29/12/2022

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Pausa para uma série: 'Traição'


Personagens com pouco profundidade em uma trama que navega para a previsibilidade. Criada pelo roteirista Matt Charman, indicado ao Oscar pelo roteiro de Ponte dos Espiões, chegou nas últimas semanas no catálogo da Netflix a minissérie britânica Traição que nos mostra um recorte repleto de intrigas e luta por informações privilegiadas girando em torno de um protagonista que vê mais perdido do que cego em tiroteio. Ao longo dos cinco episódios, que possuem uma média de 35 minutos cada um deles, vamos tentar montar um quebra-cabeça complicado que envolve acontecimentos do passado, conflitos com a alta cúpula do serviço de inteligência britânico (o MI6), a família do protagonista e um ex-amor com sede de vingança. O roteiro parece guardar suas melhores linhas para os últimos episódios, após um início sonolento, deixando inclusive lacunas para eventuais próximas temporadas. O elenco é encabeçado por: Olga Kurylenko, Charlie Cox, Ciáran Hinds e Oona Chaplin.


Na trama, ambientada em uma Londres do presente, conhecemos Adam (Charlie Cox), um agente do MI6, segundo na hierarquia do comando da instituição que vê sua vida dar um verdadeiro nó quando o chefe do MI6 Martin Angelis (Ciarán Hinds) é vítima de um atentado em um restaurante. Assim, Adam precisará assumir o comando mas logo percebe que nada será fácil pois reaparece em sua vida um ex-amor do passado, a espiã russa Kara (Olga Kurylenko) que está em solo londrino em busca de vingança. Nos dias que se seguem, chantagens, atentados e outras agências de espiões se juntarão a essa trama que acaba envolvendo também a família de Adam, principalmente sua esposa, a espanhola Maddy (Oona Chaplin).


Com um início morno e personagens desenvolvidos de maneira rasa, Traição busca sua primeira tentativa de envolver adicionando uma curiosa trama de espionagem que envolve uma questão que é sempre muito importante nesse universo: a informação. Partindo das contestações das linhas éticas, aqui na figura de um diretor que usa informações polêmicas dos outros para tê-los sobre controle, vamos entendendo melhor essa história a partir das escolhas dentro dos conflitos dos personagens. Há também busca por detalhes nas relações diplomáticas e políticas, aqui na figura de uma provável primeira ministra e as intenções da CIA em tudo que acontece.


Como tudo a princípio é bem misterioso, não sabemos logo de cara quais personagens estão ou não mentindo mesmo o roteiro rumando para uma previsibilidade iminente. A subtrama mais interessante acaba não sendo nada relacionado a espionagem, a de Maddy, uma esposa, ex-militar, que se vê em grandes conflitos buscando entender as intenções do marido e precisando lidar com o sofrimento dos filhos dele (que não são dela).


Traição é o que eu chamo de série de tiro curto, você consegue ir até o final rapidamente. Pra quem curte histórias de espionagens pode até encontrar outros pontos positivos no projeto mas uma coisa que fica evidente é que ou faltaram peças a serem melhor desenvolvidas ou deixaram as mesmas para eventuais futuras temporadas.



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23/12/2022

Crítica do filme: 'RRR: Revolta, Rebelião, Revolução'


Ação, drama e aventura em um enorme aulão sobre a imposição de autoridade de uma cultura sobre outra. Uma das maiores surpresas do mundo do cinema nesse ano de 2022, o longa-metragem indiano RRR: Revolta, Rebelião, Revolução indicado à duas categorias no Globo de Ouro 2023, tem uma narrativa dinâmica, pulsante, que apresenta ao público dois heróis que lutam quase na contramão contra um mesmo inimigo em uma Índia dominada pelos ingleses nos anos 20. Tem drama, tem surpresas, tem musical, tem cenas de ação de tirar o fôlego, numa história empolgante que gira em torno da amizade de dois lutadores pela liberdade da Índia nunca se conheceram na vida real.


Na trama, ambientada na década de 20 em uma enorme região da Ásia meridional colonizada pelos ingleses (que hoje conhecemos como a Índia) conhecemos uma jovem, integrante de uma pequena tribo, que é levada por um governador britânico e sua esposa contra vontade da família. Um integrante dessa tribo, o guerreiro gente boa Komaram Bheem (N.T. Rama Rao Jr.) jura a sua tribo ir até o poderoso palácio de domínio inglês e resgatar a jovem sequestrada. Em paralelo a isso, conhecemos a história de um integrante do exército britânico, de origem indiana, chamado Alluri Sitarama Raju (Ram Charan Teja) que está num presente em busca de maior reconhecimento para seus feitos no exército. Quando alta cúpula britânica descobre que Komaram Bheem quer resgatar a criança sequestrada, uma mobilização é feita como proteção ao governador e essa pode ser a chance de Alluri Sitarama Raju em se destacar. Só que as surpresas nessa história estão em todo lugar, Komaram Bheem e Alluri Sitarama Raju acabam de se tornando grandes amigos sem saberem dos segredos guardados de um e do outro.


