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Crítica do filme: 'O Livro dos Prazeres'


Os medos e o duelo sobre a intimidade dentro de um renascer. Baseado na obra Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres de Clarice Lispector o longa-metragem O Livro dos Prazeres dirigido por Marcela Lordy é uma imersão à vida de uma mulher, livre, que busca o entendimento dos seus desejos através de situações onde transbordam suas emoções. Tendo lindas paisagens do Rio de Janeiro como plano de fundo, vamos entendendo aos poucos essa forte personagem que nos apresenta mais um trabalho irretocável de uma das grandes atrizes do cinema brasileiro, Simone Spoladore.


Na trama, conhecemos Lóri (Simone Spoladore), uma professora que nunca mergulhou no mar, moradora agora do Rio de Janeiro que parece gostar de contemplar sua solitude e a liberdade que possui principalmente em uma trajetória pelos desejos. Fugindo dos irmãos controladores (principalmente dos embates com o cínico Davi), ela sai do interior e vai morar em um enorme apartamento deixado por sua mãe, de frente para a praia de Copacabana. Sente-se livre, mesmo sabendo que ainda, de alguma forma, parece depender financeiramente de seu pai. Ela conhece Ulísses (Javier Drolas), um filósofo e escritor argentino, criado pelos avós, que veio para o Brasil como professor convidado e nunca mais voltou. A relação entre os dois é um enorme duelo que Lóri precisará entender melhor, para poder sentir e viver.


Um grande sábio nunca fala de si? Introspectiva, a protagonista vive sua liberdade de forma intensa não se aproximando de muitos que chegam ao seu redor. O prazer e o sentimento são duas portas bem distantes na sua visão do presente. Parece viver uma tristeza profunda com o falecimento de sua mãe. Pode ser que ela sempre se sentiu um enigma e quando percebe que alguém começa a decifrá-la, se sente vulnerável, sem saber como lidar. Ulisses é essa variável incontrolável que chega em sua vida e ela começa a perceber uma desconstrução na maneira de lidar com a intimidade, frequentemente é pega de surpresa quando percebe deixar rastros dessa intimidade em conversas passadas. A partir daí, um duelo é instaurado levando Lóri a um universo de descobertas.


A única maneira de não sentir dor é não se abrindo para o mundo? A solidão não é um sentimento só seu. Precisando entender o silêncio, seus momentos de conflitos, passar pelas dores, a personagem atravessa novos pensares que traçam paralelos com o existencialismo. O Livro dos Prazeres é um dos mais reflexivos filmes brasileiros lançados esse ano nos cinemas, um projeto que nos leva de uma crise existencial até o equilíbrio de um nascer de novo.

 


 

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