Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'A Mistake'


A exposição e a culpa. Chegou ao catálogo do Prime Video um filme profundo que aborda, com sensibilidade, um tema delicado que envolve medicina, ética e opinião pública. A partir de uma operação que se complica após um erro, somos conduzidos por uma narrativa densa que revela uma profissional brilhante vivendo no fio que separa o pragmatismo das emoções. A Mistake, dirigido pela cineasta neozelandesa Christine Jeffs, também encara de frente o sexismo, trazendo reflexões potentes sobre um ponto crucial: o desafio enfrentado por mulheres em ambientes machistas.

Elizabeth (Elizabeth Banks) é uma experiente cirurgiã em um hospital de alta demanda nos Estados Unidos. Durante uma cirurgia de rotina, seu residente, Richard (Richard Crouchley), comete um grave erro sob sua supervisão. No dia seguinte, a paciente morre, e Elizabeth passa a enfrentar embates com a administração do hospital, o machismo escancarado, o sexismo e o peso da opinião pública.

Baseado no romance homônimo de Carl Shuker, o filme coloca em evidência o erro - e, inevitavelmente, a culpa - para explorar as raízes complexas de nossa sociedade. Em uma descida por camadas cada vez mais profundas, acompanhamos os conflitos que se desdobram entre os personagens e os absurdos que, infelizmente, também encontramos na vida real, revelados em comportamentos egoístas que ferem princípios éticos e morais.

Em uma análise densa, que cruza a ética na medicina com as emoções humanas, acompanhamos uma protagonista cuja vida é virada de cabeça para baixo após uma mancha em seu brilhante currículo. O roteiro consegue expandir os debates que surgem, lançando luz sobre uma profissão tão essencial quanto desafiadora: a medicina. Em meio à exposição dos procedimentos cirúrgicos — sustentada pelo ideal de transparência pública, mas incapaz de revelar as complexas variáveis e imprevistos que moldam cada cirurgia —, a narrativa mergulha nas tensões entre dever e julgamento social.

A Mistake também enfrenta de forma direta a questão do sexismo — o preconceito baseado no gênero — no ambiente profissional, trazendo reflexões relevantes e precisas sobre o tema. A habilidade do roteiro em ampliar seu epicentro narrativo para discutir problemas que atravessam nossa sociedade diariamente é um dos grandes méritos desse filme, que merece ser descoberto.

 

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'De Sombra e Silêncio'

A cumplicidade em meio a um mar de descobertas. Diretamente de um país da Europa central com ótimas contribuições à sétima arte, a República tcheca (ou atualizado, Tchéquia), o longa-metragem De Sombra e Silêncio de forma objetiva e sem muita delonga transforma um segredo familiar em um pilar de acontecimentos surpreendentes  que rumam para o imprevisível. A vida do veterinário Martin ( Marian Mitas ) passou por uma enorme transformação após um acidente de trabalho, fato esse que o deixou em uma situação estável mas bastante limitada, sem falar e com sérios problemas. Para cuidar dele, a esposa Erika ( Jana Plodková ) entra logo num embate com a sogra Dana ( Milena Steinmasslová ), com quem nunca teve boa relação. Com a chegada de uma outra mulher nessa história, segredos do passado vai sendo passados a limpo culminando em uma série de situações surpreendentes. Umas das chaves do roteiro assinado - pelo também diretor da obra - Tomas Masin é gradativamente empilhar camadas em...

Crítica do filme: 'Minha Família quer que eu Case'

Não é preciso se reinventar, somente entender. Flertando com os clichês dos filmes românticos água com açúcar mas com algumas bonitas mensagens que chegam de maneira muito objetiva, o longa-metragem britânico Minha Família Quer que Eu Case pousa seu refletir nas tradições culturais e nas várias camadas do que seria amar. Dirigido pelo cineasta paquistanês Shekhar Kapur , com roteiro assinado pela britânica Jemima Khan, o projeto aborda de maneira encantadora, com personagens carismáticos, os dilemas provocados pelo pensamento contemporâneo e as raízes conservadoras. Na trama, conhecemos a documentarista Zoe ( Lily James ), uma mulher já na casa dos 30 anos, independente, que se dedicou nos últimos anos de sua vida à carreira profissional com poucas aberturas para amores e paixões. Certo dia, tem uma ideia para um próximo documentário que consiste em filmar a vida do seu vizinho de infância, o oncologista Kaz ( Shazad Latif ) que está prestes a se casar em um casamento arranjado, de a...

Crítica do filme: 'Matar Jesus'

Os questionamentos ao poder, a inconsequente justiça com as próprias mãos. Exibido no Festival de Toronto no ano de 2017, Matar Jesus , escrito e dirigido pela cineasta Laura Mora Ortega é um recorte impactante de um choque entre dois mundos, duas realidades dentro de uma mesma cidade. Uma tragédia inesperada. Uma família em dúvidas sobre o futuro em uma cidade tomada pela criminalidade. Uma jovem em busca de respostas e justiça. Um filme que gera uma dezena de reflexões. Potente fita colombiana. Na trama, conhecemos a jovem e alegre Lita ( Natasha Jaramillo ), estudante de fotografia, universitária, que tem uma grande admiração pelo pai, um professor universitário. Certo dia, após voltar para casa de carona com seu pai Lita presencia o terrível assassinato do mesmo por dois bandidos em uma moto. O tempo passa e Lita parece estar perdida com a absurda falta de sensibilidade da polícia local e sem nenhuma notícia sobre a justiça no caso. Dois meses após a tragédia, em uma boate, acab...