A revolução e o contexto do colonialismo. Dirigido pelo cineasta S.S. Rajamouli, RRR: Revolta, Rebelião, Revolução tem seu alicerce no contorno político muito conhecido do período onde a Índia (com o Paquistão inclusive) era dominada pelos britânicos desde o século XVIII. A partir daí, uma pitada de fantasia, mencionando verdadeiros revolucionários contrários ao colonialismo e que sempre buscaram a independência indiana (mas que nunca se conheceram), é inclusa nas linhas do roteiro assinado por Vijayendra Prasad, Sai Madhav Burra e Madhan Karky. O filme foca numa espécie de prelúdio da pré-independência desses dois aqui carismáticos personagens que possuem qualidades e defeitos nas resoluções dos conflitos que aparecem. Essa questão do herói é um ponto fixo dentro da narrativa, há uma luta entre heróis e vilões. Essa reta maniqueísta simplifica, até mesmo esteriotipa, as linhas do roteiro mas consegue alcançar profundidade pelo contexto geopolítico amarrado nos conflitos.


O dinamismo do roteiro chama a atenção. Em um generoso espaço de tempo (afinal são mais de três horas de duração de fita), o projeto consegue detalhismo na força de um país muito rico culturalmente, com enorme biodiversidade, diversidade linguística, que tem a segunda maior população do planeta e ainda é o berço de quatro das principais religiões do mundo: hinduísmo, budismo, jainismo e siquismo. RRR: Revolta, Rebelião, Revolução leva também ao mundo a força do cinema de Tollywood (cinema indiano dedicado à produção de filmes na língua telugu), se tornando o primeiro filme indiano a arrecadar mais de 100 milhões de dólares em bilheteria pelo mundo desde a chegada da COVID-19. O filme está disponível na Netflix.



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18/12/2022

Crítica do filme: 'As Linhas Tortas de Deus'


Quando nada é o que parece ser. Despretenciosamente chegou no catálogo da Netflix nesses últimos dias um suspense espanhol que por meio de uma narrativa pra lá de detalhista consegue transformar em um espetáculo cinematográfico as minuciosas linhas de uma obra (Los Renglones Torcidos de Dios) de 409 páginas, escrita em 1979 pelo jornalista Torcuato Luca de Tena, que entre outros pontos desossa as esquinas umbrosas da mente humana de forma a manter nossa atenção por quase três horas de projeção. Dirigido pelo excelente cineasta espanhol Oriol Paulo, que já conquistara a atenção dos cinéfilos em outros dois filmes misteriosos que também estiveram no catálogo da Netflix (Um Contratempo e Depois da Tormenta), As Linhas Tortas de Deus é uma jornada hipnotizante, que requer muita atenção do espectador, onde cada um pode interpretar de forma diferente seu desfecho arrepiante.


Na trama, conhecemos Alice (Bárbara Lennie, simplesmente fabulosa no papel) uma investigadora muito inteligente, que está em um momento conturbado no relacionamento com o marido, e resolve aceitar uma investigação de um crime em um hospital psiquiátrico. Para tal, resolve inventar uma personagem com determinado sintoma (aqui, a paranoia) e se internar por livre e espontânea vontade. Durante sua estadia nesse lugar, investigando de perto médicos e pacientes, passará por situações onde descobrirá segredos que aos poucos vão colocando tudo que ela própria pensa em xeque.


Uma minutagem que se justifica. Com quase três horas de duração esse eletrizante suspense encaixa suas peças com muita calma dentro do labirinto que se torna o ponto de vista da protagonista. Num primeiro momento, compramos a ideia de que estamos assistindo os rumos de uma investigadora em busca da solução de determinada situação mas com as surpresas que a narrativa coloca no filme há um desembocar em uma estrada contraditória, onde, com tudo que reunimos de informações, precisamos escolher entre uma internação forçada ou um intenso distúrbio mental (pode ser que encontrem argumentos até mesmo para as duas questões em conjunto). Oriol Paulo sabe como poucos na atualidade dentro do audiovisual levar o espectador até as garras das surpresas, do choque das reviravoltas, dos impactantes e interpretativos desfechos.


Há vários fatores que nos levam para o tão aguardado Plot Twist que se modela a história. A descrença da própria protagonista quando paralelos com o lado maternal são acionados através das descobertas do real foco da investigação é um ponto a ser refletido, até mesmo a falta de clareza no relacionamento com o marido. Nessas partes, podemos até não saber com exatidão na hora, mas já entramos no campo dos sentimentos e percepções da psique humana principalmente no acionamento de um provável mecanismo de defesa de um inconsciente em conflito dentro de uma fantasia. As Linhas Tortas de Deus é um fascinante estudo sobre a mente, um filme que é um deleite para psicólogos e amantes dos estudos sobre os processos mentais.



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16/12/2022

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Crítica do filme: 'Passagem'


Os aprendizados numa jornada pela melancolia. Filme de estreia como diretora de longa-metragem da cineasta nova iorquina Lila Neugebauer, Passagem, disponível no ótimo catálogo da Apple TV Plus, nos apresenta uma imersão à solidão de uma jovem militar que volta pra casa depois de terríveis sequelas no Afeganistão. A partir de uma amizade com um mecânico, esse também com toda uma estrada de angústia em um passado recente, busca novos horizontes, um novo olhar para frente, numa linha mais positiva sobre o que consegue alcançar no seu pensar sobre existência. Esse poderoso drama conta com atuações emocionantes dos excelentes Jennifer Lawrence e Brian Tyree Henry. Esse último indicado ao Spirit Awards 2023 na categoria Melhor Atuação Coadjuvante.


