Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Rastros de Ódio'


A saga de transformação de um homem em meio a um borbulhante contexto histórico. Um dos filmes de faroeste mais lembrados da história do cinema, Rastros de Ódio, nos leva para alguns anos depois da maior guerra civil da história dos Estados Unidos, onde acompanhamos a saga de um homem amargurado pelo tempo em busca do paradeiro de sua sobrinha raptada por um grupo de indígenas. Dirigido por um dos mais lendários cineastas de Hollywood, o californiano John Ford, baseado na obra The Searchers, escrita no início da década de 50 pelo romancista norte-americano Alan Le May, Rastros de Ódio é muito mais do que um filme sobre vingança, marcou a cinematográfica mundial e fugiu de uma obviedade com um protagonista em enormes e aparentes conflitos mostrando verdades da época.


Na trama, conhecemos Ethan (John Wayne) um ex-soldado confederado (da parte que lutou pelos estados do Sul na Guerra Civil norte-americana) que visita a casa de seu irmão, no Texas, após alguns anos do término da guerra. Pouco tempo depois, a casa de seu irmão é atacada por um grupo da tribo indígena dos comanches que sequestra Debbie (Natalie Wood) a sobrinha de Ethan e mata o restante da família. Assim, ao lado do filho adotivo do irmão, Martin (Jeffrey Hunter), de quem o protagonista não conhece como sendo família por sua ascendência indígena, Ethan enfrentará diversos conflitos e obstáculos embarcando em uma jornada de longos anos atrás da sobrinha raptada.


Os conflitos emocionais de um protagonista em sua abrupta forma de se encontrar na solidão permanente, também alterando amor e ódio na relação de amizade com o sobrinho, formam a base de construções profundas de personagens amargurados pelo contexto histórico muito ligado à Guerra Civil Americana (também conhecida como Guerra da Recessão). Essa sangrenta batalha entre milícias do sul e norte dos estados unidos, com vitória da segunda região mencionada, afetou demais os estados sulistas que entraram em processo de reconstrução e reintegração aos Estados Unidos. Esse contexto histórico, muito bem explicado na trama, é uma ponta da origem do estado emocional dos personagens.


As filmagens, que ocorreram em regiões americanas com altas temperaturas, acima dos 40 graus muitas vezes, ajudam a narrativa na proximidade de um realismo constante de como eram naqueles tempos. John Ford, diretor de outros excelentes filmes, ficou marcado por esse. A violência abraçada à vingança, um elo que persegue os conflituosos momentos de uma tentativa de resgate, se torna um elemento chave para uma narrativa empolgante que marcou a história do cinema.



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...