Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Renfield'


Fã do lendário ator britânico Christopher Lee e dono de vários castelos, um dos sonhos do astro Nicolas Cage era interpretar o Conde Drácula. Em 2023, o desejo se torna realidade, e mesmo em um papel coadjuvante (algo raro na sua vasta carreira) ele rouba a cena nesse filme que mistura muita ação, um forte tom cômico e uma ambientação num presente dinâmico trazendo para reflexões dilemas existenciais, até mesmo alguns mandamentos da auto ajuda, sobre o enfrentar as barreiras para ser feliz. Dirigido pelo cineasta norte-americano Chris McKay baseado numa ideia do excelente Robert Kirkman, Renfield - Dando o Sangue Pelo Chefe é assustador e engraçado, um suco de entretenimento!


Na trama, conhecemos o depressivo Renfield (Nicholas Hoult), um ex-advogado que muitos anos atrás se tornou um lacaio, ajudante, do vampiro mais temido do planeta, o Conde Drácula (Nicolas Cage). Durante anos exercendo essa função, e sempre buscando renovar o ‘poder absoluto’ de seu mestre, quando chega nos tempos atuais, já na cidade de Nova Orleans, entra em uma crise existencial e através de um grupo de ajuda começa a rumar para uma estratégia para se livrar dos longos séculos de servidão ao chefe. Ao mesmo tempo, entra em sua vida, a policial incorruptível Rebecca (Awkwafina) por quem logo cultiva grande admiração. Mas nada será fácil para o anti-herói, já que Drácula descobre seu plano e parte para tentar impedí-lo.

Sem ajuda, ninguém atravessa a eternidade. Nômade de muitos anos e preso nas regras de seu mestre, o protagonista, muito bem desenvolvido pelo roteiro, parte da sua jornada em busca da felicidade com dilemas ligados ao ‘enfrentar’, até mesmo se vê perdido em uma linha de moralidade, algo que balança seu pensar e o encontramos assim logo em crise, buscando ajuda, tentando entender o que pode fazer para mudar. O paralelo com o grupo de auto ajuda é cirúrgico, contorna a trama com maestria, com momentos hilários.


O tom cômico, as cenas de ação, as críticas na relação entre chefes e funcionários, o raio-x animado sobre o universo narcisista, o sentido da auto ajuda, e a ambientação num presente dinâmico transformam a narrativa num pot-pourri onde o entretenimento reina. Será comum ver interações do público durante as sessões no cinema com o que acontece em cena. A busca pelo ‘Poder Absoluto’ transformam o coadjuvante Drácula numa figura necessária nas principais sequências, Cage dá um show em cena com sua leitura caricata, cheia de caras e bocas, daquele jeito que somente ele sabe fazer.


Algumas curiosidades cercam esse projeto. Cage é o único ator a interpretar o vampiro mais famoso do entretenimento depois de vencer o Oscar, porém outros vencedores do Oscar já interpretaram esse célebre personagem, como: Jack Palance (Drácula, O Demônio das Trevas) e Gary Oldman (Drácula de Bram Stoker). Nicolas Hoult já havia trabalhado com Cage no início da carreira, 18 anos atrás ele foi o filho do personagem de Cage no drama O Sol de Cada Manhã.


Com muito humor e ação desenfreada, essa abordagem impagável do universo vampiresco vai ficar na memória de muita gente. De forma despretensiosa, conquista o público de várias formas, um filme para chamar os amigos e se divertir na telona mais próxima de sua casa!



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...