Na trama, conhecemos Linsey (Jennifer Lawrence) uma militar do corpo de engenharia do exército, especialista em sistemas de águas, que sofre uma complicada lesão cerebral no Afeganistão quando o veículo onde estava é atacado. Ela perde alguns movimentos do corpo e na volta para os Estados Unidos acaba indo num primeiro instante para a reabilitação na casa de uma cuidadora depois ruma para casa, onde tem a chance de resolver (ou pelo menos tentar) problemas adormecidos na relação com a mãe Gloria (Linda Emond) e nesse meio tempo, consegue emprego como piscineira e acaba conhecendo o mecânico James (Brian Tyree Henry) um homem muito bondoso que perdeu a perna em um grave acidente que mudou para sempre o destino de sua família. Assim, essas duas almas iniciam uma amizade com ganhos mútuos numa estrada dolorosa para saírem da solidão.


Um dos principais pontos para refletirmos sobre essa bonita história de superação é a questão do estado de desencanto, da tristeza. A melancolia embutida, muito por conta dos diálogos passarem pela caminhada até ali dos novos amigos, dentro de seus conflitos difíceis de serem superados aqui se torna um raio-x de personalidades que buscam meio que inconscientemente respostas para questões ligadas aos respectivos passados vividos ali mesmo naquela Nova Orleans com altas temperaturas. No caso de Linsey, enxergamos logo de cara uma barreira na comunicação com a complicada mãe e os motivos de uma fuga do lugar de criação. No caso de James, reflexões e a busca de uma redenção em contraponto à culpa que sente por ser o responsável de um terrível acidente.


Há um parábola, uma mensagem indireta, nas cenas tendo a piscina como cenário. A de plástico, que divide com a mãe em uma cena a protagonista passa a pensar sobre o seu redor e logo depois em outros pensares limpando as enormes piscinas de endinheirados da região. Quando se sente curada de qualquer que sejam suas angústias salta numa piscina lotada como se fosse um forte paralelo onde encontra a hora de se jogar na vida novamente e buscar a felicidade.


No projeto, rodado todo em 2019 mas só lançado no segundo semestre desse ano, o tempo e o valor de um abraço também se tornam variáveis importantes em todo esse processo que gera aprendizados. Na jornada desse recorte pós traumático surge uma mola propulsora para preenchimentos de lacunas no campo emocional já que o Afeganistão, no caso da protagonista, não é o único trauma que busca-se soluções.



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Crítica do filme: 'Os Filhos de Isadora'


A dor que desperta movimentos. Exibido no Festival de Locarno em 2019 onde foi o vencedor do prêmio de Melhor Direção, Os Filhos de Isadora nos apresenta um recorte bastante profundo para as interpretações de um solo de dança pelo olhar de quatro mulheres. Escrito e dirigido pelo cineasta francês Damien Manivel, somos testemunhas de uma jornada que começa em outubro e acaba se mostrando algo infinito, cíclico, com o alcance da força do complemento da mensagem dos movimentos que virou arte através de uma eterna homenagem em forma de dança, uma tentativa de transformar uma dor inesgotável em beleza pelos olhos da arte. Um legado deixado para a dança moderna pela coreógrafa e bailarina californiana Isadora Duncan.


A narrativa gira em torno do legado de Isadora Duncan, dançarina norte-americana percursora da dança moderna, e a tragédia que fez parte de sua vida. Ela perdera os filhos pequenos em um terrível acidente às margens do Rio Sena. Sem forças para um simples gesto, com o luto batendo na porta de suas emoções sem folga, criou um solo chamado de ‘A Mãe’. Essa série de movimentos ao longo dos anos tocou corações, profissionais da dança ou não, por onde fora exibido. Aqui em Os Filhos de Isadora, acompanhamos quatro mulheres e suas interpretações e sentimentos sobre esse solo emocionante.


O poder da dança para se refletir sobre um momento. Na busca de paralelos entre as artes, aqui a dança e o cinema, vemos uma série de tentativas para se conseguir unir essa narrativa de dor e sofrimento em algo próprio do artista. A força dos movimento parece dizer tanta coisa, sem uma fala. Os caminhos de cada indivíduo é que os levam para suas interpretações aqui atravessados pelas histórias de cada um.


A tragédia pode se tornar beleza? O abstrato ganha contornos, como se as emoções ganhassem vida através da dança, assim chegamos na saudade, na dor, no aprendizado, no elo de todo um caminho entre pais e filhos.



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Crítica do filme: 'Veja como eles Correm'


Pulsante comédia com muitas referências ao processo criativo. Sabe aquele jogo famoso de tabuleiro chamado detetive criado no início da década de 40 pelo músico e compositor inglês Anthony Ernest Pratt que foi um sucesso no planeta antes da era digital? Veja como eles Correm longa-metragem que estreou no mês de dezembro no catálogo da Star Plus busca sua interação dentro de uma comédia com camadas generosas de suspense, naquele estilo já bem conhecido do ‘quem matou?’, flertando com a metalinguagem e abordando o processo criativo de forma leve e bem-humorada. Tudo isso em um recorte pelos bastidores encantadores mas também avarentos da cena teatral londrina dos anos 50.


Na trama, primeiro longa-metragem da carreira do cineasta britânico Tom George, ambientada em uma Londres dos anos 50, mais precisamente na badalada West End (tipo uma Broadway inglesa) conhecemos os bastidores da peça A Ratoeira, da famosa escritora britânica Agatha Christie, onde após uma comemoração de artistas e produtores pela centésima apresentação, Leo (Adrien Brody), o futuro diretor da adaptação cinematográfico da obra é encontrado morto. A partir desse crime, entram em cena o Inspetor Stoppard (Sam Rockwell) e a jovem policial Stalker (Saoirse Ronan) que se jogam em uma série de entrevistas para a resolução do assassinato.


