos Cosmatos.

 

20) Qual site de cinema você mais lê pela internet?

Confesso que não acompanho sites religiosamente, se a notícia me interessar, clico no link, vou lá e leio.