Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Driveways – Uma Amizade Inesperada'


As descobertas pelos caminhos mais distantes. Com um ritmo lento, detalhista, deixando inteligentes pausas para reflexões sobre o enigmático universo do abstrato ligado aos sentimentos, chegou ao catálogo da Looke um filme que respira a amizade dentro de um contexto de recomeços e despedidas. Driveways – Uma Amizade Inesperada dirigido por Andrew Ahn com roteiro assinado pela dupla Hannah Bos e Paul Thureen é uma jornada rumo as escolhas que a vida nos permite e as oportunidades que se chegam quando escolhemos a porta certa para desbravar. Esse é um dos últimos trabalhos do veterano ator Brian Dennehy, falecido em 2020.


Na trama, conhecemos Kathy (Hong Chau), uma mulher batalhadora que trabalha com transcrições médicas e tem o sonho de ser enfermeira. Ela, junto o filho pequeno, o sensível Cody (Lucas Jaye), estão indo reformar, para uma possível venda, a casa de sua irmã recém falecida. Chegando no lugar, uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos, acaba conhecendo aos poucos a vizinhança, principalmente seu vizinho de porta, o veterano da Guerra da Coreia Del (Brian Dennehy). Aos poucos começa a perceber que o sentido de casa, lar, pode estar bem próximo dali.


O reflexo daquele presente está em cada cena, junto com as diferentes formas de enxergar a vida. A protagonista, interpretada pela ótima e recente indicada ao Oscar Hong Chau, se vê perdida em um momento de escolhas para ele a e o filho, com a oportunidade de lucrar com a venda de uma herança que chega no seu colo com uma imensa carga emocional ligada aos desentendimentos com a irmã. Aos poucos vai descobrindo mais sobre essa parente que antes próxima, se tornou distante, como se o lugar contasse histórias que ela não sabia, além de mexer com momentos importantes na passado dessa relação.


A visão de Cody é um ponto fundamental na trama, um menino solitário, com poucos amigos, começa uma amizade com o vizinho, um homem mais velho que tem vive seus dias reclusos com o único passatempo de ir ao bingo onde se encontra com outros amigos veteranos do exército. O jovem começa a entender melhor a vida, tendo essa outra referência no seu cotidiano. O sentido de lar começa a fazer mais sentido para mãe e filho e toda essa transformação é muito bem apresentada pela narrativa.  


O alzheimer, a solidão, as despedidas, as escolhas, a amizade, o amor entre mãe e filho, os arrependimentos, Driveways – Uma Amizade Inesperada parece um trem que para em cada uma dessas estações o tempo suficiente para se refletir e como consequência faz emocionar mostrando que a simplicidade é o melhor caminho para decifrar o abstrato das emoções.



 

 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...