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Crítica do filme: 'Golias'


A privatização da natureza e suas consequências. Abordando questões importantes e fazendo refletir sobre tantas outras, que vão desde à questão capitalista, ao universo sempre polêmico dos lobistas, a função política pública, as leis, as formas de buscar justiça, Golias, longa-metragem dirigido por Frédéric Tellier é um filme denuncia, baseado livremente em fatos reais. Incluso na seleção do ótimo Festival Varilux de Cinema Francês 2022, o filme de pouco mais de 120 minutos de duração, nos mostra três histórias que se caminham para o mesmo clímax a partir de descobertas impactantes sobre um pesticida criado por uma empresa poderosa.


Na trama, conhecemos três personagens, três destinos que se encontrarão. Patrick (Gilles Lellouche), é advogado ligado ao direito ambiental que embarca numa jornada atrás de provas contra uma poderosa empresa que usa um pesticida ofensivo para todos que tem contato. France (Emmanuelle Bercot) é uma professora de educação física que após a piora do marido percebe que precisa lutar de outras formas contra a empresa que detém os direitos de um produto usado diariamente por seu vizinho. Mathias (Pierre Niney) é um jovem destaque de uma empresa que tem o trabalho de influenciar e interferir diretamente nas decisões do poder público (lobista). Esses três destinos vão se unir na mesma estrada quando uma fazendeira comete um ato de protesto.


A informação aqui é um fator chave. A maneira manipulativa que enormes empresam adotam confundem parte dos consumidores e também toda uma sociedade. Quais são limites? Há limites? Dentro do jogo capitalista, desse olhar muitas vezes egoístas, muitas pessoas se veem como fantoche dessas grandes corporações que levam prejuízos de saúde para milhares. Aqui enxergamos melhor essas palavras pela personagem France, uma batalhadora, mãe, esposa, que se vê em uma estrada de escolhas sobre o que fazer quando começa a perceber, mesmo com a força contrária baseada em manipulativos dados, que o produto usado nas terras do seu vizinho pode ter provocado a doença do marido. Assim, se aproxima de um grupo ambiental e se envolve em protestos contra engravatados gananciosos. Uma caminhada árdua, de muita dor.


O lado político também ganha contorno explícitos. Exemplo é a trajetória, a rotina, de um dos personagens, um audacioso lobista, um paralelo com a realidade, conseguem acesso e influencia sobre quem deveria prezar pelo bem dos outros sem nenhuma questão de empatia. Mathias é o elo entre a empresa e os outros, essa última palavra no sentido amplo, que vai desde o lobby político até o afastamento dos reais detalhes sobre o que vende como sendo bom. A personificação absurda da ganância da privatização da natureza e todos os males que estão inclusos nesses atos.


As leis e suas linhas inconclusivas, interpretativas e os contornos políticos se mostram presentes quando a questão legal do processo vira algo para ser pensando de forma mundial. Nesse momento, conseguimos traçar paralelos bem nítidos com a realidade. Nesse momento também é que vemos duas forças desleais, uma luta desleal, uma representada por Golias (daí o título do filme) e sua força quase imbatível e do outro lado, o de todos os que lutam contra os absurdos provocados por muitas empresas. A ‘pedra atirada’ nesse Golias é o ato de uma fazendeira e toda a força e drama que esse momento emblemático na trama consegue provocar adiante.


Dentro do seu objetivo que é o de fazer refletir sobre um tema mundial e atemporal, Golias embarca de forma avassaladora nas razões, consequências, de muitos assuntos que estão nos jornais semanalmente deixando sempre para o público de forma detalhada abrir o seu pensar.





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