Pular para o conteúdo principal

Crítica do filme: 'Ninjababy'


Os rabiscos de uma porta que se abre para a maturidade. Com uma narrativa envolvente, onde, por meio de ilustrações traça-se paralelos com as emoções conflitantes que passa a protagonista no seu presente repleto de dúvidas, o longa-metragem norueguês Ninjababy é um pot-pourri de reflexões sobre a chegada da maturidade tendo como elemento central uma jovem com a mente fértil, imaginativa, que descobre estar grávida de 6 meses. Baseado na história em quadrinhos Fallteknikk, de Inga Sæthre, o projeto navega sua ampla narrativa pelos espelhos das emoções dos personagens.


Na trama, conhecemos Rakel (Kristine Kujath Thorp), uma jovem de vinte e poucos anos que parece perdida na vida, lotando sua agenda semanal com inúmeras festas após abandonar o curso de designer gráfico. Certo dia, ela descobre de maneira surpreendente estar grávida, fato que a faz entrar em uma zona de reflexões nunca antes frequentada. O aborto, a adoção, são alguns dos temas que envolvem seus primeiros impulsos sobre o que fazer. Inclusive, começa a conversar com o desenho que fez do seu futuro filho no qual batiza carinhosamente de Ninjababy. Em paralelo a isso, personagens entram nessa história: um pai que não quer assumir a responsabilidade, uma irmã na esperança de ser mãe, um pretendente amoroso que parece chegar na sua vida no momento mais difícil dela.


Uma história de amor? De amadurecimento? Sobre maternidade? Ninjabbay é muito mais que isso, se consolida aos poucos como um profundo recorte de uma mulher e uma auto análise sobre sua vida até ali. As variáveis que a cercam: seu lado profissional paralisado, sua vida amorosa sem compromissos, se transformam em metáforas sobre a vida. O espectador se torna um ouvinte de suas aflições, seus medos e principalmente suas inseguranças, fruto de uma narrativa empolgante que faz rir e chorar em fração de segundos. Quando as dúvidas sobre a gestação começam a aparecer, algo que se torna um eterno clímax no filme, será que testemunhamos o início de um amadurecimento necessário para lidar com a situação? Ta aí uma pergunta para se pensar!


E por falar em narrativa. De maneira arriscada mas com uma solução final brilhante, os espelhos das emoções dos personagens são compostos por ilustrações, enormes diálogos entre mãe e seu futuro filho. Parece loucura mas tudo se encaixa na mais perfeita harmonia ainda mais com uma direção impecável da norueguesa Yngvild Sve Flikke. Ninjababy está disponível no ótimo catálogo da MUBI.

 



Postagens mais visitadas deste blog

Crítica do filme: 'Vípuxovuko – Aldeia' [Fest Aruanda 2025]

Trazendo as reflexões sobre formas de organizações comunitárias, resistência cultural e gritos de identidade em uma aldeia urbana indígena no Mato Grosso do Sul, o curta-metragem Vípuxovuko – Aldeia parte para a ficção com muitas bases na realidade. O projeto surgiu de uma conversa do diretor filme, Dannon Lacerda , com a porteira do seu prédio, cujo sobrinho viria a se tornar inspiração para a obra. Selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Fest Aruanda 2025, a obra avança nas suas críticas sociais, muito bem articuladas a partir de um protagonista de raízes indígenas, que escapa de generalizações. Ele trabalha como entregador e também exerce a função de líder de sua comunidade, reivindicando direitos e protegendo seu povo das ações desenfreadas dos mecanismos do Estado.    A cultura indígena ganha registros através da fé, da cultura, da tradição e da preservação desses povos originários, que em muitos casos estão sempre na luta pela continuid...

Crítica do filme: 'Apocalipse Segundo Baby' [Festival É Tudo Verdade 2026]

Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade. Se você ouvir esse nome por aí, talvez não sabia de quem se trata. No entanto, se falarmos Baby do Brasil – ou mesmo Baby Consuelo, como foi conhecida boa parte de sua carreira - as lembranças logo chegam. 18 anos depois do início do projeto, o documentário Apocalipse Segundo Baby, chegou às telonas brasileiras antes da sua estreia em circuito, através do Festival É Tudo Verdade. Com roteiro e direção de Rafael Saar , a obra toma um rumo corajoso desde seu início, fugindo de referências documentais conhecidas para se chegar em uma narrativa intensa, cheia de imagens e movimentos. Essa busca pela originalidade, na tentativa de traduzir o abstrato de uma personalidade plural, marcada por autorreflexões de Baby, segue apenas por essa perspectiva, com a ajuda de registros de apresentações marcantes. De Niterói a Salvador, passando por uma experiência marcante em Santiago de Compostela - ex-integrante do grupo Novos Baianos, que alcançou o sucesso a...

Crítica do filme: 'Zico, o Samurai de Quintino'

Um craque como poucos, dentro e fora de campo. Se você acompanha futebol - ou não -, já ouviu falar de Zico, um dos maiores camisas 10 da história do futebol mundial. Muito associado à nação rubro-negra, sua idolatria transborda para torcedores de outros times e outros países. Um figura exemplar, que preencheu páginas gloriosas desse esporte que é uma paixão nacional. Hoje, aos 73 anos, o galinho de quintino tem recortes de sua vida apresentados ao público no documentário Zico, o Samurai de Quintino , com estreia marcada para o próximo dia 30 de abril nos cinemas. Dirigido por João Wainer , o projeto busca um olhar amplo, construído desde seus primeiros passos na carreira até sua passagem pelo Japão, mostrando sua importância para a profissionalização do futebol naquela região – um legado visto até hoje -, com um recheio saboroso revisitando sua história profissional no Brasil.    O documentário segue por um modelo narrativo convencional, sem se arriscar, com entrevistas e...