Flertando com a metalinguagem, em debochados diálogos, Veja como eles Correm reflete sobre o processo criativo na figura de artistas do entretenimento, um olhar bastante curioso sobre o que acontece atrás das cortinas. O ego, o narcisismo, o pensamento capitalista embutido no meio da arte, entre outras características ganham modelagens cômicas nesse projeto alto astral que até mesmo quebra a quarta parede em um momento específico.


Repleto de referências sobre a cena teatral britânica, o roteiro assinado por Mark Chappell nos leva a uma série de homenagens para uma montagem do livro já mencionado, e de sucesso, da dama do mistério Agatha Christie. Richard Attenborough e a sua mulher, Sheila Sim, no filme representados por Harris Dickinson e Pearl Chanda, respectivamente, foram alguns dos primeiros artistas a interpretar os papéis no teatro. Pra quem não conhece, Sir Richard Attenborough interpretou anos mais tarde, no cinema, o personagem John Hammond na franquia Jurassic Park.


Mas tem mistério também! Caminhando pela estrada da experiência em contraponto a inexperiência, o filme nos mostra os conturbados momentos da investigação na visão de um alcóolatra emburrado e uma jovem aprendiz do departamento de polícia. Sempre de forma leve e puxando ganchos importantes sem perder a trama principal, Veja como eles Correm é um agradável passeio por uma década de 50 em grande ebulição no cenário artístico europeu (sempre impulsionado pelo o que acontecia em outro continente, lá na América do Norte, nos Estados Unidos, numa uma Hollywood a todo vapor) onde você podia atravessar a rua e encontrar nomes que estariam na história do mundo das artes.



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15/12/2022

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Pausa para uma série: The Last Ship'


O que você faria se o mundo se destruísse quase por completo por uma pandemia e você estivesse em um navio onde pode estar a cura? Bem antes da chegada da Covid-19 ao mundo real, os showrunners Steven Kane e Hank Steinberg, juntamente com Michael Bay na produção, trouxeram para o mundo da ficção o ponto de vista de um experiente comandante de um navio de guerra e toda sua tripulação sobre uma pandemia e os desenrolares caóticos em que se transformara o planeta longe das águas. Com episódios dinâmicos e repletos de conflitos para seus personagens, The Last Ship é um drama pouco comentado mas que merece seu reconhecimento. O projeto é baseado em uma obra homônima lançada no final da década de 80 pelo escritor e jornalista norte-americano William Brinkley.


Na trama, conhecemos Tom Chandler (Eric Dane), o comandante do contratorpedeiro Nathan James da marinha norte-americana. Ele e sua enorme tripulação embarcam em uma missão de alguns meses no mar onde levam à bordo a doutora Rachel Scott (Rhona Mitra) que vai para algumas áreas do planeta coletar dados para uma pesquisa secreta. Quando a missão está perto do fim, Tom e sua equipe percebem que algo está estranho no planeta, as comunicações encontram-se com problemas e logo se descobre que uma enorme tragédia atingiu toda a terra sendo eles uma das poucas forças militares norte-americanas vivas. Ao mesmo tempo, percebem que as pesquisas da Doutora que está no navio é exatamente para encontrar a cura para o problema mundial. Assim, Tom embarca em inúmeras missões em busca de soluções.


A narrativa repleta de tensão e ação funcionou muito bem na sua primeira temporada, como um desfecho que abriu alas para enormes possibilidades nas temporadas futuras (a série ficou no ar de 2014 à 2018 e hoje tá toda disponível na Prime Video). O protagonista, o capitão interpretado muito bem por Eric Dane, é um eterno homem em conflito que se vê na busca de uma reconstrução de vida, talvez até mesmo uma adaptação a partir do mundo que se moldou ao seu redor. Os conflitos que ele enfrenta pela frente vão desde a busca por notícia de sua família, a quase perda de comando por decisões duras (talvez até polêmicas) que precisaram serem tomadas, um duelo contra um experiente comandante da marinha russa que lembrou tempos da famosa guerra fria, entre outras questões.


A ciência ganha espaço na série pela ótica da Doutora Scott. Uma das únicas pessoas capazes de encontrar a cura para o que destrói o planeta, se vê muitas vezes em conflitos que não está acostumada, entre a razão e a emoção. E após encontrar a cura? Quais são os próximos passos de reestruturação de um governo? Quais os cuidados que a população deve tomar para que o vírus não evolua novamente? Muitas perguntas são deixadas pelo caminho.


Rodado em muitos momentos em navios de guerra de verdade da marinha dos Estados Unidos, The Last Ship envolve o espectador com tramas bem profundas sob o olhar dentro do desespero de uma situação pandêmica e a luta para se manterem os valores de honra, coragem e compromisso.   

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Crítica do filme: 'A Novata'


Os fortes traços do desequilíbrio dentro de uma obsessão. Indicado em cinco categorias no Spirit Awards 2022 (uma espécie de Oscar do cinema independente), A Novata, primeiro longa-metragem dirigido pela cineasta Lauren Hadaway, busca refletir sobre uma lógica dentro de uma diligência sobre o descontrole em se desafiar. Com uma impactante protagonista (interpretada de maneira brilhante por Isabelle Fuhrman), que muitas vezes mostra-se enigmática, a narrativa se joga no nada superficial rompimento com a razão que chega ao mesmo tempo de emoções que transbordam.


