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Crítica do filme: 'Asas do Desejo'


A mais bela poesia sobre a existência. Lançado no final da década de 80 e ainda ambientado em uma Berlim dividida pelo famoso muro que consta em todos os livros de história, a obra-prima do cineasta alemão Wim Wenders, Asas do Desejo, nos leva para uma série de reflexões sobre a existência entre anjos querendo o viver e almas perdidas quase sempre em desespero. Indicado para a Palma de Ouro em Cannes no ano de 1987 e vencedor do prêmio de melhor diretor no mesmo festival, esse filme consta na lista de muitos como um dos melhores da história do cinema.


Na trama, conhecemos um anjo chamado Damiel (Bruno Ganz) e outro chamado Cassiel (Otto Sander) que passeiam por uma Berlim do lado ocidental, friorenta, ao lado de outros iguais, observando o cotidiano dos mortais que não podem lhe enxergar. Damiel está no limite, de saco cheio da vida eterna. Seu maior desejo é se tornar um humano mortal algo que só cresce quando se apaixona por uma trapezista de circo chamada Marion (Solveig Dommartin).


A narrativa, a maneira como é contada essa história, é repleta de metáforas com teor filosófico, numa afiada linha contemplativa, que nos fazem refletir sobre algumas questões da mortalidade dentro de um conjunto de ações que andam de mãos dadas com a evolução de uma sociedade que erra e acerta na mesma proporção. A visão de fora, no caso de um anjo, acaba sendo a cereja do bolo. Mesmo sabendo de todos os problemas que abalam os corações aflitos, quem está na eternidade quer se jogar na mortalidade. Essa distância entre dois pontos antagônicos, o mortal e o imortal, ganham novos olhares.


Esse transporte das emoções para a tela é sempre um caminho complexo. Mas por aqui tudo é feito com uma simplicidade aliada a uma inteligente emocional que fazem um tour de 360 graus quando pensamos em conflitos e o espaço/tempo. As interpretações serão diversas, cada um vai sentir esse filme de uma forma de diferente de acordo como seu modo de enxergar o mundo.


O filme termina dizendo que sua história continua. É verdade. Uma continuação lançada cinco anos depois, Tão Longe, Tão Perto, complementa a fantasia e as reflexões propostas nos mostrando o desenvolver dos principais personagens que vemos por aqui. Foi também uma inspiração para uma outra obra, dessa vez hollywoodiana, protagonizada por Meg Ryan e Nicolas Cage lançada 25 anos atrás, Cidade dos Anjos.


Wenders, hoje perto dos 80 anos, deve aparecer em muitas listas nesse ano com o também belíssimo Perfect Days que tem muitos paralelos com essa obra aqui. Ele é um eterno seguidor de outros monstros sagrados da cinematografia mundial, inclusive essa obra-prima é dedicada a alguns dos seus maiores ídolos: o japonês Yasujirô Ozu, o francês François Truffaut e o russo Andrei Tarkovsky. Esses dois últimos falecidos anos antes do lançamento de Asas do Desejo.


Para quem se interessar, o filme está disponível no catálogo da Prime Video e também do Telecine. Vejam que não vão se arrepender!

 


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