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Crítica do filme: 'M3gan'


As inúmeras interpretações para a figura de uma boneca que assusta, faz rir e está em dia com as dancinhas tiktok. Escrito pelo criativo cineasta malaio James Wan, M3gan busca o pilar de sua narrativa debruçada no terrir (onde o objetivo é assustar e fazer rir), num amplo sentido do refletir sobre a relação humanos x máquinas incrementado para uma atualidade onde o sentir medo encosta no humor de ações de marketing que são bem sucedidas nas redes sociais. Cheio de referências a alguns filmes do gênero terror que envolve bonecos, principalmente ao clássico do final da década de 80, Brinquedo Assassino, o longa-metragem de cerca de 100 minutos, que teve seu trailer viralizado no TikTok, pode ser o primeiro capítulo de algo maior, já que há uma ótima deixa, bem sutil mas eficaz, que podem levar essa projeto a ser uma franquia futuramente.


Na trama, acompanhamos a engenheira mecânica Gemma (Allison Williams), uma programadora que mexe com robôs e inteligência artificial que desenvolve um projeto de uma boneca de nome técnico Model 3 Generative Android, mas nome fantasia M3gan, que promete ser algo revolucionário na indústria do entretenimento. Ao mesmo tempo, vê sua vida se revirar ao avesso quando acaba ficando com a guarda provisória da sobrinha que perdeu os pais em um terrível acidente de carro. Quando Gemma resolve testar a interação da boneca com a sobrinha, ela logo percebe que essa criação apresenta ações bem diferentes do que ela imaginava.


O caminho inicial do filme é o de uma mulher em conflito, consumida pela rotina estressante e cheia de prazos no concorrido mercado de brinquedos cada vez mais sofisticados e bem longe dos tempos onde o Tamagochi era o sonho de todos. Afim de provar seu valor não mede esforços para desenvolver algo próximo da realidade mas com aquela mentalidade de gerações passadas. Essa parte do filme pode ser enxergada como uma crítica ao mercado dos brinquedos interativos e também sobre a limitação do seu próprio público, um exemplo é que a própria M3gan custaria 10.000 dólares. E falando da boneca, a grande estrela do filme, a narrativa para ela se protege no terrir, trocando momentos de tensão pelo riso fácil. Essa fórmula já bem usada ao longo dos anos aqui se joga em cima de uma escolha do espectador de embarcar ou não.   


Com locações nos subúrbios de Auckland (Nova Zelândia), o filme busca seus momentos chaves caminhando numa inversão de sentimentos, camuflando sua rasa trama com pitadas cômicas de referências para uma nova geração muito ligada à jogos cada vez mais cheios de inteligências artificiais e com alto grau de vícios. Inclusive, M3gan é um projeto que se baseia, em partes, na leitura de suas ações de marketing, fato que moldou sua redução de classificação com cortes de mais cenas violentas depois do trailer viralizar em uma das redes mais populares no momento: o TikTok. Mas será esse o filme que James Wan realmente queria fazer? A fórmula deu certo? Fica a sugestão para refletirmos.



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