Na trama, conhecemos Alex (Isabelle Fuhrman), uma caloura de uma faculdade que se junta à equipe de remo da instituição. Sem ter muitos amigos e sozinha com o seu pensar em muitos momentos acaba entrando em desequilíbrio quando o exaustivo treinamento domina a vida dela que em busca de uma perfeição nos movimentos se vê em uma estrada em linha reta rumo ao desespero não sobrando espaço para mais nada.


Os prejuízos e sofrimento de uma busca por perfeccionismo tomam conta dos quase 100 minutos de projeção. O compromisso com a disputa se torna algo além da conta para a estudante atleta, o roteiro navega numa construção de personalidade narcisista, egoísta, talvez algo próximo de um Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva. Amargurada, com o passar do tempo some com qualquer tentativa em encontrar o equilíbrio, muito menos tranquilidade, moldando seu cotidiano em um caótico estado de espírito rumando seu corpo e mente para um abismo.


Relaxar é um privilégio ou um padrão? Essa pergunta é algo fixo durante tudo que enxergamos pelas lentes atentas de Hadaway. A narrativa busca reflexões sobre alguns porquês, assim logo em seu prelúdio é apresentado as facetas da obsessão. Mas a forma de enxergar o recorte do seu presente só é visto de maneira mais ampla nos arcos finais quando a protagonista já entrou em seus conflitos, seus altos e baixos emocionais. Pra quem curte psicologia, esse longa-metragem é um prato cheio!



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Pausa para uma série: 'Inside Man'


As interpretações sobre o caráter através de linhas tortas aplicadas a moral. Chegou no catálogo da Netflix em 2022, uma minissérie de apenas quatro episódios que mostra os conflitos, teorias, embates, entre um ex-professor de criminologia, assassino confesso da esposa que está no corredor da morte e uma jovem jornalista em busca de uma pessoa desaparecida. A narrativa busca reflexões sobre argumentações entre o que seria um vilão e um anti-herói, o brilhantismo vs o lado sombrio, a culpa e a redenção. Feito para ter algumas temporadas, já que o protagonista (interpretado pelo sempre ótimo Stanley Tucci) deixa muitas lacunas em aberto, Inside Man também busca explicações sobre as imperfeições da natureza humana.


Na trama, conhecemos o inteligente Jefferson Grieff (Stanley Tucci) um perito em criminologia, ex-professor, que após matar a esposa é condenado à morte. À espera da sentença ser executada, passa seus dias no conhecido corredor da morte, onde consegue a permissão do diretor da prisão para resolver casos misteriosos dos mais diversos tipos. A jornalista Beth Davenport (Lydia West) fica sabendo dessa história e resolve ir até a prisão conhecer o detento. Só que ela é envolvida numa situação de um desaparecimento de uma moça que a defendeu de um assédio no metrô e acaba tendo que recorrer a Jefferson em busca de uma solução. Assim, vamos conhecendo uma curiosa trama que envolve um vigário de uma cidade (David Tennant), sua família e conhecidos.


Nessa primeira temporada, o plano de fundo é um caso de cárcere privado que acaba se tornando uma incontrolável situação tirando de debaixo do tapete as imperfeições morais para a casa de uma pessoa bem-quista de uma cidade. Com uma forte presença da ironia dentro de uma sátira social que ruma para a desconstrução de uma pré-definida perfeição, a minissérie possui um certo dinamismo em sua história.


Em Inside Man o olhar não sai de uma mesma direção, sobre um homem muito inteligente que consegue hipnotizar a todos ao seu redor com seu charme e deduções acertadas mas que esconde um lado sombrio já que anos atrás assassinou de forma cruel a esposa (inclusive escondendo a cabeça em um lugar misterioso). Esse contraponto, do vilão e do anti-herói é uma agitada linha que a narrativa desses quatro primeiros episódios navega sempre buscando manter o clima de tensão. Há muitas questões sobre a personalidade do peculiar protagonista a serem exploradas em prováveis próximas temporadas.



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14/12/2022

Crítica do filme: 'O Amante de Lady Chatterley'


O fogo da paixão e as descobertas sobre o desejo. Baseado no livro homônimo do escritor britânico D.H. Lawrence, publicado no final da década de 20, O Amante de Lady Chatterley nos mostra uma saga de escolhas de uma mulher que joga para escanteio as frustrações de um relacionamento infeliz para viver de forma muito intensa os prazeres do amor com um funcionário da propriedade rural de seu marido. A descoberta do desejo, dos prazeres, de forma bem detalhista, contornam as linhas do roteiro que é assinado por David Magee. Como protagonista, a atriz Emma Corrin, intérprete da Princesa Diana em The Crown.


Dirigido pela cineasta francesa Laure de Clermont-Tonnerre (do ótimo Mustang), O Amante de Lady Chatterley nos apresenta Connie (Emma Corrin), uma jovem mulher que vive um primeiro momento de muita felicidade no seu recente casamento com um membro da aristocracia, Clifford (Matthew Duckett), esse que logo vai para a guerra e acaba voltando com problemas de locomoção. Certo dia, o casal resolve ir passar uma temporada na casa de campo, uma enorme propriedade. Aos poucos Connie vai se sentindo mais afastada do marido e ficando cada vez mais sozinha. Durante um curioso papo, é sugerido para Connie procurar um outro homem para ter um filho e quando engravidar Clifford o assumir dizendo ser dele. Lutando contra essa ideia que nada ia de encontro aos seus princípios, Connie acaba se aproximando de um funcionário da propriedade, o ex-soldado Oliver (Jack O'Connell) por quem logo acende uma enorme paixão e desejo, descobrindo novas facetas sobre intensos sentimentos.


