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Crítica do filme: 'Perfect Days' (Festival do Rio 2023)


A arte de contemplar o momento, vivendo. Indicado do Japão ao próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o novo trabalho do aclamado cineasta alemão Wim Wenders, Perfect Days é uma jornada atenta aos detalhes que percorre o curioso recorte sobre um homem de poucas palavras, que contempla o momento na sua forma mais simples, chegando no olhar para o outro em meio as verdades do cotidiano. Uma empolgante trilha sonora aparece como algo complementar e nos momentos de reflexões também embarcamos nessa caminhada que vai ficar marcada em muitas memórias. Um primoroso trabalho de direção e uma atuação de um protagonista impecável.


Na trama, conhecemos Hirayama (Kôji Yakusho) um homem metódico, de uma simplicidade notável, que trabalha limpando banheiros públicos em uma tóquio atual. Avesso à tecnologia na contramão dos agitos de um Japão pulsante nesse sentido, seu cotidiano é regado por seu gosto por fotografia, leitura e música (com direito a uma bela coleção de fitas k7). Será ele um ser humano estacionado no tempo? Qual será sua história até ali? Alguns personagens que surgem em sua vida vão começando a remexer lembranças, encostando no seu passado.


As verdades do cotidiano as vezes são o que precisamos ter. Filmado em 17 dias e vencedor do Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes desse ano, o longa-metragem de cativantes duas horas de projeção nos leva para uma análise profunda sobre uma bolha criada por uma pessoa que conseguiu se desprender de seu passado mas sem o esquecer. Será isso uma proteção? Talvez fruto de um vazio emocional? Um trauma? As perguntas são diversas nos levando da simplicidade para as inúmeras teorias sobre alguns porquês nos fazendo enxergar paralelos com a realidade.


O protagonista é intrigante. Ele contempla o momento, ele observa tudo atentamente. Sua quebra de rotina chega no caos emocional que se instaura quando lembranças de outros tempos (não apresentadas por completo) voltam como um raio, gerando um certo instante de instabilidade e desequilíbrio. Kôji Yakusho fala com o olhar, emociona num pequeno gesto, uma atuação para a galeria das melhores das últimas décadas.


O engraçado é que o espectador também encontra momentos de pausas para seu refletir. A narrativa não se desencontra do dinamismo, associa o passado ao presente, reflexões sobre a imagem, o movimento. Ainda por cima, temos canções na trilha sonora que são dicas para tudo que vemos, que sentimos. Perfect Days beira ao brilhantismo, do sorriso à angústia, num acordar e recomeçar tudo outra vez.



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