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Crítica do filme: 'Oro Amargo' [Bonito CineSur]


Os dribles do destino em pleno deserto do Atacama. Sem oferecer respiros ou alívios, Oro Amargo — coprodução entre Chile, Uruguai e Alemanha — chamou atenção logo no primeiro dia da Mostra Competitiva de Filme Sul-americano do Bonito CineSur 2025. Dirigido por Juan Olea, o filme parte de uma relação aparentemente simples entre pai e filha para mergulhar o público em uma realidade dura e visceral, vista pelos olhos de uma protagonista encurralada em um contexto social opressor.

Carola (Katalina Sánchez, em ótima atuação) é uma adolescente que vive com o pai, o garimpeiro sem licença Pacífico (Francisco Melo), em uma comunidade humilde. Sempre presente nas tarefas do trabalho, ela vê sua rotina mudar drasticamente após um ataque violento ao pai, cometido por um ex-funcionário. Com Pacífico em recuperação, Carola precisa assumir os negócios da família — uma missão desafiadora em um ambiente marcado pelo machismo escancarado, pela misoginia e pela desconfiança gananciosa de quem a cerca.

Um dos aspectos que mais chama atenção é a maneira como o discurso se mantém estático mesmo diante de uma ruptura, impulsionado por um processo de amadurecimento precoce. Com poucas vias possíveis para reflexão, a narrativa aposta em uma abordagem cirúrgica, onde a tensão crescente e as múltiplas camadas de drama emergem com intensidade. Essas diferentes facetas de um mesmo conflito moldam com precisão o arco da protagonista, construindo uma trajetória envolvente e emocionalmente densa, que prende o espectador do início ao fim.

Dentro da harmonia com que conduz uma história pesada — tão dura quanto muitas realidades —, o roteiro rapidamente ultrapassa os limites do drama familiar e direciona o olhar do público para a amargura presente nas relações humanas. É esse o ponto de partida para uma jornada reflexiva sobre desigualdades e condições sociais. Sem espaço para respiros ou alívios, o filme avança de forma visceral, rompendo camadas que giram em torno de um mesmo epicentro. Impressiona como, a partir da amargura, consegue-se extrair algo potente — quase como transformar um limão em uma limonada, mas sem adoçantes.

A Mostra Competitiva de Filme Sul-americano do Bonito CineSur 2025 começou com o pé direito. Oro Amargo seria uma excelente adição ao circuito exibidor brasileiro — pena que, como tantas outras produções potentes, talvez não chegue às salas de cinema por aqui. Quem sabe, futuramente, em alguma plataforma de streaming. Reunindo temas urgentes e relevantes para o debate social, o filme é mais um exemplo da força do audiovisual em refletir e questionar realidades — sejam elas próximas ou distantes da nossa.


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