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Crítica do filme: 'Mixed by Erry'


A malandragem nos primórdios da pirataria. Nos tempos das fitas k7, bem distante da globalização intensa dos dias atuais, um negócio lucrativo, e completamente ilegal, era criado de maneira despretensiosa por três irmãos italianos em meados da década de 70, fato que mudou a maneira como a Europa passou a combater os que infringiam os direitos autorais de diversos músicos. Dirigido pelo cineasta italiano Sydney Sibilia, Mixed by Erry consegue encontrar sua fórmula de sucesso com personagens carismáticos e uma trama empolgante, puxada para a comédia, mas sem esquecer de mostrar a profundidade das ações e consequências.


Na trama, conhecemos Enrico 'Erry' Frattasio (Luigi D'Oriano), um jovem tímido morador da região de Forcella, parte da grande Nápoles, que passou a infância tendo como referência o pai trambiqueiro, um falsificador de famosas bebidas destiladas. Erry sempre amou o universo musical, e tornando um grande conhecedor das novidades pela planeta e quando chega próximo da maioridade tem o sonho de ser DJ. Como todas suas tentativas não dão muito certo, ao lado de um dos irmãos Peppe (Giuseppe Arena) resolvem criar um negócio onde playlists de músicas nacionais e internacionais eram colocadas em uma fita k7 e vendidas por toda a região onde moravam. O negócio acaba sendo uma avalanche de sucesso, e com a chegada do irmão caçula ao negócio, Angelo (Emanuele Palumbo), o trio monta um verdadeiro império da pirataria se tornando um enorme alvo para as ações da polícia federal italiana.


Dinâmico, empolgante, o roteiro não foge em nenhum momento de sua trama principal, o que se torna fundamental para cada detalhe brilhar na construção da narrativa. Baseado em inacreditáveis fatos reais, as estradas da ilegalidade de um popular produto pirata da época são contextualizadas de forma que entendemos as razões, e até mesmo, emoções por trás de cada avanço da organização, uma das pioneiras nessa ação. Essa largada na frente no mercado ilegal, que infelizmente dura até hoje no mundo, mesmo com todo o avanço tecnológico, transformou também as investigações das autoridades, no filme é apresentado um olhar sobre as operações da polícia federal italiana que a cada movimento novo ganhavam os holofotes da imprensa.


A produção italiana busca seu aprofundamento em passagens rápidas no início da trajetória do grande protagonista dessa produção, um jovem que só queria ser DJ. Como através da perseguição desse sonho, que logo vira desilusão, a pirataria alcança essa família disfuncional? A explicação é até simples, o pai trambiqueiro e adorado pelos três filhos homens transforma a mais simples falcatrua em normalidade. Esse ‘exemplo’ de alguma forma guia seus herdeiros para um mar de inconsequências. Para vocês terem uma ideia, no auge da organização criminosa de pirataria criada pelos irmãos forma mais de 180 milhões de fitas pirateadas, além de que muitas das playslists criadas tinham músicas de um famoso festival de música chamado Sanremo durante o próprio festival (lembre-se, em uma época ainda sem internet!).


Mixed by Erry está disponível lá na Netflix e contorna os caminhos do crime de uma família que se distancia da ingenuidade conforme se perdem nas desilusões do sonhos.



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