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Crítica do filme: 'Glass Onion: Um Mistério Knives Out'


A queda das bolhas de proteções quando os pingos do fracasso começam a aparecer. Glass Onion: A Knives Out Mystery (assim mesmo é o nome oficial do filme, com esse subtítulo completamente desnecessário), escrito e dirigido pelo cineasta norte-americano Rian Johnson, envolve o espectador do início ao fim com um roteiro empolgante, até mesmo surpreendente, que abre brechas convidativas para uma série de hipóteses usando a troca de perspectiva como uma ferramenta importante, muito bem detalhada e com o foco da análise humana em cima da relação interpessoal que se sobrepõem em relação as ações morais. A antologia criada por Johnson (que provavelmente deve ganhar um terceiro filme nos próximos anos), e que começou com o sucesso de Entre Facas e Segredos no ano de 2019, tem em comum apenas uma peça no tabuleiro dos seus mistérios: o excelente personagem protagonizado por Daniel Craig, Benoit Blanc.


Indicado em duas categorias para o Globo de Ouro 2023, o projeto conta a história de um empresário podre de rico chamado Miles Bron (Edward Norton) que resolve dar uma festinha particular (em tempos de ainda Covid-19 forte no mundo) em sua ilha na Grécia e para tal manda uma caixa charada para seus grandes amigos na vida e com quem tem relações profissionais também. Assim conhecemos a ex-celebridade e empresária que se mete em muitas polêmicas Birdie (Kate Hudson) e sua assistente Peg (Jessica Henwick), a governadora de um estado norte-americano Claire (Kathryn Hahn), o youtuber Duke (Dave Bautista) e sua namorada Whiskey (Madelyn Cline), um funcionário de alto cargo de sua principal empresa Lionel (Leslie Odom Jr.), sua ex-sócia Andi (Janelle Monáe) e o renomado detetive Benoit Blanc (Daniel Craig). Aos poucos vamos entendendo melhor sobre esse convite que gira em torno de um jogo de detetive com o assassinato fake de Miles. Só que as coisas se tornam mais intensas quando determinadas situações acontecem.


Cheio de referências cinéfilas, que vão desde uma enorme pintura com a cabeça de Edward Norton no corpo de Brad Pitt em óbvia referência ao clássico de David Fincher O Clube da Luta, até mesmo o figurino usado, em um flashback, pelo personagem de Norton que se parece muito com o usado por Tom Cruise no clássico de Paul Thomas Anderson, Magnólia, Glass Onion usa do seu eletrizante suspense (que realmente prende a atenção) para nos mostrar uma análise sobre a sociedade e seu entendimento sobre valores morais e éticos.


Há uma forte presença de um recorte sobre a natureza humana e as relações que a vida coloca pelo caminho onde as decisões acabam passando por uma análise egoísta com um espírito de proteção próprio fazendo com que valores importantes em uma sociedade se percam com a ventania da arrogância que certas atitudes podem provocar. O óbvio caminho errado seguido, coloca em xeque a moral e a ética nessas relações de amigos de longa data que se tornaram aos poucos prisioneiros da própria empáfia iludidos por uma bufonaria de um bilionário narcisista. Se conseguirmos ligar os pontos, alcançamos paralelos em forma de críticas sociais.  



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