A descoberta do desejo, aqui com uma lupa para um retrato bem íntimo, é um dos pontos de reflexão desse projeto que busca nas escolhas o alicerce narrativo para o preenchimento dos conflitos, mostrando de forma bem profunda uma mulher em conflito com as descobertas de uma intimidade desconhecida até então que lhe chegam à sua frente. Abordando o desejo, o sexo, de forma bem detalhista, o livro que fora baseado esse roteiro causou enorme polêmica na época de seu lançamento, chegando as primeiras publicações na Inglaterra apenas 32 anos depois da primeira publicação acontecer na cidade de Florença na Itália.  


Como fica preso na questão dessa descoberta do desejo, não alcança profundidade no contexto, fazendo coadjuvantes apenas existirem sem brilho e deixando de lado uma maior ambientação sobre a época, além de ficar distante das questões sociais em uma europa perto de ebulições na luta por direitos.



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Pausa para uma série: 'The White Lotus' (2a Temporada)


A continuação da investigação da natureza humana por meio dos fluxos e contrafluxos do moralismo. Seguindo a mesma direção do que foi o enorme ponto de encontro de reflexões sobre a natureza humana na primeira temporada, nessa nova página de sete episódios, novamente escrito e dirigido por Mike White, The White Lotus busca dessa vez um amplo olhar sobre o impulso, aqui uma variável estopim de feridas emocionais que são despejadas na trajetória dos personagens. O desejo, a sensualidade, as escolhas, as relações familiares, a sátira social, são alguns dos elementos que não deixam de ser uma marca dessa série antológica fenômeno de audiência e ganhadora de muitos prêmios.

Na trama, seguimos os passos de funcionários e hóspedes recém chegados a um resort de luxo na Itália ao longo de explosivos sete dias. Assim conhecemos uma família composta por Avô, Pai e filho que estão em uma busca pelas raízes italianas da família; duas amigas ambiciosas que topam quase tudo por dinheiro; a gerente do hotel que busca sair do armário; um quarteto de amigos que se veem envolvido em situações ligadas ao desejo; uma jovem assistente infeliz que precisa acompanhar sua chefe milionária a essa viagem e acaba ficando em dúvida sobre qual caminho seguir entre dois pretendentes amorosas. São muitos personagens, cada qual com seu drama e ao longo dos sete episódios vamos vendo conclusões bombásticas para cada uma dessas histórias.  


Pensando sobre o abstrato universo das emoções, há dois pontos interessantes para pensarmos sobre essa temporada: o estado absorto do ser humano e o impulso. No primeiro é uma característica das pessoas que se concentram na maior parte do seu dia voltados para os próprios pensamentos fato que pode ser um ponto de ebulição caso conflitos venham a surgir sem rápidas resoluções (como é o caso em uma das histórias). O impulso é quase uma característica marcante de todos os personagens, um elo de interseção que vira um dos pontos fixos da narrativa.


Tudo ainda continua muito misterioso e seguindo em um rumo para desfechos inimagináveis, são apresentados ótimos personagens e ainda reflexões sobre as atitudes de indivíduos dentro de uma cadeia de privilégios e os que estão fora dela. O lado sombrio do ser humano e a maneira como são vistos esses recortes podem ser alguns dos pontos que tornam The White Lotus um eterno laboratório reflexivo sobre as inúmeras formas de encontrar soluções para o caos emocional que pode vir a reinar em uma trajetória a partir de traumas, conflitos, onde o próprio indivíduo não consegue encontrar rápidas soluções transformando um aparente equilíbrio em um desenfreado olhar para emoções perdidas.



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Critica do filme: 'O Desconhecido' (2022)


Os caminhos investigativos de uma confissão. Exibido na Mostra Um Certo Olhar em Cannes nesse ano, o longa-metragem australiano O Desconhecido navega por uma investigação repleta de variáveis onde temos o foco em um policial disfarçado que busca provas contra um homem por um crime do passado. Baseado no livro The Sting da jornalista e escritora Kate Kyriacou, o projeto, que possui uma narrativa detalhista que apresenta suas peças aos poucos, caminha por detalhes do que ficou conhecida como uma das maiores operações policiais da história da Austrália. Joel Edgerton e Sean Harris estão brilhantes no seus respectivos papéis.

Na trama, conhecemos dois homens que nunca se viram e acabam iniciando uma amizade em uma ônibus. Eles resolvem se ajudar e tempos depois, um deles, Henry Teague (Sean Harris), acaba entrando para uma rede criminosa que realoca pessoas e apaga histórias onde é recebido e vira parceiro de ações de Mark (Joel Edgerton). Só que Mark na verdade é um policial disfarçado que faz parte de uma equipe de experientes agentes da lei que buscam provas contra Henry por um crime cometido quase dez anos antes. Buscando estreitar os laços de confiança com o suspeito, Mark precisará correr contra o tempo em busca da confissão do criminoso.


