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Crítica do filme: 'Medieval'


Na contramão de qualquer lampejo de Estado de Direito, em uma fase da Idade Média bastante turbulenta, Medieval faz uma imersão histórica, buscando quase no rodapé de memórias um comandante tcheco pouco conhecido que ficou marcado como ‘o Invencível’ pelo fato de seus exércitos (muitos desses de mercenários) nunca terem perdido uma única batalha sequer. Escrito e dirigido pelo ator e cineasta tcheco Petr Jákl (que tem no currículo uma aparição no filme de comédia Eurotrip – Passaporte para a Confusão), baseado na obra do escritor Petr Bok, Medieval não se limita apenas às ótimas cenas de ação e aventura com uma narrativa empolgante, como também nos apresenta um recorte pouco conhecido de uma época marcada pela dança das cadeiras pelo poder.


No filme, disponível no catálogo da Netflix, conhecemos o comandante de um grupo de mercenários chamado Jan Zizka (Ben Foster), um homem de poucas palavras que embarca em longas jornadas por toda a Europa atrás de missões que de alguma forma batem com seu pensamento crítico sobre a situação do estremecido continente em questão. Após aceitar uma missão vinda do experiente nas artimanhas políticas da região, Lord Boresh (Michael Caine), acaba comprando guerra contra a Ordem Teutônica (ordem militar cruzada vinculada à Igreja Católica) e do Sacro Império Romano (união de alguns territórios da Europa Central durante o final da Idade Média). Assim, entre sangrentas batalhas, traições, manobras políticas, liderança, também conhece Katherine (Sophie Lowe), uma figura importante politicamente que se torna uma pessoa valiosa para o protagonista.


O épico, de pouco mais de duas horas de projeção, nos mostra um pedaço de uma época marcada por reviravoltas, portanto é bom situarmos sobre o contexto em que a trama do filme se encontra. Na parte final da Idade Média, após o falecimento do rei Carlos IV um caótico movimento de luta por posições políticas estratégicas tomam conta de toda a Europa com os defensores das intrigas e das dolorosas guerras dominando novos comandos no jogo pelo poder, deixando a população em várias batalhas diárias contra pragas e a fome. Até mesmo a Igreja Católica entrou em parafuso com o inusitado ocorrido de dois papas eleitos. Nesse mundo repleto de brutalidade se encontram em batalhas alguns lados e assim conhecemos a saga de Jan Zizka que inclusive perdeu um dos olhos num desses conflitos.


Pra quem curte filmes épicos que não pensam só em mostrar as cenas de batalhas, mas dão ênfase com grande profundidade histórica, tudo o que se cerca sobre os conflitos, Medieval apresenta sua visão à fatos conturbados de uma Idade Média que pegava fogo a cada novo nascer do sol, se transformando, por que não, num grande aulão sobre os primórdios da Europa.



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