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Crítica do filme: 'Duna'


O medo mata a mente. Muito antes de sermos surpreendidos por disputas entre casas que comandam reinos, no tremendo sucesso Game of Thrones, algo parecido já havia sido criado, só que bem longe do universo medieval e sim pelas galáxias. Duna é uma aclamada obra da literatura escrita por Frank Herbert, inclusive sendo considerada o livro de ficção científica mais vendido de todos os tempos. Ganhou uma adaptação na década de 80 pelas mãos do cineasta David Lynch, e, uma nova agora, bem recente, nesse ano de 2021, assinada pelo canadense Denis Villeneuve. Sobre essa última, em meio a toda a complicação que é explicar uma obra tão complexa, se perde nos primeiros arcos mas aos poucos vai ganhando o selo de épico não só pelas sequências eletrizantes de ação e aventura mas também pela excelente composição do drama, principalmente no recorte complicado nessa saga de mãe e filho.


Na trama, ao longo das quase três horas de duração dessa primeira parte (sim, terá uma segunda parte lançada futuramente) acompanhamos a saga da família Atreides composta pelo duque Leto Atreides (Oscar Isaac), sua esposa (ou melhor, concubina) Jessica (Rebecca Ferguson, em grande atuação) e o filho deles Paul (Timothée Chalamet). Importante mencionar que Jessica é uma Bene Gesserit, uma poderosa e antiga ordem formada apenas por mulheres. Os Atreides governam um planeta tranquilo, repleto de água e recursos minerais. Um dia, em meio a toda uma parte política que se estabelece nesses tempos quase pós Terra (ela existe mas a civilização foi para outros lugares), depois de um acordo com a organização que administra os blocos de planetas que a humanidade já consegue chegar, Leto assume a administração do perigoso planeta Arrakis (também conhecido como Duna). Assim a família e seus mais nobres guerreiros embarcam para lá e enfrentam traições e uma terrível batalha com a casa Harkonnen que quer destruí-los a qualquer custo. Os que sobrevivem à batalha, precisarão lutar pela sobrevivência em um ambiente hostil, cercado de perigos e areia por todos os lados mas que acaba se tornando uma poderosa jornada de auto descobrimento e distância do medo. Paralelo a isso, e ainda bem aos poucos Paul descobre que possui poderes (como manipular a mente, entre outros) e pode ser um falado Messias que chegaria, conhecido por toda a galáxia.


O arco introdutório já começa no início da jornada e conhecemos o protagonista, Paul. Mas essa questão de protagonismo é um mero detalhe pois praticamente todos os personagens possuem gigantesca influência sob os acontecimentos que se sucedem de maneira quase eletrizante. O roteiro assinado por Eric Roth, Jon Spaihts e o próprio Villeneuve foca já em um presente tentando mostrar os elementos de vida do momento e a situação da evolução humana que consegue naquele universo fazer viagens interplanetárias, não usa a inteligência artificial (há algumas questões não explicadas sobre isso mas parte da tecnologia foi banida do cotidiano). Os detalhes são importantes e mostrados na maior parte do tempo mas parecem migalhas pelo caminho, principalmente para quem não é próximo ou sabe alguma coisa sobre essa história, esse universo. O filme começa a se aproximar de todos quando vem à luz a ótica sobre os relacionamentos e os conflitos que os sucedem, seja entre as casas rivais seja nos caminhos cheios de obstáculos entre a família Atraides e todas as outras peças que se juntam nesse imenso tabuleiro. Paralelo a tudo tem as explicações complementares sobre as diferentes formas de viver pelos planetas.


Ora um filme de ação, ora um drama existencial, a melancolia não toma conta do que assistimos por mero detalhe por mais que faça parte da características, as razões e emoções dos que mais aparecem em cena. O elenco é fabuloso, Chalamet, Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Charlotte Rampling, Jason Momoa, Javier Bardem, Dave Bautista se doam bastante para a intensidade e força de seus personagens. Na parte dramática, cresce em cena a figura de Jessica com uma interpretação fabulosa da atriz Rebecca Ferguson. De longe a personagem mais intrigante dessa primeira parte (na segunda Paul devo ganhar o total protagonismo), vamos entendendo muito dos lapsos de poderes de Paul através de seu passado, seu conhecimento e seus conflitos.


Mesmo sendo dirigida e pensada em sua adaptação por uma das mentes mais brilhantes do cinema, Duna não é um filme fácil, uma história fácil. As explicações vem aos poucos. Em um mundo tão instantâneo como o de hoje pode gerar rasos julgamentos de alguns mas a certeza de que uma inspiradora jornada épica que nasce está presente, é só querer enxergar.

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