O abstrato componente segredo, aqui colocado em duas vias paralelas como se fossem antíteses, algo como o veneno e o antídoto, em uma batalha repleta de angústia e apreensão, é fator chave para o raio-x emocional traçado dos personagens. No ponto de vista de Mark, o policial infiltrado mais presente na operação, por onde a narrativa mantém sua quase total atenção, acompanhamos uma rotina de ansiedade constante que beira ao próximo de um caos emocional por tudo que envolve a importância de se conseguir a confissão.


Nos seus arcos iniciais, a história de O Desconhecido fica um pouco difícil de se entender, principalmente se você for assistir a esse trabalho disponível na Netflix sem ter pesquisado sobre o fato que foi baseado. Aos poucos vamos acompanhando e entendendo melhor algumas histórias que correm em paralelo mas que fazem parte da questão principal abordada como um todo. Há um clima de tensão constante induzindo o espectador a um estado de atenção aos detalhes. O brilhantismo do roteiro nos aproxima dos detalhes com grande abordagem do contexto como se peças fossem apresentadas a cada nova virada na trama nos levando a uma compreensão sobre todos os esforços da operação traçada, que ficou conhecida como uma das maiores operações policiais da história da Austrália.


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12/12/2022

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Crítica do filme: 'Os Odiados do Casamento'


Ficar a sós com o desconforto é uma forma de aprender a se sentir mais confortável? Explorando os inúmeros conflitos em torno de uma reunião familiar para um casamento de uma parente que se tornou distante, Os Odiados do Casamento de forma bem divertida, mesmo derrapando nos clichês, caminha em interessantes reflexões sobre profundos dramas existenciais ao longo de seus 100 minutos de projeção. Dirigido pela cineasta norte-americana Claire Scanlon, em seu segundo longa-metragem na carreira, essa dramédia, baseado na obra homônima do escritor Grant Ginder, é uma boa surpresa no catálogo da Prime Video.


Na trama, conhecemos uma família que por muito tempo ficou longe, entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Assim, conhecemos Donna (Allison Janney) e seus filhos: a mais velha Eloise (Cynthia Addai-Robinson), fruto de seu relacionamento com Henrique (Isaach De Bankolé), e os outros dois Paul (Ben Platt) e Alice (Kristen Bell), fruto do segundo casamento. No início os filhos eram muito unidos mas a distância (Eloise mora na Inglaterra e os irmãos no Estados Unidos) acabou afastando a família gerando uma série de situações que praticamente romperam a relação forte e poderosa que tinham. Anos se passam e Eloise vai se casar em Londres e chama a mãe e seus irmãos para o casamento o que ocasiona em um série de situações onde todos precisarão enfrentar seus conflitos afim de se entenderem melhor.


A comédia aqui é manipulada por fortes argumentações dentro dos subtópicos dramáticos que invadem a vida pessoal dos envolvidos. Tem Paul, um jovem terapeuta morador da Filadélfia, infeliz no trabalho, que passa por uma fase de muita conversa sobre os rumos dos relacionamentos com Dominic, seu namorado. Temos Alice uma arquiteta que trabalha como secretária em uma empresa de tecnologia em Los Angeles que está envolvida com um superior cheio a grana mas não consegue sair da zona de incômodo por ser a outra já que o seu caso é casado e tem um filho pequeno. Donna é a mãe que coleciona uma série de conflitos com toda a família e se vê em total crise num presente cheio de variáveis que não pode controlar, principalmente a reaproximação com um dos ex-maridos. Eloise, a noiva, se vê em um caminho de consertar a abrupta ruptura com todos usando a importância de seu casamento como ponto de reunião familiar.


A narrativa explora com muita eficácia as resoluções das arestas dos relacionamentos. Seja essa estrada extremamente conflitante ou não. O passado aqui, mesmo não mostrado, é importante, surgem como pílulas nos diálogos onde conseguimos rapidamente captar a importância dos conflitos que se tornam iminentes. O desconforto se torna algo frequente, como se uma porta de sair da zona de conforto fosse habilitada para ser aberta rumando para o campo sempre movediço das escolhas.



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23/11/2022

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Pausa para uma série: 'Meu Querido Zelador'


O egocentrismo do desequilíbrio. Explorando conflitos de um enigmático protagonista que mora faz mais de 30 anos em um prédio onde é o zelador durante todo esse tempo, o seriado argentino Meu Querido Zelador nos leva para uma jornada com paradas na psicologia, na sociologia, onde assistimos um metódico modo de pensar egoísta entrar em descontrole. Com uma narrativa puxada para a comédia, onde brilha o veterano ator argentino Guillermo Fancella, esse seriado lançado em 2022, sem muita badalação, conquista o público deixando um gosto de quero mais.


Criada pelo trio Mariano Cohn, Gastón Duprat e Martin Bustos, ao longo de onze episódios de cerca de 30 minutos de duração acompanhamos a história de Eliseo (Guillermo Francella), um quase senhor de idade, bastante ativo, que é zelador de um prédio de classe média alta numa região central de uma grande cidade na Argentina. Seus dias são intensos, com muitos afazeres e tentando agradar a todos os moradores a todo instante. Mas o protagonista tem um lado obscuro ligado ao seu egocentrismo marcante buscando levar vantagens em situações do dia a dia.  Seu controle sobre tudo acaba indo por agua abaixo quando um dos moradores, o narcisista Matías Zambrano (Gabriel Goity) resolve colocar em prática uma votação para criar uma piscina no último andar do prédio, exatamente o lugar onde Eliseo mora. Ao mesmo tempo, o projeto prevê a demissão dele. Assim, o intrigante personagem principal dessa história embarcará em uma jornada para convencer a maioria dos moradores do prédio a votarem a seu favor.


