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Crítica do filme: 'A Química que há entre Nós'


O viver para termos algo para dizer. Baseado no livro Our Chemical Hearts da autora australiana Krystal Sutherland, A Química que há entre Nós flutua sua poesia em um salvamento duplo, uma relação de mutualismo, entre dois jovens por volta dos 17 anos e suas angustias existenciais, ligadas a vida e a morte. Até a neurociência tem espaço, gerando reflexões importantes para quem gosta de se aprofundar sobre as histórias de amor. Lançado diretamente na plataforma da Prime Video e dirigido pelo cineasta Richard Tanne, o projeto se consolida como um profundo filme sobre adolescência.


Na trama, conhecemos Henry (Austin Abrams) um jovem tranquilo, focado, que está prestes a ser o editor-chefe do jornal do colégio. Ele está entrando no último ano do colégio e logo nos primeiros dias conhece a recém transferida Grace (Lili Reinhart), uma jovem super inteligente mas cheia de inseguranças que se esconde do seu presente por um forte trauma no passado. Uma amizade logo cresce entre os dois e logo a paixão acontece mas ambos precisarão buscar entender um ao outro e nada será tão simples.


O viver para termos algo a dizer. Um recorte do último ano do ensino médio vira plano de fundo para os próprios abismos e o dinamismo de um mundo sempre em constante mudanças. O roteiro adaptado chega para nos apresentar dois personagens em conflitos nada aparentes, duas peças dessa planeta que buscam encontrar encaixes dentro de suas limitações emocionais. As buscas para se seguir em frente após o trauma transborda em Grace, os momentos em que não conseguimos encontrar palavras incomodam Henry. Assim nasce um  amor que vem dos erros e acertos do ser humano em sua fase ainda imatura com um universo a descobrir.


Pra quem busca um filme simples sobre amores e adolescência pode ir procurar outro título. Aqui tudo é muito profundo, a reflexão se encontra por todos os lados. Desde paralelos interessantes com poemas de Neruda até as explicações sobre o mais forte dos sentimentos através da irmã de Henry (uma estudante de neurociência). Um universo de reflexões fascinantes se abrem. Nessa questão da neurociência, há um diálogo maravilhoso, onde entendemos que o cérebro se acostuma a um fluxo intenso de dopamina e ocitona e a substituição por hormônios de stress deixa a nossa máquina (corpo e mente) em curto circuito causando intensas dores. São bem legais esses paralelos com as reações do corpo, nas desilusões amorosas ou mesmo nas dores dos amores, vemos muito disso na trajetória dos personagens.


A Química que há entre Nós é fascinante. As buscas para se seguir em frente após o trauma, os dolorosos conflitos, até mesmo insuportáveis, a visão de quem ainda não tem maturidade para enfrentar os obstáculos, os momentos reversos da vida. A todo instante, o espectador é presenteado com um enorme pacote de reflexões existenciais. Pra quem gosta de assistir a um filme e pensar sobre o que se diz, esse é um prato cheio!



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