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Crítica do filme: 'A Memória do Cheiro das Coisas'


Impressionante como algumas obras conseguem, a partir de um olhar existencial, criar camadas profundas sobre o cedo ou tarde para dizer adeus. Exibido na Mostra de Cinema de São Paulo – sua estreia no Brasil -, o longa-metragem A Memória do Cheiro das Coisas, uma co-produção Brasil e Portugal, retrata de forma profunda sentimentos conflitantes de um homem de idade avançada que precisa enfrentar as dores que sente na alma quando começa a compreender os erros do passado.

Dirigido pelo cineasta português António Ferreira, a obra consegue, em cerca de 90 minutos de projeção, traduzir o que é difícil revelar em um filme: o sentir. Os desabafos e pesadelos que acompanhamos logo viram elementos construídos em cima de marcas invisíveis – sentidas somente por quem viveu. A partir desse ponto, o filme se expande para um retrato que alcança também a sociedade e suas questões. Não é somente sobre um homem e suas feridas, mas também sobre um mundo e o seu caminhar – que, muitas vezes, pode ser doloroso.

Perto de completar 80 anos, o ex-combatente da Guerra Colonial Portuguesa (Também conhecida como Guerra do Ultramar), Arménio (José Martins) é colocado em um lar de idosos, já que não consegue mais se aproximar da autonomia de outrora. Com marcas de um passado que não consegue esquecer, além da distância dos filhos – principalmente as relações cortadas com a filha – busca se adaptar à nova rotina. Com a chegada enfermeira Herminia (Mina Andala), o destino lhe trará novas oportunidades para rever questões que giram ao seu redor.

O ambiente é muito bem explorado pela narrativa. O asilo, de limitadas dimensões, contrasta com a cidade em movimento – vista por uma janela - sem deixar de trazer lembranças dentro de um, por vezes, introspectivo protagonista que se abre para novas interpretações sobre assuntos que sempre tratou com descaso. Lá fora, lembranças nada distantes. Ali dentro, no novo espaço controlado, a angústia abre espaço para aprendizados. A partir da sua nova rotina, Arménio conhece as histórias de outras pessoas – pacientes, enfermeiros –, trazendo a partir de sua perspectiva temas como o preconceito, os traumas, o racismo, família, o perdoar.

Um outro ponto importante é sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma peça-chave que ganha movimentos de aflições ao longo de tudo que acompanhamos. O reviver o trauma através de pesadelos, em uma gangorra emocional marcada pela vergonha e culpa, revela as mãos dadas com a depressão – algo que está presente e ganha luz de reflexões.

Cheio de méritos em sua narrativa intimista, A Memória do Cheiro das Coisas parte do indivíduo para se alcançar o todo. Uma produção de forte impacto que busca nas suas traduções dos sentimentos abrir as portas para conhecermos e nos entendermos como seres humanos em um mesmo espaço - a partir das feridas abertas de uma sociedade que ainda tem muito a aprender.

 

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