A sociopatia é um traço marcante por aqui. Dono de ações absurdas, como: chantagens, colocação de outros personagens em ‘sinuca de bico’, mentiras deslavadas, esse empreendedor da malandragem egocêntrica, eterno observador, não tem limites quando o objetivo é conseguir o que quer. Profundo, Eliseo é apresentado pelos seus dois lados e muito do que assistimos é fruto de uma solidão, alguém que encontrou uma forma de viver na comodidade como se realmente fosse um dos moradores. Mas a realidade chega de forma visceral, no desleixo da empatia, no ar de superioridade de um vizinho igualmente intrigante. Nesse ponto é estabelecido um duelo. O Anti-heroísmo é óbvio mas a situação que domina a narrativa nessa primeira temporada de alguma forma transforma o protagonista para lapsos de reflexões sobre o próprio jeito de ser e a maneira como lida com os outros.


O cotidiano dos conflitos de um condomínio viram cenário para reflexões sobre classes sociais, o preconceito, expressando-se muitas vezes em diálogos que mostram a complexidade do ser humano. Nessa engrenagem tudo funciona pela boa administração das pitadas cômicas e a grande atuação do genial ator argentino Guillermo Francella.



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19/11/2022

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Pausa para uma série: '1899'


A nossa realidade está dentro da nossa mente. Explorando conceitos filosóficos, bebendo um pouco da fonte de Alice no País das Maravilhas e esbarrando em reflexões vistas no filme A Origem, dentro de uma busca pelo que seriam as falhas da natureza humana, todas as escolhas que de alguma forma são dominadas pelas emoções, 1899 é um seriado imprevisível, usa dos infinitos caminhos da fantasia para trazer à tona debates sobre a mente, o medo, a desconfiança, o inusitado, a fé, o sonho, o pesadelo, a perda, a dor, as escolhas. Mais qual seria o contexto, os motivos para tudo que assistimos? Realidade? Simulação? O quebra-cabeça criado pela dupla Baran bo Odar e Jantje Friese (mesmos criadores do sucesso Dark) é instigante, aguçando nossa curiosidade a todo instante. Uma curiosidade bem legal, um dos episódios tem uma mão brasileira, no capítulo cinco, a roteirista Juliana Lima Dehne assina o roteiro ao lado de Jantje Friese.


Na curiosa trama, conhecemos um grupo de pessoas que compram uma passagem de navio saindo de um país da Europa para os Estados Unidos. Nesse grupo de pessoas, de diversos países diferentes, estão, entre outros: Maura (Emily Beecham), Ling Yi (Isabella Wei), Krester (Lucas Lynggaard Tønnesen), Eyk (Andreas Pietschmann), Ángel (Miguel Bernardeau) Ramiro (José Pimentão), Jérome (Yann Gael), Clémence (Mathilde Ollivier), Lucien (Jonas Bloquet) Sra. Wilson (Rosalie Craig), Olek (Maciej Musial), Tove (Clara Rosager), Franz (Isaak Dentler). Parece que esses personagens, que se tornam os principais da história, possuem um elo que são os fortes traumas que viveram em um passado nem tão distante. Ao longo do trajeto dessa viagem, muitas coisas estranhas começam a acontecer e decisões sobre o que fazer colocará todos eles em risco.


Existem muitos caminhos para análise dessa primeira temporada de oito impactantes episódios. A comunicação é uma das variáveis mais importantes analisadas aqui nessa instigante obra. Como caminhar pelos mistérios sem conseguir entender muitas vezes o que alguém que você precisa quer dizer? Algumas cenas podem até ser um pouco forçadas mas a ideia caminha no como superar essa dificuldade de comunicação. Nada é tão simples por aqui, sabe-se aos poucos que alguns personagens estão dentro de um contexto maior do que imaginam como se portas para suas lembranças fossem acessadas, até mesmo uma memória falsa algo que pode suprimir a dor. Nessa questão, 1899 encosta muito próximo nos conceitos sobre memórias e sonhos aplicados por Christopher Nolan em A Origem.


Estímulos do cérebro causados por realidade ou por conceito? Há uma indicação para ser um duelo entre o bem e o mal? A fé se torna epicentro de debates profundos. As escolhas que se seguem pelo caminho algumas dominadas por um conservadorismo cedo de alguns, confrontos contra a própria fé, até mesmo as escolhas daqueles que usaram a fé com ferramenta de fuga de situações passadas. Ao mesmo tempo nos deparamos com mais uma imersão de Baran Bo Odar e Jantje Friese pelo Loop infinito (conceito já visto em Dark), isso até é algo óbvio já que o símbolo que domina muitas imagens é um triângulo, uma forma geométrica de começo, meio e fim.


Pausas no tempo, teletransporte, controles remotos, besouros que abrem portas, observações da natureza humana ao estilo Big Brother, há uma fonte inesgotável de criatividade dentro de toda narrativa onde enxergamos traços de conceitos do clássico livro de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Aqui nesse link entre a realidade e aberturas de portas para um mundo difícil de entender nos deparamos com reflexões sobre razões de funções correlacionadas consciente e o inconsciente.


1899 deixa muitas lacunas abertas sobre o que veremos nas próximas temporadas com um desfecho que beira ao inacreditável. Baran bo Odar e Jantje Friese se consolidam mais uma vez como duas das mentes mais criativas do universo do entretenimento audiovisual contemporâneo.



 

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