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Crítica do filme: 'Argentina, 1985'


Um dos mais aguardados longas-metragens argentinos de 2022 finalmente chegou ao catálogo da Prime Video. Em Argentina, 1985 voltamos cerca de 20 anos atrás para entender aquele que foi um dos mais históricos julgamentos de toda a história do país sul-americano, onde dois advogados representando a promotoria embarcam em uma jornada para provar a culpa de alguns militares de alta patente durante os aterrorizantes nove anos de ditadura na Argentina. Baseado em fatos reais, o projeto dirigido pelo cineasta de 41 anos Santiago Mitre tem como protagonista a lenda do cinema mundial Ricardo Darín.


Na trama, voltamos no tempo indo para um recorte importante na Argentina, em meados da década de 80 onde logo após um regime bruto de ditadura imposta no país, um promotor chamado Julio César Strassera (Ricardo Darín) tem a missão de juntamente com um grupo de jovens advogados liderar uma equipe de julgamento onde precisam reunir provas suficientes para condenar militares que impuseram o terror na população durante os tempos de ditadura. Strassera contará principalmente com a ajuda de outro promotor público, Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani). Durante todo os meses que cercaram o início, meio e fim do julgamento, sem poderem contar muito com a polícia, que em grande parte era a favor dos militares, os promotores sofrem ameaças e tem a rotina completamente abalada mas sem nunca deixarem de acreditar na importância do que faziam.


Relatos aterrorizantes, dor, sofrimento, tristezas sem fim de parentes de pessoas que sumiram durante a ditadura e nunca mais foram encontrados. A narrativa joga um olhar para o objetivo dos promotores, provar que fora um plano sistemático, que todos os acusados sabiam o que e como estavam fazendo por todo o país nos governos nos tempos de ditadura. Em poucos meses, o protagonista e sua equipe teriam que reunir provas contundentes contra acusados de alta patente do exército argentino que comandaram as ações nas quase uma década de ditadura no país sul-americano. Ao todo foram mais de 4.000 páginas de provas, centenas de testemunhas em mais de 700 casos denunciados durante esse período. A narrativa, de forma complementar, se aprofunda na vida do promotor Julio César Strassera responsável pelo caso mostrando suas dúvidas, medos, sua relação com a família, durante todo o período que está à frente desse caso de grande repercussão.


Há menção às ‘Mães da Praça de Maio’, importante organização criada nos tempos de ditadura que consistia em mães que tiveram seus filhos assassinados ou desaparecidos durante o terror desses tempos sombrios que iam para às ruas em busca de informações. Essas mulheres se reuniam, sempre com um lenço branco na cabeça, na Praça de Maio, em Buenos Aires, em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino. Um movimento muito importante que sobrevive até hoje se expandindo para apoios pelos direitos humanos, políticos e civis por toda a América Latina e também em outros países.


Exibido no Festival de Veneza e no Festival do Rio desse ano, o longa-metragem argentino, com grandes chances de beliscar uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é uma aula de reflexão, não só sobre o recorte argentino, mas sobre o recorte sul-americano e todos os países que enfrentaram uma ditadura cruel e covarde. Tempos que nunca devem voltar! A democracia deve sempre estar acordada!



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